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O Despertar do Sangue e o Frágil Milagre de Sakura

O silêncio do Palácio de Gelo em Tempest era interrompido apenas pelo som rítmico dos aparelhos mágicos que monitoravam o núcleo de Rimuru. Sete meses haviam se passado desde que o soberano de Jura mergulhara no coma de hibernação. Sete meses em que Guy Crimson raramente saía do lado daquela cama, observando o ventre de Rimuru crescer de forma alarmante, pulsando com uma energia carmesim que parecia zombar da palidez mortal de seu hospedeiro.

Naquela madrugada, porém, o equilíbrio estático foi quebrado. Rimuru abriu os olhos subitamente. Suas pupilas amarelas estavam dilatadas, brilhando com uma lucidez febril e desconexa.

— O céu... as engrenagens estão girando rápido demais... — murmurou Rimuru, a voz rouca e estranha, como se estivesse sintonizando frequências de outro mundo. — Guy? Onde estão os doces? O festival... o gelo está derretendo...

— Rimuru! — Guy se inclinou sobre ele, o coração disparado. — Fique deitado! Você não pode se mexer!

Mas Rimuru, movido por um instinto visceral que ignorava a própria fragilidade, tentou se levantar com uma agilidade que seu corpo não possuía mais. Ele se sentou abruptamente, mas o esforço foi demais. Uma expressão de choque absoluto cruzou seu rosto pálido quando um som de algo se rompendo ecoou no quarto, seguido pelo fluxo de um líquido quente que encharcou os lençóis.

— A bolsa... — sussurrou Rimuru, antes de desabar para fora da cama.

Guy o segurou antes que ele atingisse o chão, mas Rimuru já estava perdendo a consciência. O impacto do movimento repentino e o início prematuro do parto enviaram ondas de choque através de seu sistema nervoso já devastado.

— SHUNA! DIABLO! — O grito de Guy abalou as fundações do castelo.

Em segundos, a sala foi inundada por curandeiros e subordinados. Shuna empalideceu ao ver o estado de seu mestre. Rimuru estava caído nos braços de Guy, tremendo violentamente, o rosto retorcido em uma agonia que ele não conseguia sequer expressar em gritos.

— É cedo demais! — Shuna exclamou, rasgando as vestes de seda para facilitar o procedimento. — Ele não tem forças para o trabalho de parto, Guy-sama! O bebê está drenando o resto da energia vital dele para forçar a saída!

Rimuru acordou com um espasmo, sua mão cravando-se no braço de Guy com tanta força que as unhas cortaram a pele do Lorde Demônio.

— Dói... Guy, eu não consigo... eu não sinto minhas pernas... — A voz de Rimuru era um fio de agonia.

— Você consegue, Rimuru! — Guy rugiu, encostando a testa na dele, tentando desesperadamente injetar sua própria vontade no amante. — Você é o mestre de Tempest! Você sobreviveu a tudo! Empurre!

Rimuru tentou. Ele reuniu cada fragmento de magícula que Ciel conseguia processar, mas o bebê estava preso. O desenvolvimento acelerado e a natureza híbrida da criança criaram uma massa de energia física e espiritual que não se ajustava ao canal de nascimento. Horas se passaram em um ciclo de tortura. Rimuru desmaiava de dor, era acordado por poções revitalizantes de Shuna, tentava empurrar e desfalecia novamente, o nariz sangrando e o corpo coberto por um suor frio e pegajoso.

— Ele vai morrer se continuarmos assim — Diablo sussurrou, as lágrimas negras escorrendo por seu rosto enquanto ele mantinha a barreira de estabilização.

— Ele NÃO vai morrer! — Guy estava ensanguentado, o sangue de Rimuru manchando suas roupas luxuosas. — Rimuru, olhe para mim! Só mais uma vez! Por favor!

Em um último esforço sobre-humano, Rimuru soltou um som que não era humano nem monstro — um grito de alma que reverberou por toda a floresta de Jura. Com um surto final de energia que quase extinguiu seu brilho vital, a criança finalmente nasceu.

O silêncio que se seguiu foi quase pior que os gritos. Então, um choro agudo, potente e exigente preencheu o quarto.

Era uma menina. Mas não era apenas uma criança; era uma tempestade em forma de bebê. Ela tinha a pele alva de Rimuru, mas os cabelos eram de um vermelho carmesim vibrante, idênticos aos de Guy, e seus olhos, ao se abrirem, revelaram o mesmo brilho arrogante e dourado do Lorde Demônio do Orgulho.

— Sakura... — sussurrou Rimuru, mal conseguindo focar a visão.

Shuna rapidamente limpou a pequena e a entregou a Rimuru. O slime, tremendo e com os braços sem força, mal conseguia segurar o próprio peso, mas o instinto de amamentar foi mais forte. No momento em que Sakura sentiu o contato com a mãe, seu choro cessou instantaneamente. Rimuru a amamentou por breves minutos, uma conexão de pura essência mágica, antes de sua cabeça pender para o lado, perdendo a consciência por exaustão absoluta.

— Rimuru! — Guy se aproximou, mas parou ao sentir uma pressão mágica vinda da recém-nascida.

Sakura, mesmo com minutos de vida, rosnou — um som pequeno, mas carregado de intenção — para o próprio pai, protegendo o seio da mãe.

— Ela... ela acabou de me ameaçar? — Guy perguntou, chocado, enquanto Shuna pegava a criança com cuidado para que Rimuru pudesse descansar.

