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Família,amor,ciúmes e união

O Pequeno Ditador Ruivo e a Sinfonia das Massas

O sol da manhã entrava pelas janelas da mansão com uma insistência que Julia Bergmann considerava quase ofensiva, dado que ela não dormia mais do que três horas seguidas há dias. Mas o sol não era o maior dos seus problemas. O verdadeiro desafio matinal estava parado no meio do corredor, vestindo um pijama de dinossauros, com as bochechas infladas e os olhos azuis faiscando em uma determinação que só uma criança de dois anos poderia possuir.

Léo, o filho ruivo que herdara a cor do cabelo de Julia e a teimosia glacial de Ekaterina, havia decidido que o dia seria dedicado ao caos.

— Não! — gritou o pequeno, batendo o pé descalço no chão.

— Léo, é só a meia. Seus pés vão ficar gelados — Julia tentou, ajoelhada à frente dele com um par de meias antiderrapantes.

— Não meia! Não sapato! Não mamãe! — Léo soltou um grunhido dramático e se jogou no chão, começando um choro que parecia ensaiado para um palco de ópera.

Julia suspirou, passando a mão pelo rosto. Kate já havia saído. Ekaterina Antropova finalmente voltara à rotina intensa de treinos com o clube e a seleção, o que significava que Julia, ainda em fase final de recuperação e transição, ficava com a maior parte da "gestão de crises" doméstica durante as manhãs.

— Ele está em um dia daqueles, não é? — A voz de Gabriella surgiu da escada. Gabi estava vestida com roupas de academia neon, segurando uma garrafa de água e parecendo animada demais para alguém que ainda não tinha tomado café.

— Ele resolveu que a palavra 'não' é a única que existe no dicionário hoje — Julia respondeu, enquanto Léo rolava pelo tapete, chorando por um motivo que nem ele mesmo lembrava mais.

— É a fase, amiga. Ele está testando os limites. A genética da Antropova com o seu temperamento? É uma bomba relógio — Gabi riu, pegando Léo no colo com uma facilidade invejável. O menino parou de chorar por um segundo, confuso com a mudança de altitude, antes de começar a puxar os cachos pretos de Gabi. — Ai! Ei, abusado! Vamos para a academia com a tia Gabi, vamos?

Duas horas depois, a academia privativa da casa era o cenário de um treinamento nada convencional. Julia estava no leg press, sentindo o esforço nos quadríceps, enquanto Nicolas e Thiago competiam no supino sob o olhar crítico de Gabi. Léo estava em um cercadinho acolchoado no canto, cercado por brinquedos, mas seus olhos estavam fixos na mãe.

— Vamos, Bergmann! Mais cinco repetições! — Gabi gritava, batendo palmas. — Pense na recepção que você vai ter que fazer no próximo mês!

— Eu estou pensando é na massagem que eu vou exigir da Kate hoje à noite — Julia resmungou, completando a série com as veias do pescoço saltadas.

— Tia Ju, olha o peso que eu peguei! — Nicolas exclamou, orgulhoso, enquanto Thiago revirava os olhos.

— Você pegou porque eu ajudei no equilíbrio, seu mané — Thiago retrucou.

Léo, percebendo que ninguém estava lhe dando atenção total, começou a sacudir as grades do cercadinho.

— Mama! Mama! Mama! — O grito subiu de tom até se tornar um protesto estridente.

Julia se levantou, limpando o suor da testa com uma toalha.

— Pronto, a audiência com o rei começou de novo.

— Deixa que eu cuido dele um pouco, Julia — disse Nicolas, largando os pesos. — Léo, quer ver o tio Nick fazer flexão?

O menino parou o choro e observou o tio descer e subir no chão. Por exatos dois minutos, houve paz. Léo tentou imitar, colocando as mãos gordinhas no chão e empinando a bunda, o que fez todos na academia caírem na risada. Mas a alegria durou pouco. Quando Léo não conseguiu se equilibrar e caiu de lado, o choro voltou com força total, agora acompanhado por arremessos de blocos de montar.

— Ele é muito abusado — Thiago comentou, desviando de um cubo azul. — Ele chora só para ver a gente correndo atrás dele.

— Ele sabe exatamente o que está fazendo — Julia concordou, pegando o filho e sentindo o calor da cabeça ruiva contra seu pescoço. — Ele é uma Antropova, afinal.

