Família vôlei(caos)
Entre Molhos, Malas e Meios-Termos
A travessa de cerâmica fumegava no centro da mesa, exalando um aroma denso de alho dourado, tomates frescos e as folhas de manjericão que Léo jurava ter lavado melhor do que qualquer máquina do mundo. Em volta da madeira clara, o silêncio durou apenas o tempo necessário para que o primeiro prato fosse servido; atletas de quase dois metros de altura raramente mantinham cerimônia diante de uma montanha de carboidratos após uma manhã inteira de movimento.
— Se alguém encostar no pedaço de crosta crocante da borda, eu considero falta grave e cartão vermelho — Julia anunciou, empunhando a concha de servir como se fosse um cetro imperial. — Foi o meu esforço culinário, a minha dor lombar e o meu sangue que geraram essa refeição.
— Seu sangue não, né, Ju? Por favor, que ninguém quer comer molho com DNA de Bergmann — Lucas zombou, estendendo o prato fundo com um sorriso largo. — Capricha aí, vai. Eu gastei energia aturando você pulando nas costas da Kate lá fora como se você fosse uma mochila de camping.
— Eu sou uma dádiva divina na vida daquela mulher, Lucas, me respeite — Julia respondeu com um revirar de olhos teatral, mas encheu o prato do irmão com uma generosidade quase maternal. — E a Kate adora me carregar. Fortalece o trapézio dela para quando ela tiver que bloquear as ponteiras italianas.
Sentada ao lado de Julia, Kate apenas balançou a cabeça em resignação divertida. Ela estava ocupada desfazendo com um garfo uma colherada de abóbora cozida no pratinho de silicone de Noah. O menino, acomodado confortavelmente no cadeirão, batia os pezinhos descalços no apoio de madeira, vidrado em qualquer movimento que envolvesse comida.
— Fortalece mesmo — concordou Kate, com aquele sotaque firme e a voz grave que parecia ainda mais calma em contraste com o falatório de Julia. — Mas qualquer dia desses eu solto ela no meio do caminho para ver se o amortecimento da biomecânica dela funciona na grama seca.
Gabi soltou uma gargalhada enquanto enrolava uma quantidade indecente de espaguete no garfo.
— Eu pagaria ingresso para ver isso, juro. Vocês duas em quadra são assustadoras, mas dentro de casa parecem duas adolescentes de ensino médio disputando espaço no armário.
— Não me misture com essa russa briguenta, capitã — Julia fingiu estar ultrajada, servindo o prato de Léo, que já olhava com olhos gulosos para o queijo ralado. — Eu sou pura paz e diplomacia. Eu sou a Suíça dessa relação.
— A Suíça mais barulhenta da história da humanidade — Lucas comentou baixinho, recebendo um chute de leve de Julia por baixo da mesa, o qual ele desviou com a agilidade costumeira.
A conversa seguiu animada por quase uma hora, em um ritmo que mesclava o calor das lembranças de quadra com a rotina doméstica. Falaram sobre a logística das próximas convocações, o calendário insano da temporada europeia que se aproximava e as viagens que teriam que fazer com duas crianças a tiracolo. Noah, que havia comido três colheradas de abóbora antes de decidir que o passatempo mais interessante era jogar a colher de silicone no chão repetidas vezes para ouvir o barulho oco, agora brincava com os próprios dedos, soltando pequenos murmúrios satisfeitos.
Quando o almoço terminou e as panelas estavam praticamente raspadas, o clima na cozinha começou a mudar sutilmente para aquela melancolia confortável que sempre antecedia uma despedida.
Lucas olhou para o relógio de pulso e empurrou a cadeira para trás.
— Bom, dona Gabriela, se a gente quiser chegar em Guarulhos sem ter que apostar corrida com os caminhões na rodovia, a gente precisa descer as malas agora.
— Verdade — Gabi suspirou, apoiando os cotovelos na mesa e alongando o pescoço. — A vida boa acabou. Voltar para a realidade de aeroporto, mala extraviada e comida de avião.
— Deixa que eu pego as coisas pesadas lá em cima — Lucas se prontificou, levantando-se com passos rápidos e subindo a escada de madeira de dois em dois degraus.
Gabi levantou-se logo em seguida, indo até o cadeirão de Noah. O pequeno ergueu os olhinhos azuis e abriu um sorriso sonolento, com a bochecha ainda suja de purê. A capitã inclinou-se e deu um beijo suave no topo de sua cabeça loira, inalando aquele cheiro característico de xampu de bebê e leite morno.
— Tchau, sargentinho. Vê se dá uma trégua para as suas mães essa noite, ouviu? Nada daquele escândalo de madrugada. Deixa a ruiva dormir, senão amanhã ela não acerta nem a diagonal curta.