As semanas seguintes foram um borrão de fadiga e recuperação lenta. A saúde de Rimuru não retornou como todos esperavam. O parto traumático deixara sequelas profundas em seu núcleo. Ele passava a maior parte do dia na cama, pálido e frágil. Qualquer tentativa de se levantar resultava em tonturas severas e desmaios imediatos.

Sakura, por outro lado, crescia em uma velocidade sobrenatural. Em poucos dias, ela já parecia ter a consciência de uma criança de um ano, embora mantivesse o corpo de um bebê. E sua personalidade era, para o desespero de todos, uma cópia exata da de Guy: caótica, orgulhosa e extremamente possessiva.

A pequena Sakura não aceitava qualquer um. Se Benimaru ou Shion tentassem pegá-la, ela liberava uma aura de fogo carmesim que os obrigava a recuar. Somente Guy, Shuna, Diablo e, claro, Rimuru, tinham permissão para tocá-la. Caso contrário, o choro de Sakura era tão potente que quebrava os cristais de iluminação do palácio.

Certa tarde, Veldora entrou nos aposentos de Rimuru, carregando uma pilha de mangás e doces.

— Onde está minha sobrinha favorita? — Veldora exclamou, fazendo uma pose dramática. — O tio Veldora trouxe histórias de heróis!

Sakura, que estava deitada ao lado de um Rimuru sonolento, abriu um sorriso largo. Ela adorava o Dragão da Tempestade. Veldora era o único que ela permitia que fizesse palhaçadas sem retaliação mágica. Ela puxou a capa de Veldora com suas mãozinhas fortes, rindo enquanto as faíscas douradas de sua energia brincavam com a aura do dragão.

— Veja, Rimuru! Ela reconhece a grandeza do meu poder! — Veldora riu alto.

Rimuru sorriu fracamente, estendendo a mão para acariciar a cabeça de Sakura.

— Ela só gosta de você porque você é tão barulhento quanto ela, Veldora... — Rimuru tossiu levemente, sua voz ainda muito baixa.

Guy, que estava sentado em uma poltrona próxima revisando documentos, bufou. Sua relação com a filha era... complicada. No início, ele sentira um ressentimento sombrio pela criança que quase matara Rimuru. Mas, ao ver Sakura protegendo a mãe com tanta ferocidade, o orgulho de Guy começou a falar mais alto.

— Ela é insolente — disse Guy, aproximando-se da cama. — Ontem ela tentou incendiar as cortinas porque eu disse que ela já tinha comido magículas o suficiente.

— Ela é sua filha, Guy — Rimuru brincou, embora o esforço de falar o deixasse ofegante. — O que você esperava?

Guy olhou para Sakura. A pequena estava agora sentada no colo de Rimuru, que fazia um esforço imenso para mantê-la segura. O instinto possessivo da menina era mais evidente durante a amamentação. Sempre que Sakura estava sendo alimentada, ela criava uma barreira de energia ao redor dela e de Rimuru. Ninguém podia chegar perto.

Guy, querendo provocar, inclinou-se sobre os dois.

— Sabe, Sakura — Guy disse com um sorriso malicioso —, eu também sinto falta de atenção. Por que você não divide um pouco?

Ele fingiu que ia se aproximar do colo de Rimuru, fazendo menção de "mamar" como uma brincadeira provocativa.

Sakura parou de mamar instantaneamente. Seus olhos dourados brilharam com uma fúria cômica. Ela soltou o peito de Rimuru e, com um movimento rápido, deu um tapa na bochecha de Guy com sua mãozinha gorda, enquanto soltava um grito de indignação que fez o teto tremer.

— Viu? — Rimuru riu, embora a risada tenha terminado em um suspiro de cansaço. — Ela é ciumenta, Guy. Deixe-nos em paz.

— Ela é um monstro — murmurou Guy, esfregando a bochecha, embora houvesse um brilho de diversão em seus olhos. — Meu pequeno monstro carmesim.

Rimuru fechou os olhos, sentindo o peso reconfortante de Sakura contra seu peito. Ele ainda estava longe de ser o líder poderoso que costumava ser. Sua pele ainda era fria ao toque, e suas mãos tremiam quando tentava segurar uma caneta ou uma xícara de chá. Mas, enquanto sentia a energia vibrante de sua filha e a presença protetora — embora irritante — de Guy, ele sabia que o sacrifício valera a pena.

— Guy... — chamou Rimuru, já quase caindo no sono novamente.

— Sim?

— Não brigue com ela enquanto eu estiver dormindo. Ela ainda é um bebê.

— Um bebê que pode destruir um quarteirão com um espirro — Guy resmungou, mas cobriu ambos com um cobertor de pele quente. — Durma, Rimuru. Eu cuidarei da segurança... e das birras dela.

Diablo, que observava tudo das sombras perto da porta, sorriu de forma sinistra e satisfeita. Tempest tinha um novo milagre, e embora o preço tivesse sido a fragilidade de seu mestre, o futuro da Federação Jura nunca parecera tão assustadoramente brilhante. Sakura Crimson Tempest era a prova de que até o Lorde Demônio mais orgulhoso e o Slime mais bondoso podiam criar algo que desafiaria toda a lógica do mundo — e que, no final, o amor e o caos caminhavam de mãos dadas pelos corredores daquele Palácio de Gelo.