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Family chaos

O Caos tem Nome, Sobrenome e uma Mesada em Risco

A partida de Charlotte nas primeiras horas da manhã de segunda-feira deixou um vácuo de autoridade na mansão que nem mesmo o perfume caro de Engfa conseguia preencher. Antes de cruzar a porta, a advogada, com a precisão de quem redige um contrato de fusão multibilionário, deixou um envelope pardo sobre a mesa de jantar. Dentro, três folhas de papel timbrado com as "Diretrizes de Convivência Temporária Austin Waraha".

— "Regra número quatro: Proibido qualquer tipo de sarcasmo destrutivo direcionado à sanidade mental de Engfa Waraha durante o horário comercial" — leu Sonya em voz alta, enquanto mastigava uma torrada. — "Punição: Corte de 20% na mesada por infração". Mamãe Charlotte não brinca em serviço.

— "Regra número sete" — continuou Becky, analisando o documento com um olhar clínico —, "Proibido mencionar o nome de Patcha Napatsa em contextos românticos, platônicos ou poéticos na presença de Engfa". Essa foi cirúrgica. Ela sabe que a mamãe Engfa está a um passo de ter um tique nervoso.

Snack, sentada na ponta da mesa, apenas suspirou. Ela sentia falta da mãe Charlotte não apenas pelo afeto, mas porque Charlotte era o escudo humano entre ela e a intensidade vulcânica de Engfa.

— Onde ela está? — perguntou Snack, referindo-se a Engfa.

— No escritório — respondeu Becky. — Ela teve três reuniões por vídeo antes das oito da manhã e eu a ouvi discutindo com um investidor sobre por que ele não deveria ser um idiota completo. O humor dela está... digamos, refrescante.

No escritório, Engfa Waraha sentia que sua cabeça ia explodir. Ser CEO da Waraha Corp já era um fardo pesado, mas ser a autoridade máxima de uma casa cheia de jovens adultas sarcásticas sem o apoio tático de Charlotte era o verdadeiro desafio. Ela ajustou os óculos, os olhos castanhos-escuros grudados na planilha de lucros trimestrais, quando a porta se abriu.

— Mãe? — Sonya colocou a cabeça para dentro, exibindo o sorriso mais angelical de seu repertório.

— Sonya, se você quebrou algo, a regra número dois diz que o conserto sai do seu fundo de reserva — disse Engfa, sem tirar os olhos da tela.

— Eu não quebrei nada! — Sonya entrou, sentando-se na cadeira à frente da mesa da mãe. — Na verdade, eu queria pedir uma coisa. Algo que vai alegrar esta casa agora que a mamãe Charlotte nos abandonou à própria sorte.

Engfa finalmente levantou o olhar, a sobrancelha arqueada em um ângulo perigoso.

— O que você quer, Sonya?

— Eu queria trazer a Lookmhee aqui hoje. Para jantar. Sabe, para ela conhecer a família... conhecer a senhora. Oficialmente.

Engfa soltou a caneta sobre a mesa. O barulho ecoou no escritório silencioso.

— Sonya, olha para o meu rosto — Engfa apontou para as próprias olheiras. — Eu tive uma manhã infernal. A Snack está apaixonada pela minha melhor amiga, a Becky está agindo como se fosse a reencarnação do Sherlock Holmes e eu tenho dois investidores tentando me passar a perna. Eu não tenho paciência para lidar com pessoas de fora agora.

— Mas a Lookmhee não é "gente de fora", mãe! — Sonya protestou, inclinando-se para frente. — Ela é a representante do campus. Ela é organizada, inteligente, fofa e... ela me acalma! Você não quer sua filha primogênita calma?

Engfa suspirou profundamente. Ela conhecia aquele jogo. Sonya era 70% ela, o que significava que a persistência era uma arma biológica.

— Deixe-me adivinhar — disse Engfa, cruzando os braços. — Se eu disser não, você vai passar o resto da semana sendo "hiperativa" e "bagunceira", como diz a sua descrição de personagem, certo?

— Eu jamais usaria táticas de chantagem emocional contra a minha própria mãe — mentiu Sonya, piscando os olhos.

— Tudo bem — cedeu Engfa, massageando as têmporas. — Traga a Lookmhee. Mas eu tenho uma pergunta. E responda com a verdade, porque eu vou conferir o RG dela. Quantos anos ela tem?

— Vinte e um, mãe! — Sonya exclamou, rindo. — Ela é da minha sala. Mesma idade, mesma maturidade... bem, ela é mais madura que eu, mas isso não é difícil.