Noah respondeu com um sopro de saliva e um aceno estabanado de mãozinhas fechadas, o que fez Gabi rir. Ela se virou para Léo, que estava no sofá da sala terminando de encaixar duas peças de Lego. A capitã abaixou-se na altura do menino e bateu na palma da mão dele.
— Tchau, meu campeão. Treina essa manchete que a sua mãe te ensinou, mas se ela for muito chata você me manda uma mensagem escondida que eu dou uma bronca nela pelo telefone.
— Pode deixar, tia Gabi! Eu vou ser melhor que ela até o final do ano! — Léo respondeu, os olhinhos verdes brilhando com uma confiança inabalável.
— Esse garoto não tem salvação — Julia murmurou da soleira da porta, com os braços cruzados e um biquinho fingido. — Já está tramando contra mim com as minhas próprias companheiras de equipe.
Gabi caminhou até ela e a puxou para um abraço apertado, daqueles que só quem dividia a pressão de ginásios lotados e finais de campeonato conseguia dar.
— Se cuida, Ju. Descansa esse joelho, pelo amor de Deus. Não vai inventar de forçar nada antes da apresentação oficial.
— Pode deixar, capitã — Julia respondeu, retribuindo o aperto com carinho genuíno. — Manda notícias assim que pousar. E obrigada por aguentar essa creche por dois dias seguidos.
— Eu adoro esse hospício — Gabi sorriu, virando-se para Kate, que se aproximava com passos calmos.
A loira russa estendeu os braços compridos e envolveu a brasileira em um abraço caloroso, apoiando o queixo no ombro dela por um instante.
— Boa viagem, Gabi. Boa sorte no começo da temporada. A gente se esbarra pelos circuitos internacionais.
— Nos esbarramos na rede, Antropova — Gabi piscou, atrevida. — E vê se não amolece muito com essa ruiva aí, senão ela monta em cima.
— Jamais — Kate riu baixo. — Alguém tem que manter a ordem na casa.
Lucas desceu os degraus trazendo duas malas grandes e uma mochila esportiva. Ele colocou as bagagens perto da porta de entrada e pegou as chaves do carro sobre o aparador. Enquanto Gabi saía para ajeitar a jaqueta e verificar os documentos na varanda, Lucas parou diante de Julia.
Havia uma leveza diferente nos ombros do rapaz, algo que Julia notou imediatamente. Ela deu um passo à frente e ajeitou a gola da camiseta do irmão mais novo, encarando-o com aquela mistura de afeto maternal e provocação que definia o relacionamento deles desde a infância.
— Valeu por tudo, Ju — Lucas disse em voz baixa, garantindo que o som não chegasse até a varanda. — De verdade. O conselho de ontem... salvou a minha pele de passar uma vergonha histórica.
Julia abriu um sorriso doce, dando um tapinha carinhoso na bochecha sardenta dele.
— Para de ser bobo, Luquinhas. Família serve pra isso. Agora você pode ser o amigo incrível que ela precisa ter por perto, sem aquela cara de cachorro que caiu da mudança toda vez que ela fala de vôlei com você.
Lucas soltou uma risadinha constrangida, passando a mão na nuca.
— É, você tem razão. Ficou muito mais fácil conversar com ela hoje de manhã. Parece que tirou um peso das costas.
— Eu sempre tenho razão, meu querido — Julia arrematou, o tom debochado voltando com força total. — Agora vai lá antes que ela perca o voo e você tenha que hospedar a seleção brasileira inteira no seu apartamento de solteiro.
Lucas a puxou para um abraço rápido e desajeitado, depois acenou para Kate e Léo.
— Tchau, família! Até a próxima folga!
As portas se fecharam, o barulho do motor do carro ecoou pela entrada de cascalho e, em poucos minutos, o som sumiu completamente na distância da rua tranquila do condomínio.
A casa, subitamente, pareceu enorme.
O silêncio pós-visita desceu sobre os cômodos com uma densidade quase tangível. Julia soltou um suspiro longo, que pareceu esvaziar todo o ar de seus pulmões, e caminhou em direção ao grande sofá de linho cinza, jogando-se de bruços sobre as almofadas com a graça de um saco de batatas desmoronando.
— Ai... finalmente — a voz dela saiu completamente abafada pelo tecido. — Eu amo as pessoas, mas amo mais ainda quando as pessoas vão embora e deixam a minha casa em paz.
Kate caminhou até a sala carregando Noah, que agora bocejava de forma contínua, esfregando os punhos gordinhos nos olhos azuis que mal conseguiam ficar abertos. A loira sentou-se na ponta do sofá, perto dos pés esticados de Julia, e colocou o bebê deitado de bruços sobre o próprio peito. Noah imediatamente enfiou o polegar na boca e se aquietou, sentindo as batidas calmas do coração da russa.
