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Gelo ardente

O Despertar do Vulcão

O despertador tocou às cinco da manhã, um som estridente que parecia perfurar o crânio de Yulia como uma lâmina mal afiada. Por um segundo, a desorientação tomou conta. O lençol não era o dela; o cheiro de amaciante barato misturado com algo vagamente metálico e masculino também não.

Ela se virou e deu de cara com Ilia. Ele dormia com a boca entreaberta, um braço jogado para fora da cama e o cabelo loiro parecendo um ninho de pássaros após um furacão. Sem a máscara de arrogância e os sorrisos de lado, ele parecia quase... humano. Quase vulnerável.

Yulia sentiu um aperto no peito que não tinha nada a ver com asma ou esforço físico. O que eles tinham feito? A "Miss Perfect" russa tinha acabado de passar a noite com o maior rival, o "Quad God" americano, o filho do seu treinador. Se Elena Karenina descobrisse, o gelo da Virgínia não seria frio o suficiente para esconder o rastro de sangue que sua mãe deixaria.

Ela se levantou em silêncio, sentindo o corpo protestar. Seus músculos estavam doloridos de uma forma diferente do treino. Cada movimento lembrava a pressão das mãos de Ilia, o peso do corpo dele, a urgência de um beijo que parecia querer consumir tudo o que ela era.

— Já vai fugir, Karenina? — A voz de Ilia soou rouca, vinda de algum lugar profundo sob o travesseiro.

Yulia congelou com uma das meias na mão. Ela se virou e o viu observando-a com um olho só, um sorriso preguiçoso e vitorioso começando a se formar.

— O treino começa em uma hora, Ilia. E eu não pretendo chegar atrasada por sua causa.

Ilia sentou-se na cama, deixando o lençol cair até a cintura. Ele não parecia nem um pouco arrependido ou preocupado com o protocolo.

— Relaxa. Meu pai não chega antes das sete. E a sua mãe... bem, ela não entra no vestiário masculino, entra?

— Isso não é engraçado — disse ela, vestindo o vestido de seda com pressa. — Se alguém desconfiar, minha carreira acaba antes de eu estrear pelos Estados Unidos. Minha mãe me manda de volta para Moscou no primeiro voo disponível.

Ilia levantou-se e caminhou até ela. Ele estava completamente nu, sem um pingo de vergonha, e parou a centímetros de distância.

— Ninguém vai saber, Yulia. A menos que você comece a corar toda vez que eu fizer um quádruplo Axel na sua frente. O que, convenhamos, é difícil de evitar, já que sou impressionante.

Yulia revirou os olhos, mas não conseguiu evitar que um leve sorriso surgisse.

— Você é um idiota egocêntrico.

— E você adora isso — ele sussurrou, inclinando-se para um beijo de despedida que durou muito mais do que Yulia pretendia permitir.

***

O ar do rinque estava mais gelado do que o normal naquela manhã, ou talvez fosse apenas o contraste com o calor do quarto de Ilia. Yulia já estava no gelo há vinte minutos, executando círculos perfeitos, tentando focar na borda de seus patins e não na lembrança das mãos de Ilia em sua cintura.

Elena estava na mureta, como sempre. Seus olhos pareciam scanners, procurando qualquer sinal de fraqueza.

— Você está lenta, Yulia — disse Elena, sua voz ecoando pelo ginásio vazio. — Seus ombros estão caídos. O que aconteceu? Não dormiu bem?

— Estou apenas aquecendo, mamãe — respondeu Yulia, sem olhá-la.

Nesse momento, as portas duplas do rinque se abriram e Ilia entrou. Ele estava usando seu agasalho da seleção americana, carregando a bolsa de patins com uma negligência irritante. Ele passou por Roman, que já estava organizando os cones para o treino de agilidade, e deu um tapinha no ombro do pai.

— Bom dia, mundo! — gritou Ilia, ganhando um olhar de reprovação de quase todos os presentes.

Ele deslizou para o gelo e, em vez de começar o aquecimento padrão, fez um círculo largo que o levou diretamente para o caminho de Yulia.

— Bom dia, Karenina — disse ele, passando tão perto que o vento de seu movimento agitou o cabelo dela. — Pronta para perder de novo hoje?

Yulia sentiu o sangue ferver. A competitividade era o seu porto seguro, a única coisa que fazia sentido quando o resto do mundo parecia confuso.

— Em seus sonhos, Malinin.

Roman bateu palmas, chamando a atenção de todos.

