Feel the bass.
Noite de Neon e Ressaca de Veludo
O quarto de hotel em Miami era um monumento ao excesso: mármore branco, janelas que iam do chão ao teto e uma vista para o oceano que Alexander mal se deu ao trabalho de olhar. O show tinha sido uma carnificina emocional. Duas horas sob luzes estroboscópicas, o som distorcido das guitarras ecoando no peito e o suor transformando suas roupas em uma segunda pele sufocante.
Agora, o silêncio era interrompido apenas pelo som da água batendo no box de vidro do banheiro. Alexander estava sentado na beira da cama king-size, ainda usando as calças de couro, mas descalço, sentindo o tapete felpudo entre os dedos dos pés. Ele segurava um copo de cristal com dois dedos de uísque, observando o gelo derreter.
A porta do banheiro se abriu e uma nuvem de vapor escapou. Isaac saiu apenas de toalha, o cabelo loiro úmido e bagunçado, a pele levemente avermelhada pelo calor da água. Ele parecia exausto, mas seus olhos ainda guardavam aquela faísca elétrica que o palco sempre deixava para trás.
— Sua vez, Valentino — disse Isaac, a voz rouca de tanto gritar os backing vocals. — Se você não tirar esse suor e esse glitter do corpo, vai acabar grudando no lençol.
Alexander levantou os olhos lentamente, percorrendo o corpo de Isaac com uma preguiça deliberada.
— Eu não consigo me mexer, Isaac. Sinto como se meus ossos tivessem virado chumbo.
Isaac soltou um suspiro curto, mas não havia irritação nele. Ele caminhou até Alexander, tirou o copo de uísque da mão dele e o colocou sobre a mesa de cabeceira. Com uma delicadeza que contrastava com a agressividade que tinham trocado no jatinho, Isaac começou a desabotoar o que restava da camisa de Alexander.
— Isso é o que acontece quando você decide fazer um solo de dez minutos de joelhos no chão — provocou Isaac, puxando a camisa pelos ombros do guitarrista. — Você não tem mais dezoito anos, Rio.
— Tenho dezenove, seu idiota. É o auge da minha decadência física — Alexander sorriu de leve, fechando os olhos enquanto sentia as mãos de Isaac cuidando dele.
O *after care* deles era um ritual sagrado. Depois de toda a dominação, do masoquismo e das provocações, eles voltavam a ser apenas dois garotos que se conheciam desde antes da fama. Isaac ajudou Alexander a se levantar e o guiou até o chuveiro. Lá dentro, sob a água morna, Isaac lavou o cabelo longo de Alexander com uma paciência infinita, desembaraçando os cachos escuros com os dedos, enquanto o guitarrista apenas encostava a testa no azulejo frio, deixando a tensão escorrer pelo ralo.
— Você foi incrível hoje — sussurrou Isaac perto do ouvido dele, enquanto enxaguava o sabão das costas de Alexander. — Naquela parte de "Oceans", quando você olhou para a multidão... parecia que você ia levitar.
— Eu só estava tentando não tropeçar no cabo do pedal — Alexander murmurou, virando-se para abraçar Isaac, a pele úmida se encontrando em um conforto silencioso. — Obrigado por me segurar, Lua.
***
No dia seguinte, a realidade da fama os atingiu antes mesmo do café da manhã. Eles tinham um evento de "Meet & Greet" com um grupo selecionado de fãs antes de seguirem para a próxima cidade.
O salão do hotel estava isolado. Alexander vestia um terno de veludo azul-escuro sobre a pele nua, o cabelo preso em um coque frouxo com algumas mechas caindo sobre o rosto. Isaac estava ao seu lado, usando uma jaqueta de couro vintage e óculos escuros que ele tirava ocasionalmente para piscar para as câmeras.
Uma garota jovem, tremendo visivelmente, aproximou-se com um álbum antigo para ser assinado.
— Alexander... Isaac... a música de vocês salvou a minha vida — ela soluçou, os olhos fixos no guitarrista.
Alexander suavizou a expressão. Ele não era bom com multidões, mas com indivíduos, ele era cirúrgico em sua empatia. Ele pegou a caneta, assinou o encarte com uma caligrafia elegante e olhou nos olhos dela.
— A música apenas abriu a porta, querida — disse ele, a voz quente e aveludada. — Quem teve a coragem de atravessar foi você. Continue caminhando.
Isaac, percebendo que a garota estava prestes a desmaiar de emoção, interveio com seu charme sarcástico característico.
— E não esqueça de ouvir as linhas de baixo — brincou ele, dando um autógrafo rápido e um sorriso magnético. — O Rio faz a poesia, mas sou eu quem mantém o chão sob os seus pés.
A garota riu, o clima pesadamente emocional se dissipando em algo mais leve. Alexander deu um meio sorriso para Isaac, um agradecimento silencioso por saber exatamente quando entrar na música dele.
Horas depois, após centenas de fotos e apertos de mão, eles finalmente foram liberados. A exaustão social era pior do que a física.
***
— Eu preciso de uma dose. Ou dez — declarou Isaac, jogando-se no sofá de couro do bar privativo que a gravadora tinha reservado para eles no topo do hotel.
