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O Eco das Sombras e os Filtros de Realidade

O sol de Seul parecia ter um brilho especialmente agressivo naquela manhã, atravessando as cortinas de seda da suíte de luxo como se quisesse punir Jimin por cada minuto de sono perdido. O som do carregador conectando ao celular foi o gatilho para o caos. Assim que a tela brilhou, o aparelho quase saltou da mesa de cabeceira com a enxurrada de notificações.

Jimin rolou na cama, cobrindo o rosto com o travesseiro. Ele ainda conseguia sentir o cheiro de sândalo e chuva impregnado em sua pele, uma lembrança tátil de Jungkook que parecia deslocada naquele quarto impecável e estéril.

— Dez horas — murmurou para si mesmo. — Eu odeio o Jimin do passado por ter aceitado essa entrevista.

A porta do quarto se abriu sem cerimônias. Sora entrou segurando um copo de café americano extra forte e um tablet que parecia uma extensão de seu braço.

— Bebe. Agora — ordenou ela, colocando o café na mesa. — Você tem trinta minutos para parecer um ser humano funcional e não um ômega que passou a noite fugindo com o submundo de Seul.

Jimin sentou-se, os cabelos loiros totalmente bagunçados, e deu um gole no café, fazendo uma careta.

— Eu não fugi, Sora. Foi uma... excursão antropológica.

— Uma excursão antropológica que rendeu dezessete mil menções no Twitter sobre o "misterioso homem de preto" que foi visto saindo da área privativa da Elysium logo atrás de você — Sora retrucou, girando o tablet para ele. — Felizmente, as câmeras de segurança da boate são controladas pela Noctis, então não há imagens nítidas. Mas as pessoas têm olhos, Jimin. E elas têm imaginação.

Jimin olhou para as fotos borradas de paparazzi amadores. Ele sorriu ao ver a própria silhueta, envolta no paletó de Jungkook.

— A composição está péssima. A iluminação de rua acaba com a minha pele.

— Park Jimin! — Sora exclamou, exasperada. — O foco aqui não é o seu skincare! É a sua segurança. E a sua imagem. O que você pretende fazer se ele aparecer de novo?

— Eu pretendo ver se ele me traz outro picolé de melão — Jimin respondeu, levantando-se e caminhando em direção ao banheiro com uma leveza que irritava a empresária.

A entrevista era para uma revista de moda de alto escalão. O estúdio estava repleto de assistentes correndo, cabides de roupas de grife e o zumbido constante de secadores de cabelo. Jimin estava em seu elemento natural, sorrindo para as câmeras, mudando de pose a cada clique do obturador, sendo exatamente o que o mundo esperava que ele fosse: perfeito, intocável e radiante.

No entanto, por trás do sorriso treinado, sua mente estava a quilômetros dali. Ele se pegava olhando para o próprio celular nos intervalos, esperando por algo que não sabia definir. Uma mensagem? Uma ameaça? Um convite?

— Jimin-ssi, pode olhar mais para a esquerda? — pediu o fotógrafo. — Isso, mais mistério. Como se você tivesse um segredo que ninguém mais pode saber.

— Oh, você não tem ideia — Jimin murmurou, os olhos brilhando de uma forma que fez o fotógrafo prender a respiração e disparar uma sequência de fotos.

No camarim, enquanto trocava de roupa para o último set, seu celular vibrou. Não era uma notificação do Instagram. Era uma mensagem de um número desconhecido.

"O paletó ainda está com você. Eu quero ele de volta."

Jimin sentiu um frio na barriga que nenhuma campanha global jamais lhe causara. Ele digitou rapidamente, os dedos voando pela tela.

"Achei que o Sr. Mafioso fosse rico o suficiente para não sentir falta de um casaco. Ou é apenas uma desculpa para me ver de novo?"

A resposta veio em segundos.

"Talvez as duas coisas. Meia-noite. Onde o rio Han faz a curva sul. Não use o seu carro principal."

Jimin mordeu o lábio inferior, um sorriso atrevido surgindo em seu rosto. Ele bloqueou o celular e olhou-se no espelho. A máscara de influenciador estava lá, mas havia algo novo por baixo. Algo perigoso.

À meia-noite, Jimin estava parado à beira do rio Han. Ele tinha usado um carro de aplicativo comum e vestia um moletom preto largo com capuz, tentando ao máximo se misturar às sombras — uma tarefa difícil para alguém que parecia emitir luz própria.

O som de um motor potente quebrou o silêncio da noite. O mesmo carro esportivo preto da noite anterior estacionou suavemente a poucos metros dele. O vidro fumê baixou, revelando o rosto esculpido de Jeon Jungkook.

— Você veio — disse Jungkook, o tom de voz calmo, mas carregado de uma intensidade que fazia o ar vibrar.

