Fuck
Máscaras Caídas e Cólicas Insustentáveis
A segunda-feira tinha sido um borrão de olhares furtivos e mensagens deletadas segundos após serem lidas. Entre as aulas de geografia e matemática, Mizi e Sua aperfeiçoaram a arte da indiferença pública. Para o resto da escola, elas ainda eram a garota carismática de cabelos coloridos e a novata melancólica que não se suportavam. Mas, por baixo das mesas, os toques eram elétricos, e nos banheiros vazios, o silêncio era preenchido por respirações curtas e promessas sussurradas.
Na terça-feira, o sol estava forte demais para o gosto de Sua. Ela sentia uma pressão incômoda no baixo ventre, um prenúncio de que sua semana seria regada a analgésicos e mau humor. O grupo estava reunido no pátio, no mesmo banco de cimento de sempre. Ivan tentava roubar um pedaço do sanduíche de Till, que rosnava como um animal encurralado, enquanto Luka e Hyuna discutiam o roteiro de um filme que tinham visto no domingo.
Mizi estava sentada ao lado de Hyuna, mas seus olhos dourados não paravam de viajar até Sua, que estava isolada na ponta oposta, com a cara enterrada em um livro de poemas russos.
— Pessoal, atenção aqui — Mizi disse de repente, levantando-se e batendo palmas levemente para dispersar a conversa sobre cinema e sanduíches.
— Lá vem — resmungou Till, finalmente conseguindo afastar a mão de Ivan. — O que foi agora, Mizi? Decidiu que vai pintar o cabelo de verde?
Mizi respirou fundo. Ela não era de rodeios, e a tensão de esconder o que estava sentindo estava começando a afetar sua performance social. Ela gostava de ser o centro das atenções, mas odiava sentir que estava atuando.
— Eu tenho dois anúncios. O primeiro é que eu sou lésbica. Tipo, cem por cento. — Ela deu de ombros, como se estivesse anunciando a previsão do tempo.
Houve um silêncio de três segundos.
— Bom, isso explica por que você nunca deu bola para o pedido de namoro do garoto do segundo ano — comentou Luka, ajeitando os óculos com uma calma irritante. — A probabilidade estatística de você ser heterossexual já vinha caindo nos meus cálculos há meses.
— Jura, Luka? — Hyuna riu, dando um tapa no braço do namorado. — Mizi, amiga, a gente já sabia, ou pelo menos desconfiava. Você não é exatamente sutil quando olha para as líderes de torcida.
— Tá, tá, essa parte foi fácil — Mizi disse, sentindo o rosto esquentar, mas mantendo o sorriso confiante. — O segundo anúncio é que eu e a Sua estamos ficando.
Desta vez, o silêncio não foi de três segundos. Foi um vácuo absoluto que pareceu sugar todo o oxigênio do pátio. Ivan parou de mastigar seu chiclete, os olhos arregalados de prazer puro pelo drama. Sua nem levantou os olhos do livro, mas as pontas de suas orelhas estavam tão vermelhas que pareciam prestes a entrar em combustão.
Till, no entanto, reagiu de forma diferente. O pacote de salgadinho em sua mão foi esmagado com um estalo seco. Seu rosto, geralmente pálido, ficou subitamente lívido.
— Você... e ela? — Till apontou para Sua como se ela fosse um alienígena. — Mas vocês se odeiam! Ela é... ela é chata! E você... porra, Mizi!
— A gente não se odeia tanto assim, Till — Mizi respondeu, suavizando o tom. — Aconteceu.
— Aconteceu o caralho! — Till levantou-se bruscamente, a mochila batendo no banco. — Que perda de tempo.
Sem dizer mais nada, ele deu as costas ao grupo e saiu pisando fundo em direção ao prédio dos armários.
— Till! Espera! — Hyuna tentou chamar, mas ele já tinha desaparecido no corredor.
Mizi suspirou, sentando-se novamente com um peso nos ombros. Ela sabia que Till gostava dela, mas não esperava uma reação tão explosiva.
— Deixa que eu vou — Ivan disse, levantando-se com uma agilidade surpreendente. Ele pegou um pirulito novo no bolso e piscou para Sua. — Alguém tem que consolar o ferido.
