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fanfic 1

O Peso da Coroa de Ouro

O silêncio do quarto era quase ensurdecedor, quebrado apenas pela respiração pesada e rítmica de Caius. O Alpha Prime dormia como um guerreiro antigo após a batalha, um braço musculoso e pesado jogado sobre a cintura de Thiago, agindo como uma algema de carne e osso mesmo em meio à inconsciência. Thiago, no entanto, tinha os olhos fixos no teto, onde as sombras das árvores lá fora dançavam conforme o vento.

Cada fibra do seu corpo protestava. Seus músculos estavam em frangalhos, e a pele de seu pescoço e ombros ardia com as marcas de dentes e dedos que Caius havia deixado. Não havia sido uma noite de carinho; havia sido uma noite de reivindicação. Uma demonstração bruta de poder que visava apagar qualquer vestígio do olhar daquele Alpha rival no ginásio.

Com um esforço doloroso, Thiago tentou se mover milímetro por milímetro. Ele precisava de água, e mais do que isso, precisava de um momento de silêncio para seus próprios pensamentos. Quando finalmente conseguiu deslizar para fora do alcance do braço de Caius, ele sentiu uma pontada aguda na lombar e soltou um suspiro trêmulo. Ele pegou o roupão de seda no chão — agora amassado e com o cheiro forte de sândalo e suor de Caius — e o vestiu, caminhando na ponta dos pés em direção à cozinha.

Para sua surpresa, a luz da bancada estava acesa. Mateo, Yuki e Julian já estavam lá, sentados em volta da ilha de mármore, parecendo tão exaustos e "quebrados" quanto ele. O silêncio entre os quatro era pesado, carregado de uma melancolia que raramente aparecia em suas reuniões habituais de risadas e fofocas.

— Vocês também não conseguiram dormir? — perguntou Thiago, a voz saindo como um sussurro rouco.

Mateo levantou a cabeça, os olhos castanhos levemente inchados. Ele segurava uma caneca de chá com as duas mãos, como se estivesse tentando se aquecer de dentro para fora.

— O Alejandro... ele não parava — murmurou Mateo. — Ele estava possesso. Eu tentei dizer que estava doendo, que eu estava cansado, mas parecia que quanto mais eu pedia para ele ir devagar, mais ele sentia que precisava me dominar.

Yuki, que geralmente era o mais resiliente, estava encolhido em um banquinho, com o rosto escondido entre os braços apoiados na mesa.

— O Daiki me fez pedir desculpas umas cem vezes — disse Yuki, a voz abafada. — Por ter olhado para o telão, por ter sorrido para o Julian... por existir, eu acho. Eu amo o Daiki, eu realmente amo, mas hoje... hoje eu senti que ele não me via como o Yuki. Eu era apenas um objeto que ele precisava marcar para ninguém mais querer.

Julian, o francês sempre tão elegante, estava apenas olhando para o nada, traçando as veias do mármore com o dedo.

— Étienne foi... cirúrgico — disse Julian calmamente, embora houvesse uma tristeza profunda em seu tom. — Ele usou cada palavra, cada toque para me lembrar que eu não tenho vontade própria fora desta casa. Ele disse que se eu não puder controlar meus olhos no ginásio, ele vai garantir que eu não tenha energia para abrir os olhos no dia seguinte.

Thiago puxou uma cadeira e sentou-se com um gemido de dor, sentindo o peso daquela realidade. Ele olhou para os amigos, as pessoas que mais amava no mundo, e viu o mesmo cansaço em todos.

— Foi a nossa primeira falha em dois anos — disse Thiago, a voz embargada. — Dois anos sendo perfeitos. Dois anos chegando no horário, usando as cores deles, sorrindo quando mandavam, calando a boca quando era necessário. E bastou um ônibus quebrar e um idiota piscar para que tudo isso fosse esquecido.

— Às vezes eu me pergunto — começou Mateo, olhando para a porta do corredor como se temesse que os Alphas fossem aparecer a qualquer momento —, como seria ter um namorado normal? Sabe, um daqueles Betas da faculdade de arquitetura.

