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Growls and silver weapons

O Encontro de Linhagens: Entre o Beijo e o Caos

A sexta-feira na Universidade de Bangkok não era um dia comum. O "Dia da Família" transformava o campus em um campo minado de expectativas, onde linhagens se cruzavam sob o disfarce de sorrisos cordiais e brunchs ao ar livre. Para a maioria, era apenas um evento social; para Lookmhee e Sonya, era o dia em que seus mundos secretos corriam o risco de colidir de forma catastrófica.

No entanto, dentro de uma das salas de descanso vazias do bloco de esportes, o mundo exterior parecia não existir.

Sonya estava sentada em uma poltrona de couro larga, com as pernas abertas e um sorriso de satisfação absoluta. No seu colo, com uma postura surpreendentemente relaxada para quem vivia em alerta, estava Lookmhee. A loba praticamente a obrigara a sentar ali, alegando que "precisavam discutir termos de convivência", mas a verdade era que Lookmhee não oferecera resistência real. Ela gostava do calor que emanava de Sonya e do modo como o corpo da loba servia de trono para sua própria arrogância intelectual.

— Você está muito silenciosa hoje, Sarocha — comentou Sonya, as mãos repousando casualmente na cintura de Lookmhee. — Onde está aquela língua afiada que adora me colocar no lugar?

Lookmhee ajustou os óculos, olhando para Sonya por cima das lentes.

— Estou apenas observando como você parece um Golden Retriever carente quando consegue o que quer. É fascinante, do ponto de vista biológico.

Sonya riu, um som rouco que vibrou contra as coxas de Lookmhee. Ela se inclinou para frente, diminuindo a distância entre seus rostos até que suas respirações se misturassem.

— Sabe... eu tive um sonho hoje cedo — sussurrou Sonya, os olhos fixos nos lábios da caçadora. — Um sonho onde você não usava esses óculos para me analisar, mas para me dominar. Tinha uma corrente, Mhee. De prata. E você me olhava como se eu fosse a única coisa no mundo que você queria possuir.

Lookmhee sentiu um arrepio percorrer sua espinha, mas manteve a máscara de gelo.

— Um sonho bem específico, Austin. Sua mente deve estar projetando seus desejos de submissão.

— Talvez — Sonya concordou, a voz baixando para um tom perigosamente doce. — Mas no sonho, o final era muito melhor do que qualquer anotação no seu caderno. O que você acha de reproduzirmos a parte final? Sem a corrente, por enquanto. Só a parte onde você finalmente admite que me quer tanto quanto eu quero você.

Sonya começou a se inclinar, fechando os olhos, os lábios a milímetros dos de Lookmhee. O coração da caçadora disparou. Ela podia sentir os caninos de Sonya roçando levemente sua boca, um convite para o perigo.

A porta da sala foi escancarada com um estrondo.

— SONYA! CORRE! — Jeep entrou tropeçando, seguido por Pang e Meena, todos parecendo que tinham acabado de correr uma maratona.

Lookmhee saltou do colo de Sonya em um movimento reflexo, ajeitando a saia e recuperando a postura em um segundo. Sonya, por outro lado, soltou um rosnado de frustração que fez as janelas vibrarem.

— Se vocês não estiverem morrendo, eu juro que vou garantir que estejam em cinco segundos! — Sonya gritou, os olhos brilhando em amarelo.

— Sonya, escuta! — Pang disse, tentando recuperar o fôlego. — Suas mães. Elas chegaram. Engfa e Charlotte estão no pátio principal e elas parecem... bem, elas parecem elas mesmas. Estão parando o trânsito e perguntando por você para qualquer um que passe.

— E as mães da Lookmhee também chegaram — Meena acrescentou, olhando para a amiga com preocupação. — Freen e Becky. Elas entraram pelo portão norte. Meena disse que o olhar da Freen parece estar escaneando o campus em busca de alvos móveis.

O silêncio caiu sobre a sala. Lookmhee empalideceu levemente. Se Freen e Becky Armstrong Sarocha estivessem no mesmo raio de um quilômetro que Engfa e Charlotte Waraha, as chances de uma guerra civil universitária aumentavam em 90%.

