Foryou
O Silêncio das Paredes Brancas
A escadaria de mármore da Columbia University sempre parecera imponente para Jhemini, um símbolo da tradição e do peso do conhecimento que ela tanto buscava. Mas, naquela tarde chuvosa, a pressa e a distração provaram ser uma combinação perigosa. Um degrau escorregadio, um livro que escapou das mãos e, em um segundo, o mundo girou em um borrão de dor e concreto.
O diagnóstico no pronto-socorro foi menos grave do que o susto sugeria: uma fissura no rádio e uma luxação no ombro. Agora, sentada na beira da cama de um quarto particular de hospital, Jhe observava o gesso branco que subia do seu pulso até quase o cotovelo. O braço estava imobilizado em uma tipoia, e a dormência da medicação começava a dar lugar a uma pulsação incômoda.
Ela não havia ligado para ninguém. Seus pais estavam em uma viagem de negócios em Dubai e a última coisa que Jhe queria era a presença sufocante de sua mãe reclamando sobre como "um gesso não combinaria com os vestidos da próxima temporada". E Richard... bem, Richard era a última pessoa que ela deveria envolver. A relação deles, embora intensa e absoluta entre quatro paredes, ainda era um segredo guardado sob sete chaves e camadas de gelo.
O silêncio do quarto de hospital foi subitamente quebrado. Não foi uma batida educada, mas o som da porta sendo escancarada com uma força que fez o batente vibrar.
Jhe levantou os olhos, o coração saltando no peito. Richard Black estava parado sob o portal, a silhueta alta e imponente em um terno cinza-chumbo perfeitamente cortado. Ele parecia ter saído diretamente de uma reunião de diretoria, mas sua expressão estava longe da calma corporativa. Ele estava pálido, os olhos escuros como tempestades de inverno, e a respiração pesada denunciava que ele viera às pressas.
— Richard? — a voz dela saiu pequena, carregada de surpresa. — O que você está fazendo aqui? Como soube?
Ele não respondeu de imediato. Cruzou o quarto em três passadas largas, parando diante dela. Richard não disse "olá" ou "sinto muito". Em vez disso, ele segurou o queixo dela com uma mão possessiva, obrigando-a a olhar diretamente para ele, enquanto seus olhos mapeavam cada centímetro do rosto dela em busca de outros ferimentos.
— Você achou mesmo que eu não saberia? — a voz dele era um rosnado baixo, uma vibração de autoridade e uma fúria contida que fez os pelos dos braços de Jhe se arrepiarem. — Eu pago as doações deste hospital, Jhemini. O sistema me avisa no momento em que um Black dá entrada no registro.
— Eu não queria incomodar — murmurou ela, tentando desviar o olhar, mas ele não permitiu. — Foi apenas um acidente idiota na escadaria. Eu estou bem.
— Você não está bem! — ele explodiu, soltando o queixo dela apenas para apontar para o braço engessado. — Você está em uma cama de hospital, com o braço quebrado, e decidiu que o silêncio era a melhor opção? Você tem ideia do que passou pela minha cabeça quando recebi aquele alerta?
Jhe sentiu a persistência dela aflorar, mesmo sob o efeito dos remédios.
— O que passou pela sua cabeça, Richard? Medo de um escândalo? Medo de que alguém perguntasse por que o grande Richard Black está tão interessado na saúde da sobrinha?
Richard inclinou-se sobre ela, as mãos apoiadas no colchão, cercando-a. O perfume amadeirado dele, misturado ao cheiro estéril do hospital, criou uma atmosfera asfixiante e excitante.
— Eu não dou a mínima para o escândalo agora — ele sibilou, o rosto a poucos centímetros do dela. — Eu senti o meu sangue congelar. Eu vi o seu nome naquela tela e, por um segundo, eu não era o CEO da Black Enterprises. Eu era apenas um homem prestes a perder a única coisa que o mantém humano.
O silêncio caiu entre eles, pesado e carregado de uma verdade que raramente era dita em voz alta. Richard Black, o homem de gelo, estava admitindo vulnerabilidade.
