Festival e a família
O Despertar da Promessa e o Herdeiro do Crepúsculo
O salão de reuniões, que outrora exalava a tensão de tratados internacionais, agora estava mergulhado em uma quietude morna, pontuada apenas pelo som da respiração rítmica das crianças. O sol começava a se despedir no horizonte, pintando as nuvens de Tempest com tons de carmesim e ouro, combinando perfeitamente com a aura de Guy Crimson, que permanecia sentado com uma postura que misturava a realeza de um soberano e a paciência de um guardião.
Ryota Sekiguchi começou a se mexer na poltrona ao lado de Guy. Seus olhos pequenos abriram-se lentamente, ainda nublados pelo sono profundo. Ele esfregou o rosto, soltando um bocejo longo que fez suas bochechas rosadas tremerem. Ao avistar a figura imponente de Guy, o menino não sentiu medo; sentiu o magnetismo de uma segurança absoluta.
— Papai Guy... — a voz de Ryota saiu arrastada, um sussurro carregado de necessidade. — Colo?
Guy, que estava revisando mentalmente alguns termos de segurança com Diablo por telepatia, cortou a conexão instantaneamente. Seus olhos vermelhos suavizaram-se ao olhar para o garoto. Sem dizer uma palavra, ele se inclinou e pegou Ryota, acomodando o menino em seu peito sólido. Ryota se aninhou ali, sentindo o calor reconfortante que emanava do Lorde Demônio.
— Eu prometi, não prometi? — murmurou Guy, sua voz vibrando suavemente contra o ouvido do menino.
Com um movimento fluido de sua mão livre, Guy materializou uma mamadeira azul, perfeitamente aquecida. Ele a entregou a Ryota, que a aceitou com as mãos pequenas, começando a beber com uma satisfação silenciosa. Guy começou a balançar o corpo levemente, um movimento rítmico que ele havia aprendido observando Rimuru. Era hipnótico e eficiente. Ryota fechou os olhos novamente, entregando-se ao balanço, sentindo-se o ser mais protegido de todo o mundo.
Do outro lado do salão, a atmosfera era mais animada, embora contida. Rimuru, em sua forma feminina deslumbrante, estava de pé perto da grande janela de cristal. Em seus braços, Alice Rondo estava em um estado de semiconsciência. A menina, que geralmente era um turbilhão de energia, estava agora mole como uma boneca de pano, mas seus olhos brilhavam toda vez que Ramiris voava em círculos rápidos ao redor de sua cabeça.
— Veja, Alice! — exclamou Ramiris, deixando um rastro de pó de fada brilhante no ar. — Eu sou a Rainha dos Espíritos, a mais magnífica de todas!
Milim Nava estava agachada na frente de Rimuru, fazendo caretas engraçadas e usando suas mãos para criar pequenas explosões de luz colorida que faziam Alice soltar risadinhas abafadas.
— Ela é tão fofa quando está com sono! — Milim exclamou, cutucando levemente a ponta do nariz de Alice. — Rimuru, você tem sorte! Eu queria que ela ficasse acordada para brincarmos de luta, mas o Guy disse que se eu a agitasse, ele me baniria do buffet de doces por um mês!
Rimuru soltou uma risada cansada, mas melodiosa.
— Ele não estava brincando, Milim. Alice precisa descansar. O festival foi exaustivo para todos nós.
— Mas ela gosta de me ver, não gosta? — perguntou Ramiris, pousando no ombro de Rimuru e olhando para a menina.
— Ela adora vocês duas — confirmou Rimuru, ajeitando Alice em seus braços. — Mas até as pequenas tempestades precisam de uma pausa.
Rimuru sentiu um peso nos ombros. O dia tinha sido uma maratona de diplomacia, cuidados maternais e a gestão constante das personalidades explosivas de seus convidados. Ela olhou para Guy e viu a cena quase surreal dele ninando Ryota com uma dedicação que desafiava milênios de história demoníaca.
Guy percebeu o olhar de Rimuru. Ele se levantou, carregando Ryota com uma facilidade que fazia o menino parecer uma pluma.
— Está na hora, Rimuru — disse Guy, aproximando-se. — O sol já se pôs e a energia deles acabou. Deixe que eu levo os meninos.
— Eu pego a Alice e a Chloe — disse Rimuru, mas Guy negou com a cabeça.
— Você está exausta. Eu cuido disso.
Guy sinalizou para que Diablo e Testarosa, que aguardavam nas sombras, se aproximassem. Diablo pegou Chloe com uma reverência silenciosa, enquanto Testarosa se encarregou de Kenya e Gale, que já dormiam profundamente em um sofá próximo. Guy manteve Ryota em seus braços e estendeu a mão livre para pegar Alice de Rimuru.
— Vá para o quarto — instruiu Guy, sua voz carregando um tom de comando que Rimuru, por uma vez, não quis questionar. — Eu vou colocá-los na cama e já encontro você.
Rimuru sorriu, agradecida.
— Obrigada, Guy. Você é realmente um pai maravilhoso.
Guy não respondeu com palavras, apenas com um olhar intenso que prometia muito mais do que apenas cuidados infantis.
O processo de colocar as cinco crianças na cama foi feito com uma precisão cirúrgica. No quarto das crianças, decorado com móveis confortáveis e luzes suaves que imitavam estrelas, Guy e os Primordiais deitaram cada um em seu lugar. Guy certificou-se de que Ryota tivesse seu dragão de pelúcia e que Alice estivesse bem coberta. Ele permaneceu no quarto por alguns minutos, observando o silêncio preenchido apenas pelas respirações suaves. Havia uma satisfação estranha em seu peito, uma sensação de completude que o trono de Lorde Demônio nunca lhe dera.