— Eu não me importo — disse Sonya, cruzando os braços e sentando-se novamente. — Elas que esperem. Eu estava prestes a conseguir algo muito mais importante do que um almoço de família.

— Sonya, você ficou louca? — Jeep exclamou. — Se a sua mãe Fa entrar aqui e vir você com a filha das caçadoras que quase a pegaram em 2015, ela vai ter um colapso!

— Saiam todos daqui — Sonya ordenou, sua voz ganhando o tom de capitã. — Agora.

— Mas Sonya... — Pang tentou protestar.

— FORA! — O rosnado foi definitivo.

Os três amigos saíram rapidamente, fechando a porta com cuidado. O silêncio voltou, mas agora estava carregado de uma eletricidade diferente. Lookmhee estava em pé perto da janela, observando o movimento lá fora.

— Você ouviu o que eles disseram, Sonya. Nossas mães estão aqui. Se elas se encontrarem, o disfarce acaba. Elas se odeiam por instinto.

Sonya levantou-se e caminhou até Lookmhee, parando atrás dela. Ela não a tocou, mas sua presença era como uma sombra quente.

— Deixe que se odeiem. Elas tiveram o tempo delas. Este é o nosso.

— Você é muito imprudente — Lookmhee virou-se, encontrando o olhar intenso de Sonya. — O que você pretende com isso?

Sonya deu um passo à frente, forçando Lookmhee contra a parede ao lado da janela. Ela não usou força, apenas a gravidade de seu desejo. Lentamente, a loba se ajoelhou aos pés da caçadora.

— Sonya, o que você está fazendo? — Lookmhee perguntou, a voz falhando.

— Eu estou implorando, Sarocha — Sonya disse, olhando para cima, a vulnerabilidade exposta em seu rosto. — Eu passo o dia inteiro te provocando, tentando quebrar esse seu gelo, tentando ser a alfa que eu deveria ser. Mas a verdade é que eu não consigo pensar em mais nada além de como seria o gosto do seu beijo.

Sonya segurou as mãos de Lookmhee, levando-as aos seus lábios e beijando as palmas com reverência.

— Um beijo — Sonya pediu, a voz rouca. — Nem que eu tenha que ficar aqui, de joelhos, até minhas mães derrubarem essa porta. Eu não saio deste quarto sem saber se o que eu sinto quando te olho é correspondido.

Lookmhee olhou para a garota à sua frente. Sonya Austin Waraha, a loba que não abaixava a cabeça para ninguém, estava literalmente aos seus pés. O orgulho de Lookmhee lutou contra a vontade avassaladora de ceder. Ela sabia que era perigoso. Sabia que suas mães, Freen e Becky, provavelmente já estavam sentindo o "cheiro de cachorro" no ar.

Mas, ao olhar para Sonya, Lookmhee percebeu que a maior caçada de sua vida não seria contra uma criatura, mas contra seus próprios sentimentos.

— Você é patética, Austin — sussurrou Lookmhee, mas suas mãos se fecharam nos cabelos castanhos de Sonya, puxando-a para cima.

Sonya levantou-se com um brilho de esperança nos olhos. Lookmhee tirou os óculos, colocando-os na mesa ao lado. Sem a barreira das lentes, seu olhar era cru, faminto e absolutamente dominante.

— Se eu te beijar... você promete que vai se comportar na frente das nossas famílias? — perguntou Lookmhee.

— Eu prometo tentar — Sonya sorriu, aquele sorriso que costumava irritar Lookmhee, mas que agora a fazia querer se perder.

Lookmhee não esperou por mais promessas. Ela agarrou a gola da jaqueta de Sonya e a puxou para baixo, selando seus lábios em um beijo que não tinha nada de delicado. Era uma colisão de mundos. O gosto de Sonya era selvagem, como floresta e adrenalina, enquanto o de Lookmhee era frio e preciso, como metal e sândalo.

Sonya soltou um som baixo na garganta, envolvendo Lookmhee em seus braços e levantando-a do chão. O beijo se aprofundou, as línguas lutando por domínio, uma dança de dentes e suspiros que parecia apagar séculos de inimizade entre suas linhagens. Naquele momento, não havia caçadora ou loba; havia apenas a necessidade urgente de pertencer uma à outra.