— Richard... — ela começou, mas ele a interrompeu com um beijo castigador.
Não foi um beijo de luxúria, embora o desejo estivesse sempre presente. Foi um beijo de posse, de alívio, de uma necessidade bruta de confirmar que ela ainda estava ali, sob seu controle, sob seus cuidados. Quando ele se afastou, a testa dele repousou contra a dela.
— Nunca mais — ordenou ele. — Nunca mais esconda algo de mim. Se você sangrar, eu quero saber. Se você cair, eu serei o único a te levantar. Entendido?
— Você é um maníaco por controle — ela disse, embora um sorriso gentil surgisse em seus lábios. — É apenas um braço, Richard. Eu ainda tenho o outro para te empurrar quando você for irritante demais.
Richard soltou um riso curto e seco, a tensão em seus ombros relaxando minimamente. Ele se afastou e desabotoou o paletó, jogando-o sobre uma poltrona próxima. Puxou uma cadeira para o lado da cama e sentou-se, cruzando as pernas longas com a elegância de um monarca.
— O médico disse que você terá alta em algumas horas — afirmou ele, como se estivesse ditando o destino. — Você não vai para o seu apartamento.
— Richard, eu tenho aulas, eu tenho...
— Você vai para a minha cobertura — ele a cortou, o tom não admitindo discussões. — Eu já mandei buscarem suas coisas. Você precisa de auxílio, e eu não confio em ninguém mais para monitorar sua recuperação.
— Você quer me manter como prisioneira de novo? — Jhe questionou, arqueando uma sobrancelha. — Só porque eu não consigo usar as duas mãos para me defender?
— Eu quero garantir que você não tente subir escadarias correndo com livros pesados — ele retrucou, os olhos brilhando com um brilho possessivo. — E quero poder olhar para você a cada hora para ter certeza de que esse rosto continua perfeito. Além disso... você vai precisar de ajuda para se vestir. E para tomar banho.
O tom de voz dele mudou na última frase, tornando-se mais profundo, mais sexy. Jhe sentiu um calor subir pelo pescoço. Richard sabia exatamente o que estava fazendo. Ele estava transformando um momento de fragilidade médica em uma extensão do jogo de poder e desejo que os unia.
— Você é impossível — disse ela, recostando-se nos travesseiros. — O que os enfermeiros vão pensar quando virem o tio cuidando tão... intimamente da sobrinha?
— Os enfermeiros deste andar sabem que o silêncio é a chave para continuarem empregados — Richard respondeu com uma frieza cortante. — E eu não sou seu tio quando as portas estão fechadas, Jhemini. Você sabe disso melhor do que ninguém.
Algumas horas depois, após uma série de burocracias que Richard resolveu com apenas alguns telefonemas e olhares intimidadores, Jhe estava sendo conduzida para fora do hospital. Richard não permitiu que ela caminhasse até o carro; ele a pegou nos braços, ignorando os protestos dela sobre "ser capaz de andar sozinha".
— Fique quieta — ele murmurou enquanto a acomodava no banco de trás da limusine blindada. — Você sofreu um trauma. Deixe-me cuidar de você.
Durante o trajeto até a cobertura, o silêncio na limusine era confortável, mas carregado de uma eletricidade latente. Richard mantinha a mão dela presa na dele, o polegar acariciando a pele macia acima do gesso. Jhe observava o perfil dele contra as luzes de Manhattan. Ele era arrogante, frio para o mundo, mas ali, naquele espaço privado, ele era o seu protetor, o seu amante, o seu pecado mais profundo.
Ao chegarem à cobertura, Richard a levou diretamente para a suíte master. O quarto era um santuário de luxo, com janelas do chão ao teto que mostravam o Central Park coberto por uma névoa fina.
— Eu vou te ajudar a tirar essa roupa — disse ele, começando a desamarrar os cadarços dos tênis dela.
— Richard, eu consigo...
— Jhemini — ele a olhou nos olhos, uma intensidade carinhosa que a desarmou completamente. — Deixe-me fazer isso. Deixe-me ser o homem que cuida de você hoje.
