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Família,amor,ciúmes e união

O Eclipse da Razão e o Jogo das Sombras

A mansão das Bergmova exalava aquele tipo de quietude perigosa que precede uma nova explosão de energia. Enquanto o sol começava a se despedir no horizonte, tingindo o céu de um roxo profundo com pinceladas de dourado, a cozinha era o epicentro de uma colaboração improvável. Gabriella, com um avental que dizia "Beije a Chef" (um presente irônico de Julia), comandava Nicolas e Thiago como se estivesse treinando recrutas para uma guerra gastronômica.

— Nicolas, eu juro que se você picar essa cebola em cubos maiores que um centímetro, eu te faço comer tudo cru! — Gabi gritava, gesticulando com uma colher de pau.

— É uma massa, Gabi! Ninguém vai medir a cebola com régua! — Nicolas retrucou, limpando as lágrimas que o vegetal lhe arrancava.

— A estética é tudo na culinária, garoto! Thiago, pare de roubar o queijo ralado ou não vai sobrar nada para o gratinado! — A cacheada deu um tapa leve na mão do sobrinho, que ria da situação.

Enquanto o caos culinário fervia no andar de baixo, na varanda do primeiro andar, o mundo parecia girar em uma rotação muito mais lenta e sensual. Julia estava deitada na rede, sentindo o balanço suave e o calor do corpo de Ekaterina contra o seu. A russa, sempre tão contida em público, aproveitava a penumbra para ser a personificação da provocação.

— Você está muito quieta, Bergmann — sussurrou Kate, a voz vibrando contra o pescoço de Julia. Suas mãos longas traçavam desenhos aleatórios na cintura da ruiva, subindo ocasionalmente para roçar a borda do sutiã por baixo da regata.

— Estou tentando processar como você consegue ser tão irritante e tão perfeita ao mesmo tempo — Julia respondeu, fechando os olhos e inclinando a cabeça para trás, dando mais acesso à esposa.

Kate soltou um riso baixo, uma vibração gutural que fez Julia estremecer.

— É um talento natural. Assim como o meu bloqueio. — Kate mordeu levemente o lóbulo da orelha de Julia, soprando em seguida. — Sabe, o uniforme de juíza ainda está na mala. Eu poderia te dar um cartão vermelho agora mesmo por falta de atenção.

— Ah, é? E qual seria a penalidade? — Julia virou o rosto, os lábios a milímetros dos de Kate.

— Suspensão imediata... de todas as suas roupas — Kate provocou, selando o espaço entre elas com um beijo lento, possessivo, que carregava todo o desejo acumulado das últimas horas de interrupções.

No entanto, o destino das Bergmova parecia ter sido escrito por um roteirista de comédias de erro. Um som de arranhado e pequenos grunhidos de esforço vieram do chão da varanda. Léo, o pequeno ruivo de um ano, estava em sua missão pessoal de conquista. Ele agarrou as cordas da rede com suas mãos gordinhas, tentando içar o próprio corpo.

— Mama! Mama! — ele clamava, balançando a rede com sua força desproporcional.

— O sabotador voltou — Julia murmurou contra os lábios de Kate, rindo suavemente.

— Léo, meu amor, a mamãe e a mama estão ocupadas decidindo o destino do mundo — Kate disse, olhando para o filho por cima da borda da rede.

Mas Léo não aceitava um não como resposta. Em sua tentativa frenética de subir, ele tentou agarrar um brinquedo de plástico duro que estava preso entre os fios da rede, mas seus dedos escorregaram e ele acabou batendo a mãozinha com força na quina do brinquedo. O silêncio durou apenas um segundo antes do choro agudo e dolorido ecoar pela varanda.

— Oh, não! Vem cá, meu anjo — Julia reagiu instantaneamente, o instinto materno atropelando qualquer desejo carnal.

Ela se sentou na rede e puxou o pequeno para cima. Léo soluçava, escondendo o rosto no pescoço de Julia enquanto mostrava a palma da mão levemente vermelha. Kate se aproximou, beijando o topo da cabeça do filho e acariciando suas costas.

— Calma, pequeno gigante. Já passou — Kate disse, sua voz agora doce e protetora.

