Família vôlei(caos)
Entre Espumas e Outras Batalhas Noturnas
O crepúsculo engoliu a luz dourada do quintal com a pressa silenciosa que os domingos costumam ter. Na sala, a televisão agora exibia apenas a tela estática de um menu de videogame pausado, enquanto o relógio da parede marcava pouco mais de seis e meia da tarde. A tranquilidade conquistada a duras penas no sofá estava com os minutos contados, e Julia sabia disso com a precisão de quem conhecia a rotina biológica de dois filhos pequenos melhor do que qualquer plano tático de jogo.
Noah começou a se remexer no bebê-conforto, que havia sido trazido para perto do tapete. O menino soltou um bocejo longo, esticou os bracinhos roliços para o alto e esfregou os olhos com força, soltando aquele primeiro resmungo rouco que anunciava a transição irrevogável entre a soneca da tarde e a fome insaciável da noite.
— Acabou a trégua, Antropova — Julia sussurrou sem abrir os olhos, mantendo a cabeça encostada no ombro de Kate. — O relógio biológico da besta-fera despertou.
— Deixa de drama, Julia, ele só tá acordando — Kate respondeu em tom baixo, embora sua mão livre já estivesse alcançando o peito do bebê para afagá-lo antes que o resmungo evoluísse para um protesto formal. — E olha o respeito com o nosso filho. "Besta-fera" é você quando perde o saque na rede.
— Aquilo é frustração competitiva legítima! Uma manifestação pura de paixão pelo esporte — Julia protestou, abrindo um dos olhos e fitando a esposa com aquele seu deboche habitual. — Agora, um ser humano de cinco meses que acorda querendo drenar minha alma em forma de lactose é pura tirania.
Léo, que estava deitado no chão de barriga para baixo desenhando em um caderno velho, levantou a cabeça num salto, os cachos vermelhos caindo sobre a testa.
— Mãe, agora é a hora do banho de banheira com o Noah? Você prometeu que eu podia fazer a barba de espuma de novo!
Kate respirou fundo, sentando-se e ajeitando a postura imponente no sofá.
— Prometeu, é, Julia? — A loira arqueou uma sobrancelha na direção da ruiva. — Justo hoje que o chão do banheiro ainda tá seco da faxina de ontem?
— Eu prometi condicionalmente! A condição era que ele guardasse os brinquedos, e veja bem... — Julia apontou vagamente para a caixa plástica no canto da sala com um sorriso amarelo — ...ele guardou quase setenta por cento do material bélico infantil espalhado por aí. Isso é quase nota dez no critério de avaliação materna.
— Você amolece por qualquer coisa — Kate murmurou, fingindo repreensão enquanto pegava Noah nos braços. O bebê apoiou o queixo gordinho no ombro da mãe loira e começou a mordiscar a gola de sua camiseta, deixando uma mancha úmida de saliva no tecido. — Tá bom. Mas quem vai secar o chão depois que os dois monstros marinhos terminarem é você, dona Bergmann.
— Fechado! Parceria de sucesso — Julia bateu palmas fracas, levantando-se com aquele gemidinho característico de dor nas costas que ela não conseguia evitar após um dia inteiro de saltos e quedas na grama. — Léo, operação espuma ativada. Vamos lá para cima antes que o seu irmão resolva mastigar a orelha da Kate.
O banheiro da suíte principal era espaçoso, projetado sob medida para acomodar o tamanho incomum de duas mulheres de quase dois metros de altura, mas mesmo assim parecia pequeno quando a hora do banho das crianças começava. A banheira funda já estava pela metade, com a água morna soltando uma névoa suave que cheirava a lavanda e camomila.
Léo pulou para dentro com um estardalhaço controlado, já esfregando o sabonete líquido entre as mãos para criar a famigerada barba branca no queixo. Do lado de fora, ajoelhadas sobre toalhas felpudas dobradas para proteger os joelhos operados, Julia e Kate trabalhavam em sincronia perfeita. Kate segurava Noah com firmeza sob as axilas, submergindo o corpinho rechonchudo devagar até que a água cobrisse a barriga dele.