A tarde passou entre sonecas curtas e mais protestos de Léo. Quando o final do dia se aproximou, o clima na casa mudou. Gabi havia decretado que aquela seria a "Noite do Pastel". Ela, Nicolas e Thiago haviam se trancado na cozinha, proibindo Julia de entrar.

— Você está de folga, Bergmann! Vá para a rede, descanse essa perna e cuide do seu pequeno ditador — Gabi ordenou, enquanto amarrava o avental.

Julia não discutiu. Ela levou Léo para a varanda dos fundos. O ar estava mais fresco, e o sol começava a pintar o céu com tons de pêssego e lavanda. Ela se acomodou na grande rede, deixando Léo no chão da varanda com um balde de peças de encaixar.

Dali, ela podia ouvir a sinfonia caótica vindo da cozinha.

— Nicolas, a massa não se abre assim! Você vai furar o pastel! — Gabi gritava.

— Eu estou tentando, mas essa massa é teimosa! — Nicolas respondia.

— Thiago, não coloque tanto recheio ou ele vai explodir no óleo! — Gabi advertia novamente.

— Calma, chef Gabi, eu sei o que estou fazendo! — Thiago retrucava, seguido pelo som de algo metálico caindo no chão.

Julia sorriu, fechando os olhos por um momento. O balanço da rede era hipnótico. Ela observava Léo, que agora estava estranhamente calmo, concentrado em tentar colocar uma peça quadrada dentro de um buraco circular. Ele tentava, falhava, bufava e tentava de novo.

— Você é igualzinha à sua mãe, sabia? — Julia murmurou para o filho. — Não desiste por nada.

Nesse momento, o som de um carro chegando no cascalho anunciou o retorno de Kate. Léo levantou a cabeça instantaneamente, as orelhas parecendo ficar em pé como as de um cachorrinho.

— Mama! — Ele gritou, levantando-se e correndo em direção à porta da sala, esquecendo completamente a frustração com o brinquedo.

Ekaterina Antropova entrou na casa parecendo exausta, com a bolsa de treino pendurada no ombro e o cabelo loiro preso em um coque desfeito. Mas, assim que viu o pequeno ruivo correndo em sua direção, seu rosto se iluminou. Ela se abaixou, pegando Léo no colo e girando-o no ar.

— Oi, meu campeão! Você se comportou hoje? — Kate perguntou, dando um beijo sonoro na bochecha do filho.

Léo, em sua fase mais abusada, simplesmente respondeu:

— Não!

Julia riu da rede, vendo a cena. Kate caminhou até a varanda, ainda segurando o menino, e sentou-se na beirada da rede, inclinando-se para dar um beijo rápido e carinhoso em Julia.

— O treino foi pesado? — perguntou Julia, acariciando o braço da esposa.

— Intenso. O técnico está exigindo muito da transição — Kate suspirou, deixando a cabeça cair no ombro de Julia. — Mas chegar em casa e encontrar esse silêncio...

— Silêncio? — Julia gargalhou. — Você não ouviu a cozinha ainda.

Como se fosse um sinal, Gabi apareceu na porta da varanda segurando uma travessa fumegante e com uma mancha de farinha na testa.

— O jantar está servido! Pastéis de queijo, carne e o "especial do Thiago", que eu suspeito que tenha chocolate e orégano porque ele se confundiu nos potes.

Todos se reuniram na mesa da varanda. O clima era de uma família perfeitamente imperfeita. Nicolas e Thiago exibiam orgulhosos as marcas de queimaduras leves de óleo nos braços, como se fossem medalhas de guerra.

— Experimenta esse, Kate! — Nicolas ofereceu. — Eu que fechei as bordas.

Kate deu uma mordida, mastigando devagar sob o olhar ansioso do irmão.

— Está... crocante. E o recheio está no lugar. Bom trabalho, Nicolas.

O rapaz brilhou de orgulho. Mas o sossego durou pouco. Léo, sentado em seu cadeirão, decidiu que não queria o pastel picadinho que Julia preparara para ele. Ele queria o pastel inteiro de Kate.

— Mama, dá! — Ele esticou a mão.

— Léo, está quente. Coma o seu — Kate disse calmamente.

— NÃO! Dá! — O choro começou de novo, súbito e estridente.

— Meu Deus, ele não para hoje — resmungou Gabi, pegando um pastel. — Ele está com a bateria infinita.