Julia percebeu que o choro não era apenas pela dor, mas pelo cansaço do dia agitado. Ela se ajeitou na rede, recostando-se no peito de Kate, e calmamente preparou-se para amamentar. Quando Léo sentiu o aconchego e começou a mamar, o choro cessou quase que instantaneamente, substituído por suspiros profundos e o som rítmico da sucção.

Kate envolveu as duas com seus braços longos, criando um casulo de proteção. Por alguns minutos, o silêncio foi absoluto e sagrado.

— Ele tem o seu timing para drama — sussurrou Kate, observando a cena com um olhar transbordando amor.

— E a sua insistência para conseguir o que quer — Julia rebateu, sorrindo. — Veja, ele já está quase dormindo.

A paz, contudo, durou apenas até que a porta da varanda fosse escancarada por uma Gabriella que parecia ter saído de uma batalha de farinha.

— O banquete está servido, suas deusas do Olimpo! E se demorarem, o Nicolas vai limpar as travessas sozinho! — Gabi anunciou, antes de notar a cena na rede. — Ah, que fofo. O pequeno monstro finalmente desmaiou?

— Ele se machucou, Gabi. Estamos descendo em um minuto — Julia respondeu em voz baixa.

O jantar foi uma mistura de risadas e discussões sobre quem tinha feito a melhor parte do molho. A comida estava surpreendentemente boa, o que rendeu elogios até de Kate, a crítica mais severa da casa. Léo, agora recuperado e com a mãozinha sem marcas, comia pequenos pedaços de massa na sua cadeira alta, batendo a colher na mesa no ritmo da música que tocava ao fundo.

— Certo, agora que estamos todos alimentados e a cachaça de ontem já saiu do sistema... — Gabi começou, limpando a boca com o guardanapo. — Quintal. Agora.

— Gabi, está escuro — Kate ponderou.

— Temos refletores que iluminam até a lua, Antropova! Vamos jogar um vôlei de lazer. Dois contra dois. Nicolas e Thiago contra as "Mamães de Ouro".

— Você quer que a gente jogue contra dois adolescentes cheios de hormônios e energia? — Julia arqueou a sobrancelha. — Isso vai ser um massacre.

— Vai ser divertido! E quem perder lava a louça do jantar — Thiago desafiou, ganhando um olhar de "você não sabe com quem está falando" de Kate.

O grupo se deslocou para o amplo gramado da mansão. A rede de vôlei profissional, instalada permanentemente ali, brilhava sob as luzes potentes. Enquanto os meninos e Gabi se aqueciam com toques rápidos, Julia e Kate ficaram um pouco mais atrás, perto das espreguiçadeiras.

O ar da noite estava fresco, e a adrenalina do esporte começou a borbulhar no sangue das duas profissionais. Kate puxou Julia pela cintura, prensando-a levemente contra o poste da rede antes de entrarem em quadra.

— Se ganharmos rápido, o resto da noite é nosso — Kate murmurou, seus olhos azuis brilhando sob a luz artificial.

— Você está muito focada no "depois", Antropova — Julia riu, passando os braços pelo pescoço da loira.

— Eu sou uma mulher de objetivos, Bergmann. E o meu objetivo atual é tirar essa sua camisa de treino o mais rápido possível.

Kate inclinou-se, iniciando um beijo profundo e faminto. As mãos de Julia desceram para a nuca de Kate, puxando-a com uma urgência que ignorava completamente o fato de estarem no meio do quintal. O beijo se intensificou, as respirações misturando-se, e por um momento, o mundo ao redor desapareceu. Kate pressionou seu corpo contra o de Julia, e a ruiva soltou um suspiro audível, entregando-se ao toque possessivo da esposa.

— EI! — O grito de Gabi cortou o clima como um apito de árbitro. — Parem de se comer no meio da quadra! Temos um jogo aqui! A libido de vocês está atrapalhando o meu aquecimento!

Julia se afastou, o rosto corado e um sorriso travesso nos lábios. Kate apenas limpou o canto da boca com o polegar, olhando para Gabi com um tédio fingido.

— Invejosa — Kate disse, caminhando para a posição de saque.

— Invejosa nada! Eu quero ver jogo! — Gabi rebateu, jogando a bola para Kate. — Vamos lá, Nicolas! Mostra para a sua irmã que o sangue russo também corre nas suas veias!