O lugar estava vazio, exceto pelo barman que já conhecia a fama dos dois de beberem até o sol nascer. Alexander sentou-se ao piano de cauda que decorava o canto do bar, dedilhando algumas notas melancólicas enquanto observava Isaac pedir uma rodada de tequilas e cervejas brasileiras que ele insistia em encontrar em cada cidade.
— Vem pra cá, Valentino! — gritou Isaac após a terceira dose. — Deixa o piano em paz, ele não te deu nada hoje.
Alexander soltou um suspiro dramático, mas levantou-se. A sobriedade estava começando a incomodá-lo. Ele se juntou a Isaac e, em menos de uma hora, o mundo começou a ficar mais embaçado e muito mais engraçado.
Eles estavam bêbados. Realmente bêbados.
— Sabe o que eu acho? — Isaac disse, a voz arrastada, gesticulando com uma fatia de limão. — Eu acho que você é uma gárgula. Você fica aí, todo gótico e misterioso, olhando para as pessoas como se soubesse o segredo do universo.
Alexander riu, um som alto e descontrolado que raramente saía em público.
— E você é um... um pavão, Isaac. Um pavão que toca baixo e acha que o mundo é um filme de fantasia. "Oh, olhem para mim, eu sou o Moonthorn, eu tenho o gingado!"
Alexander tentou imitar o sotaque de Isaac, falhando miseravelmente e quase caindo do banco do bar. Isaac o segurou pelo colarinho, rindo tanto que seus olhos lacrimejavam.
— Você não tem gingado nenhum, Rio! Você é um poste de luz em Londres. Frio, elegante e cheio de teias de aranha.
— Pelo menos eu não passo três horas passando gel no cabelo para parecer que acabei de sair de uma briga — Alexander rebateu, puxando Isaac para mais perto pela jaqueta.
A atmosfera mudou. A embriaguez trouxe à tona aquela vulnerabilidade crua que eles tentavam esconder com sarcasmo. Isaac colocou a mão no rosto de Alexander, o polegar acariciando a maçã do rosto pálida.
— Por que a gente faz isso, hein? — perguntou Isaac, de repente sério. — A música, os fãs, o sexo... por que a gente se destrói tanto?
Alexander olhou para o fundo do copo vazio antes de encarar Isaac. Seus olhos estavam injetados, mas a lucidez da dor ainda estava lá.
— Porque a gente é masoquista, Lua. A gente gosta da queimação. Se não doer, a gente acha que não é real.
Isaac assentiu, encostando a testa na de Alexander. O cheiro de álcool e juventude perdida pairava entre eles.
— Eu estou cansado, Rio. Às vezes eu só queria... desaparecer com você. Ir para algum lugar onde ninguém saiba quem é o Valentino e o Moonthorn.
— A gente pode ir — sussurrou Alexander, fechando os olhos. — Mas a gente levaria a música junto. E a música é o que nos mantém vivos, mesmo que esteja nos matando.
Isaac puxou Alexander para um beijo desajeitado, com gosto de tequila e promessas bêbadas. Eles se levantaram, tropeçando um no outro enquanto tentavam encontrar o caminho de volta para o elevador.
No corredor do hotel, Alexander parou diante de um grande vaso de flores decorativo. Ele arrancou uma rosa branca e a prendeu atrás da orelha de Isaac.
— Para o meu baixista favorito — murmurou ele, tropeçando nos próprios pés. — O único que consegue acompanhar meu caos.
— Você é muito brega quando está bêbado, Valentino — Isaac riu, passando o braço pelo ombro de Alexander para sustentá-lo.
— E você ama isso.
Eles entraram no quarto e desabaram no tapete, sem forças para chegar até a cama. Alexander ficou deitado de costas, olhando para as luzes da cidade através da janela, sentindo o mundo girar devagar. Isaac se aninhou ao lado dele, a cabeça no peito do guitarrista, ouvindo o coração de Alexander bater em um ritmo sincopado e imperfeito.
— Toca alguma coisa... — pediu Isaac, já quase dormindo. — Sem instrumento. Só... canta.
Alexander limpou a garganta, a voz saindo em um murmúrio quente, uma melodia de jazz antiga que ele costumava ouvir em discos de vinil arranhados. Ele cantou sobre a chuva, sobre cidades vazias e sobre encontrar alguém no escuro.
Enquanto a voz de Alexander preenchia o quarto de hotel luxuoso e impessoal, Isaac finalmente relaxou. Ali, bêbados, exaustos e cobertos pela poeira da estrada, eles não eram deuses ou ícones. Eram apenas dois garotos tentando sobreviver à própria tempestade, um acorde de cada vez.
Alexander sentiu o peso do sono chegando e abraçou Isaac com mais força. Ele pensou na chuva que cairia amanhã, na próxima música que escreveria e em como, apesar de todo o caos e da estranheza de suas vidas, ele nunca escolheria outra melodia que não fosse aquela que tocava ao lado de Isaac Moonthorn.
O silêncio finalmente se instalou, mas era um silêncio cheio de música. O tipo de música que só os "Oceans" podiam sonhar, mas que só Alexander e Isaac tinham o privilégio de viver.