Growls and silver weapons
O Estigma da Matilha e a Rendição dos Instintos
O corredor do bloco de Educação Física estava mais movimentado do que o habitual, mas para Lookmhee, o ambiente parecia ter se tornado um campo minado. Desde que Sonya a "marcara" sob a árvore, o comportamento dos outros estudantes — especificamente um grupo de veteranos com olhares intensos e posturas excessivamente eretas — mudara drasticamente.
Enquanto caminhava para sua aula de Biologia Celular, Lookmhee percebeu três rapazes do time de rúgbi pararem abruptamente quando ela passou. Eles não olharam para seus olhos; eles farejaram o ar. Suas expressões passaram da curiosidade para uma mistura de respeito e cautela. Um deles chegou a inclinar a cabeça em um gesto de submissão instintiva antes de recuar.
— Mas o que está acontecendo com essas pessoas? — sussurrou Lookmhee para si mesma, apertando as alças da mochila.
— O cheiro, Mhee. É o cheiro — Kapook surgiu ao seu lado, parecendo genuinamente preocupada. — Você está exalando Sonya Austin Waraha a dez metros de distância. Para qualquer lupino neste campus, você agora carrega o selo de "propriedade da capitã". Ninguém vai ousar chegar perto de você, mas todo mundo vai saber que você pertence a ela.
— Eu não pertenço a ninguém! — Lookmhee rebateu, sentindo o rosto queimar de raiva. — É apenas química. Eu vou resolver isso agora.
Ela avistou Sonya no pátio central. A loba estava, como de costume, no centro das atenções. Ela estava sentada em uma mesa de pedra, cercada por quatro garotas do time de vôlei e mais algumas admiradoras de outros cursos. Sonya ria de algo que uma das garotas dizia, e Lookmhee sentiu uma pontada estranha e desconfortável no peito ao ver uma das meninas tocar o ombro de Sonya com excessiva familiaridade.
A possessividade de Sonya estava infectando Lookmhee, e ela odiava isso.
Sem pensar duas vezes, Lookmhee marchou até o grupo. O círculo de garotas silenciou quando a pequena figura de óculos e expressão gélida se aproximou. Sonya levantou os olhos, e um brilho de satisfação imediata iluminou seu rosto heterocromático.
— Ora, se não é a minha colega de quarto favorita — Sonya provocou, recostando-se e abrindo os braços. — Veio me pedir um autógrafo ou sentiu saudades do meu perfume?
Lookmhee não respondeu com palavras. Ela simplesmente agarrou o pulso de Sonya e a puxou com uma força surpreendente para alguém do seu porte.
— Precisamos conversar. Agora — disse Lookmhee, a voz baixa como um trovão antes da tempestade.
As garotas ao redor começaram a rir e a cochichar, mas Sonya, percebendo a seriedade genuína nos olhos de Lookmhee, levantou-se.
— Com licença, meninas. A caçadora está com pressa — Sonya piscou para as amigas e seguiu Lookmhee.
Lookmhee a arrastou até um canto isolado atrás do auditório antigo, onde as trepadeiras cobriam as paredes de tijolos e o som do campus era apenas um eco distante. Ela soltou o pulso de Sonya e se virou, os olhos faiscando atrás das lentes.
— Tire isso de mim — ordenou Lookmhee.
Sonya arqueou uma sobrancelha, fingindo confusão.
— Tirar o quê? Sua mochila? Suas roupas? Se for o segundo, eu aceito, mas acho que aqui é um pouco público demais...
— Não brinque comigo, Sonya! — Lookmhee deu um passo à frente, batendo no próprio pescoço. — Tire esse cheiro horrível de mim. Eu não consigo andar pelo campus sem que outros metamorfos me olhem como se eu fosse um troféu seu. Eu sinto esse aroma de pinheiro e terra em cada centímetro da minha pele e isso está me deixando louca!
Sonya soltou uma risada nasalada, cruzando os braços sobre a jaqueta de couro.
— "Horrível"? Ontem à noite você parecia bem ocupada tentando não respirar fundo enquanto eu dormia. E não, eu não vou tirar. Na verdade, eu nem posso. É uma marca química, Mhee. Ela vai saindo com o tempo... ou se eu decidir reforçá-la.
