Flor de cerejeira
O Sangue dos Dragões e o Brilho dos Holofotes
A semana que se seguiu ao baile de gala foi um turbilhão de emoções para Maya. O colar de jade em seu pescoço parecia pulsar contra sua pele, um lembrete constante de que Zhang Linghe, o homem que toda a China adorava, pertencia a ela nos momentos de silêncio. No entanto, Maya carregava um peso que nem mesmo Linghe conhecia. Um segredo que ela guardara a sete chaves desde que pisara em solo chinês, temendo que a sombra de sua linhagem ofuscasse seu próprio esforço na Academia.
— Maya, você está aérea de novo — comentou Li Wei, ajeitando a maquiagem no espelho do camarim improvisado da faculdade. — Hoje é o grande dia do Festival de Primavera de Xangai. Todos os grandes nomes estarão lá, e nós, os "estudantes de elite", fomos escalados para a recepção e para uma pequena apresentação teatral. Você deveria estar animada!
— Eu estou, Wei. Só estou... nervosa — respondeu Maya, forçando um sorriso.
O que Li Wei não sabia era que o nervosismo de Maya não era pelo palco, mas pela promessa que fizera a um homem que não via há meses. Um homem que compartilhava metade de seu DNA, mas que o mundo conhecia como Song Weilong, o ator de beleza lendária e talento arrebatador.
O pai de Maya, um empresário brasileiro que vivera anos na China antes de retornar ao Brasil, tivera um relacionamento anterior com uma mulher chinesa. Song Weilong era o fruto dessa união, o irmão mais velho que Maya sempre amou à distância, através de chamadas de vídeo secretas e visitas discretas quando ele viajava para o exterior. Quando ela decidiu fazer o intercâmbio, Weilong foi seu maior incentivador, mas ambos concordaram: ela deveria trilhar seu próprio caminho primeiro.
— "Hoje é o dia, maninha" — dizia a mensagem de Weilong em seu celular. — "Chega de esconder quem você é. O mundo precisa saber que a minha irmã é a mulher mais talentosa desta Academia. Te vejo no palco principal."
Maya respirou fundo. Ela sabia que Zhang Linghe estaria lá. Ele era um dos convidados de honra. Como ele reagiria ao saber que a estudante estrangeira por quem se apaixonara era, na verdade, a irmã de um de seus maiores "rivais" de indústria?
O Centro de Convenções de Xangai estava transformado em um palácio de luzes. O tapete vermelho fervilhava. Maya, vestida com um traje de seda branca bordado com fios de prata, movia-se com a elegância de uma garça. Ela trabalhava na recepção VIP, entregando programas e orientando os convidados, quando viu a silhueta familiar de Linghe se aproximar.
Ele estava impecável, mas seus olhos procuraram os dela imediatamente. Ao passar por ela, ele fingiu ajustar o relógio para diminuir o passo.
— Você está maravilhosa, minha esmeralda — sussurrou ele, com um sorriso de canto que fez as pernas de Maya fraquejarem. — Mal posso esperar para sairmos daqui e podermos conversar de verdade.
— Linghe... — Maya começou, a voz trêmula. — Aconteça o que acontecer hoje, saiba que eu nunca quis te esconder nada por mal.
Ele franziu a testa, confuso.
— Do que você está falando?
— Linghe! — chamou um fotógrafo, interrompendo o momento.
— Falamos depois — prometeu ele, piscando antes de seguir para a área reservada.
O evento prosseguiu com apresentações musicais e discursos. No clímax da noite, o mestre de cerimônias anunciou um momento especial: o prêmio de "Embaixador da Cultura Jovem".
— Para apresentar este prêmio, chamamos ao palco um dos atores mais amados da nossa nação: Song Weilong! — anunciou o apresentador.
O salão explodiu em aplausos. Weilong entrou no palco com sua presença magnética. Ele fez um discurso inspirador sobre a união de culturas e a importância de novos talentos. Mas, em vez de anunciar o vencedor imediatamente, ele fez uma pausa.
— Antes de entregarmos este prêmio — disse Weilong, olhando diretamente para a área onde os estudantes estavam posicionados —, eu gostaria de compartilhar algo pessoal com todos vocês. Muitos me perguntam de onde vem minha inspiração. Ela vem da família. E hoje, tenho o orgulho de dizer que minha família está aqui.
Um murmúrio correu pela plateia. Zhang Linghe, sentado na primeira fila, inclinou-se para frente, curioso.
— Eu tenho uma irmã — continuou Weilong, com um brilho de orgulho nos olhos. — Ela veio do Brasil para estudar aqui, não por causa do meu nome, mas por causa do seu próprio sonho. Ela é uma brasileira de alma chinesa, uma atriz dedicada e a pessoa que eu mais admiro no mundo. Maya, por favor, venha até aqui.
O canhão de luz varreu o salão até encontrar Maya. Ela sentiu o mundo girar. Li Wei soltou um grito abafado ao seu lado. Maya, com as mãos trêmulas, começou a caminhar em direção ao palco. Cada passo parecia durar uma eternidade. Os flashes das câmeras eram como relâmpagos.
Ao subir os degraus, Weilong estendeu a mão para ela e a puxou para um abraço apertado diante de toda a elite de Xangai.
— Senhoras e senhores, apresento a vocês minha irmã, Maya — declarou Weilong ao microfone.