— Um que te levaria para tomar sorvete e não rosnaria se o garçom te desse um "bom dia"? — sugeriu Yuki com um sorriso triste.

— Exatamente — continuou Mateo. — Um relacionamento onde um erro não vira uma punição de cinco horas. Onde o atraso de dez minutos resulta em um "que bom que você chegou", e não em uma crise de possessividade territorial.

Thiago sentiu um aperto no peito. Ele amava Caius com cada fibra de seu ser. Ele amava a segurança que sentia nos braços dele, amava o fato de que ninguém no mundo ousaria encostar um dedo nele enquanto Caius respirasse. Mas o preço... o preço estava ficando cada vez mais alto.

— O problema — disse Julian, olhando para Thiago — é que nós fomos feitos para eles. A gente aceitou esse contrato implícito no momento em que nos apaixonamos por Alphas Primes. Eles não sabem amar de outra forma. Para eles, amor é proteção, e proteção é controle total.

— Mas dói, Julian — desabafou Thiago, as lágrimas finalmente começando a descer. — Dói fisicamente e dói aqui dentro. Eu não queria ser punido hoje. Eu queria que o Caius me abraçasse e dissesse "você estava lindo naquela arquibancada, que bom que você veio me ver jogar". Eu queria ser o namorado dele, não o troféu que ele precisa polir com força para não perder o brilho.

O silêncio voltou a reinar na cozinha. O relógio na parede marcava quatro da manhã. Lá fora, o mundo "normal" continuava a girar, com pessoas que tinham escolhas simples e amores tranquilos.

— Vocês acham que eles mudariam? — perguntou Yuki com uma esperança infantil.

— Não — respondeu Julian de imediato. — Eles são os Katsaros. Eles são a elite da elite. Eles foram ensinados que o mundo é um campo de batalha e que nós somos o tesouro que justifica a guerra. Eles não mudam, Yuki. Nós é que nos adaptamos até não sobrar nada da nossa própria vontade.

Thiago olhou para suas mãos, as mãos que Caius gostava de beijar e também de prender acima de sua cabeça.

— Eu sinto que estou desaparecendo às vezes — sussurrou Thiago. — Como se eu fosse apenas uma extensão da vontade do Caius. Se ele está feliz, eu sou feliz. Se ele está com raiva, eu sou o alvo.

De repente, o som de passos pesados ecoou pelo corredor de madeira. Os quatro ômegas ficaram rígidos instantaneamente, as expressões de cansaço sendo substituídas por máscaras de submissão alerta.

Caius apareceu no arco da cozinha. Ele estava sem camisa, usando apenas a calça de moletom, o cabelo bagunçado e os olhos ainda nublados pelo sono, mas sua presença preenchia o ambiente como uma tempestade. Ele parou, olhando para os quatro ômegas reunidos.

— O que estão fazendo aqui? — perguntou Caius, a voz profunda e rouca, enviando um comando instintivo que fez Thiago se levantar da cadeira, apesar da dor.

— Só... bebendo água, Alfa — respondeu Thiago, baixando o olhar.

Caius caminhou até ele, ignorando os outros três. Ele parou atrás de Thiago, envolvendo-o em um abraço por trás, as mãos grandes repousando sobre o abdômen do brasileiro. Ele inclinou a cabeça, cheirando o pescoço de Thiago, exatamente onde havia deixado uma marca de mordida arroxeada.

— Você deveria estar na cama, Thiago — disse Caius, o tom agora mais suave, mas ainda carregado daquela possessividade inabalável. — Eu acordei e o seu lado estava frio. Meu lobo não gostou disso.

— Eu só precisava de um minuto, Caius... — Thiago tentou dizer, mas o Alpha o apertou mais forte.

— Você não precisa de minutos longe de mim — disse Caius, beijando a marca no pescoço. — Especialmente depois de hoje. Você sabe como eu fico quando sinto que o mundo está tentando te tirar de mim.

Thiago olhou para os amigos. Alejandro, Daiki e Étienne também estavam aparecendo no corredor, cada um buscando seu respectivo ômega com olhares que variavam entre a preocupação possessiva e a autoridade renovada.