Ivan encontrou Till sentado no chão, atrás da fileira de armários do ginásio, com a cabeça entre os joelhos. O garoto de cabelos cinzas parecia uma pilha de nervos e frustração.
— Caralho, Till, você parece um personagem de anime triste — Ivan disse, encostando-se no armário ao lado dele. — Quer um doce ou quer socar a parede?
— Vai se ferrar, Ivan — a voz de Till saiu abafada. — Por que ela? De todas as pessoas, por que aquela novata esquisita?
— Porque o coração é um órgão idiota, Till — Ivan respondeu, perdendo um pouco do tom brincalhão. — E porque a Mizi nunca te viu desse jeito. Você sabe disso no fundo, não sabe?
Till levantou a cabeça, os olhos verdes injetados de raiva e mágoa.
— Eu gosto dela há anos, porra. Eu fiz tudo. Eu estava lá sempre. E aí chega essa garota que mal fala e...
— Talvez você esteja olhando para a direção errada — Ivan interrompeu, olhando para o teto do ginásio. — Você fica tão focado no que não pode ter que não percebe as coisas que estão bem na sua frente.
Till franziu o cenho, confuso pela mudança de tom do amigo.
— O que você quer dizer com isso?
Ivan olhou para ele, um sorriso de canto, meio triste, meio provocador, surgindo em seus lábios.
— Quero dizer que talvez tenha gente por aí, bem perto de você, que goste de caras irritadiços, impacientes e que escutam música emo de 2005.
Till piscou, processando a frase. Ele olhou para Ivan por um longo momento.
— Quem? — perguntou Till, com uma ingenuidade que quase fez Ivan rir de desespero. — Quem é que gostaria de alguém como eu?
Ivan soltou um suspiro longo, balançando a cabeça.
— Esquece, Till. Você é muito sonso. Vamos voltar, a aula de história vai começar e eu não quero o Luka me dando sermão sobre a importância da pontualidade.
— Não, fala aí! Quem é? — Till insistiu, levantando-se e seguindo Ivan, que já estava se afastando.
— É o fantasma do ginásio, Till. Agora cala a boca.
***
Enquanto o drama dos garotos se desenrolava, Sua tinha conseguido sobreviver ao resto do dia escolar, mas a cada hora que passava, seu corpo parecia traí-la um pouco mais. A menstruação tinha chegado com força total, trazendo consigo uma cólica que parecia uma faca girando em seu abdômen e uma irritabilidade que tornava o simples som da voz de qualquer pessoa insuportável.
Ao chegar em casa, ela se trancou no quarto, enrolou-se em um edredom e colocou uma bolsa de água quente sobre a barriga. Seu celular vibrou na mesa de cabeceira.
**[Chat: Mizi]**
**Mizi:** *ei, você tá bem? você saiu correndo depois do sinal.* **Mizi:** *fiquei preocupada. o anúncio foi demais pra você?*
Sua olhou para a tela e sentiu uma vontade súbita de chorar e de gritar ao mesmo tempo.
**Sua:** *Não foi o anúncio. É o meu corpo tentando me matar por dentro.* **Sua:** *E você fala demais até por mensagem. Minha cabeça tá explodindo.*
**Mizi:** *Nossa, que humor maravilhoso. TPM?*
**Sua:** *Não te interessa.* **Sua:** *E sim. Agora me deixa em paz. O mundo é um lugar horrível e eu odeio tudo.*
**Mizi:** *Inclusive eu? :(*
Sua visualizou a mensagem. Ela sabia que Mizi estava tentando ser fofa, ou talvez apenas provocá-la para tirá-la do buraco, mas naquele momento, a lógica não funcionava.
