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Growls and silver weapons

Sombras do Desejo e a Lei da Obediência

A escuridão do dormitório 402 era cortada apenas pelo brilho pálido da lua que atravessava a fresta da cortina, mas, nos sonhos de Sonya Austin Waraha, o cenário era muito mais nítido e perigoso. Ela não estava na universidade; estava em uma clareira densa, cercada pelo cheiro de sândalo e aço frio. À sua frente, Lookmhee não usava os óculos habituais. Seus olhos pretos estavam despidos de qualquer barreira, fixos em Sonya com uma autoridade que fazia o lobo interno da herdeira Waraha se encolher em uma submissão deliciosa.

No sonho, Lookmhee segurava uma corrente de prata fina, mas não para feri-la. O metal tilintava suavemente enquanto a caçadora se aproximava, o rosto mantendo aquela calma analítica que agora parecia puramente predatória.

— Eu disse que você era minha para catalogar, não disse, Sonya? — A voz de Lookmhee ecoava, rouca e firme.

Sonya sentia o peso da coleira de couro e prata em seu pescoço, o toque gélido do metal contra a pele quente. Ela estava de joelhos, as mãos apoiadas nas coxas de Lookmhee, enquanto a caçadora puxava a corrente suavemente, obrigando-a a inclinar a cabeça para trás. O domínio era absoluto. O coração de Sonya martelava contra as costelas, uma mistura de pânico instintivo e um prazer que subia como fogo por sua espinha. Quando Lookmhee se inclinou, os lábios roçando sua orelha lupina, Sonya sentiu que estava prestes a explodir em algo que nem mesmo sua natureza selvagem poderia conter.

— Acorda, ô bela adormecida do submundo! — O grito veio acompanhado de um chacoalhão violento nos ombros.

Sonya deu um pulo na cama, o corpo coberto por uma fina camada de suor e a respiração ofegante. Seus olhos demoraram alguns segundos para focar na figura de Pang, que estava em pé ao lado de sua cama com uma expressão entre o divertimento e a confusão.

— Caramba, Sonya! Você estava rosnando e ganindo ao mesmo tempo. Que tipo de pesadelo você estava tendo? — Pang perguntou, cruzando os braços.

Sonya passou a mão pelo rosto, tentando afastar as imagens da corrente e do toque de Lookmhee. Seu corpo ainda vibrava com a tensão do sonho. Ela olhou instintivamente para a cama ao lado. Estava vazia. Os lençóis estavam perfeitamente esticados, e a escrivaninha de Lookmhee não tinha um único papel fora do lugar.

— Ela já foi? — Sonya perguntou, a voz saindo mais rouca do que o normal.

— Se você está falando da sua "carcereira de óculos", sim — Jeep respondeu, entrando no quarto com dois copos de café e um sorriso malicioso no rosto. — Ela saiu daqui há uns quarenta minutos. Parecia bem disposta, ao contrário de você, que parece que foi atropelada por um caminhão de desejos reprimidos.

— Cala a boca, Jeep — resmungou Sonya, jogando-se de volta nos travesseiros e cobrindo o rosto com as mãos.

— Olha só para ela, Pang — Jeep continuou, ignorando o mau humor da amiga. — A alfa territorialista, a capitã que não abaixa a cabeça para ninguém, está aqui sofrendo de abstinência da colega de quarto. Admite logo, Sonya: a Lookmhee não é só sua colega. Ela é sua namorada e você só esqueceu de avisar o resto do campus.

— Ela não é minha namorada! — Sonya sentou-se bruscamente, seus olhos brilhando em amarelo por um breve segundo. — Ela é uma caçadora. Ela é o inimigo.

— Engraçado — Pang comentou, pegando um dos cafés de Jeep —, porque o inimigo te marcou com o cheiro dela ontem, e hoje você acorda chamando o nome dela entre suspiros. Se isso é guerra, eu quero me alistar agora mesmo.

Sonya bufou, levantando-se da cama com uma energia impaciente. Ela precisava de um banho gelado e de ar puro. A imagem de Lookmhee dominando seus sonhos era uma afronta ao seu orgulho, mas, ao mesmo tempo, uma semente que já havia criado raízes profundas em seu subconsciente.

***

O pátio da universidade estava banhado por um sol suave de manhã, mas o clima para Sonya estava carregado. Ela caminhava ao lado de Jeep e Pang, tentando manter sua pose de capitã inabalável, mas seus sentidos estavam em alerta máximo, procurando por apenas uma pessoa.

Ela a encontrou perto da fonte central. Lookmhee estava em pé, segurando um livro contra o peito, conversando com Kapook. Ela parecia impecável, como se nunca tivesse passado a noite a poucos metros de uma loba que sonhava em ser sua presa.