O jogo começou e, apesar de ser um "lazer", a competitividade de Julia e Kate era algo patológico. Kate sacava com uma precisão mortal, enquanto Julia defendia bolas impossíveis no gramado, rolando na grama e levantando-se com um sorriso feroz. Os meninos, embora talentosos, não tinham a menor chance contra a sincronia quase telepática do casal.

— É só isso que vocês têm? — Julia provocou após um ataque potente que atingiu o fundo da quadra de Nicolas.

— Ela está no modo "ruiva brava", Thiago! Corre! — Nicolas gritou, fazendo todos rirem.

Entre pontos disputados, quedas na grama e provocações, o caos da família Bergmova encontrava sua forma mais pura. Léo, sentado em um tapete de atividades na beira da quadra sob a supervisão da babá que retornara, batia palmas a cada vez que a bola voava alto.

Após quase uma hora de jogo, com Julia e Kate vitoriosas (e os meninos exaustos), o grupo se jogou na grama, ofegante.

— Eu desisto — Thiago disse, olhando para as estrelas. — Vocês não são humanas.

— Somos apenas bem treinadas — Kate respondeu, sentando-se ao lado de Julia e passando o braço por cima dela.

Gabi, ainda com energia, sentou-se em círculo com eles.

— Sabe o que falta para fechar essa noite? — Gabi perguntou, e Julia já sentiu o perigo. — Uma última rodada de perguntas. Mas desta vez, sem cachaça. Só a verdade pura.

— Gabi, a gente já expôs nossas vidas o suficiente por um final de semana — Julia tentou, mas Kate a interrompeu.

— Deixe, Julia. Eu quero ver o que ela tem em mente.

— Certo — Gabi sorriu. — Kate... qual foi o momento exato em que você soube que a Julia não era apenas uma colega de time, mas a mulher com quem você ia construir esse caos todo?

O silêncio caiu sobre o gramado. Até os meninos ficaram quietos, interessados na resposta. Kate olhou para Julia. A luz dos refletores refletia nos olhos verdes da ruiva, que esperava, curiosa e com o coração acelerado.

Kate suspirou, um sorriso genuíno e calmo surgindo em seu rosto.

— Foi em um torneio na Itália — começou a russa. — Julia tinha acabado de errar um saque decisivo. Ela estava furiosa, o rosto mais vermelho que o cabelo. Eu fui até ela para tentar acalmá-la, e ela olhou para mim e disse: "Se você me disser para relaxar, eu te jogo por cima da rede". Naquele momento, eu vi uma chama nela que eu nunca tinha visto em ninguém. Eu soube que, se eu pudesse ter essa chama ao meu lado, eu nunca mais teria frio na vida.

Julia sentiu os olhos marejarem. Ela puxou a mão de Kate e a beijou.

— E você, Julia? — Nicolas perguntou, a voz suave.

— Para mim — Julia disse, a voz firme apesar da emoção —, foi quando eu vi a Kate segurando o Léo pela primeira vez no hospital. Ela estava com medo de quebrá-lo, com aquelas mãos que derrubam paredes no vôlei, tremendo diante de um bebê de três quilos. Ali eu vi que a minha "russa de gelo" tinha o coração mais quente do mundo.

— Credo, vocês são muito melosas! — Gabi exclamou, embora estivesse limpando uma lágrima discreta atrás dos óculos. — Chega! Todo mundo para dentro! A louça está esperando pelos perdedores e eu preciso de um banho de beleza.

Enquanto o grupo se dispersava para dentro da casa, Julia e Kate ficaram para trás por um momento, ajudando a recolher os brinquedos de Léo.

— A praia deserta ainda está de pé? — Julia perguntou, enquanto caminhavam em direção à porta.

— Mais do que nunca — Kate respondeu, parando Julia e dando-lhe um beijo rápido e intenso. — Mas por enquanto, a nossa mansão caótica é o melhor lugar do mundo.

Elas entraram, fechando a porta para o mundo exterior, prontas para enfrentar o que quer que o próximo dia trouxesse, sabendo que, entre fraldas, treinos, broncas em adolescentes e beijos roubados na varanda, a vida delas era o jogo mais bonito que já haviam vencido.

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