Enquanto isso, no pátio central da universidade, o clima era digno de um filme de faroeste.

De um lado, Engfa Waraha caminhava com a jaqueta de couro pendurada nos ombros, exalando um carisma que fazia as pessoas abrirem caminho involuntariamente. Ao seu lado, Charlotte Austin observava tudo com um olhar afiado, sua elegância escondendo a força de uma loba que não aceitava desaforos.

— Fa, você está sentindo isso? — Charlotte perguntou, parando bruscamente e farejando o ar.

Engfa franziu o cenho, seus olhos escurecendo.

— Cheiro de pólvora e... prata. Velha e irritante prata.

Do outro lado do jardim, Freen Sarocha parou de caminhar, sua mão indo instintivamente para o coldre oculto sob o blazer de corte impecável. Becky Armstrong, ao seu lado, ajustou a postura, seus olhos azuis-acinzentados varrendo a multidão com a precisão de um sniper.

— Freen... — Becky murmurou, a voz baixa e perigosa.

— Eu sei, Becky. O cheiro de matilha. É forte. E está vindo daquela direção.

As quatro mulheres se avistaram simultaneamente no meio do pátio. O tempo pareceu parar. Os estudantes ao redor sentiram a súbita queda de temperatura e o aumento da pressão atmosférica. Era o encontro de lendas.

— Engfa Waraha — Freen disse, sua voz saindo como um estalo de chicote. — Eu deveria saber que você poluiria o ar deste campus acadêmico.

— Freen Sarocha — Engfa rebateu, abrindo um sorriso que não chegava aos olhos. — Ainda usando esse perfume barato de metalúrgica? Pensei que as Armstrong tivessem te dado um gosto melhor.

Charlotte e Becky se encararam, uma faísca de reconhecimento e rivalidade mútua brilhando entre elas.

— Onde está a minha filha? — Charlotte perguntou, a voz calma, mas carregada de uma ameaça latente.

— Engraçado — Becky respondeu, cruzando os braços —, eu ia fazer a mesma pergunta sobre a Lookmhee.

Dentro da sala de descanso, o beijo finalmente cessou, deixando ambas ofegantes e com os lábios inchados. A cauda de Sonya, que ela não conseguira conter, balançava freneticamente, batendo contra as pernas de Lookmhee.

— Uau — Sonya murmurou, apoiando a testa na de Lookmhee. — Se eu soubesse que era assim, eu teria me ajoelhado no primeiro dia.

Lookmhee soltou uma risada rara e genuína, colocando os óculos de volta.

— Não se acostume, Austin.

— Tarde demais.

O som de vozes familiares e gritos abafados de estudantes começou a se aproximar da porta. O "Dia da Família" estava prestes a se tornar o "Dia do Julgamento Final".

— Elas estão chegando — disse Lookmhee, voltando ao seu modo analítico, embora seu rosto ainda estivesse corado. — Se elas entrarem aqui e nos virem assim, haverá sangue. Muito sangue.

Sonya pegou a mão de Lookmhee e a entrelaçou com a sua.

— Então que haja sangue. Eu não vou soltar sua mão. Nem mesmo se a Mamãe Fa tentar me arrastar pelas orelhas.

Lookmhee olhou para as mãos unidas. Ela sabia que o que estavam fazendo era uma traição a tudo o que lhes fora ensinado. Mas, ao sentir o aperto firme de Sonya, ela percebeu que algumas regras foram feitas para serem quebradas — e algumas presas foram feitas para capturar o caçador.

— Prepare-se, Sonya — disse Lookmhee, endireitando a postura e encarando a porta. — A diversão está apenas começando.

A porta da sala de descanso tremeu. O cheiro de lobo e o cheiro de prata se misturaram no corredor em uma cacofonia sensorial. Fora dali, quatro das mulheres mais perigosas do mundo estavam prestes a descobrir que suas filhas haviam feito o impossível: haviam encontrado a paz no meio da guerra.

E a universidade nunca mais seria a mesma.