Léo, ainda sentado no tapete cercado por pecinhas coloridas, olhou para as duas mães por cima do ombro.
— Mãe Kate?
— Fala, meu lindo — Kate respondeu em tom sussurrado para não despertar o bebê.
— A gente pode jogar videogame mais tarde? O tio Lucas disse que tem um jogo novo de corrida que dá pra jogar de dois.
— Só se você guardar todos esses bloquinhos que estão espalhados pelo chão antes das quatro da tarde — Kate negociou com firmeza branda. — Se eu pisar em mais um bonequinho desses no escuro, eu vou confiscar tudo.
— Tá bom, tá bom — Léo murmurou, já começando a empilhar os blocos vermelhos em uma caixa de plástico com uma eficiência admirável para uma criança de sete anos querendo videogame.
Julia virou a cabeça de lado no sofá, abrindo apenas um olho verde para encarar Kate.
— Você é muito dura com ele, sabia? O garoto é um artista plástico em desenvolvimento e você fica ameaçando a arte dele com a sua tirania doméstica.
— Se eu não for dura, essa casa vira um ginásio abandonado em três dias — Kate rebateu no mesmo tom calmo, os olhos brilhando em zombaria. — Você não junta nem as suas próprias meias quando chega do clube, Julia.
— Isso é calúnia! Difamação pública! — Julia protestou, sentando-se devagar e dobrando as pernas em posição de lótus. Ela levou a mão ao joelho direito, massageando a lateral com o polegar de forma inconsciente. — E outra coisa: minhas meias têm propósitos estratégicos. Elas marcam o meu território.
Kate observou o movimento das mãos de Julia sobre a articulação do joelho. O sorriso irônico no rosto da russa suavizou-se, dando lugar àquela atenção focada e analítica que ela sempre reservava para o bem-estar da esposa.
— Tá doendo muito? — perguntou Kate, a voz agora desprovida de qualquer deboche.
Julia parou o movimento por um instante, suspirando de forma mais comedida.
— Só aquela fisgadinha chata de sempre depois de correr na grama irregular. Nada demais, amor. O treino funcional de quarta ajudou, mas o impacto ainda cobra o preço.
Kate ajeitou Noah com um braço só, garantindo que o bebê continuasse em sono profundo contra o seu ombro, e esticou a perna longa até tocar o joelho de Julia com os dedos do pé, em um carinho desajeitado e íntimo.
— Deita aí de costas — Kate instruiu suavemente.
— O quê?
— Deita de costas. Estica essa perna aqui no meu colo.
Julia ergueu uma sobrancelha, fingindo desconfiança.
— Por que essa solicitude repentina, Ekaterine? Você vai tentar deslocar a minha patela por causa daquela brincadeira do treinador da academia?
Kate soltou um riso anasalado, balançando a cabeça.
— Se eu quisesse quebrar você, eu fazia isso na rede, meu bem. Anda logo, antes que eu mude de ideia e deixe você mancando até a hora do jantar.
Com um muxoxo que fingia relutância, Julia deitou-se de costas no sofá macio, apoiando a cabeça em uma almofada alta e esticando a perna longa até que a panturrilha descansasse sobre as coxas de Kate. A loira posicionou os dedos compridos e fortes ao redor do joelho operado da ruiva, aplicando uma pressão firme e milimetricamente calculada sobre a fáscia muscular logo acima da articulação.
Julia soltou um chiado entre os dentes, fechando os olhos com força.
— Ai, ai, ai... cacete, Kate! Isso dói!
— Dói porque tá tudo encurtado, Julia. Você relaxa o quadril e a sobrecarga vai toda para o tendão patelar — Kate explicou com a frieza técnica de quem conhecia a anatomia de um atleta de elite tão bem quanto os próprios limites. Seus polegares trabalharam os tecidos com uma precisão cirúrgica, liberando os pontos de gatilho que estavam tensionados desde os saltos no quintal. — Respira fundo. Para de travar a respiração.
Julia obedeceu, soltando o ar devagar pela boca. A dor aguda do toque inicial começou a se transformar em uma queimação suportável, seguida por uma onda repentina de alívio e calor que parecia destravar a perna inteira.
— Tá vendo? — Kate murmurou, com um meio-sorriso vitorioso surgindo nos lábios enquanto continuava a massagem ritmada. — Não precisa de personal milagroso nenhum. As mãos russas resolvem muito melhor.
Julia abriu os olhos devagar, encontrando o olhar azul e provocador da esposa. Ela não segurou a risada frouxa, mordendo o lábio inferior.
— Eu sabia! Eu sabia que você ia achar um jeito de puxar a sardinha pra você de novo! Olha o ciúmes disfarçado de fisioterapia esportiva!
