Festival e a família
Sussurros de Leite e Sombras de Orgulho
O festival em Tempest havia atingido seu ápice de cores e sons. O aroma de takoyaki e algodão-doce flutuava pelo ar, misturando-se à energia mágica vibrante que emanava de cada esquina da capital. No entanto, longe das barracas principais, em uma área um pouco mais aberta perto dos jardins reais, o cenário era de um treinamento inusitado que faria qualquer cavaleiro sagrado empalidecer.
Kenya Misaki, o pequeno prodígio da magia de luz, saltava de um lado para o outro com uma espada de madeira reforçada por mana. Ele não estava treinando sozinho; Carrera, a Demônio Primordial amarela, observava-o com um sorriso selvagem, ocasionalmente disparando pequenas esferas de energia para que o garoto as desviasse. Ao lado deles, Gale Gibson tentava manter a compostura enquanto Testarosa, com sua elegância impecável, corrigia a postura do menino com a ponta de seu leque fechado.
— Mais firme, Gale — instruiu Testarosa, sua voz suave escondendo a exigência de uma mestre rigorosa. — A terra não é apenas algo que você pisa; é uma extensão da sua vontade.
Gale assentiu, o suor escorrendo pela testa, enquanto Alice Rondo corria em círculos, rindo alto enquanto suas bonecas flutuantes tentavam acompanhar as manobras caóticas de Ultima. A Primordial roxa parecia estar se divertindo tanto quanto a criança, criando explosões de confete mágico que assustavam os pássaros próximos.
Foi nesse momento que o grupo de crianças avistou uma figura familiar cruzando o jardim. Luminous Valentine, a Rainha dos Vampiros e Lorde Demônio, caminhava com sua habitual aura de superioridade, acompanhada por seu séquito silencioso.
— Olhem! É a moça bonita que a Hinata-neesan mencionou! — gritou Kenya, parando seu treino com Carrera e apontando para Luminous.
As crianças correram em direção à vampira antes que Carrera ou Testarosa pudessem intervir. Luminous parou bruscamente, seus olhos heterocromáticos piscando em surpresa ao ser cercada por quatro crianças enérgicas.
— Hinata disse que você é muito, muito forte! — Alice exclamou, puxando levemente a capa de Luminous. — E que você é a mulher mais bonita que ela já viu!
— Nós queremos lutar com você também! — desafiou Kenya, brandindo sua espada de madeira com uma coragem que beirava a imprudência. — Se você é tão forte quanto o Rimuru-sama, mostre para a gente!
Luminous ficou momentaneamente sem palavras. Ser chamada de bonita por crianças era uma coisa, mas ser desafiada por pirralhos humanos que cheiravam a suor e doces era uma experiência nova e levemente irritante. Ela abriu a boca para dar uma resposta cortante, mas uma sombra alta e familiar se projetou sobre o grupo.
— Já chega de importunar os convidados — disse Guy Crimson, surgindo do nada com as mãos nos bolsos e uma expressão de tédio fingido. Ele olhou para Kenya e Gale com severidade. — Vocês não têm idade nem mana suficiente para durar dois segundos contra ela. Além disso, Luminous é uma mulher ocupada, embora não pareça.
Luminous arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços sobre o peito.
— Eu não estou ocupada, Crimson. Mas certamente não vou gastar meu tempo brincando de espadas com crianças — ela bufou, embora o elogio sobre sua beleza, vindo indiretamente de Hinata através das crianças, tivesse suavizado um pouco seu humor.
— Ótimo, então eu cuido deles — resmungou Guy, revirando os olhos. Ele fez um sinal para as crianças o seguirem. — Vamos. Rimuru disse que se vocês se comportassem, poderiam escolher o que quisessem na barraca de doces antes do jantar.
A menção a "doces" foi o suficiente para que o desejo de lutar desaparecesse instantaneamente. As crianças seguiram Guy como se ele fosse o flautista de Hamelin, deixando Luminous para trás com uma expressão de puro choque. Ver o Lorde Demônio Vermelho atuando como babá era uma visão que ela ainda não conseguia processar completamente.