— Ele está com sono, mas é orgulhoso demais para admitir — Julia observou, pegando o filho no colo para tentar acalmá-lo.

Léo se debateu por um momento, mas o cansaço finalmente começou a vencer. Ele se aninhou no peito de Julia, soluçando baixinho, enquanto tentava lutar contra as pálpebras pesadas.

— Sabe o que falta para esse moleque sossegar? — Thiago perguntou, limpando a boca. — A gente contar histórias de quando a tia Kate e a tia Ju eram rivais em quadra.

— Ah, não comece — Kate riu. — Ele vai crescer achando que a mãe dele é uma vilã russa.

— E você não era? — Julia provocou, arqueando uma sobrancelha. — Lembro bem daqueles olhares por cima da rede que pareciam querer me congelar.

— Funcionou, não funcionou? — Kate retrucou, aproximando seu rosto do de Julia. — Você ficou tão impressionada que acabou casando comigo.

— Eu fiquei aterrorizada, isso sim — Julia brincou, mas o brilho em seus olhos dizia o contrário.

Depois do jantar, Nicolas e Thiago se ofereceram para limpar a cozinha (sob a ameaça de Gabi de que, se não fizessem, ela contaria para a mãe de Thiago sobre a nota de matemática dele). Gabi subiu para tomar um banho, deixando o casal sozinho na varanda.

Léo finalmente havia apagado. Julia o levou para o berço e voltou para a rede, onde Kate a esperava. A loira estava deitada, ocupando quase todo o espaço, mas abriu os braços para que Julia se encaixasse ali.

— Ele deu muito trabalho hoje? — Kate perguntou em voz baixa, enquanto a rede balançava suavemente.

— Ele é abusado, Kate. Realmente abusado. Chora por nada, quer tudo do jeito dele... mas depois ele faz aquela carinha de anjo e a gente esquece — Julia suspirou, sentindo o cheiro do sabonete de Kate. — Como foi o treino?

— Bom. Senti um pouco de falta de ritmo no início, mas depois fluiu. Senti sua falta lá.

— Logo eu volto. Só mais algumas semanas de fortalecimento — Julia prometeu.

Kate começou a beijar o pescoço de Julia, um carinho lento que logo evoluiu para algo mais profundo. A mão de Kate deslizou pela cintura de Julia, apertando com uma possessividade que sempre fazia o sangue da ruiva ferver.

— Kate... os meninos ainda estão acordados — Julia sussurrou, embora sua respiração estivesse falhando.

— Eles estão ocupados brigando por causa da louça — Kate respondeu contra os lábios dela. — E a Gabi está no chuveiro. Temos dez minutos.

O beijo de língua foi intenso, um reencontro necessário após um dia de papéis trocados e responsabilidades. Julia sentiu a mão de Kate subir por baixo de sua camisa, os dedos longos e fortes de atleta mapeando sua pele com precisão.

— Você é tão abusada quanto o seu filho — Julia arqueou as costas, soltando um gemido abafado.

— Eu sou pior — Kate sorriu entre os beijos. — Eu sei exatamente como conseguir o que eu quero de você.

Elas continuaram ali, escondidas pelas sombras da varanda, aproveitando o pequeno intervalo de paz que o caos daquela casa permitia. Era uma rotina exaustiva, cheia de gritos, pastéis mal fechados e um bebê que testava todos os seus limites, mas enquanto a rede balançasse e elas tivessem aqueles momentos, o mundo lá fora não importava.

— Julia? — Kate chamou, algum tempo depois, quando ambas estavam apenas recuperando o fôlego.

— Hum?

— Amanhã é o dia do churrasco com a brincadeira da cachaça de novo, não é? A Gabi comentou algo sobre "verdades proibidas".

Julia soltou uma risada curta e preocupada.

— Sim. E se o Léo estiver como hoje, a única verdade vai ser que eu vou precisar de uma garrafa inteira só para mim.

— Não se preocupe — Kate disse, abraçando-a com força. — Amanhã eu fico com o turno do "não". Você fica com o turno da cachaça.

— É um trato, Antropova.

A noite terminou com o som dos grilos e o eco distante das risadas de Nicolas e Thiago na sala. A mansão das Bergmova era um redemoinho de emoções, mas no centro de tudo, havia uma rede, duas jogadoras e um amor que, assim como o pequeno Léo, era teimoso, abusado e absolutamente impossível de ignorar.

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