Ele a despiu com uma delicadeza que Jhe nunca imaginara que ele possuía. Cada peça de roupa era removida com cuidado para não mover o braço lesionado. Quando ela ficou apenas de calcinha, exposta sob a luz suave do quarto, Richard parou por um momento. Seus olhos percorreram as curvas dela, detendo-se nos peitos perfeitos que ele tanto adorava. Mesmo com o braço imobilizado e o gesso, ela era, para ele, a visão mais bonita do mundo.
— Você é magnífica — ele sussurrou, a mão grande espalmando-se sobre o ventre dela. — Mesmo ferida, você exala uma força que me consome.
Ele a levou para o banheiro de mármore, onde uma banheira imensa já estava cheia de água morna e sais aromáticos. Richard a ajudou a entrar, garantindo que o gesso ficasse protegido fora da água. Ele mesmo pegou uma esponja e começou a lavar as costas dela, os ombros, as pernas. Era um ato de serviço, uma rendição da arrogância dele à necessidade dela.
— Por que você faz isso? — perguntou Jhe, sentindo a tensão abandonar seu corpo sob o toque dele. — Por que se importa tanto?
Richard parou o movimento da esponja. Ele se inclinou e beijou o ombro são dela.
— Porque na escadaria daquela universidade, o mundo quase me tirou a única coisa que eu não posso comprar — ele confessou, a voz rouca. — Eu posso construir prédios, Jhemini. Posso destruir empresas. Mas eu não posso criar outra você.
Jhe virou-se um pouco, encontrando os olhos dele. A frieza habitual de Richard fora substituída por uma chama de obsessão e cuidado.
— Você me assusta às vezes — admitiu ela. — O modo como você me olha... como se eu fosse sua propriedade absoluta.
— E você é — ele disse, sem um pingo de hesitação. — Mas uma propriedade que eu venero.
Depois do banho, ele a secou com toalhas felpudas e a vestiu com uma de suas camisas de seda preta. O tecido era largo e caía suavemente sobre o corpo dela, o cheiro de Richard envolvendo-a como um abraço. Ele a deitou na cama imensa e cobriu-a com o edredom de plumas.
— Durma agora — disse ele, preparando-se para se levantar.
— Fique — ela pediu, estendendo a mão boa para segurar o pulso dele. — Não quero ficar sozinha com a dor.
Richard não discutiu. Tirou os sapatos e a camisa, ficando apenas com a calça de alfaiataria, e deitou-se ao lado dela. Puxou-a para o seu peito, garantindo que o braço engessado estivesse em uma posição confortável.
— Eu não vou a lugar nenhum, Jhemini — ele prometeu, beijando o topo da cabeça dela. — Nem hoje, nem nunca. Você está sob a proteção dos Black agora. E, mais especificamente, sob a minha.
Jhe fechou os olhos, sentindo o calor constante do corpo de Richard e o ritmo firme do seu coração. A queda na faculdade fora um susto, uma lembrança da fragilidade da vida, mas ali, nos braços do homem que o mundo temia, ela se sentia invencível.
A insegurança que às vezes a visitava desapareceu. Ela sabia que Richard era um predador, um homem que não seguia regras e que a reivindicara de forma proibida. Mas, enquanto o sono a envolvia, Jhe percebeu que não havia lugar mais seguro no mundo do que o centro daquela obsessão.
Richard permaneceu acordado por muito tempo, observando-a dormir. Sua mente já estava traçando planos para reforçar a segurança dela, para garantir que ela nunca mais tivesse que enfrentar uma dor sozinha. Ele era arrogante, carinhoso à sua maneira distorcida e irremediavelmente viciado nela.
A nevasca que os unira meses atrás ainda caía dentro de suas almas, isolando-os do julgamento da sociedade. E enquanto Jhemini estivesse sob o seu teto, sob o seu nome e sob o seu toque, Richard Black garantiria que o mundo exterior continuasse sendo apenas um detalhe irrelevante na história que eles estavam escrevendo — uma história de pecado, poder e uma proteção que beirava a adoração.