— Você vai tirar agora — Lookmhee sibilou, perdendo a paciência. — Eu juro por tudo o que é sagrado, Austin Waraha, que se você não der um jeito de neutralizar esse fedor, eu vou comprar uma corrente de aço reforçada e colocar uma coleira em você. Vou te arrastar pelo campus como o animal indisciplinado que você é.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Lookmhee esperava uma retaliação, um rosnado ou outra piada sarcástica. Em vez disso, ela viu as pupilas de Sonya dilatarem até quase cobrirem a íris castanha e a amarela.
Sonya deu um passo lento em direção a Lookmhee. Sua respiração ficou mais pesada. A imagem mental que Lookmhee acabara de evocar — a caçadora dominando a loba, a frieza de Lookmhee contra a selvageria de Sonya, o peso de uma coleira e a submissão aos pés daquela garota de óculos — disparou algo perigoso e impuro nos instintos de Sonya.
— Uma coleira? — Sonya repetiu, a voz agora num registro tão baixo que era quase um vibração. — Você... sob seus pés?
Lookmhee percebeu o erro tarde demais. Ela tentou recuar, mas suas costas bateram na parede de tijolos.
— Foi uma força de expressão... — Lookmhee tentou dizer, mas Sonya já estava em transe.
O conflito interno de Sonya entre o orgulho Waraha e o desejo avassalador de ser dominada por aquela caçadora específica foi demais para seu controle. Com um som de tecido esticando, as orelhas pontiagudas e peludas de Sonya saltaram por entre os cabelos castanhos. Segundos depois, uma cauda longa e espessa surgiu, balançando de forma errática. Seus caninos cresceram, e uma penugem fina começou a aparecer em suas bochechas.
— Sonya! Controle-se! — Lookmhee exclamou, olhando ao redor para garantir que ninguém estava vendo. — Volte ao normal!
— Eu... não consigo — Sonya rosnou, mas não era um rosnado de agressão. Era quase um ganido. Ela se inclinou, apoiando as mãos na parede, de cada lado da cabeça de Lookmhee, sua forma híbrida oscilando entre o humano e o lobo.
Lookmhee, em vez de fugir ou sacar sua adaga, congelou. Sua mente de pesquisadora, treinada por Freen e Becky para catalogar cada detalhe das criaturas, assumiu o controle. Ela viu a textura da pelagem, o modo como as orelhas giravam para captar sons mínimos, a pulsação acelerada na base da cauda.
— Não se destransforme — ordenou Lookmhee, sua voz subitamente firme e profissional.
Sonya piscou, confusa.
— O quê?
— Fique assim. Eu preciso... registrar isso — Lookmhee abriu a mochila com mãos ágeis e puxou seu caderno de couro e uma caneta.
— Você vai me estudar? Agora? — Sonya perguntou, sentindo uma mistura de indignação e uma estranha excitação.
— Cale a boca e fique parada — Lookmhee disse, aproximando-se.
A caçadora estendeu a mão. Hesitou por um segundo, mas depois tocou a base de uma das orelhas de Sonya. A loba soltou um suspiro trêmulo, fechando os olhos. A pele ali era macia, coberta por uma penugem aveludada, mas a estrutura por baixo era puro músculo e cartilagem resistente.
— Reação tátil: hipersensibilidade na região auricular — murmurou Lookmhee, escrevendo rapidamente no caderno enquanto mantinha a outra mão acariciando a orelha de Sonya.
— Mhee... o que você está fazendo comigo? — Sonya murmurou, sua cauda batendo ritmicamente contra a parede.
— Shh. Deixe-me ver a cauda — Lookmhee contornou o corpo de Sonya.
Ela segurou a cauda de Sonya com as duas mãos. Era pesada e quente. Lookmhee sentiu a vértebra terminal, notando como a musculatura era ligada diretamente à base da coluna. Ela começou a fazer anotações detalhadas, desenhando o padrão de crescimento dos pelos.
— A densidade capilar aumenta na extremidade... — Lookmhee falava para si mesma, completamente imersa em seu papel de pesquisadora. — Sonya, mova a cauda para a esquerda.