No entanto, Sonya não era a única observando.

Um rapaz alto, de cabelos perfeitamente alinhados e um sorriso que exalava confiança excessiva, aproximou-se de Lookmhee. Era Pop, um dos estudantes de Direito conhecidos por sua persistência — e por sua total falta de noção de perigo.

— Lookmhee, certo? — Pop disse, bloqueando o caminho da caçadora com um charme ensaiado. — Eu te vi na biblioteca ontem. Você parecia tão concentrada que eu não quis interromper, mas hoje eu não poderia deixar passar.

Lookmhee ajustou os óculos, sua expressão voltando para o modo "gelo absoluto".

— Você acabou de interromper agora. O que você quer?

Pop soltou uma risada, dando um passo para mais perto. Ele era humano, mas tinha uma aura de quem estava acostumado a conseguir o que queria. Mesmo com o cheiro de Sonya impregnado em Lookmhee — um aviso químico que deveria fazer qualquer um recuar —, Pop parecia ignorar os sinais de perigo.

— Eu queria saber se você não gostaria de tomar um café comigo depois das aulas. Eu conheço um lugar que combina perfeitamente com o seu estilo... intelectual e misterioso.

De longe, Sonya parou bruscamente. Seus punhos se fecharam com tanta força que suas unhas começaram a perfurar a palma das mãos. O rosnado que vibrou em sua garganta foi baixo, mas Jeep e Pang deram um passo para trás instantaneamente.

— Aquele idiota está tocando nela? — Sonya sibilou, os olhos fixos na mão de Pop, que agora gesticulava perigosamente perto do braço de Lookmhee.

— Sonya, relaxa — Jeep tentou intervir, segurando o ombro da amiga. — É só um cara dando em cima dela. Acontece o tempo todo.

— Não com ela. Não quando ela cheira a mim — Sonya rebateu, sua voz ganhando aquele tom selvagem que precedia uma transformação.

Ela começou a caminhar em direção ao grupo, seus passos pesados e predatórios. O ar ao redor dela parecia esquentar. Ela não via nada além de Pop e da audácia dele em ignorar a marca que ela havia deixado no pescoço de Lookmhee.

No pátio, Lookmhee sentiu a aproximação de Sonya antes mesmo de ouvi-la. O cheiro de floresta em chamas e adrenalina da loba era impossível de ignorar. Ela viu pelo canto do olho a figura de Sonya avançando como um furacão, pronta para estraçalhar qualquer um que estivesse no seu caminho.

— Olha, Pop — Lookmhee disse, sua voz mantendo a calma, embora seus olhos estivessem fixos na loba furiosa que se aproximava —, eu não bebo café com estranhos. E eu sugiro que você saia daqui agora.

— Por quê? Você tem namorado? — Pop perguntou, ainda sorrindo, sem perceber que a morte tinha cabelos castanhos e olhos heterocromáticos e estava a três metros dele.

— Pior que isso — murmurou Lookmhee.

Sonya chegou como uma sombra avassaladora. Ela parou entre Lookmhee e Pop, sua altura de um metro e setenta e cinco parecendo dobrar devido à aura de ameaça que emanava.

— Ela disse que não — Sonya rosnou, a palavra saindo arrastada pelos caninos que já começavam a aparecer. — Você é surdo ou só quer testar a minha paciência?

Pop recuou um passo, finalmente sentindo o instinto de sobrevivência gritar. A pressão que Sonya exercia era física, quase tangível.

— Calma, Austin. Eu só estava conversando...

— Não conversa. Não olha. Não respira o mesmo ar que ela — Sonya deu um passo à frente, o olho amarelo brilhando com uma fúria possessiva. — Se eu te vir perto dela de novo, eu vou garantir que você não consiga sorrir para mais ninguém neste campus. Entendeu?

Pop empalideceu, olhou para Lookmhee, que permanecia imóvel com os braços cruzados, e depois para a loba que parecia pronta para rasgar sua jugular. Sem dizer mais nada, ele deu meia-volta e saiu apressado, quase tropeçando nos próprios pés.

Sonya ainda bufava, os ombros subindo e descendo. Ela se virou para Lookmhee, os olhos selvagens procurando por qualquer sinal de que a caçadora tivesse gostado da atenção do outro.

— O que foi aquilo, Sarocha? Você ia deixar aquele lixo te convidar para sair? Você carrega a minha marca! Você sabe o que isso significa para o meu povo!

