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Família caos

O Batismo de Fogo e o Ciúme em Quadra

A tarde na mansão Bergmann-Antropova transcorria sob um calor abafado, daqueles que faziam as ruivas ficarem mais irritadiças e as russas mais impacientes. Julia estava sentada na poltrona de amamentação, observando Noah dormir um sono angelical após uma mamada exaustiva. Seus olhos, no entanto, não estavam tão calmos quanto a expressão do bebê. Ela encarava a tela do celular, onde o perfil de "Carol Vôlei" exibia uma nova foto: a garota, uma ponteira promissora da liga nacional, posava com uma camisa de treino idêntica à de Kate, com a legenda: "Aprendendo com a melhor bloqueadora do mundo hoje. Inspiração pura! 🇷🇺🔥".

— Inspiração pura, sei — resmungou Julia, sentindo a cicatriz da cesárea repuxar levemente enquanto ela se ajeitava. — Se ela soubesse o quanto essa "inspiração" é insuportável quando perde um ponto, não estaria colocando foguinho em legenda.

Gabi entrou no quarto equilibrando dois copos de suco de melancia e uma fralda de pano no ombro. Ela notou imediatamente a aura sombria que emanava da ruiva.

— Bergmann, larga esse celular. Você está com cara de quem vai cometer um crime passional usando uma bomba de tirar leite — Gabi disse, entregando o suco para a amiga.

— Você viu isso, Gabi? — Julia virou a tela para a amiga. — "Inspiração pura". A garota tem dezenove anos, o joelho intacto e está marcando a minha esposa em tudo. E a Kate? A Kate não diz nada. Não apaga, não bloqueia, só deixa lá para todo mundo ver.

— Julia, a Kate é uma estrela internacional. Ela é o pilar da seleção russa e um ícone do vôlei mundial. É normal ter fãs — Gabi tentou ponderar, embora soubesse que lógica não funcionava com Julia no puerpério. — Além disso, a garota é só uma criança perto da Kate.

— Uma criança com um alcance de salto de três metros e dez, Gabi! — Julia exclamou, acordando Noah por um segundo, que apenas resmungou e voltou a dormir. — E a Kate adora essa atenção. Ela finge que é nojenta e superior, mas no fundo, aquele ego russo dela se alimenta disso.

Enquanto isso, no centro de treinamento, o clima era de suor e competitividade. Kate Antropova terminava uma série de bloqueios, sua altura e envergadura fazendo a rede parecer pequena. Carol, a tal fã, aproximou-se com uma garrafa de água, oferecendo-a com um sorriso tímido, mas persistente.

— Ótimo treino, Kate. Você realmente é incrível de perto — disse Carol, os olhos brilhando de admiração.

Kate pegou a garrafa, bebendo um longo gole. Ela era educada, mas mantinha aquela barreira de gelo que era sua marca registrada.

— Vôlei não é sobre ser incrível, é sobre ser eficiente — Kate respondeu, a voz rouca pelo esforço. — Você precisa melhorar sua entrada de rede. Está muito lenta.

— Você poderia me mostrar depois do treino? — Carol arriscou, dando um passo para dentro do espaço pessoal de Kate.

Kate olhou para a mão da garota, que quase tocava seu braço. O instinto possessivo da russa, normalmente direcionado a Julia, manifestou-se ali como um alerta. Ela sabia que, se Julia visse aquela cena, a mansão seria reduzida a cinzas antes do pôr do sol.

— Tenho que ir para casa. Minha esposa e meus filhos estão me esperando — Kate disse, secando o rosto com a toalha e saindo de quadra sem olhar para trás.

Quando Kate chegou em casa, às cinco e meia da tarde, o silêncio era suspeito. Ela encontrou Nicolas e Thiago na sala, jogando videogame em um volume estranhamente baixo. Léo estava sentado no chão, montando um Lego com uma concentração de engenheiro.

— Onde está a Julia? — Kate perguntou, soltando a bolsa de treino.

— Na varanda — sussurrou Nicolas, sem tirar os olhos da TV. — Ela está com "aquele" olhar, Kate. O olhar de quando ela descobriu que você tinha escondido o chocolate amargo no ano passado. Boa sorte. Você vai precisar.

Kate respirou fundo e caminhou até a varanda. Julia estava na rede, balançando Noah devagar. O sol poente batia nos cabelos ruivos, criando uma imagem que seria poética se não fosse a expressão de "vou te enterrar no jardim" que Julia exibia.

— Cheguei — anunciou Kate, aproximando-se para beijar a esposa.