Quando Guy finalmente entrou nos aposentos reais de Rimuru, encontrou a porta entreaberta. O quarto estava imerso em uma luz suave de velas aromáticas. Rimuru já havia trocado suas roupas festivas por uma camisola de seda branca, fina e delicada, que delineava sua forma feminina com uma elegância etérea. Ela estava sentada na beira da cama, desfazendo as tranças de seu cabelo azul-prateado, que caía em ondas sobre seus ombros.
Guy fechou a porta atrás de si e encostou-se nela, observando Rimuru por um longo momento. A beleza dela, naquela forma, era algo que desafiava a descrição — uma mistura de pureza divina e uma tentação que só um demônio como ele poderia compreender plenamente.
— Eles dormiram? — perguntou Rimuru, sem se virar, mas sentindo a presença poderosa de Guy.
— Como anjos — respondeu Guy, caminhando lentamente em direção a ela. — Ou como pequenos monstros exaustos. Depende do ponto de vista.
Guy parou atrás dela e colocou as mãos em seus ombros, sentindo a pele macia através da seda. Ele inclinou o rosto, aspirando o perfume de lavanda e mel que sempre acompanhava Rimuru.
— Você fez um trabalho incrível hoje, Rimuru — sussurrou ele. — Ver você com eles... ver como você cuida de cada detalhe... isso me fez pensar.
Rimuru virou-se levemente, olhando para Guy com curiosidade.
— Pensar em quê?
Guy hesitou por um segundo, algo raro para o Rei Vermelho. Ele envolveu a cintura de Rimuru e a puxou para mais perto, fazendo-a ficar de pé entre suas pernas enquanto ele se sentava na beira da cama.
— Rimuru — começou ele, a voz mais grave e carregada de uma seriedade nova —, nós temos essas cinco crianças. Elas são nossas, eu as aceitei como tal. Mas... você já pensou em termos um filho? Um filho nosso, de sangue... ou de essência?
Rimuru arregalou os olhos, a surpresa evidente em seu rosto. O coração dela falhou uma batida. A ideia de um herdeiro nascido da união entre o Slime que se tornou Deus e o Lorde Demônio Primordial era algo que poderia abalar as fundações do mundo, mas, pessoalmente, era uma proposta de uma intimidade avassaladora.
— Guy... você está falando sério? — perguntou ela, a voz quase sumindo.
— Nunca falei tão sério em toda a minha vida — respondeu ele, as mãos subindo para acariciar o rosto dela. — Eu vi você sendo mãe hoje. Vi a luz que você traz para a vida deles. E eu quero isso. Quero criar algo com você que seja a prova eterna do que sentimos. Um novo herdeiro para Tempest... e para o mundo.
Rimuru sentiu uma onda de calor e emoção percorrer seu corpo. Ela olhou nos olhos vermelhos de Guy e viu ali não apenas o desejo, mas um amor profundo e uma vulnerabilidade que ele só mostrava a ela. O sarcasmo habitual de Rimuru desapareceu, dando lugar a uma aceitação plena.
— Eu adoraria, Guy — sussurrou ela, abrindo um sorriso radiante que iluminou o quarto. — Nada me faria mais feliz.
Rimuru inclinou-se e selou seus lábios nos dele. O beijo começou suave, carregado de promessas e ternura, mas rapidamente se transformou em algo mais intenso. O desejo acumulado de um dia longo e a conexão espiritual profunda entre eles explodiram em uma necessidade mútua.
Guy envolveu Rimuru em seus braços, puxando-a para o colchão macio. Suas mãos, antes tão delicadas com as crianças, agora exploravam o corpo de Rimuru com uma urgência possessiva. Rimuru respondeu com a mesma intensidade, suas mãos enroscando-se nos cabelos ruivos de Guy, puxando-o para mais perto.
— Eu vou proteger você — murmurou Guy entre beijos, descendo para o pescoço de Rimuru. — Vou proteger você e o futuro que vamos criar esta noite.
— Eu sei que vai — respondeu Rimuru, sua voz trêmula de desejo. — E eu estarei ao seu lado, sempre.
As roupas foram descartadas com pressa, deixando que a pele tocasse a pele, e que a magia de ambos se entrelaçasse no ar. O quarto foi preenchido por sussurros de nomes, suspiros de prazer e a energia vibrante de dois seres supremos se tornando um só. Não era apenas um ato físico; era uma fusão de almas, uma dança de poder e entrega que transcendia a compreensão mortal.
Naquela noite, sob o céu de Tempest e o testemunho das estrelas, o Lorde Demônio e a Deusa Slime não apenas celebraram seu amor, mas deram início a uma nova lenda. Entre carícias e promessas sussurradas no escuro, a essência de ambos se uniu, preparando o caminho para aquele que viria a ser o herdeiro de um legado sem precedentes.
Horas depois, quando a exaustão finalmente os venceu, Rimuru estava aninhada no peito de Guy, que a abraçava como se ela fosse o tesouro mais precioso de sua vasta coleção.
— Guy? — chamou ela baixinho, quase dormindo.
— Sim?
— Se for um menino... Kenya vai ficar com ciúmes do treinamento.
Guy soltou uma risada baixa e satisfeita, beijando o topo da cabeça de Rimuru.
— Então eu terei que treinar os dois ao mesmo tempo. E se for uma menina, ela será a rainha deste mundo antes mesmo de aprender a andar.
Rimuru sorriu, fechando os olhos com uma paz absoluta. O festival havia acabado, mas a verdadeira celebração de suas vidas estava apenas começando. Ali, no silêncio do quarto real, o futuro de Tempest estava sendo escrito não com tinta, mas com o amor inabalável entre o Vermelho e o Azul.