Família caos
O Nascimento de Noah e o Peso do Ciúme
O silêncio da madrugada foi estilhaçado por um grito abafado e o som de algo se quebrando — não um vaso, mas a bolsa de Julia. O pânico, algo que Ekaterine Antropova raramente sentia em quadra, manifestou-se na forma de uma agitação frenética. A russa, que costumava ser a personificação da frieza, quase tropeçou nos próprios pés enquanto ajudava Julia a caminhar até o carro. A ruiva, por sua vez, intercalava gemidos de dor com insultos criativos direcionados à esposa, culpando a genética russa pelo tamanho exagerado do bebê que insistia em sair.
— Antropova, se você passar por mais um quebra-molas sem frear, eu juro que o Noah vai nascer voando pelo para-brisa! — Julia gritava, as mãos cravadas no painel do carro.
— Eu estou tentando chegar rápido, *moya lyubov*! Respire! — Kate respondia, os nós dos dedos brancos de tanto apertar o volante, os olhos azuis fixos na estrada como se estivesse rastreando uma bola em um match point.
O parto foi intenso, bruto e emocionante, exatamente como a relação das duas. Noah nasceu com o choro potente, pulmões de quem certamente herdaria a resistência das mães atletas, e uma penugem loira que denunciava a herança de Kate. Quando a enfermeira colocou o pequeno embrulho nos braços de Julia, a ruiva esqueceu o cansaço, a dor e os xingamentos. Ela apenas chorou, sentindo o beijo possessivo de Kate em sua testa.
Dois dias depois, a mansão Bergmann-Antropova estava em estado de sítio. Gabi havia decorado a entrada com balões azuis e brancos, enquanto Nicolas e Thiago tentavam, sem sucesso, manter Léo longe da porta principal. O menino de cinco anos estava em um estado de euforia que beirava a hiperatividade.
— Ele chegou? Ele chegou? — Léo perguntava a cada cinco segundos, pulando no sofá.
— Calma, moleque! — Gabi riu, ajeitando os cachos. — Eles acabaram de estacionar. Se você derrubar sua mãe ruiva, a loira te manda para um intercâmbio na Sibéria sem passagem de volta.
A porta se abriu devagar. Kate entrou primeiro, carregando a bolsa da maternidade e o bebê conforto com uma cautela que parecia estranha em alguém tão alta e bruta. Logo atrás, Julia caminhava com passos curtos, a expressão de cansaço misturada com a dor pós-parto que a impedia de se abaixar ou fazer qualquer movimento brusco.
— Mãe Ju! Mãe Kate! — Léo correu, mas parou abruptamente diante do bebê conforto.
— Devagar, Léo — Kate avisou, colocando o suporte sobre o tapete da sala. — Conheça o seu irmão, Noah.
Léo ajoelhou-se, os olhos brilhando. Ele tocou a mãozinha minúscula do bebê com a ponta do dedo, em transe. O resto da casa se aproximou em silêncio reverente. Gabi, Nicolas e Thiago cercaram o novo membro da família, sussurrando elogios, enquanto Noah permanecia em um sono profundo e majestoso, indiferente ao caos ao seu redor.
— Ele é tão... pequeno — sussurrou Thiago. — Nem parece que vai ser um gigante do vôlei.
— Dá dois anos para ele e ele já vai estar dando cortada na sua cara, Thiago — Gabi debochou, mas seus olhos estavam úmidos.
Após as apresentações oficiais, o cansaço abateu-se sobre Julia. A dor da cesárea latejava, e a rede na área externa parecia o único lugar no mundo capaz de oferecer algum conforto. Kate, sempre atenta e protetora, ajudou a esposa a se acomodar entre as tramas de algodão, ajeitando almofadas para que Julia não precisasse forçar o abdômen.
Noah foi colocado no berço portátil ao lado delas, sob a vigilância de Gabi, que se sentou em uma poltrona próxima com uma taça de suco.
— E aí, Kate? — Gabi começou, com aquele sorriso debochado que Julia conhecia bem. — O médico que fez o parto... ele sobreviveu à visão de onde o Noah saiu ou você deu um bloqueio nele por olhar demais para a "propriedade" da Antropova?
Julia soltou uma risada curta, que logo se transformou em um gemido de dor.
— Ai, Gabi... não me faz rir, dói tudo aqui embaixo.
— O médico foi um profissional, Gabriela — Kate respondeu, a voz gélida, embora houvesse um traço de diversão escondido. — Mas eu admito que mantive um contato visual intimidador durante todo o procedimento. Ninguém olha para a minha esposa daquele jeito sem saber quem manda.
— Você é doente, Kate — Julia murmurou, estendendo a mão para a loira.
Kate sentou-se na beirada da rede, tomando cuidado para não balançar demais. As duas começaram a trocar beijos lentos, carregados de uma preguiça pós-adrenalina. Era um momento de paz, interrompido apenas pelo som de Nicolas e Thiago discutindo na cozinha sobre quem lavaria a louça do jantar especial que Nicolas tentava preparar.