A loba obedeceu prontamente, sua mente nublada pelo toque firme e analítico de Lookmhee. Era degradante e maravilhoso ao mesmo tempo. Sonya, a capitã temida, a loba alfa em treinamento, estava ali, sendo manuseada como um espécime de laboratório, e ela não queria que parasse.
Lookmhee voltou para a frente de Sonya, ficando na ponta dos pés para examinar os olhos.
— A heterocromia se intensifica durante a pré-transformação. O amarelo parece emitir uma bioluminescência leve — Lookmhee aproximou o rosto, a respiração batendo no focinho agora mais alongado de Sonya. — Interessante. Muito interessante.
— Você terminou? — Sonya perguntou, seus olhos fixos nos lábios de Lookmhee.
Lookmhee parou de escrever. Ela olhou para Sonya e percebeu, pela primeira vez, o estado em que a loba se encontrava. Sonya estava vulnerável, entregue, seus instintos mais básicos expostos diante da caçadora que deveria ser sua maior inimiga. A marca que Sonya deixara em Lookmhee parecia agora uma via de mão dupla; se Lookmhee carregava o cheiro de Sonya, Sonya agora carregava o toque de Lookmhee.
— Por que você é assim? — Lookmhee perguntou, sua voz suavizando, a caneta esquecida na mão.
— Assim como? — Sonya inclinou a cabeça, uma das orelhas abaixando.
— Tão... entregue. Você deveria estar tentando me morder, não me deixar desenhar suas orelhas.
Sonya deu um passo à frente, diminuindo a distância até que seus peitos se tocassem.
— Talvez porque você seja a única pessoa que olhou para o monstro e, em vez de fugir, decidiu que valia a pena desenhá-lo — Sonya sussurrou, sua voz voltando a ser humana, embora suas características lupinas permanecessem. — E talvez porque eu realmente queira ver se você tem coragem de colocar aquela coleira em mim.
Lookmhee sentiu um choque percorrer seu corpo. Ela fechou o caderno com força.
— Você é impossível, Austin.
— E você está corada, Sarocha — Sonya provocou, soltando uma risadinha que terminou em um pequeno ganido quando Lookmhee apertou propositalmente a ponta de sua cauda.
— Ai! Isso dói!
— É para você aprender a não ser uma pervertida — Lookmhee guardou suas coisas, tentando recuperar sua dignidade. — Agora, esconda isso. Se alguém nos ver, eu vou dizer que estava apenas realizando uma eutanásia preventiva.
Sonya respirou fundo, fechando os olhos e concentrando-se. Lentamente, as orelhas e a cauda desapareceram, e seus dentes voltaram ao tamanho normal. Ela parecia exausta, mas seus olhos brilhavam com um novo tipo de fogo.
— O cheiro ainda está lá, Mhee — Sonya disse, ajeitando a jaqueta. — E agora, ele tem um pouco do seu cheiro misturado. Sândalo e... curiosidade.
Lookmhee não respondeu. Ela começou a caminhar em direção à aula, mas parou após alguns passos e olhou por cima do ombro.
— Se eu vir você cercada por aquelas garotas de novo, Sonya... eu vou trazer a corrente. E eu não estarei brincando.
Sonya ficou parada ali, observando Lookmhee desaparecer dobrando a esquina. Ela levou a mão ao pescoço, onde o corte da prata já era apenas uma linha rosada, e depois tocou a própria orelha, onde o calor dos dedos de Lookmhee ainda parecia persistir.
— Uma coleira, hein? — Sonya sorriu, um sorriso predatório e cheio de expectativa. — Mal posso esperar, Sarocha. Mal posso esperar.
No fundo de sua mochila, o caderno de Lookmhee guardava mais do que apenas fatos científicos. Entre os desenhos técnicos e as observações biológicas, havia uma pequena anotação no rodapé da página, escrita com uma letra apressada e quase ilegível:
*“Nota pessoal: O pelo atrás das orelhas é a parte mais macia. O espécime parece responder positivamente ao domínio direto. Riscar 'perigoso'. Substituir por 'irresistível'?”*
A caçada continuava, mas as regras haviam mudado para sempre. No jogo entre a adaga e a garra, o coração estava se tornando o campo de batalha mais perigoso de todos.