— Hoje vamos trabalhar a simulação de pressão. Quero que façam um "skate-off". Yulia, você apresenta sua sequência de passos e saltos combinados. Ilia, você faz o mesmo logo em seguida. Vou dar notas técnicas. O perdedor faz cinquenta voltas extras de condicionamento físico após o treino.

Ilia piscou para Yulia.

— Cinquenta voltas? É melhor você começar a se alongar, russa.

— Primeiro as damas — disse Roman.

Yulia foi para o centro. A música começou — um arranjo dramático de piano e violoncelo. Ela se esqueceu de Ilia, da noite anterior e da dor no quadril. Ela se tornou a música. Sua sequência de passos foi impecável, os níveis de dificuldade subindo a cada troca de borda. Ela executou um triplo Lutz-triplo Toe com uma precisão cirúrgica. Ao terminar, ela deslizou até a mureta, ofegante, mas satisfeita.

— Técnica excelente — comentou Roman, anotando algo em sua prancheta. — Mas falta um pouco de agressividade na entrada dos saltos.

Agora era a vez de Ilia. Ele não usou música. Ele apenas patinou. Mas a forma como ele ocupava o espaço era diferente. Ele era explosivo. Ele preparou o terreno e, do nada, lançou-se em um quádruplo Lutz. A rotação era tão rápida que parecia um borrão. A aterrissagem foi ruidosa, mas sólida. Ele terminou com um salto mortal para trás — algo ilegal em competições, mas que ele adorava fazer para provocar.

— Exibido — sussurrou Yulia.

— Mas eficiente — rebateu Ilia, deslizando até ela. — E aí, Roman? Quem ganhou?

Roman olhou para os dois. O treinador tinha um brilho estranho nos olhos, como se estivesse vendo algo que ninguém mais percebia.

— Tecnicamente, Ilia tem a vantagem da dificuldade. Mas Yulia tem a execução. No entanto, hoje... — Roman parou por um segundo — acho que ambos estão distraídos. Cinquenta voltas para os dois.

— O quê? — Ilia e Yulia gritaram em uníssono.

— Vocês me ouviram. Cinquenta voltas. Agora!

Elena Karenina aproximou-se de Roman, sua expressão de desdém visível.

— Minha filha não precisa de condicionamento extra, ela precisa de técnica. Você está perdendo tempo com esses jogos, Roman.

— Ela precisa de foco, Elena — respondeu Roman, sem se intimidar. — E o Ilia também. Eles estão competindo um contra o outro, mas não estão focados no gelo. Estão focados no ego.

Yulia começou as voltas, sentindo o peso do olhar de sua mãe. Ilia emparelhou-se com ela após a terceira volta.

— Cinquenta voltas? Meu pai enlouqueceu — reclamou ele, embora não parecesse realmente cansado.

— Ele percebeu algo — disse Yulia, a voz baixa. — Ele não é bobo, Ilia. E minha mãe... ela é um falcão. Precisamos parar com isso.

— Parar com o quê? Com as voltas?

— Com o que quer que tenha acontecido ontem à noite. Foi um erro. Uma distração. Eu vim aqui para ganhar o ouro, não para ser mais uma conquista na sua lista de patinadoras.

Ilia parou bruscamente, fazendo com que Yulia tivesse que frear para não colidir com ele.

— Uma conquista? — O tom dele mudou. O deboche sumiu, substituído por uma irritação genuína. — Você acha que eu faço isso com todo mundo? Que eu levo qualquer uma para jantar e depois passo a noite ouvindo sobre como a Rússia é um lugar difícil?

— Eu não sei o que você faz, Ilia! — exclamou ela, esquecendo-se por um momento de que estavam sendo observados. — Você é o cara que flerta com as meninas da dança no gelo antes de entrar para bater recordes mundiais. Eu sou apenas a "Lost Girl" que você quer adicionar à sua coleção.

Ilia aproximou-se, ignorando os gritos de Roman para que continuassem as voltas.

— Você não é uma coleção, Yulia. Você é a única pessoa neste rinque que me faz sentir que eu realmente preciso me esforçar. E se você acha que ontem à noite foi sobre ego... então você é mais cega do que os juízes que te deram aquela nota no Mundial Junior.

Yulia sentiu um nó na garganta. Ela queria gritar que ele estava errado, mas as palavras não vinham.

— Yulia! Ilia! — Roman gritou da mureta. — Fora do gelo! Agora!

Eles saíram em silêncio, a tensão entre eles tão palpável que o ar parecia vibrar. Elena já estava esperando por Yulia com os braços cruzados.

