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Família,ciúmes e tentação

O Labirinto do Desejo e o Caos da Inocência

A atmosfera na sala de estar da mansão estava carregada de uma eletricidade que não vinha apenas da tempestade que ameaçava desabar lá fora, mas da tensão acumulada entre as quatro paredes. Julia estava sentada no sofá de couro italiano, com Léo aninhado em seus braços. O bebê, alheio aos conflitos das mães, sugava o leite com uma calma invejável. Ao lado delas, Ekaterina — ou Kate, como apenas os íntimos ousavam chamar — mantinha uma expressão que oscilava entre o cansaço e a irritação reprimida.

Gabi, sentada na poltrona à frente, observava a cena com um sorriso de canto, aquele tipo de sorriso que Julia conhecia bem: era o prenúncio de uma piada inconveniente. Kisy estava no chão, tentando montar um quebra-cabeça com Nicolas, mas o garoto de oito anos parecia mais interessado em lançar olhares de soslaio para o irmãozinho no colo de Julia.

— Sabe, Kate — começou Gabi, quebrando o silêncio com a sutileza de um saque viagem —, eu estava pensando aqui... A Julia tem um alcance vocal impressionante, não acha? No ginásio a gente já sabia, mas parece que em casa ela atinge notas que eu nem sabia que existiam no vôlei.

Julia sentiu o rosto queimar instantaneamente, a cor ruiva de seus cabelos parecendo se espalhar pelas bochechas. Kate, por outro lado, fechou o semblante, lançando um olhar gélido para a amiga.

— Gabi, se você valoriza a sua integridade física, eu sugiro que mude de assunto agora mesmo — rosnou Kate, a voz rouca e baixa.

— Ah, qual é, Antropova! — Gabi riu, sem se abalar. — O Nicolas já contou tudo. "Ginástica", não é? Você devia dar um carão na sua esposa, porque os gemidos dela estão atravessando as paredes de isolamento acústico dessa mansão. A Julia não tem filtro nenhum quando você decide ser... intensa.

Kate virou-se para Julia, que evitava o contato visual a todo custo, concentrada demais na amamentação.

— Eu te disse, Julia — sussurrou Kate, inclinando-se para o ouvido da ruiva. — Eu te disse para morder o travesseiro. Você é escandalosa demais. Agora até a Gabi está tirando onda com a minha cara por causa da sua falta de controle.

— Ah, agora a culpa é minha? — Julia rebateu, finalmente olhando para a loira com aqueles olhos verdes faiscantes de raiva e desejo. — Você me provoca, me deixa louca, faz o que faz com aquela língua e espera que eu fique em silêncio como se estivesse em uma biblioteca? Me poupe, Ekaterina!

A discussão foi interrompida por um ruído de frustração vindo do chão. Nicolas jogou uma peça do quebra-cabeça longe, bufando.

— Eu odeio esse bebê! — exclamou o menino, os olhos lacrimejando. — Antes do Léo chegar, a Kate brincava comigo. Agora ela só quer saber de ficar trancada no quarto com a Julia fazendo barulho de dor ou cuidando desse neném que só chora e cheira mal!

O silêncio que se seguiu foi pesado. Kate sentiu o coração apertar. Ela amava o irmão como se fosse seu próprio filho, e a transição para a chegada de Léo estava sendo mais difícil do que ela imaginava para o pequeno.

— Nicolas, não fale assim do seu irmão — disse Kate, tentando suavizar a voz. — A gente ainda ama você, só estamos... ocupadas.

— Ocupadas fazendo ginástica! — gritou Nicolas, levantando-se e saindo correndo em direção ao quintal, seguido pelo cachorro.

Julia suspirou, sentindo o peso da culpa misturado à exaustão. Kisy levantou-se e foi atrás do menino, deixando as três sozinhas. Gabi, percebendo que o clima tinha ficado pesado de verdade, pigarreou.

— Bom, eu vou ver se a Kisy precisa de ajuda com o pequeno furacão. Ju, Kate... tentem não se matar. Ou se matem, mas façam menos barulho.

Quando Gabi saiu, Julia colocou Léo no berço portátil ao lado do sofá. O bebê havia dormido. Ela se virou para Kate, pronta para continuar a briga, mas a loira foi mais rápida. Kate a puxou pela cintura, colando seus corpos.

— Você é tão ciumenta, Julia — disse Kate, os olhos fixos nos lábios da ruiva. — Ficou o almoço inteiro me medindo porque eu respondi a mensagem da novata. Você sabe que eu só tenho olhos para você.

