Festival e a família
O Despertar da Pequena Tempestade e o Coração do Rei
A sala de conferências de Tempest, habitualmente um local de decisões que moldavam o destino do continente central, havia se transformado em um campo de batalha de sanidade para os Lordes Demônios presentes. O ar estava carregado com o cheiro de chá de ervas e o som suave de papéis sendo virados, mas a tensão diplomática era constantemente interrompida pela aura doméstica que Rimuru e Guy exalavam.
Luminous Valentine massageava as têmporas, seus olhos heterocromáticos fixos em Rimuru, que lia um relatório sobre a produção de poções enquanto, com a mão livre, balançava o berço de Chloe. Dino, o lorde demônio preguiçoso, estava jogado em sua cadeira, piscando os olhos como se estivesse tentando acordar de um pesadelo particularmente estranho.
— Eu juro por tudo que é sagrado — murmurou Dino, a voz arrastada — que se eu visse o Guy Crimson segurando uma mamadeira há dez anos, eu teria me aposentado ali mesmo. O que aconteceu com o terror dos mundos?
Guy, sentado ao lado de Rimuru, apenas lançou um olhar gélido para Dino, embora sua mão estivesse ocupada ajeitando a manta de Ryota, que dormitava em uma poltrona próxima.
— A maturidade traz novas prioridades, Dino — respondeu Guy, sua voz profunda e aveludada. — Algo que você claramente ainda não alcançou.
Antes que a discussão pudesse prosseguir, um estrondo ecoou no corredor, seguido pelo som de passos rápidos e risadas infantis. A porta da sala de reuniões se abriu de supetão, e uma pequena mancha de energia loira e vestidos coloridos invadiu o recinto.
Alice Rondo, a mestre das bonecas e a criança mais elétrica do grupo de Rimuru, entrou correndo como se estivesse fugindo de um exército. Atrás dela, Benimaru e Shuna apareceram na porta, ambos parecendo levemente exaustos e com expressões de desculpas.
— Alice! Volte aqui, ainda não terminamos a lição! — exclamou Shuna, mas a menina já estava no meio da sala.
— Mamãe! Mamãe Rimuru! — gritou Alice, ignorando completamente os reis e demônios primordiais presentes. — Shuna disse que eu tinha que estudar, mas eu quero atenção! Eu quero brincar!
Alice começou a correr em círculos ao redor da mesa de reuniões, sua magia de vento fazendo os documentos de Leon Cromwell voarem pelos ares. Ela era como um pequeno furacão, rindo e desviando das mãos de Rigurd, que tentava contê-la.
— Alguém pegue essa criança antes que ela destrua o tratado de paz! — exclamou Leon, tentando resgatar seus papéis.
Rimuru suspirou, um sorriso sarcástico brincando em seus lábios enquanto observava a filha.
— Alice, querida, a mamãe está ocupada. Por que você não vai com o Benimaru-niisan?
— Não! — Alice deu um salto, usando suas bonecas para se impulsionar sobre a mesa. — Eu quero colo!
Guy Crimson, que até então observava em silêncio, levantou-se com uma agilidade predatória. Em um borrão de movimento vermelho, ele interceptou Alice no ar. Ele a segurou pelos braços, suspendendo-a no ar como se fosse um gatinho irritado e travesso.
Alice começou a espernear, as bochechas infladas de indignação.
— Me solta, Papai Guy! Eu quero a mamãe!
— Ora, ora — disse Guy, aproximando o rosto do dela. — Que comportamento é esse para uma dama? Você está atrapalhando o trabalho do Rimuru.
Para a surpresa absoluta de todos os presentes — especialmente de Luminous, que deixou sua taça de vinho cair sobre a mesa —, Guy não usou sua aura de terror. Em vez disso, ele começou a dar pequenos beijinhos rápidos nas bochechas de Alice, fazendo a menina começar a rir incontrolavelmente em vez de gritar.
— Pare! Isso faz cócegas! — Alice ria, seus braços pequenos tentando empurrar o rosto do lorde demônio mais poderoso da história.
Guy deu um último beijo na testa dela e a colocou delicadamente no colo de Rimuru, que já estava de braços abertos para recebê-la.
