Gelo ardente
Ouro, Luxo e Labaredas
A festa de gala da ISU após o Troféu Finlândia era o ápice da hipocrisia esportiva. Homens e mulheres que haviam passado a semana tentando se destruir no gelo agora desfilavam em ternos sob medida e vestidos de grife, segurando taças de champanhe e trocando sorrisos coreografados para as câmeras. O salão do hotel de luxo em Helsinque brilhava sob lustres de cristal, mas o ar estava pesado com o perfume caro e a tensão latente.
Julia Cenci estava deslumbrante em um vestido de seda verde-esmeralda, com as costas totalmente nuas e uma fenda que desafiava a gravidade. Ela mantinha a postura ereta, a "Dama de Gelo" em seu habitat natural, mas por dentro, cada nervo de seu corpo ainda vibrava com a memória do que acontecera na sala de fisioterapia.
— Você está parecendo uma estátua, Julia — disse Sergei, aproximando-se com um copo de vodca. — Sorria para os patrocinadores. Amanhã voltamos para o regime de Moscou, mas hoje, tente parecer humana.
— Estou tentando, Sergei — respondeu ela, os olhos percorrendo o salão. — Só é difícil quando o ambiente está tão... poluído.
A poluição a que ela se referia tinha nome e sobrenome: Ilia Malinin. Ele estava no centro do salão, cercado por uma pequena multidão. Usava um terno preto sem gravata, com os primeiros botões da camisa abertos, exalando uma arrogância magnética. E, pendurada em seu braço como um acessório barato, estava Chloe Miller, uma patinadora americana de dupla que era conhecida tanto por seus saltos medíocres quanto por sua insistência em ser o centro das atenções.
— Ai, Ilia, você foi tão incrível ontem! — A voz de Chloe era aguda e projetada para que todos ao redor ouvissem. — Eu quase desmaiei quando você aterrissou aquele Axel. Você é literalmente o único homem que consegue fazer meu coração parar assim.
Ilia deu um sorriso de lado, aquele sorriso que Julia conhecia bem, mas seus olhos não estavam em Chloe. Eles estavam fixos em Julia, do outro lado do salão, queimando através da seda verde.
— É uma questão de física, Chloe — disse Ilia, a voz alta o suficiente para ecoar. — Alguns de nós nasceram para desafiar a gravidade. Outros... apenas para observar.
Chloe soltou uma risadinha afetada, encostando o busto no braço dele.
— Você é tão profundo! Sabe, eu estava pensando... depois daqui, a gente podia ir para o terraço. Eu trouxe uma garrafa especial de vinho e adoraria que você me ensinasse um pouco mais sobre esse seu... "equilíbrio".
Julia apertou a haste de sua taça com tanta força que temeu que o cristal se estilhaçasse. Ela viu Ilia inclinar a cabeça, sussurrando algo no ouvido de Chloe que a fez rir ainda mais alto, enquanto ele mantinha o contato visual com Julia. Era um desafio. Ele estava testando o limite dela.
— Com licença, Sergei — disse Julia, a voz gélida. — Preciso de um pouco de ar.
Ela caminhou em direção à varanda, mas antes que pudesse chegar à porta, sentiu um toque em seu braço. Era Nikolai Volkov.
— Julia, você está maravilhosa — disse ele, os olhos cheios de uma admiração genuína que, naquele momento, só servia para irritá-la. — Gostaria de uma dança? A orquestra começou uma valsa russa.
— Agora não, Nikolai. Eu realmente só preciso de um minuto sozinha.
— Você parece perturbada. É o americano? — Nikolai olhou para Ilia com desdém. — Ele é um animal, Julia. Não entendo como você permite que ele chegue tão perto.
— O que eu permito ou não é problema meu, Nikolai — retrucou ela, soltando-se dele.
Ela saiu para a varanda, sentindo o ar gélido da Finlândia atingir seu rosto. O contraste entre o frio externo e o calor que subia por seu corpo era quase insuportável. Ela não teve que esperar muito. O som de passos firmes e o cheiro cítrico de Ilia anunciaram sua chegada.
— Fugindo de novo, Cenci? — A voz dele estava carregada de deboche. — Achei que a Dama de Gelo gostasse de festas. Ou será que ver a Chloe no meu braço foi demais para o seu estômago brasileiro?