— Vamos, Mateo — disse Alejandro, estendendo a mão. — A noite ainda não acabou para nós se você ainda tem energia para ficar conversando na cozinha.

Mateo estremeceu, mas pegou a mão do Alpha, sendo conduzido de volta para o "confinamento" do quarto. Yuki e Julian seguiram seus parceiros logo em seguida, como sombras silenciosas.

Caius virou Thiago de frente para ele, levantando o queixo do ômega com o polegar. Ele viu as lágrimas secas nas bochechas de Thiago e sua expressão suavizou-se por um breve segundo, algo que apenas Thiago tinha o privilégio de ver.

— Você está triste, pequeno? — perguntou Caius.

— Eu estou cansado, Caius — respondeu Thiago honestamente, a primeira vez que ousava expressar fraqueza após uma punição. — Meu corpo dói. Minha alma dói.

Caius suspirou, puxando Thiago para um abraço apertado, escondendo o rosto no pescoço do ômega.

— Eu sei — sussurrou o Alpha. — Eu sei que sou demais. Eu sei que nós somos demais. Mas entenda, Thiago... o mundo lá fora é cruel. Aquele Alpha hoje... ele não viu você como eu vejo. Ele viu algo para usar e descartar. Eu vejo a minha vida. Eu vejo a única coisa que me mantém humano.

— Mas você me machuca para me proteger, Caius — disse Thiago contra o peito dele. — Isso faz sentido?

Caius se afastou um pouco, os olhos âmbar brilhando com uma intensidade feroz.

— Faz, se isso garantir que você nunca queira olhar para outro lugar. Se isso garantir que você saiba, em cada célula do seu corpo, que você pertence a um Katsaros. Eu prefiro que você me odeie um pouco por ser possessivo do que te perder para alguém que não saberia o valor da joia que tem nas mãos.

Thiago fechou os olhos. Não havia argumento contra aquela lógica deturpada, mas absoluta. Era o amor dos Primes: uma gaiola de ouro, forrada com o veludo mais caro, mas ainda assim, uma gaiola.

— Venha — disse Caius, pegando Thiago no colo com uma facilidade que sempre o impressionava. — Eu vou cuidar de você agora. Vou passar aquela pomada que você gosta e vamos dormir. Juntos.

Enquanto era carregado de volta para o quarto, Thiago olhou por cima do ombro de Caius para a cozinha vazia. Ele pensou nos amigos, pensou nos namorados normais que nunca teriam, e pensou na vida que levavam.

Eles eram os tesouros dos Katsaros. Eram amados com uma fúria que a maioria das pessoas nunca conheceria. Eram protegidos de todos os males do mundo, exceto da própria proteção de seus Alphas.

Ao ser colocado na cama, Thiago sentiu Caius se deitar ao seu lado, puxando-o para perto até que não houvesse espaço entre eles. O Alpha começou a passar os dedos suavemente pelas marcas que ele mesmo havia criado, um pedido de desculpas silencioso que nunca seria verbalizado.

— Eu amo você, Thiago — murmurou Caius contra seu ouvido.

— Eu também amo você, Caius — respondeu Thiago, porque era a verdade. Era uma verdade dolorosa, complicada e exaustiva, mas era a única que ele conhecia.

Ele se permitiu finalmente fechar os olhos, deixando que o calor de Caius o envolvesse. Amanhã seria um novo dia. Amanhã eles voltariam a ser os "gordinhos preciosos" que desfilavam pelo campus sob a guarda dos quatro homens mais poderosos da universidade. O mundo veria apenas o brilho das joias, sem nunca imaginar o peso que elas carregavam.

Mas ali, no escuro do quarto, Thiago sabia. Ele sabia que a coroa de ouro era pesada, que as coleiras de couro tinham espinhos internos, e que o amor de um Katsaros era uma sentença de vida da qual ele nunca, jamais, desejaria escapar. Pois, apesar de tudo, no final da noite, ele era a única coisa que conseguia acalmar o monstro. E o monstro era a única coisa que o fazia se sentir verdadeiramente vivo.