Família caos
O Desejo e a Redenção na Rede
A noite na mansão Bergmann-Antropova estava estranhamente silenciosa, um contraste absoluto com o caos emocional que Julia vinha enfrentando. Desde que o casamento com Ekaterine fora selado, Léo, o filho do casal, tornara-se um pequeno interrogador persistente. A pergunta era sempre a mesma: "Quando o meu irmãozinho vai chegar?".
Gabi, sempre presente e com o deboche afiado, não perdia a chance de rir da situação, mas o que ninguém sabia — exceto Julia e seu teste de farmácia escondido no fundo da gaveta — era que o "neném" já estava a caminho. Julia planejava uma surpresa digna de cinema para contar a Kate, mas os hormônios da gravidez tinham outros planos para o seu temperamento.
Aquele dia fora particularmente difícil. Léo estava em um dia de energia inesgotável, testando cada limite da paciência de Julia, que já se sentia inchada, enjoada e com os nervos à flor da pele. Quando a noite caiu e o silêncio finalmente se instalou, Julia sentou-se à mesa da cozinha, exausta.
Foi nesse momento que a porta da frente se abriu. Kate chegou do treino, exalando aquele perfume de esforço e determinação que Julia tanto amava, mas que, naquele momento, parecia apenas mais um estímulo irritante. A russa, em um gesto de carinho habitual e um tanto atrevido, aproximou-se da esposa por trás e, sem aviso, deu-lhe uma mordida firme na nádega.
— Antropova, já está chato essa história de morder! — Julia explodiu, virando-se com os olhos faiscando de uma fúria desproporcional. — Que coisa infantil! Dá para você me deixar em paz por um segundo?
O silêncio que se seguiu foi cortante. Kate recuou, a expressão de choque sendo lentamente substituída por uma máscara de frieza defensiva. Ela não disse uma palavra. Apenas caminhou até a geladeira, pegou seu jantar e comeu em silêncio absoluto, enquanto Julia permanecia de costas, o peito subindo e descendo com a respiração pesada.
Léo, que assistia à cena da fresta da porta, aproximou-se da mãe russa quando ela terminou.
— Mãe Kate, está tudo bem? — perguntou o menino, a voz baixa.
— Está tudo bem, Léo — Kate respondeu, forçando um sorriso que não chegou aos olhos. — Vá para o quarto. Eu vou descansar um pouco na rede.
Julia ouviu os passos de Kate se afastando em direção à varanda. O peso da culpa começou a esmagar seu peito mais do que o enjôo matinal. Ela sabia que fora injusta. Kate era bruta por natureza, mas seu amor era demonstrado naqueles gestos físicos e possessivos que Julia, em dias normais, adorava.
Depois de colocar Léo na cama, Julia caminhou até a varanda. Kate estava deitada na rede, olhando para o céu escuro, o corpo tenso. Julia aproximou-se devagar e sentou-se na borda da rede, fazendo-a balançar levemente.
— Kate... — Julia começou, a voz agora suave e embargada. — Me desculpa. Eu fui uma idiota.
Kate não se moveu, mas Julia sentiu a rigidez da esposa diminuir um pouco.
— Você me tratou como se eu fosse um incômodo, Julia — Kate disse, a voz rouca. — Eu só queria um pouco de carinho depois de um dia exaustivo.
— Eu sei, eu sei — Julia disse, deitando-se ao lado dela na rede estreita, forçando o corpo contra o de Kate. — Eu estou surtada, estou estressada e o Léo me deixou louca hoje. Mas tem um motivo para eu estar tão... insuportável.
Kate finalmente virou o rosto para encará-la, a sobrancelha loira erguida em sinal de dúvida.
— E qual seria o motivo? — perguntou a russa, o tom ainda cauteloso.
Julia pegou a mão de Kate e a levou lentamente até o seu ventre, pressionando-a contra a barriga ainda plana.
— O motivo é que o Léo não vai precisar perguntar por muito mais tempo — Julia sussurrou, sentindo as lágrimas escorrerem. — Eu estou grávida, Kate.
O tempo pareceu parar. A expressão de Kate mudou de mágoa para descrença, e então para uma alegria tão pura que Julia sentiu seu coração disparar. A russa sentou-se na rede, puxando Julia para o seu colo com uma força que agora era puro cuidado.
— Grávida? — Kate repetiu, a voz falhando. — Julia... você está falando sério?
— Seríssimo — Julia riu entre o choro. — Por isso a grosseria, por isso o cansaço. Tem um pequeno Antropova-Bergmann aqui dentro me deixando maluca.
Kate escondeu o rosto no pescoço de Julia, os ombros largos tremendo levemente.
— Eu vou ser mãe de novo — murmurou Kate contra a pele dela. — Me desculpe por morder você, eu não sabia...
— Não peça desculpas por ser quem você é — Julia disse, acariciando os cabelos loiros da esposa. — Eu amo suas mordidas. Só... talvez não quando eu estiver com enjôo matinal às oito da noite.
As duas ficaram ali, balançando suavemente na rede, compartilhando o segredo que mudaria suas vidas para sempre.
— Vamos contar para o resto da casa hoje? — Kate perguntou, referindo-se aos membros da família que haviam saído para uma festa.
— Sim — Julia sorriu, sentindo-se finalmente em paz. — Vamos esperar eles voltarem. Quero ver a cara da Gabi quando ela descobrir que o deboche dela agora vai ter que ser dividido com mais um.
Kate beijou a testa de Julia, a mão ainda protegendo o ventre da esposa. O estresse do dia havia evaporado, substituído pela promessa de um novo caos, um que elas mal podiam esperar para viver juntas.