Gelo em chamas
O Gelo que Arde e a Lâmina que Sangra
A penumbra do corredor que levava aos vestiários secundários da arena de Saitama cheirava a borracha queimada e gelo seco. Julia Cenci sentia o peso da medalha de ouro em sua bolsa térmica, mas o metal parecia insignificante diante da pulsação frenética em suas têmporas. Ela caminhava com a elegância de uma predadora ferida, o som de suas lâminas protegidas batendo no chão em um ritmo militar.
— Fugindo tão cedo, Cenci? — A voz de Ilia Malinin surgiu como um chicote, vinda da escuridão de uma alcova entre as máquinas de venda automática.
Julia parou, mas não se virou imediatamente. Ela fechou os olhos, tentando invocar a frieza que lhe rendera o título de Rainha de Gelo, mas a imagem de Ilia aterrissando aquele quádruplo Axel com uma arrogância divina ainda queimava em sua retina.
— O evento acabou, Ilia. Eu venci, você ficou com a prata. Não há mais nada para ser dito — respondeu ela, finalmente virando-se para encará-lo.
Ilia estava encostado na parede, o agasalho da equipe dos EUA aberto, revelando a pele suada e o peito ainda subindo e descendo com força. Ele deu um passo à frente, e a luz fluorescente piscou, destacando o sorriso assimétrico e perverso que Julia conhecia desde os dez anos de idade.
— Você venceu nos papéis, Julia. Mas nós dois vimos os seus olhos quando eu saí do gelo. Você estava tremendo. E não era de frio.
— Você é um egocêntrico patético — sibilou ela, dando um passo em direção a ele, a raiva finalmente rompendo a barragem. — Você acha que cada movimento que eu faço é sobre você.
— E não é? — Ilia riu, um som seco que ecoou no corredor vazio. Ele a prensou contra a parede antes que ela pudesse reagir, as mãos espalmadas de cada lado da cabeça dela. — Desde Tallinn, cada salto que você dá, cada pirueta, você está tentando apagar o que aconteceu. Mas quanto mais você tenta ser perfeita, mais você prova que eu te quebrei primeiro.
Julia sentiu o calor emanando dele, o cheiro de suor e sândalo que a transportou imediatamente para aquela noite de gala aos quinze anos. Eles eram apenas adolescentes, amargos por terem falhado na competição, e o álcool fora a desculpa perfeita para a explosão de uma rivalidade que já era física. Ilia fora o primeiro, e ele nunca a deixara esquecer disso. Ele usara aquela vulnerabilidade como uma lâmina, afiando-a a cada competição, a cada provocação sussurrada antes de entrarem no gelo.
— Você não quebrou nada — disse ela, a voz rouca, as mãos subindo para o peito dele para empurrá-lo, mas acabando por se fechar no tecido do agasalho. — Você foi apenas um erro de percurso. Um deslize técnico.
— Um deslize técnico que durou a noite inteira e te fez implorar por mais? — Ilia inclinou-se, o nariz roçando o dela. — Eu me lembro de cada detalhe, Julia. Lembro de como você era fria até eu tocar em você. Lembro do som que você fez quando eu finalmente...
— Cala a boca! — Julia o puxou pela gola, selando seus lábios nos dele em um beijo que era mais um ataque do que um gesto de afeto.
Ilia soltou um rosnado baixo e possessivo, agarrando a cintura dela com uma força que deixaria marcas. Ele a girou, empurrando-a para dentro de uma sala de armazenamento de equipamentos de manutenção. A porta bateu atrás deles, e o único som era a respiração pesada de dois atletas que passavam a vida inteira contendo suas emoções em prol da técnica perfeita.
Ali, entre latas de tinta e protetores de borda, a Rainha de Gelo derreteu. Julia sentiu as mãos habilidosas de Ilia — as mesmas mãos que controlavam saltos impossíveis no ar — subirem por suas coxas, rasgando a meia-calça de competição que ela ainda usava sob o agasalho.
