Família caos
O Peso do Silêncio e o Calor do Cuidado
A atmosfera na mansão Bergmann-Antropova estava tão densa que Gabi jurava que poderia cortá-la com uma faca de pão. O dia havia começado cinzento, não pelo clima lá fora, mas pelo semblante de Julia. A ruiva, geralmente expressiva e ruidosa em suas reclamações, havia adotado um silêncio gélido que era muito mais aterrorizante do que qualquer um de seus surtos.
Noah parecia sentir a tensão da mãe. O bebê de poucas semanas não parava de chorar, um som agudo que ecoava pelos corredores de mármore, testando a paciência de todos. Julia o carregava de um lado para o outro, ignorando a fisgada incômoda em sua cicatriz, com os olhos fixos em qualquer ponto que não fosse Ekaterine Antropova.
Kate, por sua vez, tentava se aproximar, mas era repelida por um campo de força invisível. A russa estava exausta do treino, mas a culpa e a irritação por ser tratada como uma criminosa começavam a transbordar.
— Julia, pelo amor de Deus, me dá o menino — Kate pediu pela décima vez, estendendo os braços enquanto bloqueava o caminho da esposa no corredor. — Você está pálida e ele não para de chorar porque você está nervosa.
Julia desviou o passo, o rosto fechado em uma máscara de frieza.
— Eu estou ótima, Antropova. Cuide dos seus bloqueios na quadra que eu cuido do meu filho — rebateu Julia, a voz baixa e cortante.
— "Nosso" filho — corrigiu Kate, os olhos azuis faiscando. — E você está com dor. Eu vejo o jeito que você coloca a mão na barriga.
Julia parou e olhou para a esposa. O ciúme da noite anterior, alimentado pela interação de Kate com a tal Carol, ainda queimava, mas agora estava misturado a um cansaço existencial.
— Quer saber? — Julia disparou, a voz subindo um tom. — Você não precisava ter bloqueado ninguém. Não precisava parar de falar com a garota por minha causa. Faça o que você quiser, Kate! Seja a "inspiração" de quem você quiser. Eu não vou mais ser a esposa louca que controla sua vida social. Se você quer alimentar o ego de novinhas, o problema é seu.
Kate sentiu o sangue subir à cabeça. A possessividade russa não lidava bem com aquele tipo de indiferença fingida.
— Você está sendo infantil — Kate rosnou, aproximando-se até que seus corpos quase se tocassem. — Eu bloqueei porque eu te amo e não quero ruídos no nosso casamento. Mas se você prefere usar isso como mártir para me afastar, então parabéns, você está conseguindo.
Julia abriu a boca para retrucar, mas um grito mais alto de Noah interrompeu a briga. O bebê estava vermelho, as pequenas mãos fechadas em punhos. Julia sentiu uma pontada forte na região dos pontos e vacilou, o corpo inclinando-se para a frente.
— Julia! — Kate agiu rápido, segurando a esposa e pegando Noah antes que o pior acontecesse.
— Eu estou bem... só foi um mau jeito — mentiu Julia, a respiração curta.
— Você é teimosa demais para o seu próprio bem — Kate disse, o tom agora carregado de uma preocupação autoritária. — Gabi!
A cacheada apareceu no topo da escada em segundos, segurando um Léo sonolento pela mão.
— O que foi? O mundo acabou? — perguntou Gabi, notando a palidez de Julia.
— Leva o Léo para o Nicolas. Eu vou cuidar da Julia e do Noah. Ninguém entra no quarto sem bater — ordenou Kate, não dando espaço para discussões.
Kate levou Julia para o quarto, forçando-a a se deitar. A ruiva tentou protestar, mas a russa apenas lhe lançou um olhar que dizia "nem tente". Kate colocou Noah no berço por um momento e voltou-se para a esposa, começando a desabotoar a camisa dela para verificar o curativo.
— Kate, para com isso... — Julia tentou afastar as mãos da loira.
— Fica quieta, Julia Bergmann — Kate disse, a voz firme, mas as mãos eram surpreendentemente gentis. — Você pegou peso hoje? Eu vi você tentando levantar aquela caixa de fraldas na lavanderia.
Julia desviou o olhar, o que foi resposta suficiente.
— Eu recebi um carão do médico, você esqueceu? — Kate continuou, limpando a área da cicatriz com cuidado. — Você não pode pegar peso, não pode se estressar desse jeito. Você quer voltar para o hospital?