— Eu não suportaria saber que você está passando frio sem o seu paletó — Jimin brincou, aproximando-se e apoiando os braços na janela do carro. — Aqui está. Lavado e com cheiro de Park Jimin. Considere um upgrade.

Ele entregou a sacola de papel de uma loja de luxo. Jungkook a pegou, mas não a colocou no banco de trás. Ele a deixou no colo, seus olhos fixos nos de Jimin.

— Você correu um risco vindo aqui. Sora deve estar tendo um colapso.

— Ela está em uma sessão de meditação guiada e chá de camomila. Eu disse que ia dormir cedo — Jimin deu de ombros. — Além disso, eu gosto de riscos. Eles dão um contraste melhor na vida.

Jungkook destravou a porta do passageiro.

— Entra.

— De novo? Você realmente gosta de me sequestrar.

— Hoje é uma noite diferente — Jungkook disse enquanto Jimin se acomodava ao seu lado. — Sem lojas de conveniência. Sem picolés.

— Oh, que pena. Eu estava começando a gostar da dieta de delinquente — Jimin comentou, observando Jungkook dar a partida.

Desta vez, eles não foram para um bairro residencial. Jungkook dirigiu em direção às colinas que cercavam Seul, subindo por estradas sinuosas que levavam a propriedades privadas onde o dinheiro não apenas falava, mas ditava as leis.

Eles pararam em frente a um portão de ferro maciço que se abriu automaticamente. A casa era uma obra-prima de arquitetura moderna: vidro, concreto e aço, perfeitamente integrada à natureza ao redor.

— Sua casa? — perguntou Jimin, impressionado.

— Um dos meus refúgios — Jungkook respondeu. — Aqui não há câmeras que eu não controle. Não há satélites que possam ver o que acontece lá dentro.

Eles entraram na sala de estar, que tinha paredes de vidro do chão ao teto, oferecendo uma visão deslumbrante de Seul, que parecia um tapete de joias brilhantes lá embaixo.

— É lindo — sussurrou Jimin, caminhando até o vidro. — Parece que a cidade está na palma da sua mão.

— Às vezes ela está — Jungkook disse, parando atrás dele. — Mas a vista é cansativa quando você está sozinho.

Jimin se virou, ficando a poucos centímetros do peito de Jungkook. O alfa não estava usando terno hoje; vestia uma camisa de seda preta com os primeiros botões abertos, revelando o início de tatuagens que subiam pelo pescoço.

— O grande e temido Jeon Jungkook é solitário? — Jimin provocou, embora houvesse uma nota de sinceridade em sua voz. — Quem diria.

— Todos nós somos, Jimin. Você, cercado de quarenta milhões de pessoas que amam uma imagem. E eu, cercado de homens que me obedecem por medo ou lealdade comprada.

Jungkook estendeu a mão e tocou o rosto de Jimin, o polegar traçando a linha de sua mandíbula com uma delicadeza que contrastava com sua aura de poder.

— Você é a primeira coisa real que entrou na minha vida em muito tempo. Mesmo que você viva em um mundo de filtros.

Jimin fechou os olhos por um momento, aproveitando o toque.

— Às vezes, os filtros são a única coisa que nos protege de sermos destruídos pelo que é real, Jungkook.

— Eu não vou destruir você — Jungkook murmurou, inclinando-se até que seus lábios roçassem os de Jimin. — Mas eu vou mudar você.

O beijo começou como uma conversa silenciosa e evoluiu para uma reivindicação. Jungkook puxou Jimin pela cintura, colando seus corpos, enquanto Jimin passava os braços pelo pescoço do alfa, puxando-o para mais perto, como se quisesse absorver cada grama de sua força.

Eles se separaram ofegantes, mas Jungkook não o soltou. Ele o guiou até um sofá de couro profundo, sentando-se e puxando Jimin para o seu colo. A posição era íntima, possessiva, e Jimin sentiu uma onda de calor percorrer seu corpo.

— Me conte algo — pediu Jungkook, seus dedos brincando com os fios loiros de Jimin. — Algo que você nunca postaria. Algo que ninguém saiba.

Jimin pensou por um momento, olhando para as luzes da cidade.

— Quando eu era pequeno, antes de tudo isso, eu queria ser florista. Eu achava que, se eu pudesse cercar as pessoas de flores, elas seriam felizes e não brigariam tanto. Minha mãe achava que eu era poético demais para o meu próprio bem.

Jungkook sorriu, um sorriso que não chegou aos olhos, mas que era carregado de uma ternura sombria.

— Flores morrem rápido, Jimin. Elas são frágeis.

— Mas a beleza delas é absoluta enquanto dura — Jimin rebateu. — Como isso aqui. Esta noite. Amanhã eu voltarei a ser o Park Jimin das redes sociais e você voltará a ser o homem que faz o governo tremer. Mas agora... agora nós somos apenas nós.

Jungkook pegou a mão de Jimin e beijou a palma, um gesto que pareceu uma promessa.

