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fanfic 1

Silêncio de Ouro e Sombras de Couro

O interior do ônibus da universidade era um santuário de sombras e ar-condicionado gelado, contrastando drasticamente com o calor sufocante e o barulho ensurdecedor do ginásio que haviam acabado de deixar. Os jogadores reservas e a equipe técnica ocupavam a parte da frente, mas o fundo — uma área isolada por uma divisória de vidro fumê — pertencia exclusivamente aos Katsaros e seus tesouros.

Thiago encostou a cabeça no vidro frio da janela, observando as luzes do campus passarem como borrões coloridos. A adrenalina, que antes o mantinha alerta e vibrante, estava se dissipando, deixando em seu lugar uma exaustão pesada que parecia transformar seus ossos em chumbo. Suas coxas gordinhas, ainda expostas pelo uniforme curto, latejavam levemente; ele não estava acostumado a ficar sentado em uma postura tão rígida por tanto tempo sob o olhar vigilante de Caius.

Ao seu lado, Mateo parecia estar em um estado similar de torpor. O espanhol, geralmente o mais falante, tinha os olhos semicerrados e a cabeça pendendo levemente para o ombro de Alejandro. No entanto, ele não ousava fechar os olhos completamente. A regra era clara: atenção total até o destino final.

— Estão quietos demais — a voz de Daiki cortou o silêncio como um chicote. Ele estava sentado de frente para Yuki, observando como o pequeno japonês lutava contra um bocejo. — Onde foi parar toda aquela energia que usaram para se atrasar e atrair olhares indesejados na arquibancada?

Yuki estremeceu, endireitando a coluna imediatamente. Ele olhou para Daiki, encontrando os olhos do Alpha brilhando na penumbra do ônibus.

— Estamos cansados, Alfa... — sussurrou Yuki, sua voz saindo mais rouca do que pretendia. — Foi um jogo longo.

— Um jogo longo para nós, que estávamos em quadra — rebateu Alejandro, apertando a cintura de Mateo com uma força que o fez soltar um ganido baixo. — Para vocês, deveria ter sido apenas um exercício de paciência e lealdade. Mas parece que até isso esgota as energias dos nossos ômegas.

Caius, que estava sentado ao lado de Thiago, não disse nada por um longo tempo. Ele apenas observava o brasileiro. Sua mão grande e calejada subiu pela coxa de Thiago, os dedos traçando padrões circulares na pele macia, subindo perigosamente perto da borda do uniforme. O toque era possessivo, uma reivindicação silenciosa que fazia o coração de Thiago martelar contra as costelas, apesar do cansaço.

— Você está tremendo, Thiago — observou Caius. Não era uma pergunta, era uma constatação.

— É o ar-condicionado, Alfa — mentiu Thiago, embora soubesse que era inútil mentir para um Prime.

Caius soltou um riso baixo, um som gutural que vibrou no peito do brasileiro.

— Não é o frio. É a antecipação. Você sabe que o silêncio no ônibus é apenas o prelúdio para o que vai acontecer no apartamento.

Thiago engoliu em seco. Ele olhou para os amigos. Julian estava com o olhar fixo no colo, as mãos entrelaçadas, enquanto Étienne passava os dedos pelo cabelo loiro do francês com uma delicadeza que escondia uma possessividade feroz. Eles eram como quatro pequenas presas cercadas por predadores que, embora tivessem acabado de se banquetear com a vitória na quadra, ainda estavam famintos.

— Eu sinto o cheiro do medo de vocês misturado com a exaustão — disse Étienne, sua voz suave preenchendo o espaço confinado. — É um aroma delicioso. Lavanda cansada, cereja amedrontada... vocês quatro são tão fáceis de ler.

— Nós não fizemos nada de errado depois do aviso, Étienne — Julian ousou dizer, sua voz elegante mantendo a dignidade. — Nós seguimos todas as regras. Ficamos sentados, olhamos para vocês e viemos direto para cá.

— Vocês seguiram as regras porque não tinham escolha — Alejandro interveio, inclinando-se para frente. — Mas o fato de aquele Alpha ter se sentido confortável o suficiente para piscar para o Thiago... isso significa que vocês não estão exalando "pertencimento" o suficiente. Estão sendo fofos demais, acessíveis demais.

Mateo arregalou os olhos, a exaustão sendo substituída por uma pontada de pânico.