— Você ainda me odeia, não é? — murmurou ele contra o pescoço dela, mordendo a pele sensível logo abaixo da orelha.
— Com cada fibra do meu ser — arfou ela, arqueando as costas enquanto ele a levantava, sentando-a sobre uma bancada de metal fria.
— Bom. O ódio te deixa muito mais interessante.
Ilia livrou-se da própria calça com uma urgência febril. Ele não era gentil; nunca fora. Sua relação era baseada em conquista, em quem cedia primeiro, em quem perdia o controle. E naquela sala escura, Ilia estava determinado a ser o vencedor.
Quando ele entrou nela, Julia soltou um grito abafado no ombro dele, as unhas cravando-se nas costas musculosas do patinador. O impacto foi bruto, profundo, preenchendo-a de uma forma que a fazia esquecer os anos de disciplina russa e as expectativas de sua federação. Era um ritmo frenético, quase violento, como se estivessem competindo novamente, cada movimento uma tentativa de domínio absoluto.
— Olha para mim, Julia — ordenou ele, as mãos prendendo os pulsos dela contra a bancada. — Quero ver o exato momento em que a Rainha de Gelo se quebra.
Julia abriu os olhos, a visão embaçada pelo suor e pelas lágrimas de puro prazer e frustração. Ela via a determinação no rosto dele, o "Quad God" que o mundo idolatrava, reduzido a um homem faminto por sua reação.
— Eu nunca... vou me quebrar... para você — conseguiu dizer ela, entre estocadas que a faziam perder o fôlego.
— Mentira — rosnou Ilia, aumentando a velocidade, sua pele batendo contra a dela em um ritmo hipnótico. — Você já é minha desde Tallinn. Você só é orgulhosa demais para admitir que precisa desse fogo para não congelar viva.
Julia não conseguiu responder. O prazer estava subindo como uma onda gigante, uma sobrecarga sensorial que a fazia ver flashes de suas rotinas de patinação. Ela sentia-se no ar, em um salto quádruplo que nunca terminava, a gravidade deixando de existir. Ela envolveu as pernas na cintura dele, puxando-o para mais perto, querendo fundir-se àquele calor que era a única coisa real em sua vida de aparências.
O clímax a atingiu com a força de uma queda no gelo duro, mas sem a dor. Foi uma explosão de cores e sons, um espasmo que percorreu todo o seu corpo enquanto ela gritava o nome dele, entregando-se finalmente àquela vulnerabilidade que tanto temia. Ilia seguiu logo atrás, um rosnado gutural escapando de sua garganta enquanto ele se descarregava dentro dela, seu corpo inteiro ficando rígido antes de desabar contra o dela.
O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo gotejar de uma torneira e pelas respirações pesadas. Ilia não se afastou imediatamente. Ele permaneceu com o rosto escondido no pescoço dela, sentindo os batimentos cardíacos acelerados da brasileira diminuindo gradualmente.
— Você ganhou o ouro, Julia — sussurrou ele, a voz agora despojada da arrogância habitual. — Mas admita que isso aqui... é a única coisa que te faz sentir viva de verdade.
Julia empurrou-o levemente, recuperando sua compostura com uma rapidez que beirava o sobre-humano. Ela começou a ajeitar suas roupas, evitando olhar para ele.
— Isso foi apenas um alívio de tensão, Ilia. Não mude o roteiro.
Ilia soltou uma risada curta, vestindo-se com a mesma confiança desleixada de antes. Ele caminhou até a porta, parando com a mão na maçaneta.
— Se fosse apenas alívio de tensão, você não estaria com essa cara de quem acabou de ver um fantasma. — Ele se virou, e o brilho provocador estava de volta aos seus olhos. — Vejo você no banquete de encerramento, Cenci. Tente não cair quando me vir atravessar o salão. Afinal, suas pernas devem estar um pouco trêmulas agora.