— Eu vou lá ver se aqueles dois não vão incendiar a minha cozinha — Gabi disse, levantando-se. — Aproveitem o silêncio, porque o Noah vai acordar em trinta minutos pedindo o jantar dele.
Sozinhas na rede, Julia encostou a cabeça no ombro de Kate.
— Ele é lindo, Kate. É a sua cara.
— Ele tem o seu nariz, Julia. E espero que tenha a sua paciência, porque se tiver a minha, essa casa vai explodir antes dele fazer dez anos.
A noite caiu suavemente. Com muito esforço e a ajuda de Kate, Julia subiu para o quarto principal. Léo já estava lá, deitado na cama grande, esperando por elas.
— Onde está o Noah? Eu quero dormir com ele — Léo pediu, sonolento.
— O bebê está no berço, meu amor — Kate explicou, pegando Léo no colo para colocá-lo em sua própria cama. — Ele precisa dormir quietinho agora, e a Mãe Ju precisa descansar porque está com dor. Amanhã você pega ele de novo, está bem?
Léo assentiu, relutante, e logo adormeceu. Julia acomodou-se entre os travesseiros, sentindo o corpo finalmente relaxar. Kate deitou-se ao lado dela, mas o clima de paz foi levemente obscurecido por um pensamento que Julia guardava desde a maternidade.
A manhã seguinte trouxe a luz típica de uma casa com recém-nascido: cedo demais e barulhenta demais. Julia, apesar da dor, sentiu o instinto maternal falar mais alto. Ela pegou Noah do berço, sentindo o peso leve e o cheiro inebriante de bebê, e caminhou lentamente até a sala de jantar.
A mesa já estava posta. Nicolas e Thiago comiam cereais, Gabi tentava convencer Léo a comer uma maçã, e o clima era de uma manhã comum, exceto pela pequena joia loira nos braços de Julia. A ruiva sentou-se com cuidado e começou a amamentar Noah, cobrindo-o com uma fralda de pano. O silêncio que se seguiu foi de pura admiração.
— Ele puxou a fome da Julia, com certeza — comentou Nicolas, observando a avidez do sobrinho.
Kate entrou na sala logo em seguida. Ela já estava vestida com o uniforme de treino do clube — a blusa justa realçando os ombros largos e a postura imponente. Ela pegou uma garrafa de água e inclinou-se para beijar a testa de Julia e a bochecha de Noah.
— Já vou indo. O treino hoje é em dois períodos, mas volto para o banho do Noah — disse a russa.
Julia olhou para a esposa, o semblante ficando sério por um momento. O ciúme, aquela chama que nunca apagava totalmente entre as duas, brilhou nos olhos ruivos.
— Kate — chamou Julia, antes que a loira chegasse à porta.
— Sim?
— Quando você voltar... nós vamos conversar. Sobre aquele assunto da Carol. E sobre por que ela ainda está comentando nas suas fotos de treino enquanto eu estou aqui, amamentando o seu filho com pontos na barriga.
O silêncio na cozinha tornou-se cortante. Gabi arregalou os olhos, fingindo um interesse súbito na sua torrada. Thiago e Nicolas trocaram olhares de "lá vem o furacão".
Kate parou, a mão na maçaneta. Ela virou-se devagar, com aquele olhar possessivo e abusado que costumava desarmar Julia, mas desta vez encontrou uma ruiva firme e decidida.
— Julia, não há nada para conversar sobre ela — Kate afirmou, a voz firme.
— Pois eu acho que há — Julia rebateu, ajeitando Noah no seio. — Eu não sou cega, Antropova. E não estou com humor para "fãs" abusadas. Vá treinar. Mas volte preparada.
Kate soltou um suspiro, um meio sorriso surgindo nos lábios. Ela adorava quando Julia ficava brava; era o que mantinha o fogo entre elas aceso, mesmo em meio a fraldas e noites sem dormir.
— Estarei em casa às cinco, Bergmann. Prepare seus argumentos. Eu prepararei os meus — Kate disse, lançando um olhar de aviso para Gabi, como se pedisse para a amiga não colocar mais lenha na fogueira.
Assim que a porta se fechou, Gabi soltou o ar que estava segurando.
— Amiga, você não dá trégua nem no pós-parto, hein? A russa vai chegar em casa querendo te morder e você vai estar aí, com o Noah de escudo.
— Ela que tente — Julia disse, sorrindo para o filho. — O Noah é brasileiro, Gabi. Ele já está do meu lado nessa guerra.
A mansão Bergmann-Antropova estava oficialmente completa. Com Noah nos braços, Léo correndo pelo jardim, e uma russa ciumenta para domar, Julia sabia que os próximos meses seriam um caos absoluto. Mas era o seu caos. E ela não o trocaria por nenhuma final olímpica no mundo.