— Não é ciúmes, Bergmann. É garantia de qualidade — Kate retrucou no mesmo segundo, embora a ponta de suas orelhas ficasse ligeiramente rosada. — Eu conheço esse joelho há mais tempo do que qualquer preparador físico que você contratar.
— Conhece o joelho e o resto todo, né? — Julia provocou com a voz mais mansa e atrevida que conseguiu formular, esticando a mão para tocar a lateral do rosto de Kate, desenhando a linha forte de sua mandíbula com a ponta das unhas curtas.
Kate inclinou o rosto contra o toque, fechando os olhos por uma fração de segundo e desarmando completamente qualquer pose de autoridade.
— Conheço. E faço questão de manter a posse exclusiva — murmurou a russa, abrindo os olhos e encarando Julia com uma intensidade doce e pesada.
— Você é muito possessiva, mulher. Dá medo às vezes — Julia brincou, mas a sua mão escorregou para a nuca de Kate, acariciando os fios loiros curtos com uma ternura infinita. — Mas eu não reclamo. Até que o seu serviço de massagem é de primeira categoria. Dou cinco estrelas no aplicativo.
— Engraçadinha — Kate disse, baixando um pouco o tronco com cuidado para não acordar Noah e deixando um beijo rápido e firme nos lábios entreabertos de Julia.
Léo, que já havia terminado de guardar praticamente todos os blocos na caixa de plástico, parou no meio da sala com um bonequinho do Batman esquecido na mão. Ele olhou para as duas no sofá, com as pernas entrelaçadas e o bebê dormindo no meio, e soltou um suspiro infantil exasperado.
— Vocês duas ficam muito melosas quando o tio Lucas vai embora. Eu posso ligar a televisão logo ou vocês vão continuar se beijando aí?
Julia virou a cabeça bruscamente na almofada, fingindo um choque monumental.
— Leonardo Bergmann Antropova! Quem te deu autorização para julgar as manifestações de afeto das suas mães dentro da nossa própria residência?
— Eu tenho sete anos, mãe. Eu tenho olhos — o menino respondeu com uma solenidade perfeita, arrancando uma gargalhada genuína de Kate, que teve que enterrar o rosto no ombro de Noah para não fazer barulho e acordar o pequeno.
— Vai, Léo, liga a televisão — Kate disse entre risos contidos. — Bota no volume baixo e vem sentar aqui perto.
O garoto correu para pegar o controle remoto com a empolgação renovada, jogando-se no tapete felpudo e encostando as costas na lateral do sofá, bem ao lado de onde Julia descansava a mão. Em poucos instantes, a sala foi preenchida pelo som baixo de um desenho animado qualquer sobre corridas espaciais.
A tarde de domingo avançou preguiçosa. O sol começou a baixar lentamente no horizonte, tingindo as paredes brancas da sala com tons quentes de âmbar e cobre. Noah se mexeu algumas vezes no colo de Kate, soltando pequenos suspiros sonolentos, mas sem dar qualquer indício daquele chilique avassalador da noite anterior. Estava saciado, aquecido e cercado pelas respirações sincronizadas da família.
Julia sentia o corpo pesar em um cansaço bom, a dor no joelho reduzida a quase nada sob os cuidados de Kate. Ela esticou o braço preguiçosamente e começou a fazer carinho nos cachos vermelhos de Léo, enquanto seus pés permaneciam aninhados contra a coxa de Kate, sob o peso gostoso do cobertor fino que haviam puxado do encosto do móvel.
Kate ajeitou Noah de lado, cruzou os dedos longos com os de Julia sobre a almofada e apoiou a cabeça para trás, fechando os olhos com um longo suspiro de paz.
— Sabe de uma coisa, Ju? — Kate sussurrou, a voz suave misturando-se aos sons da televisão.
— O quê, amor?
— Se você inventar de ter o terceiro filho, igual a Gabi falou... eu acho que você enlouquece de vez.
Julia soltou uma risada nasalada e preguiçosa, apertando os dedos entrelaçados aos da russa com firmeza.
— Se eu tiver o terceiro, Ekaterine, eu coloco o nome dele de Biomecânica só para ver a sua cara todo dia de manhã.
— Nem brinca com isso — Kate resmungou de olhos fechados, mas o canto de sua boca curvou-se naquele sorriso calmo, cúmplice e absolutamente rendido que ela só reservava para a mulher ruiva ao seu lado.
Do lado de fora, a brisa do fim de tarde agitava as folhas das árvores do quintal onde haviam jogado horas antes. Mas ali dentro, entre o silêncio reconquistado da casa, o ressonar suave das crianças e o toque constante de suas mãos unidas, o mundo parecia finalmente ter entrado no ritmo perfeito.