— Eu posso te dar um jardim inteiro, se você quiser. Mas eu prefiro que você seja a única flor no meu deserto.

Jimin riu, encostando a cabeça no ombro de Jungkook.

— Isso foi muito brega para um chefe da máfia.

— Eu estou fora do expediente — Jungkook retrucou, apertando-o em seus braços.

Eles passaram horas assim, conversando sobre coisas triviais e profundas, intercaladas por beijos e carícias que faziam o tempo parecer irrelevante. Jungkook mostrou a Jimin sua coleção de discos de vinil, e eles dançaram lentamente ao som de um jazz antigo, sem câmeras, sem luzes de estúdio, apenas o brilho da lua refletido no vidro.

No entanto, o mundo real sempre encontrava uma maneira de se infiltrar.

O celular de Jungkook, que estava sobre a mesa de centro, brilhou intensamente. Ele não vibrou, mas a luz foi o suficiente para quebrar o clima. Jungkook olhou para a tela e sua expressão mudou instantaneamente. A suavidade desapareceu, substituída por uma máscara de frieza calculada.

— O que foi? — perguntou Jimin, sentindo a mudança na energia do ambiente.

— Negócios — Jungkook respondeu, levantando-se e entregando o celular de Jimin para ele. — Eu preciso ir. E você precisa voltar para o seu hotel.

— Tão rápido? — Jimin levantou-se, sentindo-se subitamente desamparado.

— O mundo não para porque nós queremos, Jimin. Especialmente o meu mundo.

Jungkook o acompanhou até o carro, mas o clima era diferente agora. A tensão estava de volta. No caminho de volta, ele estava em silêncio, os olhos fixos na estrada, a mandíbula cerrada.

Quando pararam no mesmo ponto próximo ao rio Han, Jungkook se virou para ele.

— Jimin.

— Sim?

— O que aconteceu aqui hoje... mantenha em segredo. Não pela sua carreira, mas pela sua vida. A Noctis tem inimigos. E se eles descobrirem que você é importante para mim, você se torna um alvo.

Jimin sentiu um calafrio, mas não de medo. Era a percepção da gravidade da situação.

— Eu sei me cuidar, Jungkook. Eu vivo sob o olhar de milhões de pessoas. Eu sou um mestre em esconder o que importa.

Jungkook assentiu, mas seus olhos ainda estavam preocupados.

— Eu vou mandar alguém para te vigiar. Você não vai notar, mas eles estarão lá.

— Um guarda-costas invisível? Que romântico — Jimin tentou aliviar o clima com uma piada, mas Jungkook não sorriu.

— É necessário.

Jimin saiu do carro, mas antes de fechar a porta, ele se inclinou e deu um beijo rápido nos lábios de Jungkook.

— Obrigada pela noite, Jeon. E tente não ser morto. Eu ainda quero aquele jardim.

Jungkook observou Jimin se afastar até que ele desaparecesse na escuridão. Ele pegou o celular e discou um número.

— Namjoon. O carregamento de Incheon foi interceptado. Eu quero os nomes de todos os envolvidos. E aumente a vigilância sobre Park Jimin. Se um fio de cabelo dele for tocado, eu vou queimar esta cidade até as cinzas.

Na manhã seguinte, Jimin estava sentado na cadeira de maquiagem, pronto para mais um dia de trabalho exaustivo. Sora estava ao seu lado, tagarelando sobre os números de engajamento do último post.

— Jimin, você está me ouvindo? O vídeo do café da manhã já tem dois milhões de visualizações! — Sora exclamou, batendo com o tablet na mesa.

Jimin olhou para o próprio reflexo no espelho. Ele parecia o mesmo. O sorriso estava lá, o brilho nos olhos estava lá. Mas, no bolso de seu roupão, ele sentia o peso de um pequeno objeto que Jungkook lhe entregara antes de ele sair do carro: um broche de ouro em formato de uma pequena flor de lótus negra.

— Eu estou ouvindo, Sora — Jimin disse, sorrindo para o espelho. — O engajamento está ótimo. Mas sabe de uma coisa?

— O quê?

— Eu acho que vou desativar os comentários por hoje. Eu quero um pouco de silêncio.

Sora arregalou os olhos.

— O quê? Por quê?

— Porque algumas coisas são bonitas demais para serem compartilhadas — Jimin respondeu, fechando os olhos enquanto o maquiador aplicava o pó.

Ele sabia que a partir daquele momento, sua vida seria uma dança perigosa entre a luz cegante da fama e as sombras profundas de Jeon Jungkook. E, pela primeira vez, Park Jimin não estava preocupado com o número de curtidas. Ele estava preocupado com o próximo encontro, com o próximo beijo e com o segredo que agora pulsava em suas veias como um veneno doce.

O homem mais famoso da internet tinha um novo segredo. E era o segredo mais perigoso de toda a Coreia.