**Sua:** *Especialmente você. Você é barulhenta, você cheira a doce e você decidiu contar pra todo mundo sobre a gente sem me perguntar se eu queria ser o centro das atenções.*
**Mizi:** *Ué, mas você não negou! Você ficou lá com a cara no livro mas não disse "não".* **Mizi:** *E eu achei que a gente tinha passado da fase de esconder as coisas na sala de faxina.*
**Sua:** *Aquilo foi um erro momentâneo de julgamento causado por hormônios.* **Sua:** *Agora eu só quero que você suma. E traz chocolate. Mas não fala comigo.*
**Mizi:** *Como eu vou levar chocolate se eu tenho que sumir? Você é muito contraditória, Sua.*
**Sua:** *Deixa na porta e vai embora.* **Sua:** *Eu te odeio.*
Sua jogou o celular longe e se encolheu mais. Ela sabia que estava sendo injusta, mas a dor física tornava tudo amplificado. Meia hora depois, ouviu batidas leves na porta de seu quarto.
— Sua? Sou eu — a voz de Ivan era baixa, estranhamente cautelosa. — A Mizi tá lá embaixo. Ela trouxe uma sacola daquela loja de doces que você gosta e um remédio que a Hyuna indicou.
— Manda ela ir embora! — Sua gritou debaixo das cobertas.
A porta se abriu uma fresta. Não era Ivan. Era Mizi, segurando uma sacola de papel pardo e um copo de chá térmico.
— O Ivan me deixou subir — Mizi disse, entrando e fechando a porta com o pé. — Ele disse que você estava em "modo de destruição total".
Sua levantou apenas os olhos por cima do edredom. Seus cabelos estavam bagunçados e ela parecia genuinamente exausta.
— Eu disse pra você sumir.
— E eu disse que você é contraditória — Mizi caminhou até a cama e sentou-se na beirada, deixando a sacola no criado-mudo. — Trouxe chocolate amargo, porque você é amarga, e chá de camomila. E eu prometo que vou ficar em silêncio por dez minutos.
Sua observou Mizi. A garota de cabelos rosa não estava sorrindo de forma debochada agora. Ela parecia calma, paciente. Mizi estendeu a mão e, com uma delicadeza que raramente mostrava em público, afastou uma mecha de cabelo do rosto de Sua.
— Desculpa por ter falado no pátio sem te avisar — Mizi sussurrou. — Eu só... eu estava orgulhosa. De você. De nós.
Sua sentiu a barreira de irritação começar a ruir. Ela soltou um suspiro trêmulo e estendeu a mão para fora do edredom, segurando a mão de Mizi.
— Minha barriga dói — Sua admitiu, a voz pequena e sem a agressividade de antes.
— Eu sei, pequena. Deita aqui.
Mizi se acomodou na cama, encostando as costas na cabeceira e puxando Sua para se deitar em seu colo. Ela começou a massagear a região lombar de Sua por cima do cobertor, mantendo a promessa de silêncio.
Por um longo tempo, o único som no quarto foi o da respiração das duas. Sua sentiu a tensão deixar seu corpo aos poucos. O calor de Mizi era melhor que qualquer bolsa de água quente.
— Mizi? — Sua chamou, com a voz abafada contra a perna da outra.
— Oi?
— O chocolate. Abre pra mim.
Mizi riu baixinho, o som vibrando no peito de Sua.
— Você é insuportável, sabia?
— Sabia.
Mizi abriu a barra de chocolate e deu um pedaço na boca de Sua. Enquanto observava a garota comer, Mizi pensou em Till, na confusão de Ivan e na bagunça que sua vida tinha se tornado em apenas algumas semanas. Mas, ao sentir Sua relaxar completamente em seus braços, ela soube que não trocaria aquele caos por nenhuma paz no mundo.
— Você ainda me odeia? — Mizi perguntou, roçando os lábios no topo da cabeça de Sua.
Sua mastigou o chocolate devagar, fechando os olhos.
— No momento, eu odeio noventa e nove por cento do universo.
— E o um por cento que sobrou?
Sua apertou a mão de Mizi com um pouco mais de força.
— O um por cento está fazendo massagem nas minhas costas. Então... talvez você esteja segura por enquanto.
Mizi sorriu, satisfeita. O silêncio voltou, mas desta vez, não era perigoso nem ensurdecedor. Era o tipo de silêncio que só existia quando as máscaras finalmente caíam e o que sobrava era apenas a verdade, por mais complicada e cheia de cólicas que ela fosse.