— Mas nós usamos as coleiras! Usamos os nomes de vocês! — protestou o espanhol. — O que mais poderíamos fazer?

— Silêncio — ordenou Caius, e a autoridade em sua voz foi tão absoluta que o ar pareceu fugir dos pulmões dos quatro ômegas. — Não demos permissão para debaterem.

O ônibus mergulhou novamente no silêncio, mas agora era um silêncio carregado, elétrico. Thiago sentia o peso do olhar de Caius sobre si, uma pressão constante que o impedia de relaxar. Ele queria fechar os olhos, queria se encolher no peito largo do seu Alpha e dormir por dez horas, mas sabia que o "castigo" ou a "lição" que os aguardava não permitiria tal luxo.

Os Katsaros eram conhecidos por sua resistência sobre-humana. Eles haviam jogado quatro quartos de basquete intenso, haviam corrido, saltado e lutado fisicamente contra outros Alphas, e ainda assim pareciam prontos para outra maratona. Era a maldição e a benção de ser um Prime; a energia deles era inesgotável, especialmente quando alimentada pela possessividade.

— Quando chegarmos — começou Daiki, olhando para Yuki —, vocês quatro vão direto para o banho. Juntos. Quero que limpem qualquer vestígio do ar daquele ginásio de suas peles. Quero que esfreguem o cheiro de outros Alphas que possa ter se impregnado em suas roupas.

— E depois? — perguntou Yuki, a voz trêmula.

— Depois — disse Alejandro com um sorriso predatório —, vocês vão esperar no centro da sala, de joelhos, até que cada um de nós decida como vai marcar vocês para que ninguém mais ouse sequer olhar na direção da nossa propriedade.

Thiago sentiu um nó na garganta. O conceito de "propriedade" era algo que eles aceitavam e até desejavam, mas a intensidade dos Katsaros naquela noite estava em um nível alarmante. O jogo não havia apenas vencido o time rival; havia despertado o instinto mais primitivo dos quadrigêmeos.

O ônibus finalmente parou em frente ao prédio da fraternidade Alpha Sigma. O motorista e os outros jogadores saíram rapidamente, sabendo que não deveriam ficar por perto quando os Katsaros estavam naquele humor.

— Levantem-se — ordenou Caius.

Os quatro ômegas se levantaram, suas pernas vacilando um pouco pela fadiga e pelo nervosismo. Eles saíram do ônibus em fila, cercados pelos quatro gigantes. O caminho até o elevador privativo foi um borrão de tapetes caros e luzes suaves.

Dentro do elevador, o espaço era ainda mais reduzido. Thiago podia sentir o calor emanando do corpo de Caius, o cheiro de sândalo e poder envolvendo-o como um cobertor pesado. Ele olhou para o reflexo no espelho do elevador: quatro ômegas gordinhos, vestindo uniformes largos, com coleiras brilhantes e rostos cansados, cercados por quatro versões do mesmo homem, cada um mais imponente que o outro.

Quando as portas se abriram no andar da cobertura, o aroma de casa — uma mistura dos perfumes dos oito habitantes — os recebeu. Mas não parecia o lar acolhedor de sempre; parecia uma arena.

— Pro banheiro. Agora — disse Alejandro, apontando para a suíte principal que possuía uma banheira de hidromassagem grande o suficiente para todos.

Os quatro amigos caminharam rapidamente, sem olhar para trás. Ao entrarem no banheiro luxuoso, Mateo fechou a porta e encostou-se nela, soltando um suspiro trêmulo.

— Gente... o que a gente faz? — sussurrou Mateo. — Eles estão furiosos. Eu nunca vi o Alejandro com aquele olhar de "eu vou te devorar e não vai sobrar nem os ossos".

— Eles não estão furiosos com a gente, exatamente — disse Julian, começando a tirar sua coleira com mãos trêmulas. — Eles estão furiosos com o mundo. Aquele Alpha no ginásio... ele acendeu um pavio que estava curto desde que nos atrasamos.

Thiago começou a tirar o uniforme, sentindo o ar frio do banheiro contra sua pele úmida de suor. Ele se olhou no espelho, vendo as marcas leves que a coleira verde havia deixado em seu pescoço.

— O Caius disse que eu sou a joia dele — murmurou Thiago. — Mas ele disse isso como se eu fosse uma joia que ele precisa trancar em um cofre para sempre.