O bebê soltou um arquejo de surpresa, abriu a boca sem dentes e, em seguida, bateu as duas mãos com força na superfície da água, espirrando uma onda direta no rosto de Julia.
Julia permaneceu congelada por três segundos, com a água escorrendo pela ponta do nariz e molhando os fios ruivos soltos ao redor da testa. Léo gargalhou tão alto que quase engoliu um pedaço de espuma.
— Olha só — Julia disse, a voz monótona e carregada de falso ressentimento enquanto encarava o caçula —, a gratidão filial em sua forma mais pura. Eu passei nove meses sem poder tomar um espumante decente por sua causa, Noah. Nove meses.
— Ele tá batendo perna igual a um sapinho, mãe! Olha! — Léo apontou animado, espirrando mais um pouco de água para incentivar o irmão.
— Léo, sem ondas gigantes, senão vai água no olho dele — Kate interveio com a sua autoridade tranquila, mantendo o polegar apoiado com segurança no queixo de Noah para evitar que a cabecinha pesada tombasse. — Julia, pega o shampoo neutro ali na bancada antes que esse menino comece a esfregar sabão na cara.
Julia esticou o braço comprido, alcançou o frasco amarelo e derramou uma pequena quantidade na palma da mão.
— Abaixa a cabeça, sargentinho loiro — murmurou a ruiva, espalhando a espuma suave sobre a penugem dourada do bebê. — Se você chorar agora, a mãe Kate vai dizer que a culpa é da minha falta de jeito, e eu tenho uma reputação de delicadeza a zelar.
— Delicadeza de um trator — Kate retrucou de imediato, mas os cantos de seus lábios se curvaram em um sorriso carinhoso. Ela olhou para as mãos de Julia massageando o couro cabeludo de Noah com uma suavidade meticulosa, contrastando totalmente com a pose de durona que a brasileira gostava de ostentar. — Deixa que eu enxáguo.
Com uma caneca de plástico macio, Kate despejou água morna com cuidado, protegendo a testa do bebê com a mão espalmada. Noah fechou os olhos com força, bufou uma bolha pelo nariz e soltou um gritinho agudo de satisfação, chutando a água com tanta energia que a camiseta cinza de Kate ficou imediatamente encharcada na altura do peito.
— Bem feito — Julia zombou na hora, cruzando os braços molhados e apoiando-os na borda de porcelana da banheira. — O feitiço virou contra a feiticeira russa. Agora você tá tão ensopada quanto eu.
— Pelo menos eu não fiquei com cara de peixe assustado igual você quando ele espirrou — rebateu Kate, inclinando-se para dar um beijo molhado na bochecha de Noah. — Vamos tirar você daqui, meu gordinho, antes que a sua pele comece a enrugar.
A dinâmica pós-banho foi um verdadeiro teste de agilidade atlética. Kate enrolou Noah na toalha felpuda com capuz de orelhas de urso e o levou para a bancada do trocador no quarto ao lado, enquanto Julia supervisionava a saída de Léo, embrulhando o primogênito em um roupão verde e enxugando os cachos ruivos dele com uma toalha grossa, chacoalhando a cabeça do menino até ele rir e pedir para parar.
— Pronto, cabeção de fósforo. Pijama direto, sem escala na sala de videogame, ouviu bem? — Julia instruiu, dando um tapinha afetuoso no bumbum do garoto.
— Mas a gente nem jantou ainda! — Léo reclamou, arrastando os chinelos pelo corredor.
— Vai comer o resto do espaguete que a tia Gabi não devorou. Desce que eu já vou esquentar — respondeu Julia, já pegando um rodo pequeno no canto do banheiro para puxar a poça d'água que havia se acumulado perto do ralo, exatamente como havia prometido.
Enquanto passava o rodo com movimentos automáticos e práticos, Julia olhou para o reflexo no espelho embaçado. Havia olheiras sutis sob seus olhos verdes, resquício das madrugadas interrompidas e da rotina exaustiva que mesclava o retorno aos treinos de alto rendimento com a maternidade em dose dupla. No entanto, havia também uma luz serena ali, um tipo de felicidade densa e enraizada que ela jamais imaginara encontrar quando era apenas uma garota de dezenove anos sonhando em ser titular na Europa.