Guy levou o grupo até a área das barracas, comprando maçãs do amor e algodão-doce para todos. Depois, ele os guiou até o parque central de Tempest, onde o gramado era macio e perfeito para descansar. Ele se sentou em um banco de madeira, observando as crianças correrem pelo parquinho, enquanto Chloe O'Bell permanecia sentada ao seu lado, segurando silenciosamente o coelho de pelúcia que Rimuru lhe dera.
Não demorou muito para que Rimuru aparecesse, caminhando calmamente ao lado de Diablo, Testarosa, Carrera e Ultima. Rimuru estava em sua forma feminina, o cabelo azul-prateado brilhando sob a luz do entardecer. Em suas mãos, ele carregava uma bolsa térmica contendo cinco mamadeiras preparadas com leite morno e uma mistura especial de ervas nutritivas de Shuna.
— Hora do lanche, pessoal! — anunciou Rimuru, sorrindo ao ver a animação das crianças.
Os quatro meninos e Alice correram para perto, sentando-se em círculo na grama. Rimuru entregou as mamadeiras uma a uma. Os Primordiais observavam a cena com uma devoção quase religiosa.
— Lorde Rimuru, os preparativos para o encerramento do festival exigem nossa atenção imediata — informou Diablo, curvando-se profundamente, embora seus olhos reluzissem de tristeza por ter que se afastar das crianças.
— Entendido, Diablo. Podem ir. Vocês fizeram um excelente trabalho cuidando deles hoje — disse Rimuru com um aceno gentil.
— Até logo, pequenos mestres — despediu-se Testarosa, depositando um beijo casto no topo da cabeça de Gale antes de desaparecer em uma névoa de sombras junto com as outras.
Agora, restavam apenas Rimuru, Guy e as crianças. O silêncio confortável do entardecer se instalou enquanto os pequenos bebiam seu leite. Kenya e Ryota, exaustos das brincadeiras, começaram a bocejar.
— Guy, conte uma história? — pediu Gale, limpando um bigode de leite do lábio superior. — Uma de verdade, de quando o mundo era jovem.
Guy suspirou, mas não recusou. Ele começou a narrar a criação dos continentes, suavizando as partes onde ele mesmo havia incinerado montanhas inteiras por puro capricho. Enquanto a voz de Guy embalava os meninos, Chloe, que estava estranhamente quieta, aproximou-se de Rimuru.
Ela puxou a barra da túnica de Rimuru, seus olhos grandes e profundos brilhando com uma súplica silenciosa que Rimuru conhecia bem.
— Chloe? O que foi, querida? — perguntou Rimuru, acariciando o rosto da menina.
Chloe não disse nada. Ela apenas olhou para o peito de Rimuru e depois voltou a olhar para os olhos dele, fazendo um pequeno bico com os lábios.
Guy, que estava no meio de uma frase sobre o nascimento dos Dragões Verdadeiros, travou completamente. Sua mente, vasta e milenar, levou alguns segundos para processar o que o pedido silencioso de Chloe significava. Ele olhou para Rimuru, depois para a menina, e sentiu o rosto esquentar de uma forma que nunca havia sentido em milênios de existência.
— Ela... ela quer o quê? — balbuciou Guy, a voz perdendo a habitual confiança.
Rimuru soltou uma risada nervosa, mas cheia de carinho, sentindo o próprio rosto corar.
— Chloe, você não acha que já está grande demais para isso? — Rimuru tentou argumentar suavemente. — Olhe, a mamãe trouxe leite na mamadeira para você também.
Chloe balançou a cabeça negativamente, seus olhos começando a lacrimejar. Ela era a mais nova do grupo, mas também a que carregava o fardo mais pesado de mistérios e solidão. Para ela, aquele ato não era apenas sobre nutrição; era sobre o vínculo inquebrável de segurança que só Rimuru proporcionava.
— Por favor, Rimuru-sama... — ela sussurrou, a voz trêmula.