— E não é isso que somos para eles? — Yuki perguntou, entrando na banheira que já começava a encher automaticamente com água quente e sais de banho. — Joias que eles exibem para mostrar poder, mas que escondem para manter a sanidade.

Eles se lavaram em silêncio, ajudando uns aos outros a esfregar as costas e os ombros. Havia uma solidariedade silenciosa entre eles, um entendimento de que eram os únicos que podiam compreender o que era ser o centro do universo de um Katsaros. A água quente relaxou um pouco seus músculos, mas a tensão mental permanecia.

— A gente devia ter chegado na hora — lamentou Mateo, passando a esponja pelos braços roliços. — O gloss de morango não valia isso.

— O gloss não foi o problema, Mateo — disse Thiago. — O problema é que eles são quatro e nós somos quatro. Eles funcionam como um só. Se um se sente ameaçado, os quatro reagem. Se um se sente possessivo, os quatro atacam.

Após o banho, eles se secaram e vestiram apenas roupões de seda branca, curtos o suficiente para mostrar que não usavam nada por baixo. Era o "uniforme de punição" não oficial. Eles saíram do banheiro e caminharam até a sala de estar, onde os quatro irmãos os esperavam.

Os Katsaros haviam trocado de roupa. Agora vestiam calças de moletom escuras e camisetas pretas que destacavam cada músculo de seus torsos. Eles estavam sentados no grande sofá de couro em forma de U, cada um com uma expressão de expectativa sombria.

— De joelhos — comandou Daiki.

Os quatro obedeceram, alinhando-se no tapete felpudo no centro da sala. Thiago sentiu o tapete contra seus joelhos e o peso do silêncio da sala.

Caius levantou-se e caminhou até Thiago, parando à sua frente. Ele estendeu a mão e puxou o cordão do roupão de Thiago, abrindo-o lentamente. O olhar do Alpha percorreu cada curva do corpo do brasileiro, desde os seios macios até o abdômen redondo e as coxas fartas.

— Você é tão macio, Thiago — disse Caius, sua voz agora estranhamente calma. — Tão vulnerável. Qualquer um poderia estender a mão e tentar tirar um pedaço de você se eu não estivesse por perto.

— Mas você está, Alfa — disse Thiago, olhando para cima. — Você sempre está.

— Sim, eu estou — rosnou Caius. — E hoje, eu vou garantir que você não se esqueça disso por nem um segundo.

Ele se virou para os irmãos.

— Alejandro, Daiki, Étienne. O ônibus foi o aviso. O banheiro foi a limpeza. Agora... agora nós começamos a marcação real.

Os outros três Alphas se levantaram. O ar na sala tornou-se tão saturado de feromônios que os ômegas sentiram a cabeça girar. A exaustão que sentiam no ônibus havia sido completamente substituída por uma prontidão instintiva, uma mistura de medo, submissão e um desejo ardente de serem reivindicados.

— Thiago — chamou Caius, estendendo a mão. — Para o quarto.

— Mateo — disse Alejandro, pegando o espanhol pelo braço.

— Yuki — Daiki apenas apontou para o corredor.

— Julian — Étienne sorriu, um gesto que não alcançou seus olhos frios.

Os pares se separaram, cada Alpha conduzindo seu ômega para a privacidade de seus respectivos quartos. Thiago sentiu a mão de Caius firme em sua nuca enquanto caminhavam. Ele sabia que, nas próximas horas, não haveria descanso. Haveria marcas, haveria comandos e haveria uma demonstração exaustiva de por que os Katsaros eram os donos daquele território.

Ao entrar no quarto, Caius fechou a porta e a trancou. Ele se virou para Thiago, que permanecia parado no centro do tapete, o roupão aberto, o coração disparado.

— O jogo acabou, Thiago — disse Caius, aproximando-se lentamente. — Mas a sua noite está apenas começando. Você queria atenção? Pois agora você tem toda a minha.

Thiago fechou os olhos por um momento, aceitando seu destino. Ele estava exausto, estava trêmulo, mas acima de tudo, ele era de Caius. E se o preço daquela proteção feroz era uma noite de submissão absoluta, ele pagaria com prazer.

Lá fora, a noite de sábado no campus estava apenas começando para os outros estudantes, mas dentro da cobertura dos Katsaros, o tempo havia parado. Ali, as únicas regras que importavam eram as dos Alphas Primes, e a única realidade era o toque possessivo que prometia marcar não apenas a pele, mas a alma de seus quatro ômegas.