Quando voltou ao quarto, encontrou Kate sentada na beirada da cama king-size, vestindo uma calça de moletom larga e uma regata preta limpa. Noah já estava de fralda e macacão de algodão listrado, estirado de barriga para cima enquanto Kate aplicava pomada em suas dobrinhas com uma paciência infinita. O bebê agarrava os próprios pés com as mãos, emitindo pequenos gorgolejos enquanto tentava enfiar o dedão na boca.
Julia encostou no batente da porta, cruzando os tornozelos e observando a cena em silêncio por alguns instantes.
— O que foi? — Kate perguntou sem erguer o olhar, mas sentindo o peso da observação. — Tá me olhando com essa cara de quem vai pedir pra eu fazer o jantar.
— Nada — Julia sorriu de lado, caminhando até a cama e sentando-se atrás de Kate, envolvendo a cintura longa da esposa com os braços e apoiando o queixo em seu ombro ossudo. — Só tava pensando que você leva jeito pra cuidar de coisas pequenas. O que é uma ironia gigantesca, considerando que você mede quase dois metros de puro perigo.
Kate soltou uma risada nasalada, inclinando a cabeça para encostar a bochecha na de Julia. A pele da ruiva ainda cheirava ao sabonete de camomila das crianças.
— Alguém tem que ter delicadeza nessa família, Bergmann. Se dependesse de você, o Noah já estaria aprendendo a fazer rolamento defensivo no chão do quarto.
— Não seria uma má ideia — Julia murmurou, apertando o abraço e deixando um beijo na curva do pescoço de Kate, onde a pele era sempre quente e cheirava a lavanda. — Fortalece o reflexo.
Noah viu a mãe ruiva se aproximar e começou a agitar os braços com urgência, emitindo um choramingo curto que não deixava margem para dúvidas: o banho havia aberto o apetite do monstrinho.
— Toma o seu parceiro de treino — Kate disse, pegando o bebê com cuidado e virando-se para colocá-lo no colo de Julia. — Ele quer o combustível dele antes de apagar. Eu vou lá embaixo colocar a comida do Léo e dar um jeito na louça que sobrou do almoço.
— Deixa que a louça eu... — Julia começou a falar, mas Kate a calou com um toque firme de indicador sobre seus lábios.
— Deita aí e alimenta o nosso filho, Julia. Você passou a madrugada inteira em claro naquela rede. Eu cuido do resto lá embaixo.
Julia sustentou o olhar azul de Kate por um momento longo, sentindo o calor do afeto prático e silencioso que a russa sempre demonstrava. Sem dizer mais nada, a ruiva apenas assentiu, beijando a ponta do dedo de Kate antes que ela se levantasse da cama.
— Traz uma garrafa d'água quando você subir? — Julia pediu manhosa, ajeitando a alça da própria blusa para liberar o seio.
— Sempre trago, sua folgada — Kate respondeu da porta, lançando uma piscadela rápida antes de descer as escadas em passos silenciosos.
No quarto na penumbra, iluminado apenas pela luz suave do abajur de cabeceira, o ritmo da noite desacelerou completamente. Noah agarrou o peito de Julia com a avidez costumeira, fechando os olhinhos azuis quase no mesmo instante em que o leite começou a descer. O calor do corpinho pesado do bebê contra as costelas de Julia era uma âncora reconfortante. Ela acariciava os fios ralos e dourados da cabecinha dele com o polegar, sentindo a respiração miúda ir diminuindo de compasso, abandonando a pressa e entrando naquele transe preguiçoso que antecedia o sono profundo.
Dessa vez, não houve abuso. Não houve dancinhas com o bico do peito, nem risadinhas banguelas para testar a paciência da mãe ruiva. O cansaço da água morna e a barriga cheia haviam vencido a teimosia russa do garoto.
Cerca de vinte minutos depois, passos suaves soaram no corredor. Léo apareceu na porta, já vestindo um pijama azul-marinho e segurando um livro de capa dura sobre os oceanos debaixo do braço. Ele entrou na ponta dos pés, com uma consideração comovente para não acordar o irmãozinho.
— Mãe Ju? — o garoto sussurrou, parando ao lado da cama.