— Eu não gosto dela, Kate. Ela olha para você como se você fosse o troféu dela — Julia disse, a voz falhando enquanto as mãos de Kate subiam por baixo de sua blusa.

— Ninguém me ganha de você, ruiva. Ninguém.

O desentendimento, como sempre acontecia entre elas, começou a se transformar em uma necessidade física avassaladora. O ciúme de Julia alimentava o fogo de Kate, e a possessividade da loira era o combustível perfeito. Sem dizer uma palavra, Kate pegou Julia no colo e a levou para o andar de cima. Elas entraram no quarto e, desta vez, Kate não apenas trancou a porta, mas empurrou uma poltrona pesada na frente, por precaução.

O que se seguiu foi uma explosão de sentidos. Julia estava insaciável. Ela queria sentir que Kate pertencia a ela, e apenas a ela. A ruiva subiu no colo da loira, que estava sentada na beira da cama, e começou a se mover com uma agressividade que beirava o desespero. Julia queria o ápice, queria marcar Kate, queria que o mundo lá fora deixasse de existir.

Ela tinha acabado de descer do rosto de Kate, onde estivera sentada momentos antes, sentindo a língua da loira levá-la às nuvens. Agora, Julia estava sentada no colo de Kate, cavalgando com força, as mãos presas nos ombros largos da russa, os gemidos — aqueles mesmos que Gabi zoara — ecoando sem restrições pelo quarto.

— Kate... ah, meu Deus, Kate! — Julia gritava, a cabeça jogada para trás, o ápice a apenas alguns movimentos de distância.

Foi nesse exato momento que o impensável aconteceu.

A porta do quarto, apesar de trancada, tinha uma folga no batente. Nicolas, em um acesso de raiva e carência, não apenas bateu; ele chutou a porta com toda a força de sua frustração. O impacto foi tão seco e inesperado que a tranca, já desgastada, cedeu, e a poltrona, que não estava totalmente travada, deslizou no piso de madeira polida.

A porta se escancarou.

Nicolas parou no umbral, os olhos arregalados, a respiração ofegante. O que ele viu foi uma confusão de membros, pele suada e expressões que ele não conseguia processar. Julia estava sentada no colo de Kate, ambas seminuas, o corpo de Julia ainda tremendo pelo susto e pelo prazer interrompido.

— Kate? — a voz do menino saiu pequena, trêmula.

Julia, em um reflexo de puro pânico e vergonha, pulou do colo de Kate, tentando se cobrir com o lençol que estava na beira da cama. Ela se encolheu, o rosto queimando em uma humilhação que ela nunca imaginou sentir.

Kate, por outro lado, sentiu uma onda de fúria cega. A interrupção no momento mais vulnerável e intenso de sua vida privada a fez explodir. Ela se levantou, vestindo o roupão com movimentos violentos, os olhos faiscando como brasas.

— SAI DAQUI, NICOLAS! — O grito de Kate foi tão potente que pareceu fazer as janelas vibrarem. — AGORA! VÁ PARA O SEU QUARTO E NÃO SAIA DE LÁ ATÉ EU MANDAR!

O menino, aterrorizado pela fúria da irmã que ele sempre viu como sua protetora, deu um passo para trás, tropeçou e saiu correndo pelo corredor, chorando alto.

Kate bateu a porta novamente, desta vez chutando a poltrona com tanta força que ela travou contra a madeira. Ela se virou para a cama, onde Julia estava sentada, tremendo, com os olhos cheios de lágrimas.

— Eu não acredito nisso — soluçou Julia, escondendo o rosto nas mãos. — Ele viu, Kate. Ele viu a gente. Que tipo de mães nós somos? Que tipo de exemplo é esse?

Kate caminhou até a cama, a fúria ainda vibrando em seus ombros, mas a visão de Julia desmoronando a fez suavizar por um momento. Ela sentou-se ao lado da esposa, puxando-a para um abraço apertado.

— A culpa não é nossa, Julia. A gente trancou a porta. Ele não deveria ter chutado. Ele está passando dos limites com essa carência.

— Mas ele é uma criança! — Julia se afastou, olhando para Kate com mágoa. — E você gritou com ele daquele jeito... Kate, ele está assustado. Ele odeia o Léo e agora provavelmente está traumatizado.