Julia desviou o rosto, deixando que o beijo de Kate atingisse apenas o ar.

— Como foi o treino com a sua "fã número um"? — perguntou Julia, a voz doce demais, o que era sempre um sinal de perigo iminente.

— Foi um treino comum, Julia. Cansativo — Kate respondeu, sentando-se na cadeira de vime em frente à rede. — O que houve agora?

— O que houve? — Julia sentou-se na rede, tomando cuidado com Noah. — O que houve é que eu estou aqui, com o corpo todo dolorido, cuidando de dois filhos, enquanto você está posando para fotos de "inspiração" com uma garota que claramente quer mais do que dicas de bloqueio.

— Ela é uma colega de profissão, uma júnior — Kate rebateu, começando a perder a paciência. — Eu não posso controlar o que as pessoas postam, Julia. Você está sendo irracional.

— Irracional? — O tom de Julia subiu. — Antropova, eu te conheço! Eu sei como você olha quando alguém te desafia e sei como você ignora quando alguém está dando em cima de você porque você gosta do prestígio. Mas eu não vou aceitar ser a esposa que fica em casa enquanto você alimenta o ego de uma pirralha na internet.

— Você está duvidando da minha fidelidade? — Kate levantou-se, a altura imponente tornando-se uma ferramenta de intimidação. — Depois de tudo? Depois de dois filhos?

— Eu não duvido da sua fidelidade, eu duvido do seu bom senso! — Julia também se levantou, segurando Noah com um braço e apontando o dedo com o outro. — Se fosse o contrário, se eu estivesse postando fotos com um levantador novinho dizendo que ele é minha "inspiração", você já teria quebrado a rede de vôlei no meio!

Gabi apareceu na porta da varanda, segurando Léo pela mão.

— Gente, o volume. O Léo está começando a achar que o nome do bebê é "Cala a boca" — Gabi interveio, tentando aliviar a tensão.

Kate olhou para Léo, que olhava para as mães com olhos arregalados. A russa fechou os olhos e forçou os ombros a relaxarem. Ela caminhou até Julia, que ainda bufava de raiva, e tentou pegar Noah.

— Me dá ele — Kate pediu, a voz agora suave.

— Não! — Julia recuou.

— Julia, me dá o meu filho. Você está tremendo de raiva, vai acabar acordando ele — Kate insistiu, com uma autoridade que Julia, apesar de brava, respeitava.

Julia entregou o bebê, relutante. Kate segurou Noah contra o peito, o contraste entre a força da jogadora e a fragilidade do recém-nascido sendo gritante. Ela olhou para Julia com uma intensidade azul que parecia ler a alma da ruiva.

— Eu não quero a Carol. Eu não quero fãs. Eu não quero curtidas — Kate disse, cada palavra pesada e sincera. — Eu quero a ruiva estressada que me xinga em português quando eu esqueço de tirar o lixo. Eu quero a mulher que me deu esses dois meninos. Se aquela foto te incomoda, eu resolvo. Agora.

Kate pegou o celular do bolso com a mão livre, entrou no Instagram e, diante dos olhos de Julia, bloqueou o perfil de Carol.

— Pronto. Satisfeita? — perguntou Kate.

Julia piscou, surpresa com a atitude drástica. Seu ciúme, que era uma labareda alta, começou a diminuir para uma brasa controlável.

— Você não precisava bloquear... — Julia murmurou, subitamente sentindo-se um pouco culpada.

— Precisava sim — Kate retrucou, aproximando-se e colando sua testa na de Julia. — Porque se isso tira a sua paz, não tem valor para mim. Mas você tem que parar de achar que qualquer pessoa no mundo pode chegar perto do que nós temos. Eu sou sua, Julia. Abusada, nojenta, russa... mas totalmente sua.

Julia soltou um suspiro longo, o corpo finalmente cedendo ao cansaço. Ela envolveu a cintura de Kate com os braços, escondendo o rosto no pescoço da loira.

— Me desculpa. Eu estou surtada. Esses hormônios são uma droga.

— Eu sei — Kate riu baixo, sentindo o cheiro de Julia. — Mas você é a minha surtada favorita.

— Eca! — Léo exclamou da porta. — Elas estão se abraçando de novo. Tia Gabi, vamos jogar videogame?

— Vamos, Léo. Deixa elas aí no momento "amor e ódio" — Gabi puxou o menino para dentro, seguida por Nicolas e Thiago, que assistiam a tudo da cozinha como se fosse uma final de campeonato.