— Ótimo — murmurou Engfa. — Pelo menos uma de vocês tem um gosto que não me faz querer consultar o código penal ou o estatuto do idoso.

O resto do dia de Engfa foi um borrão de contratos e chamadas de vídeo. Ela se sentia como uma equilibrista em cima de uma corda bamba feita de seda, prestes a arrebentar. Patcha ligou no meio da tarde, e Engfa quase não atendeu.

— Eng? — a voz de Patcha era calma, o que só irritava Engfa mais. — Como estão as coisas por aí? Charlotte me disse que viajou.

— As coisas estão um caos, Patcha. Um caos Austin Waraha clássico — Engfa girou a cadeira, olhando pela janela. — E antes que você pergunte, a Snack está bem. Ela está... processando as coisas.

— Eng, eu realmente sinto muito por esse desconforto — Patcha disse com sinceridade. — Eu gosto muito da Snack, mas como uma sobrinha. Você sabe disso.

— Eu sei, Patcha. Eu sei. Mas tente dizer isso para os hormônios de uma garota de dezenove anos que acha que você é a deusa do mundo corporativo — Engfa suspirou. — Só... me dê um tempo. E não apareça aqui por uns dias. Eu preciso que o perfume amadeirado que você usa saia das cortinas da minha sala.

— Justo — Patcha riu suavemente. — Boa sorte com as meninas.

Às sete da noite, a campainha tocou. Engfa, que já havia trocado o terno por uma calça de linho e uma camisa social levemente aberta — o uniforme de "mãe intimidadora, porém casual" —, desceu as escadas. Snack e Becky já estavam na sala, observando a movimentação com um misto de curiosidade e preocupação.

Sonya abriu a porta com um entusiasmo que beirava a hiperatividade.

— Ela chegou! Mãe, meninas, esta é a Lookmhee Punyapat.

Uma jovem de aparência doce, mas com um olhar firme e inteligente, entrou na sala. Ela vestia um conjunto elegante, nada exagerado, e trazia uma cesta de frutas e doces finos.

— Boa noite — disse Lookmhee, curvando-se levemente em respeito a Engfa. — É uma honra finalmente conhecê-la, Sra. Waraha. Sonya fala muito da senhora.

Engfa estreitou os olhos, ajustando os óculos. Ela caminhou lentamente até a jovem, ignorando o olhar de "por favor, não seja estranha" que Sonya lhe lançava.

— Sra. Waraha, não. Pode me chamar de Engfa — disse ela, a voz carregada de uma autoridade natural. — Mas antes de sentarmos, vamos esclarecer alguns pontos, Lookmhee.

— Mãe, não comece... — Sonya tentou intervir.

— Silêncio, Sonya. A Charlotte não está aqui, eu sou o tribunal hoje — Engfa apontou para o sofá. — Sente-se, Lookmhee.

A jovem obedeceu, mantendo uma postura impecável que até Charlotte aprovaria. Becky e Snack sentaram-se nas poltronas laterais, assistindo ao espetáculo.

— Sonya me disse que você tem vinte e um anos — começou Engfa, sentando-se à frente dela e cruzando as pernas. — De que mês?

— Junho, Sra... Engfa — respondeu Lookmhee, sem gaguejar.

— Gêmeos. Interessante — murmurou Engfa. — E quais são suas intenções com a minha filha? E não me venha com respostas vagas. Eu sou CEO, eu trabalho com metas e resultados.

Lookmhee respirou fundo. Ela parecia ter se preparado para aquele interrogatório.

— Minhas intenções são conhecer a Sonya além do que vejo na faculdade. Ela é... intensa, como a senhora deve saber. Mas ela tem um coração enorme e uma energia que eu admiro. Eu não estou aqui para brincar com os sentimentos dela, nem para causar problemas na sua família.

Engfa arqueou uma sobrancelha.

— Ela é bagunceira, sarcástica e tem o hábito de testar a paciência de qualquer ser vivo em um raio de cinco quilômetros — listou Engfa. — Como você lida com isso?

— Eu sou a representante do campus, Engfa — Lookmhee sorriu levemente. — Eu lido com centenas de alunos como a Sonya todos os dias. Eu tenho paciência de sobra. E, honestamente, eu acho o sarcasmo dela charmoso.

— Charmoso? — Snack sussurrou para Becky. — Ela é louca.

— Ou muito corajosa — Becky sussurrou de volta.

O interrogatório continuou por mais vinte minutos. Engfa perguntou sobre os planos de carreira de Lookmhee, sua opinião sobre ética profissional e até o que ela achava de boxe — um teste para ver se ela se daria bem com Becky. Lookmhee respondeu a tudo com uma calma pragmática que começou, lentamente, a desarmar a guarda de Engfa.