— Oi, meu amor. Comeu tudo?
— Comi. A mãe Kate me deu duas fatias de melancia também — Léo contou com orgulho, subindo na cama com cuidado e rastejando até o outro lado do colchão, deitando-se ao lado de Julia. — Você lê a história dos polvos gigantes pra mim?
Julia ajeitou Noah, que agora dormia pesadamente, desvencilhado do peito, e o acomodou no ninho protetor de almofadas no centro da cama antes de se virar de lado para encarar o filho mais velho.
— Leio, mas só duas páginas, tá bem? Porque se eu ler a terceira, quem vai dormir em cima do livro sou eu.
Léo abriu o livro com cuidado, apontando com o dedinho para a ilustração escura de uma lula colossal no fundo do mar.
— Sabia que os polvos têm três corações, mãe?
Julia sorriu, passando o braço por cima dos ombros do menino e puxando-o para perto, beijando o topo de seus cachos ruivos.
— Três corações? Que exagero. Um coração já dá um trabalho danado pra gente cuidar, imagina três.
— Mas se você tivesse três, dava pra amar mais gente ao mesmo tempo — Léo argumentou com a lógica pura e desarmante dos sete anos, virando o rosto para encará-la. — Dava pra ter um coração pra mim, um pro Noah e um pra mãe Kate.
O peito de Julia deu um aperto doce, uma sensação tão quente que fez seus olhos arderem por um breve segundo. Ela apertou o abraço, sentindo o cheiro familiar de xampu infantil no menino que parecia crescer rápido demais a cada temporada de viagens.
— Meu amor... a mamãe só tem um coração no peito, mas eu juro pra você que ele é do tamanho de uma quadra inteira de vôlei. Cabe vocês três lá dentro com folga, e ainda sobra espaço pra fazer muita bagunça.
Léo sorriu, satisfeito com a resposta, e apoiou a cabeça no braço de Julia enquanto ela começava a ler em voz baixa, modulando as palavras de forma rítmica e calma sobre as profundezas do oceano.
Quando Kate entrou no quarto trazendo uma garrafa térmica de água e duas canecas de chá de camomila, encontrou a cena que mais amava no mundo: Léo já estava capotado de lado, com o livro aberto sobre a barriga e a boca ligeiramente aberta, ressonando baixinho, enquanto Noah dormia profundamente em seu casulo de almofadas. Julia ainda fingia ler, mas suas pálpebras pesavam tanto que ela parecia prestes a deixar a cabeça tombar contra as páginas.
Kate colocou as coisas na mesinha de cabeceira e caminhou até a cama sem fazer ruído. Com uma facilidade impressionante, ela pegou Léo nos braços, acomodando o garoto de sete anos contra o peito com a força serena de sempre.
— Eu levo ele pro quarto dele — Kate sussurrou no ouvido de Julia, que piscou assustada ao despertar do transe.
— Uhum... cuidado com a cabeça dele no batente da porta — Julia murmurou, a voz completamente pastosa.
— Eu sei cuidar do meu filho, Bergmann — Kate respondeu com um sorrisinho suave antes de sumir pelo corredor escuro.
Julia aproveitou os minutos a sós para transferir Noah para o berço acoplado que ficava ao lado da cama. O bebê nem sequer se moveu; apenas virou a bochechinha gordinha para o lado e soltou um suspiro profundo, mergulhado em um sono pesado e restaurador que prometia durar a noite inteira.
Quando Kate retornou, fechou a porta do quarto quase por completo, deixando apenas uma fresta para que a luz fraca do corredor iluminasse o chão. A loira apagou o abajur, deixando o cômodo banhado pela penumbra azulada da noite de domingo, e deslizou para debaixo dos lençóis macios ao lado de Julia.
A cama espaçosa de repente pareceu pequena pelo modo como Julia imediatamente se arrastou pelo colchão até colar o corpo comprido contra o de Kate. A ruiva jogou uma perna pesada por cima das coxas da russa, enfiando o nariz gelado na curva do pescoço dela com um suspiro que parecia descarregar o peso de uma semana inteira de treinos e madrugadas em claro.