— Para o vestiário. Agora — ordenou Elena.

Yulia seguiu a mãe, sentindo o olhar de Ilia queimando em suas costas. No vestiário feminino, que estava vazio, Elena fechou a porta com um estrondo.

— O que foi aquilo no gelo? — perguntou Elena, sua voz perigosamente baixa.

— Nada, mamãe. Apenas uma discussão sobre o treino.

— Não minta para mim! — Elena deu um passo à frente. — Eu vi como você olhou para ele. Eu vi como ele se aproximou de você. Yulia, escute bem. Aquele menino é um americano mimado que vive de truques de circo. Ele vai te distrair, ele vai te quebrar, e quando você não servir mais para o entretenimento dele, ele vai te deixar no gelo para derreter.

— Ele é o melhor patinador do mundo, mamãe. Não são truques de circo.

— Ele é o inimigo! — Elena gritou. — Você está aqui para representar este país porque não temos escolha, mas seu coração deve ser russo. Sua disciplina deve ser russa. Se eu descobrir que você está desperdiçando seu talento com o filho de Roman, eu juro que te levo de volta para Moscou e você nunca mais verá um par de patins na vida.

Yulia abaixou a cabeça, as lágrimas de frustração picando seus olhos.

— Sim, mamãe.

— Troque-se. Temos fisioterapia às dez.

***

Enquanto isso, no vestiário masculino, o clima não estava muito melhor. Roman observava o filho guardar o equipamento.

— Você gosta dela — não foi uma pergunta.

Ilia deu de ombros, tentando manter a fachada.

— Ela é boa. Dá um bom desafio no gelo.

— Não estou falando da patinação, Ilia. Eu te conheço. Você está jogando um jogo perigoso. A mãe dela é uma mulher perigosa. E a Yulia... ela é frágil, embora finja que é feita de aço. Se você a machucar, não vai apenas destruir a carreira dela, vai destruir a sua também. Eu não vou permitir drama no meu rinque.

— Eu não estou tentando machucar ninguém, pai.

— Então foque no seu quádruplo Axel. O Grand Prix está chegando. Se você quer estar com ela, prove que pode ser um campeão e um homem ao mesmo tempo. Porque, no momento, você está agindo como um moleque.

Ilia não respondeu. Ele pegou sua mochila e saiu, precisando de ar. Ele caminhou até o estacionamento e viu Yulia entrando no carro com a mãe. Ela olhou pela janela, e por um breve segundo, seus olhos se encontraram. Havia dor ali, mas também havia uma centelha de algo que nenhum dos dois conseguia apagar.

A competição não era mais apenas sobre quem saltava mais alto ou quem girava mais rápido. Era sobre quem sobreviveria à tempestade que estavam criando.

Yulia recostou a cabeça no banco do carro enquanto a mãe dirigia em silêncio. Ela pensou na cicatriz em seu quadril. Ela pensou no som do gelo quebrando sob suas lâminas. E pensou no beijo de Ilia.

Ela tinha vindo para os Estados Unidos para se encontrar, para provar que ainda era a "Miss Perfect". Mas, ao olhar para as próprias mãos, percebeu que a perfeição era uma mentira. Ela estava quebrada, sim. Mas as peças estavam começando a se reorganizar de uma forma nova.

Ilia Malinin não era apenas uma distração. Ele era o catalisador. E, por mais que sua mãe tentasse impedi-la, Yulia sabia que o vulcão dentro dela tinha acabado de despertar. O gelo da Virgínia nunca mais seria o mesmo.

Naquela noite, Yulia recebeu uma mensagem em seu telefone de um número desconhecido.

"Cinquenta voltas amanhã. Às seis. Não se atrase, russa. Temos muito o que treinar. E eu não estou falando de saltos."

Yulia apagou a mensagem, mas o sorriso que surgiu em seu rosto foi o primeiro que ela sentiu de verdade em três anos. A guerra estava declarada, e ela não tinha intenção de se render. Nem para a mãe, nem para o medo, e certamente não para Ilia Malinin.

Ela ia mostrar ao mundo que "The Lost Girl" não estava apenas de volta. Ela estava pronta para incendiar o gelo. E se Ilia quisesse acompanhá-la, ele teria que aprender que, com Yulia Karenina, o fogo era sempre mais forte que o frio.

Ela fechou os olhos e, pela primeira vez em muito tempo, não sonhou com a queda. Sonhou com o voo. E no seu sonho, ela não estava voando sozinha.