A noite caiu sobre a mansão, trazendo uma calma necessária. Após colocarem Noah e Léo para dormir, Julia e Kate voltaram para a rede. O ar estava mais fresco agora, e o som dos grilos substituía os gritos da discussão de mais cedo.

— Kate? — chamou Julia, aninhada no peito da esposa.

— Hum?

— Você acha que o Noah vai ser alto como você ou vai ter a minha estatura média de "pessoa normal"?

Kate soltou uma risadinha, acariciando o braço da ruiva.

— Ele vai ser um gigante, Julia. Já viu o tamanho dos pés dele? Ele vai ser o pesadelo de qualquer atacante.

— E o Léo? Ele disse hoje que quer ser levantador para "mandar na bola" — Julia comentou, sorrindo.

— O Léo tem a sua personalidade. Ele quer o controle de tudo. Vai ser um excelente levantador — Kate concordou. — Mas, por enquanto, eu só quero que eles durmam a noite inteira.

— Sonho meu — Julia bocejou. — Ei, Kate... sobre aquela mordida na bunda que você me deu no dia que eu contei da gravidez...

Kate deu um sorriso possessivo no escuro.

— O que tem ela?

— Eu ainda estou com os pontos da cesárea, então nem pense em repetir a dose hoje — Julia avisou, embora houvesse um tom de brincadeira na voz.

— Eu posso esperar — Kate sussurrou no ouvido dela, fazendo Julia arrepiar-se. — Eu tenho toda a paciência do mundo quando o prêmio vale a pena.

A paz, no entanto, durou pouco. Um choro agudo vindo do quarto do bebê cortou o silêncio da noite. Noah estava acordado e, pelo volume, estava com fome.

— Sua vez — Julia disse, empurrando Kate levemente.

— Minha vez? Eu acabei de chegar do treino! — Kate reclamou, mas já estava se levantando.

— E eu acabei de expulsar um ser humano de dentro de mim há alguns dias. Vai lá, russa. Mostra sua "eficiência" com a fralda.

Kate bufou, mas caminhou em direção ao quarto, resmungando algo em russo sobre como Julia Bergmann era a pessoa mais abusada que ela já conhecera. Julia ficou na rede, olhando para as estrelas, sentindo um amor tão grande que chegava a doer mais que a própria cirurgia.

Minutos depois, Kate voltou carregando Noah, que agora estava calmo e mamando em uma mamadeira de leite materno que Julia havia deixado preparada. A cena da russa alta, brava e imponente, alimentando o bebê com uma delicadeza extrema, fez o coração de Julia transbordar.

— Ele se acalmou rápido — notou Julia.

— Eu disse a ele que, se ele não parasse de chorar, eu contaria para a Gabi que ele prefere o colo do Nicolas — Kate brincou, sentando-se novamente ao lado da esposa.

— Você é ridícula, Antropova.

— E você me ama.

A madrugada avançou, e a rotina da mansão Bergmann-Antropova continuou seu curso. Entre ciúmes explosivos, desejos de comida estranhos, treinos exaustivos e o amor incondicional que unia aquela família improvável, Julia e Kate sabiam que tinham construído algo muito maior do que qualquer troféu.

Na manhã seguinte, Gabi acordou com o som de risadas na cozinha. Ela desceu e encontrou Kate e Julia tentando ensinar Léo a fazer uma panqueca russa, enquanto Noah observava tudo do seu balancinho.

— Bom dia, família Adams! — Gabi saudou, pegando uma xícara de café. — O clima de guerra mundial já passou ou eu preciso usar um capacete?

— Está tudo sob controle, Gabi — Julia respondeu, jogando um pano de prato na amiga. — Mas se você vir qualquer "fã" comentando nas fotos da Kate, me avisa. Eu ainda tenho o contato daquele hacker que o Thiago conhece.

— Meu Deus, Kate, você casou com uma psicopata — Gabi riu.

— Eu sei — Kate disse, puxando Julia para um abraço por trás e dando uma mordida leve, mas audaciosa, no ombro da ruiva. — E é exatamente por isso que eu não troco ela por nada.

A vida seguia seu curso na mansão. Com dois filhos, uma carreira de sucesso e um amor que queimava mais forte que qualquer discussão, Julia Bergmann e Ekaterine Antropova provavam, dia após dia, que o vôlei era apenas um jogo, mas a família que elas criaram era o verdadeiro campeonato de suas vidas. E, no final das contas, o ciúme era apenas o tempero de uma relação que não aceitava nada menos do que a entrega total.

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