Ele saiu, deixando-a sozinha na penumbra. Julia encostou a testa na bancada de metal frio, sentindo o latejar entre suas pernas e o calor que ainda emanava de sua pele. Ela odiava Ilia Malinin com todas as suas forças, mas enquanto caminhava de volta para o hotel, ela sabia que a Rainha de Gelo tinha acabado de descobrir que o seu reino era feito de vidro, e que Ilia era a única pedra capaz de estilhaçá-lo.
O banquete de encerramento estava em pleno vigor no salão principal do hotel de luxo. Patinadores de todas as nações celebravam, o álcool fluindo e a música clássica dando lugar a hits pop. Julia estava em um canto, usando um vestido de seda azul-marinho que abraçava suas curvas de atleta, uma taça de champanhe na mão. Ela mantinha a conversa educada com os oficiais russos, mas seus olhos, de forma traidora, escaneavam o salão.
— Ele está no terraço — disse uma voz suave ao lado dela.
Julia virou-se e viu sua colega de treino, uma russa que sabia mais do que deveria.
— Não sei do que você está falando, Katya.
— Sei que não sabe. Mas se eu fosse você, iria até lá. O ar aqui dentro está ficando pesado, e você parece que vai desmaiar ou matar alguém.
Julia tomou um gole generoso de champanhe e, sem dizer uma palavra, caminhou em direção às portas de vidro que levavam ao terraço. O ar frio da noite japonesa foi um alívio imediato. Ilia estava lá, afastado da multidão, observando as luzes de Saitama. Ele não usava terno completo, apenas uma camisa social branca com as mangas dobradas, revelando os antebraços fortes.
— Sabia que você viria — disse ele, sem se virar.
— Vim buscar o resto da minha dignidade que você tentou roubar hoje à tarde — respondeu ela, parando ao lado dele.
Ilia virou-se, apoiando os cotovelos no parapeito.
— Sua dignidade está intacta, Julia. É o seu coração que está em perigo.
— Você se dá importância demais, Malinin.
— E você mente demais para si mesma. — Ele se aproximou, e desta vez não havia deboche. — Por que nós fazemos isso, Julia? Por que nos destruímos toda vez que estamos no mesmo continente?
— Porque somos iguais — disse ela, a voz baixa, olhando para as luzes da cidade. — Somos competitivos, egocêntricos e obcecados pela perfeição. E quando nos encontramos, é como se duas estrelas colidissem. É bonito, mas é destrutivo.
Ilia estendeu a mão e, por um breve momento, Julia achou que ele a tocaria com ternura. Mas ele apenas pegou uma mecha de seu cabelo loiro e a enrolou no dedo.
— Em Tallinn, eu não queria apenas te provocar — confessou ele, a voz quase um sussurro. — Eu queria que você me notasse. Eu queria ser a única coisa que você não conseguisse controlar com a sua técnica russa.
— Você conseguiu — admitiu ela, finalmente olhando-o nos olhos. — Você é a única falha no meu programa perfeito, Ilia. O único erro que eu cometo de novo e de novo.
— Então vamos errar mais uma vez — disse ele, puxando-a para um beijo que, desta vez, não tinha o gosto de fúria, mas de uma necessidade desesperada e antiga.
Eles sabiam que, na manhã seguinte, voltariam a ser rivais. Ela voltaria para Moscou e ele para a Virgínia. Eles trocariam insultos nas redes sociais e ignorariam um ao outro nos treinos de aquecimento do próximo Grand Prix. Mas ali, sob as estrelas de Saitama, a Rainha de Gelo e o Quad God não eram títulos ou medalhas. Eram apenas dois jovens cujas vidas estavam ligadas por lâminas de aço e um desejo que queimava mais que qualquer fogueira.
— Eu ainda te odeio — murmurou Julia contra os lábios dele.
— Eu sei — sorriu Ilia, puxando-a para mais perto. — E é por isso que isso nunca vai acabar.
Eles permaneceram ali, no limite entre a rivalidade e algo muito mais perigoso, cientes de que o gelo onde patinavam era fino, mas que a queda era a única coisa que os fazia sentir que estavam, finalmente, voando.