— Ai... finalmente o silêncio — Julia murmurou, com a voz abafada contra a pele de Kate. — Se alguém bater nessa porta nas próximas oito horas, eu finjo que me mudei de país.
Kate passou os dedos longos pelos cabelos ruivos e rebeldes de Julia, desembaraçando os fios com uma lentidão carinhosa.
— Você não fingiria nada. No primeiro choro do Noah você já estaria de pé inventando que a culpa é minha.
— É a sua genética de urso teimoso, amor. Eu tenho que colocar a culpa em alguém para manter a minha paz de espírito.
Kate soltou uma risada baixa, o peito vibrando suavemente sob a bochecha de Julia.
— O Lucas mandou mensagem — Kate avisou, a voz diminuindo de tom. — Disse que a Gabi embarcou sem problemas e que ele já estava voltando pro apartamento dele.
Julia sorriu contra o pescoço da esposa, sentindo uma pontada boa de alívio fraterno.
— Menos mal. Fico feliz que ele tenha desencanado daquela ideia torta. A Gabi é incrível, mas o Luquinhas ia quebrar a cara feio se tentasse alguma gracinha.
— Você foi uma boa irmã ontem à noite — Kate elogiou, os dedos descendo pela nuca de Julia e massageando a linha tensa dos ombros com firmeza reconfortante. — Por trás desse deboche todo, você ainda tem um coração funcionando aí dentro.
— Léo me disse hoje que polvos têm três corações — Julia comentou preguiçosamente, fechando os olhos enquanto aproveitava o toque das mãos de Kate. — Eu falei pra ele que o meu é do tamanho de uma quadra inteira.
Kate parou o movimento das mãos por um segundo, inclinando o queixo para fitar a ruiva na escuridão suave do quarto. Havia uma ternura tão crua e desarmada na expressão da loira que Julia quase perdeu o fôlego, mesmo depois de tantos anos compartilhando a mesma vida.
— É mesmo? — Kate sussurrou, a voz macia. — E sobrou espaço suficiente pra mim nessa quadra aí?
Julia ergueu o rosto devagar, encarando as íris claras de Kate que brilhavam mesmo na penumbra. O sorriso que brotou nos lábios da brasileira foi lento, despido de qualquer zombaria ou provocação, carregando apenas a certeza absoluta do amor que as unia.
— Você é a dona da quadra, Ekaterine. O resto é só a torcida que a gente colocou no mundo para fazer barulho.
Kate não respondeu com palavras. Ela apenas aproximou o rosto, segurando a mandíbula de Julia com a mão firme e puxando-a para um beijo calmo, profundo e demorado. Era um beijo que tinha o gosto da cumplicidade construída em viagens intermináveis, das dores compartilhadas no gelo após finais perdidas e do triunfo diário de manter uma família de pé em meio ao turbilhão do esporte profissional.
Quando se separaram, Julia descansou a testa contra a de Kate, respirando o mesmo ar.
— Promete que amanhã você não vai ficar de cara feia quando eu for pra academia? — Julia sussurrou, incapaz de segurar a alfinetada final.
Kate soltou um estalo com a língua e puxou a orelha da ruiva de brincadeira, fazendo-a soltar um "ai" manhoso e abafado.
— Eu nunca estive de cara feia, Julia. Mas se aquele homem mandar você fazer agachamento que trave a sua lombar de novo, eu vou lá pessoalmente ensinar para ele como a seleção russa faz bloqueio na rede.
— Ai, que medo da minha esposa violenta — Julia riu baixinho, aninhando-se ainda mais contra o peito largo de Kate, sentindo o calor seguro daquele abraço que era o seu verdadeiro lar. — Boa noite, meu amor.
— Boa noite, ruiva — Kate murmurou de volta, beijando o topo de sua cabeça avermelhada uma última vez antes de fechar os olhos.
No berço ao lado, a respiração de Noah continuava serena e ritmada, sem tempestades à vista. No quarto ao final do corredor, Léo dormia sonhando com lulas gigantes e bolas de vôlei. E ali, enroladas nos mesmos lençóis sob a quietude da noite que finalmente se assentava, as duas atletas descansavam, prontas para enfrentar qualquer jogo que a vida decidisse armar na manhã seguinte.