— Aqui está, Rimuru. A pequena fera foi domada — disse Guy, voltando ao seu assento com uma naturalidade que beirava o absurdo.
Luminous Valentine bateu com a mão na mesa, sua expressão oscilando entre o horror e a crise existencial.
— Guy Crimson... o que você fez com o verdadeiro Guy? — perguntou ela, a voz trêmula. — Como você pode ser um pai? E mais do que isso, um pai carinhoso? Isso desafia todas as leis da natureza demoníaca!
Dino, que finalmente parecia ter despertado do choque, apontou para Guy com o dedo trêmulo.
— Ele deu beijinhos. Eu vi. O Rei Vermelho deu beijinhos em uma criança humana. Eu preciso de um feriado de mil anos para processar isso.
Guy soltou uma risada curta, apoiando o cotovelo no braço do trono de Rimuru.
— Vocês são muito limitados — disse ele, olhando para os outros lordes demônios com um desdém divertido. — Ser o mais forte não significa ser incapaz de apreciar o que é meu. E essas crianças são minhas, tanto quanto são de Rimuru.
Alice, agora devidamente acomodada no colo de Rimuru e abraçando o pescoço do slime, olhou para os outros lordes demônios com um brilho de orgulho nos olhos.
— O Papai Guy é o melhor pai do mundo! — anunciou ela, a voz ecoando com a convicção que só uma criança possui. — Vocês não sabem de nada!
Luminous arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços.
— O melhor pai do mundo, Alice? Tem certeza? Ele parece mais alguém que destruiria o mundo se você perdesse um dente de leite.
— Mas ele é! — insistiu Alice, gesticulando com as mãos pequenas. — Ele conta as histórias mais legais de todas! Ele fala sobre dragões gigantes e batalhas, mas sempre faz as vozes ficarem engraçadas para a gente não ter medo. E ele dá os melhores abraços! Ele é muito, muito carinhoso.
Rimuru acariciou os cabelos loiros de Alice, sorrindo para Guy, que tentava manter uma expressão neutra, embora um leve rubor estivesse começando a subir por seu pescoço.
— É verdade — acrescentou Alice, animando-se ainda mais. — Ele sempre traz presentes de lugares longe que a gente nem conhece. E quando a Mamãe Rimuru está muito cansada de cuidar da cidade, o Papai Guy coloca todo mundo para dormir sozinho! Ele coloca os pijamas, conta histórias e dá beijo de boa noite em cada um para a mamãe poder descansar.
Guy tossiu levemente, desviando o olhar para a janela.
— Eu apenas... garanto a eficiência do descanso de Rimuru. Se as crianças estiverem dormindo, o palácio fica mais silencioso para ele.
— Ele até brinca de esconde-esconde com a gente! — Alice continuou, ignorando o constrangimento de Guy. — Ele é muito bom nisso porque ele pode aparecer em qualquer lugar, mas ele sempre finge que não vê a gente atrás das cortinas só para a gente ganhar.
Luminous e Dino estavam em silêncio absoluto. A imagem de Guy Crimson brincando de esconde-esconde e fingindo não ver crianças era algo que nenhum deles estava preparado para ouvir.
— No entanto... — Alice fez um bico, cruzando os braços e olhando para Guy com uma pontinha de irritação infantil — ele tem um defeito muito chato.
— Ah, é? E qual seria? — perguntou Rimuru, curioso.
— Ele não deixa eu mamar a mamãe! — reclamou Alice, a voz alta o suficiente para ser ouvida até no corredor. — Sempre que eu quero um pouquinho de carinho assim, o Papai Guy me pega e diz que eu já sou grande, mas ele deixa a Chloe fazer isso às vezes! É injusto!
O silêncio que se seguiu na sala foi tão denso que poderia ser cortado com uma espada. Guy Crimson, pela primeira vez em toda a sua existência eterna, ficou completamente vermelho, da cor de seus próprios cabelos. Ele abriu a boca para falar, mas nenhuma palavra saiu.
Rimuru sentiu o rosto esquentar, soltando uma risada nervosa enquanto tentava acalmar a situação.