— Tudo bem — disse Engfa, finalmente relaxando os ombros. — Você passou na primeira fase. Sonya, leve-a para a sala de jantar. A comida deve estar pronta.

O jantar foi surpreendentemente agradável. Sonya estava radiante, Lookmhee conseguiu manter uma conversa inteligente com Becky sobre política universitária e até Snack se sentiu à vontade para falar sobre seus estudos, já que Lookmhee não a tratava como uma criança.

No entanto, Engfa permanecia observadora. Ela via o jeito que Sonya olhava para Lookmhee — um brilho de admiração genuína que a lembrava de si mesma quando conheceu Charlotte. Aquilo a acalmava, mas também a deixava melancólica.

Quando o jantar terminou e Lookmhee se despediu, Sonya a acompanhou até o carro. Engfa ficou na varanda, observando as duas.

— Ela é legal, mãe — disse Snack, aproximando-se da mãe. — Você não precisava ter sido tão... "Engfa Waraha" com ela.

— Eu preciso ser quem eu sou para garantir que quem entra nesta casa é digno de vocês — respondeu Engfa, passando o braço pelos ombros da caçula. — E você, Snack? Como está o coração hoje?

Snack encostou a cabeça no ombro da mãe.

— Está mais calmo. Ver a Sonya com a Lookmhee me fez pensar que... talvez eu deva procurar alguém que não seja a melhor amiga da minha mãe. Alguém que seja só "meu", sabe?

Engfa beijou o topo da cabeça de Snack.

— É a coisa mais inteligente que você disse esta semana.

Mais tarde, no silêncio do seu quarto, Engfa pegou o celular e iniciou uma chamada de vídeo. Demorou alguns segundos até que o rosto cansado, mas ainda deslumbrante, de Charlotte aparecesse na tela.

— Oi, meu amor — disse Charlotte, um meio sorriso surgindo ao ver a esposa. — Como foi o primeiro dia do apocalipse?

— Char, eu estou exausta — Engfa se jogou na cama, o celular apoiado no travesseiro. — A Sonya trouxe a tal da Lookmhee. Eu a interroguei por meia hora. Perguntei até o signo e as metas de longo prazo.

Charlotte soltou uma risada alta, jogando a cabeça para trás.

— Engfa! Você prometeu que ia ser uma mãe normal!

— Eu fui normal! — defendeu-se Engfa. — Eu fui uma mãe Waraha normal. A menina é boa, Char. Ela é firme, não se assustou com o meu "olhar de CEO" e parece gostar da Sonya de verdade. Ela até disse que o sarcasmo da nossa filha é "charmoso".

— Ela é uma santa, então — brincou Charlotte. — E as outras?

— Becky está sendo a Becky, observando tudo e fazendo anotações mentais para nos chantagear no futuro. E a Snack... tivemos uma conversa boa. Acho que ela está começando a entender que a Patcha é um território proibido.

Charlotte suspirou, o olhar ficando mais terno.

— Eu sinto sua falta, Eng. Chiang Mai é linda, mas a cama do hotel é grande demais sem você reclamando que eu estou roubando o cobertor.

— Eu também sinto sua falta, deusa — Engfa sorriu, o cansaço parecendo diminuir apenas por ouvir a voz da esposa. — Volte logo. Eu não sei se sobrevivo a mais um jantar de apresentação. Se a Becky decidir trazer a capitã do boxe aqui, eu vou ter que contratar um árbitro oficial.

— Você vai se sair bem — garantiu Charlotte. — Você é a pessoa mais forte que eu conheço, Engfa Waraha. Mesmo que você seja um desastre lidando com os sentimentos das nossas filhas.

— Eu te amo, Charlotte Austin.

— Eu te amo, Engfa Waraha. Agora vá dormir. Você tem mais três dias de "Diretrizes de Convivência" pela frente.

Engfa desligou o celular com um sorriso bobo nos lábios. Ela olhou para o teto, ouvindo o som abafado das filhas conversando no corredor antes de irem dormir. O caos ainda estava lá, os segredos ainda pairavam no ar e a ausência de Charlotte ainda doía, mas, por aquela noite, a mansão Austin Waraha estava em paz.

Ela fechou os olhos, sabendo que, no dia seguinte, tudo começaria de novo. O sarcasmo, as paixões secretas, as disputas de mesada e a eterna vigilância de uma mãe que amava demais. Mas, como Charlotte sempre dizia, aquele era o legado delas. E Engfa não mudaria uma única vírgula daquela história.