Rimuru olhou para os lados. Os outros Lordes Demônios estavam longe, e os subordinados estavam ocupados. Ele suspirou, derrotado pela fofura e pela necessidade emocional da menina. Ele havia passado os últimos meses tentando desmamar as crianças, e Chloe era a única que resistia com todas as suas forças.
— Tudo bem, tudo bem. Só um pouquinho — cedeu Rimuru, sentando-se de forma mais confortável e puxando Chloe para o seu colo.
Guy Crimson parecia estar tendo um curto-circuito mental. Ele desviou o olhar, encarando uma árvore qualquer com uma intensidade absurda, enquanto tentava controlar o turbilhão de emoções em seu peito. Havia vergonha, sim, mas também um sentimento estranho e possessivo que ele mal conseguia identificar como um ciúme minúsculo e irracional.
— Isso é... normal? — perguntou Guy, a voz saindo mais aguda do que ele pretendia.
— Para nós, é — respondeu Rimuru, mantendo a calma enquanto Chloe se acomodava e começava a mamar com uma satisfação silenciosa. — Eles passaram por muita coisa antes de chegarem aqui, Guy. Às vezes, eles só precisam sentir que têm uma mãe de verdade.
As outras crianças, ao perceberem o que estava acontecendo, pararam de ouvir a história de Guy e começaram a resmungar.
— Não é justo! Eu também quero! — reclamou Kenya, cruzando os braços.
— Vocês já são rapazes grandes — Rimuru repreendeu-os com um olhar firme, mas divertido. — Vão brincar mais um pouco no balanço enquanto a Chloe termina.
Resmungando, os meninos e Alice voltaram para os brinquedos, deixando o casal e a pequena Chloe em paz. O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som suave da respiração de Chloe e pelos ruídos distantes do festival.
Guy, incapaz de se manter afastado por muito tempo, aproximou-se e sentou-se ao lado de Rimuru. Ele observou Chloe. Ela parecia tão pequena e frágil nos braços de Rimuru, mas ao mesmo tempo, emanava uma paz absoluta. De repente, a mãozinha de Chloe se estendeu e agarrou o dedo indicador de Guy, apertando-o com força.
Ela não parou de mamar, mas seus olhos se fecharam enquanto ela segurava o dedo do "pai" e se aninhava no peito da "mãe".
Guy sentiu seu coração martelar contra as costelas. A visão de Rimuru agindo de forma tão puramente maternal, combinada com o toque de Chloe, desarmou qualquer resquício de arrogância que ele ainda pudesse ter.
— Você é incrível, Rimuru — murmurou Guy, esticando a outra mão para acariciar o cabelo azul-prateado do namorado. — Eu nunca imaginei que o Lorde Demônio que abalou o mundo seria a pessoa mais carinhosa que eu já conheci.
Rimuru sorriu, inclinando a cabeça para encostá-la no ombro de Guy.
— E eu nunca imaginei que o temível Guy Crimson ficaria vermelho de vergonha por causa de uma mamada noturna.
— Cale a boca — resmungou Guy, embora não houvesse raiva em sua voz, apenas uma ternura profunda.
Chloe deu um suspiro longo e satisfeito, seu corpo relaxando completamente enquanto o sono finalmente a vencia. Ela não soltou o peito de Rimuru, nem o dedo de Guy, permanecendo ali, uma ponte viva entre os dois seres mais poderosos do mundo.
Naquele momento, sob o céu estrelado de Tempest, não havia Lordes Demônios, Primordiais ou políticas mundiais. Havia apenas uma família, estranha e magnífica, encontrando seu próprio tipo de perfeição na simplicidade de um abraço e no calor de um vínculo que ia muito além do sangue.
— Ela dormiu — sussurrou Rimuru, depositando um beijo na testa de Chloe.
— Deixe-a ficar assim por mais um tempo — pediu Guy, fechando os olhos e aproveitando o aperto da mão pequena em seu dedo. — O festival pode esperar. O mundo pode esperar.
E assim, em meio ao caos de um festival épico, o tempo parou para eles, protegidos pelo silêncio e pelo amor que florescia nas sombras de um jardim real.