— Alice, querida... — Rimuru começou, sua voz suave e pedagógica — nós já conversamos sobre isso. Você já tem nove anos, está ficando uma moça muito grande e forte. A mamãe te dá todo o carinho do mundo, mas certas coisas são para quando vocês são bem pequenos.
— Mas a Chloe faz! — protestou a menina.
— A Chloe é a mais nova, Alice — explicou Rimuru delicadamente, ajeitando o vestido da filha. — Ela ainda é muito pequena e, às vezes, precisa desse conforto extra para se sentir segura. Mas você, o Kenya e os outros já são nossos pequenos guerreiros. O Papai Guy só quer que vocês cresçam independentes e fortes.
Guy finalmente recuperou a voz, embora ainda estivesse visivelmente emocionado e constrangido pelas palavras anteriores de Alice sobre ele ser o "melhor pai".
— Exatamente — disse Guy, limpando a garganta. — Eu não proibo por maldade, Alice. É apenas... uma questão de disciplina. E como sua mãe disse, você já é grande o suficiente para entender que o carinho vem de muitas formas. Como os doces que eu te dei hoje cedo escondido da Shuna.
Alice arregalou os olhos e abriu um sorriso enorme, esquecendo instantaneamente sua reclamação anterior.
— É verdade! Os chocolates de morango!
— Guy! — Rimuru lançou um olhar fingidamente severo para o namorado. — Eu disse que ela estava de castigo sem doces por ter usado as bonecas para assustar os guardas!
— Eu não consegui resistir ao olhar dela, Rimuru — confessou Guy, dando de ombros com uma submissão que fez Luminous querer desmaiar. — Ela é persistente.
Luminous Valentine levantou-se lentamente, pegando sua capa.
— Eu não consigo mais fazer isso. Eu vim aqui para discutir tratados comerciais e política externa, e acabei descobrindo que o Lorde Demônio mais perigoso do mundo é um "pai babão" que suborna crianças com chocolate e é dominado por um slime em forma de mãe carinhosa.
— Eu concordo com a Luminous — disse Dino, bocejando e levantando-se também. — Minha cabeça dói. Eu vou dormir. Mas antes... Guy, se você algum dia precisar de uma babá, não me chame. Eu tenho medo de que sua "paternidade" seja contagiosa.
Guy apenas sorriu, um sorriso que desta vez era genuinamente feliz. Ele estendeu a mão e acariciou a bochecha de Alice, que agora estava quase dormindo no colo de Rimuru, exausta por sua própria energia.
— Podem ir — disse Guy. — Nós terminaremos essa reunião amanhã. Agora, temos assuntos mais importantes para tratar.
— Como o quê? — perguntou Leon, que ainda estava tentando organizar seus papéis.
— Como o fato de que a Alice está com sono e o Ryota provavelmente vai acordar querendo a mamadeira que eu prometi — respondeu Guy com toda a seriedade do mundo.
Rimuru riu, sentindo o peso reconfortante da filha em seu colo e a presença protetora de Guy ao seu lado. Ele olhou para seus amigos Lordes Demônios, que se retiravam com expressões de descrença, e depois para o homem que amava.
— Você realmente se saiu bem, Guy — sussurrou Rimuru. — "Melhor pai do mundo", hein?
Guy inclinou-se e beijou o topo da cabeça de Rimuru, descendo para um selinho rápido em seus lábios.
— Eu apenas aprendi com a melhor — respondeu ele em um sussurro. — Mas não conte para ninguém sobre os chocolates. Eu ainda tenho uma reputação a zelar.
— Tarde demais para isso, querido — riu Rimuru.
A sala de reuniões, antes um local de fria diplomacia, agora estava imersa no calor de uma família. E enquanto o sol se punha sobre Tempest, o Rei Vermelho e a Rainha Slime sabiam que, não importava quantos inimigos surgissem, nada era mais poderoso do que o laço que haviam construído com seus cinco pequenos tesouros.
Alice soltou um suspiro satisfeito em seu sono, segurando a mão de Rimuru e a de Guy, unindo os dois seres mais poderosos do mundo em um simples gesto de amor infantil. E ali, no silêncio do entardecer, o equilíbrio do mundo parecia finalmente perfeito.