Julia se virou, os olhos faiscando.
— Ela é patética, Ilia. E você é ainda mais patético por dar corda para aquela... aquela "pick me" desesperada. "Ai, Ilia, seu Axel é tão grande!" — Julia imitou a voz de Chloe com perfeição ácida.
Ilia soltou uma risada alta, aproximando-se dela até que suas sombras se misturassem na penumbra da varanda.
— Está com ciúmes, Julia? Que fofo. Eu não sabia que você se importava com quem eu levo para o terraço.
— Eu não me importo com quem você fode, Malinin. Eu me importo com o fato de você estar sendo um idiota exibicionista na frente dos meus treinadores e rivais.
— Mentira — ele sussurrou, prensando-a contra a mureta de pedra. — Você se importa porque sabe que, por mais que ela tente, ninguém me olha do jeito que você olha. E ninguém me toca do jeito que você toca.
Ele segurou o rosto dela com as duas mãos, o polegar traçando o lábio inferior dela.
— Você quer que eu mande ela embora? — perguntou ele, a voz agora rouca, perdendo toda a ironia. — Quer que eu diga para todo aquele salão que a única mulher que eu quero despir esta noite é a que está escondida atrás desse vestido verde?
Julia sentiu a resistência desaparecer.
— Eu quero que você cale a boca e me leve para algum lugar onde eu não tenha que ouvir a voz dela ou ver a cara do Nikolai.
Ilia não esperou. Ele a puxou pelo corredor de serviço, longe dos convidados, entrando no elevador e apertando o botão da cobertura. Assim que as portas se fecharam, ele a atacou. Não foi um beijo de gala; foi uma reivindicação. Suas mãos desceram para a fenda do vestido, encontrando a pele macia da coxa de Julia e puxando-a para cima.
— Você está me deixando louco com esse vestido — ele rosnou contra o pescoço dela, seus dentes cravando-se levemente na pele sensível.
— Então faça algo a respeito — ela desafiou, as mãos puxando o cabelo loiro dele, forçando-o a olhá-la.
Eles entraram na suíte de Ilia como um furacão. A porta mal se fechou antes que as roupas começassem a voar. O vestido de seda esmeralda de Julia deslizou pelo seu corpo como água, revelando uma lingerie de renda preta que fez Ilia soltar um palavrão baixo.
— Tallinn não foi nada perto do que eu vou fazer com você hoje — disse ele, jogando-a sobre a cama king-size.
Ilia desfez o cinto com pressa, livrando-se das calças e da camisa. O corpo dele era pura musculatura definida, marcado pelas horas exaustivas no gelo, mas agora ele estava tenso por um motivo muito diferente. Ele se posicionou entre as pernas dela, as mãos prendendo os pulsos de Julia acima da cabeça.
— Diga — ordenou ele, os olhos azuis escuros de luxúria. — Diga que você não quer o russo. Diga que é só o meu nome que você grita quando está sozinha.
— Você é um convencido... — Julia tentou resistir, mas quando Ilia desceu a cabeça e abocanhou um de seus mamilos através da renda fina, ela arqueou as costas, soltando um suspiro longo. — Sim... é você, seu idiota. Sempre foi você.
Ilia soltou os pulsos dela, mas apenas para poder explorar cada centímetro de seu corpo. Ele desceu os beijos pelo abdômen dela, os dedos habilidosos puxando a renda da calcinha para o lado. Quando ele a penetrou com os dedos, Julia soltou um grito abafado no travesseiro. Ele era rápido, preciso e implacável, encontrando o ponto exato que a fazia perder o controle.
— Olhe para mim, Julia — ele comandou.
Ela abriu os olhos, a visão embaçada pelo prazer. Ilia se posicionou e, com um movimento firme e profundo, ele se uniu a ela. Julia sentiu o impacto em todo o seu ser. Era como se o gelo e o fogo finalmente tivessem se fundido.
O ritmo deles era frenético, uma coreografia de pele e suor. Cada estocada de Ilia era acompanhada por um gemido de Julia, que cravava as unhas nas costas dele, deixando marcas vermelhas que seriam as medalhas dele no dia seguinte. Não havia delicadeza; havia uma fome que vinha de anos de negação e rivalidade.
— Mais... Ilia, por favor — ela implorou, as pernas envolvendo a cintura dele, puxando-o para que ele fosse ainda mais fundo.