O silêncio que se seguiu foi quebrado por um aplauso ensurdecedor, mas Maya só conseguia olhar para uma pessoa: Zhang Linghe.
Linghe estava estático. Sua boca estava levemente aberta, e seus olhos passavam de Maya para Weilong, processando a informação. A semelhança estava lá, agora que ele sabia — no formato do rosto, na intensidade do olhar. Ele sentiu um misto de choque, alívio e uma pitada de ciúme retroativo por todas as vezes que vira Weilong ser mencionado em conversas.
Após a cerimônia, os bastidores tornaram-se um caos. Jornalistas tentavam cercar Maya, mas os seguranças de Weilong abriram caminho até uma sala privada. Maya mal teve tempo de processar tudo quando a porta se abriu bruscamente.
Era Zhang Linghe. Ele estava ofegante, ignorando os protestos dos assistentes de Weilong.
Weilong, que estava ao lado de Maya, cruzou os braços com um sorriso desafiador.
— Linghe — disse Weilong, em um tom casual. — Eu não sabia que você era tão apressado para cumprimentar os novos talentos.
— Weilong — respondeu Linghe, tentando recuperar a compostura, mas seus olhos estavam fixos em Maya. — Eu... eu preciso falar com ela.
— Com a minha irmã? — Weilong deu um passo à frente, protetor. — Você sabe que agora as regras mudaram, não sabe? Se você magoar uma estudante estrangeira, é uma coisa. Se magoar a minha irmã, é outra bem diferente.
— Wei, por favor — interveio Maya, tocando o braço do irmão. — Me deixe falar com ele.
Weilong olhou para os dois, suspirou e deu um tapinha no ombro de Linghe ao passar por ele.
— Eu estarei lá fora. Não demore.
A porta se fechou, e o silêncio entre Maya e Linghe era denso.
— Irmã do Song Weilong? — Linghe finalmente falou, sua voz uma mistura de riso e descrença. — Maya, você tem noção de que metade da China vai entrar em colapso amanhã?
— Me desculpe — disse ela, aproximando-se dele. — Eu queria te contar, mas eu queria que você gostasse de mim por quem eu sou, não por quem meu irmão é. Eu queria construir minha própria identidade aqui antes de ser "a irmã do Weilong".
Linghe deu dois passos rápidos e segurou o rosto dela entre as mãos, seus polegares acariciando as maçãs do rosto parda dela.
— Você é inacreditável — disse ele, rindo baixinho. — Eu passei as últimas semanas me perguntando se eu era bom o suficiente para uma mulher tão incrível, e agora descubro que você faz parte da "realeza" da nossa indústria.
— Você está bravo? — perguntou ela, buscando os olhos dele.
— Bravo? Maya, eu estou aliviado! — exclamou ele. — Eu estava preocupado que o mundo fosse te tratar como uma estrangeira qualquer se nos vissem juntos. Mas agora... agora você é intocável. E ao mesmo tempo, estou apavorado, porque o seu irmão é um dos homens mais difíceis de agradar que eu conheço.
Maya riu, sentindo o peso do segredo finalmente se dissipar.
— Ele gosta de você, Linghe. Ele só gosta de fazer drama. É a profissão dele, afinal.
— Então, isso significa que não precisamos mais nos esconder tanto? — perguntou Linghe, a esperança brilhando em seu olhar.
— Significa que a nossa história de amor acabou de ganhar um elenco de apoio bem famoso — respondeu ela, passando os braços pelo pescoço dele.
Linghe a puxou para um beijo, desta vez sem a hesitação do medo. Era um beijo que selava um novo contrato, um que não estava escrito em roteiros de televisão, mas no destino.
— Eu não me importo se você é irmã de um rei ou de um camponês — sussurrou ele contra os lábios dela. — Para mim, você sempre será a garota que prendeu o cabelo no meu set e roubou o meu coração no processo.
— E você — disse Maya, olhando para o colar de jade em seu pescoço — sempre será o meu herói imperial.
Lá fora, o flash das câmeras continuava, e o escândalo do dia seguinte já estava sendo escrito pelos tabloides. Mas dentro daquela sala, entre o brilho da seda e o calor do toque, a brasileira com olhos de esmeralda e o ídolo da China sabiam que sua história era a única que realmente importava. Eles eram o sangue dos dragões e a alma da paixão, prontos para enfrentar os holofotes de mãos dadas, desafiando o mundo a tentar separar o que o destino, e um pouco de sorte brasileira, havia unido.
— Maya? — chamou Linghe, enquanto se preparavam para sair.
— Sim?
— Da próxima vez que você tiver um irmão famoso, por favor, me avise antes do discurso nacional. Meu coração de ator não aguenta tantas reviravoltas em uma única noite.
Maya riu, encostando a cabeça no ombro dele.
— Prometo que não tenho mais irmãos famosos. Mas não prometo que a nossa vida não será cheia de surpresas.
— Se as surpresas incluírem você ao meu lado — disse ele, abrindo a porta para que ela passasse —, então eu aceito todas elas.
E assim, sob o céu estrelado de Xangai, a estudante que atravessara o mundo por um sonho descobriu que, às vezes, o maior papel que podemos interpretar é o de sermos nós mesmos, amados por quem somos, além de qualquer sobrenome ou roteiro. O intercâmbio de Maya se transformara em uma dinastia de amor, e o primeiro capítulo daquela nova era estava apenas começando.