— Eu só queria que as coisas voltassem ao normal — Julia confessou, a voz embargada. — Eu me sinto vulnerável, Kate. E ver você lá, toda poderosa, e aquela menina...
Kate parou o que estava fazendo e olhou nos olhos de Julia. Ela se inclinou, eliminando a distância entre elas.
— Olha para mim — pediu a russa. — Não existe Carol, não existe vôlei, não existe nada que seja maior do que eu sinto quando entro nessa casa. Você é a minha base. Sem você, eu sou só uma mulher alta que sabe bater em uma bola.
Julia sentiu as lágrimas caírem. O gelo que ela havia construído ao redor do coração durante o dia começou a derreter. Kate aproximou-se e iniciou um beijo lento, profundo, que carregava todo o arrependimento e a paixão que as palavras não conseguiam expressar. Era um beijo que pedia desculpas, que prometia fidelidade e que, acima de tudo, acalmava a tempestade.
— Me desculpa por ser uma bruta — sussurrou Julia entre os beijos.
— Me desculpa por ser uma nojenta que atrai atenção indesejada — Kate brincou, fazendo Julia sorrir levemente.
O momento de paz foi interrompido pelo choro de Noah, que agora parecia estar em seu ápice de "abusado". O bebê estava inconsolável.
— Ele precisa de um banho para relaxar — sugeriu Kate. — Eu faço isso. Você fica deitada.
— Eu quero ajudar — insistiu Julia.
— Você vai sentar no banquinho e apenas olhar — Kate decretou.
No banheiro, a cena era caótica. Noah detestava o contato inicial com a água morna e berrava a plenos pulmões, os chutes espalhando água pelo uniforme de treino de Kate.
— Meu Deus, ele tem a força das suas pernas — Julia comentou, sentada no banco, observando a esposa tentar equilibrar o bebê ensaboado.
— Ele é um pequeno terrorista — Kate resmungou, embora houvesse um sorriso nos lábios enquanto ela conversava baixinho em russo com o filho, tentando acalmá-lo. — *Tiho, malysh, tiho...* (Calma, pequeno, calma).
Aos poucos, o calor da água e a voz rítmica de Kate fizeram efeito. Noah relaxou, os olhos pequenos começando a pesar. Julia observava a cena com o coração transbordando. Aquela era a Ekaterine que o mundo não via: a mulher abusada e possessiva que se transformava em pura doçura para cuidar da família.
Depois do banho e de Noah estar devidamente alimentado e trocado, o cansaço na casa era absoluto. Léo já havia dormido no quarto de Nicolas, exausto de brincar com o tio e com Thiago.
— Ele não vai querer ficar no berço hoje — Julia previu, vendo como Noah se agarrava à sua blusa.
— Nem você vai querer que ele fique — Kate notou, arrumando os travesseiros na cama de casal. — Vamos dormir todos aqui.
Julia acomodou-se no meio, com Noah aninhado em seu braço. Kate deitou-se logo atrás, envolvendo as duas com seu braço longo, uma barreira protetora contra o resto do mundo.
— Kate? — chamou Julia, já quase pegando no sono.
— Hum?
— Obrigada por não ter me deixado continuar com a cara fechada. Eu sou insuportável quando quero.
— Eu sei — Kate sussurrou, dando um beijo na nuca da ruiva. — Mas eu sou a única que sabe como te desarmar. E, Julia... se você pegar peso de novo antes do tempo, eu vou te colocar de castigo junto com o Léo.
Julia riu baixinho, sentindo o peso reconfortante do filho no peito e o calor da esposa às suas costas.
— Combinado, capitã.
Noah soltou um suspiro profundo, finalmente entregue ao sono. Naquela noite, na mansão Bergmann-Antropova, não houve espaço para ciúmes, para Carol ou para o vôlei. Havia apenas o som da respiração sincronizada de três corações que, apesar de todas as brigas e temperamentos difíceis, pertenciam irrevogavelmente uns aos outros.
O silêncio da noite foi preenchido por uma paz genuína. Kate, antes de fechar os olhos, olhou para a esposa e para o filho, sentindo uma possessividade que não vinha do ego, mas do amor puro. Ela era a bloqueadora mais temida do mundo, mas ali, naquela cama, sua única missão era garantir que nada quebrasse a tranquilidade daquelas duas vidas que eram o seu verdadeiro ouro.
E Julia, mesmo com a dor residual e o cansaço do puerpério, adormeceu sabendo que, não importava o quanto ela surtasse ou o quanto a vida tentasse testá-las, a rede de Kate estaria sempre lá para segurá-la.