— E eu estou frustrada! — Kate rebateu, levantando-se novamente. — Eu trabalho, eu treino, eu cuido de você, eu cuido dele... Eu só queria dez minutos de paz com a minha mulher! Será que é pedir demais?

O desentendimento recomeçou, mas desta vez sem o fogo da paixão. Era a exaustão da rotina, o peso da responsabilidade e a dificuldade de equilibrar o desejo com a maternidade. Julia levantou-se, vestindo sua roupa com pressa.

— Eu vou ver como ele está. E depois vou cuidar do Léo. Você... você fica aqui e esfria a cabeça, Antropova. Porque se você chegar perto de mim com essa energia de novo hoje, eu juro que vou dormir no quarto de hóspedes.

Julia saiu do quarto, deixando Kate sozinha no silêncio opressor da suíte. A loira sentou-se na beira da cama, as mãos enterradas nos cabelos. Ela sabia que tinha exagerado no grito, mas a interrupção no momento do orgasmo fora como um curto-circuito em seu sistema.

Lá embaixo, Julia encontrou Nicolas encolhido no sofá da sala, com Gabi e Kisy tentando consolá-lo. O menino soluçava baixinho. Quando viu Julia, ele se encolheu ainda mais.

— Ei, pequeno... — Julia sentou-se ao lado dele, ignorando os olhares curiosos e julgadores de Gabi. — Está tudo bem. A Kate só se assustou.

— Ela me odeia — chorou Nicolas. — Ela estava batendo em você? Você estava gritando...

Julia sentiu um nó na garganta. Como explicar a complexidade do desejo adulto para uma criança de oito anos?

— Não, querido. A gente não estava brigando daquele jeito. Às vezes os adultos fazem barulhos estranhos quando estão... felizes. Ou cansados. A Kate te ama mais que tudo, ela só precisa de um tempo para ela.

Nesse momento, Kate desceu as escadas. Ela parecia ter envelhecido dez anos em dez minutos. Ela caminhou até o irmão e ajoelhou-se na frente dele.

— Nico, me desculpa por ter gritado. A mana perdeu a cabeça. Eu nunca, nunca vou te odiar. Você é o meu campeão, lembra?

O menino olhou para ela, ainda desconfiado, mas acabou se jogando nos braços da irmã. O clima começou a desanuviar, mas a tensão sexual entre Julia e Kate ainda estava lá, latente, uma promessa não cumprida que queimava no fundo dos olhos de ambas.

Mais tarde, após o jantar silencioso e depois que Gabi e Kisy finalmente foram embora, a mansão mergulhou em uma calmaria tensa. Nicolas dormia no quarto dele, e Léo estava no berço. Julia estava na cozinha, tomando um copo de água, quando sentiu mãos fortes envolverem sua cintura por trás.

— Você ainda está brava? — perguntou Kate, a voz agora suave, roçando o pescoço de Julia.

— Eu estou exausta, Kate. E com vergonha.

— Não tenha vergonha de me amar, Julia. Nem de como você me ama.

Kate virou Julia de frente para ela, prendendo-a contra a bancada de mármore. O olhar da loira era intenso, uma promessa de que a noite ainda não tinha acabado.

— O Nicolas está dormindo pesado. Eu dei um calmante natural para ele. E o Léo acabou de mamar.

Julia olhou para a esposa, sentindo a resistência derreter. O ciúme, a briga, a interrupção... tudo parecia pequeno diante da necessidade que sentiam uma da outra.

— Se ele aparecer de novo, Ekaterina, eu juro que me mudo para a Alemanha — brincou Julia, embora o tom fosse sério.

— Ele não vai aparecer. Eu coloquei um calço na porta — Kate sorriu, um sorriso predatório que fez as pernas de Julia fraquejarem. — Agora, onde estávamos? Ah, sim... você estava sentada no meu colo, me deixando louca com aqueles gemidos que a Gabi tanto gosta de comentar.

— Cala a boca e me beija, Antropova.

Julia puxou a loira para baixo, e ali, no silêncio da cozinha, elas finalmente encontraram a redenção para o caos do dia. Não havia novatas, não havia irmãos ciumentos, não havia nada além do encontro de duas almas que, entre gritos e silêncios, pertenciam irremediavelmente uma à outra. A mansão, enfim, conheceu a paz — ou pelo menos a versão de paz que Julia e Kate sabiam construir: uma feita de fogo, entrega e um amor que não conhecia limites, nem mesmo os das paredes que teimavam em não abafar seus desejos.

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