Ela estendeu a mão para agarrar o braço de Lookmhee, querendo reafirmar seu domínio ali mesmo, na frente de todos. Mas, antes que pudesse tocá-la, Lookmhee deu um passo à frente, ficando cara a cara com ela.

— Sonya. Pare — Lookmhee disse, com uma autoridade tão cortante que o som ao redor pareceu desaparecer.

Sonya travou. O comando não foi um grito; foi uma ordem calma, fria e absoluta.

— Ele estava... — Sonya tentou começar, mas Lookmhee a interrompeu com um olhar.

— Eu não me importo com o que ele estava fazendo. Eu sei cuidar de mim mesma. Agora, você vai se acalmar. Vai recolher essas garras e vai parar de agir como um animal raivoso no meio do pátio.

Sonya sentiu o conflito interno. Seu lobo queria rugir, queria mostrar que ela era a autoridade, que ela protegia o que era seu. Mas a voz de Lookmhee... a voz de Lookmhee tinha o mesmo tom que a caçadora usara em seu sonho. Era a lei.

— Você não manda em mim — Sonya murmurou, mas sua postura já estava relaxando, os caninos voltando ao normal.

— Mando — Lookmhee afirmou, dando mais um passo, forçando Sonya a recuar levemente. — Enquanto você estiver dividindo o quarto comigo e agindo por impulso, você vai me obedecer. Não quero brigas, não quero sangue e não quero você chamando atenção desnecessária para nós duas. Estamos entendidas?

Sonya olhou para os olhos de Lookmhee. Atrás das lentes dos óculos, a caçadora mantinha uma firmeza inabalável. O orgulho da loba lutou por um segundo, mas a sensação de ser "domada" por Lookmhee trouxe de volta o calor daquela madrugada. Era uma rendição voluntária.

— Entendidas — Sonya respondeu, a voz submissa contra sua própria vontade.

Lookmhee assentiu, ajustando os óculos com um gesto elegante.

— Ótimo. Agora vá para o seu treino. Você está atrasada.

Sonya permaneceu estática enquanto Lookmhee se virava e voltava a conversar com Kapook, como se nada tivesse acontecido. A loba sentiu um formigamento no pescoço, o lugar onde a marca invisível parecia queimar sob o olhar da caçadora.

Jeep e Pang se aproximaram cautelosamente, observando a cena de longe.

— Caramba... — Jeep assobiou. — Eu nunca vi ninguém dar uma ordem para você e ver você obedecer desse jeito, Sonya. Nem a sua mãe Fa consegue isso sem uma discussão de duas horas.

— É o primeiro estágio, Jeep — Pang riu, dando um tapinha no ombro da amiga. — O estágio onde ela manda e você obedece. Parabéns, capitã. Você acabou de entrar oficialmente em um relacionamento... só que você é a que usa a coleira.

Sonya não respondeu. Ela olhou para as costas de Lookmhee, vendo a calma com que a garota se movia. A raiva por Pop já havia sumido, substituída por uma percepção perturbadora: Lookmhee Armstrong Sarocha não era apenas uma caçadora de criaturas. Ela era a caçadora de Sonya.

— Ela acha que me domina — Sonya sussurrou para si mesma, um sorriso predatório e desafiador surgindo em seus lábios enquanto caminhava para o ginásio. — Mas ela esqueceu que, para manter um lobo na coleira, você precisa segurar a corrente com muita força. E eu mal posso esperar para ver até onde ela aguenta puxar.

No pátio, Lookmhee sentiu o olhar de Sonya em suas costas até que a loba desaparecesse. Sua mão, escondida no bolso da saia, tremia levemente. Ela havia dado uma ordem direta a um alfa, e a alfa havia obedecido. O poder daquela interação era inebriante, mais perigoso do que qualquer adaga de prata.

— Mhee? Você está bem? — Kapook perguntou, notando o silêncio da amiga.

Lookmhee respirou fundo, sentindo o cheiro de pinheiro e terra que ainda emanava de sua própria pele.

— Estou bem, Kapook. Só estava... testando uma teoria sobre comportamento animal.

— E qual foi o resultado?

Lookmhee olhou para o caderno em sua mochila, lembrando-se da anotação que fizera na noite anterior.

— O resultado é que algumas criaturas não precisam ser caçadas — Lookmhee disse, um brilho enigmático em seus olhos. — Elas só precisam de alguém que saiba como dar a ordem certa.

A guerra entre as Waraha e as Armstrong Sarocha estava longe de terminar, mas, naquele momento, no pátio da universidade, as linhas entre o ódio e o amor, entre a caça e o caçador, haviam se tornado tão tênues quanto o fio de uma adaga. E nenhuma das duas estava pronta para soltar a corrente.