Ele acelerou o ritmo, o som dos corpos se chocando e a respiração pesada preenchendo o quarto luxuoso. Ilia estava focado nela, em cada reação, em cada tremor que percorria o corpo de Julia. Ele a virou de costas, puxando-a pelos quadris, e a possuiu por trás com uma força que a fez morder o lábio para não gritar o nome dele alto demais para os vizinhos de quarto ouvirem.
— Você é minha — ele sussurrou, a voz falhando enquanto o ápice se aproximava. — Minha patinadora, minha rival... minha.
Julia sentiu a onda de prazer começar a quebrar sobre ela, uma explosão de cores e sensações que a deixou sem fôlego. Ilia a seguiu logo depois, desmoronando sobre ela, o coração batendo tão forte contra as costas dela que parecia um só.
Eles ficaram ali por um longo tempo, apenas respirando, o suor esfriando na pele. O silêncio era confortável, algo raro entre os dois.
— Chloe Miller ainda deve estar esperando no terraço — comentou Julia, a voz rouca, com um vestígio de humor.
Ilia soltou uma risada preguiçosa, beijando o ombro nu de Julia.
— Deixe que ela espere. O vinho dela provavelmente é tão ruim quanto o Lutz triplo que ela tenta fazer.
Julia se virou nos braços dele, olhando para o teto.
— Sergei vai me matar se vir as marcas no meu pescoço.
— Deixe que ele veja — Ilia disse, puxando-a para mais perto. — Deixe que todos vejam. Eu cansei de fingir que não quero te marcar como se fosse o meu próprio recorde mundial.
A paz, no entanto, durou pouco. Um estrondo na porta da suíte os fez pular.
— ILIA! Eu sei que você está aí! — A voz de Chloe Miller ecoou do corredor, seguida pelo som de batidas frenéticas. — Eu vi você saindo com aquela brasileira! Você não pode me trocar por ela, ela é um robô! Ela nem tem sentimentos!
Julia sentou-se na cama, uma sobrancelha arqueada.
— Seu "brinquedo" está fazendo barulho, Malinin.
Ilia revirou os olhos, levantando-se e vestindo apenas a calça do terno. Ele caminhou até a porta e a abriu apenas uma fresta.
— Chloe, vá dormir. Você está bêbada e fazendo cena.
— Eu não estou fazendo cena! — Chloe tentou empurrar a porta, mas Ilia era uma parede de músculos. — Ela está aí, não está? A Dama de Gelo! O que ela tem que eu não tenho? Eu sou americana, Ilia! Nós somos a dupla perfeita para o marketing!
— Chloe — a voz de Ilia ficou perigosamente baixa —, se você não sair da frente da minha porta agora, eu vou garantir que sua federação saiba exatamente o que você está fazendo. E confie em mim, ninguém quer uma patinadora que persegue colegas de equipe pelos hotéis.
Houve um silêncio, seguido pelo som de passos de salto alto se afastando e um choro abafado. Ilia fechou a porta e voltou para a cama, suspirando.
— Patético — comentou Julia, cruzando os braços sobre o peito.
— Totalmente — concordou ele, deitando-se ao lado dela. Ele a olhou por um momento, a expressão suavizando. — Mas ela tinha razão em uma coisa.
— No quê?
— Você não é um robô, Julia. Você é o incêndio mais bonito que eu já vi. E eu não me importo de me queimar todos os dias, desde que seja com você.
Julia sentiu um aperto no peito que não tinha nada a ver com a competição. Ela se inclinou e o beijou, um beijo calmo, que carregava uma promessa silenciosa.
— Não se acostume com isso, Malinin. Amanhã, no treino, eu ainda vou te humilhar naquela sequência de passos.
Ilia sorriu, puxando o lençol sobre os dois.
— Eu não esperaria nada menos da minha Dama de Gelo. Mas agora... cala a boca e dorme. Temos um voo cedo e eu pretendo te manter acordada por mais algumas horas antes disso.
A festa de gala havia terminado, as luzes do salão estavam apagadas e os rivais estavam em seus próprios quartos. Mas ali, naquela suíte, a guerra entre o Brasil e os EUA tinha encontrado uma zona de paz temporária, forjada no calor de uma paixão que nenhum gelo no mundo seria capaz de resfriar.