Voltar ao resumo

Happy?

Labirintos de Vidro e Beijos de Neon

A casa de Hyuna finalmente havia mergulhado em um silêncio denso, quebrado apenas pelo zumbido baixo da geladeira na cozinha e pela respiração pesada de Ivan, que havia capotado no sofá da sala após uma maratona de doces e discussões com Till. O ar estava impregnado com o cheiro de pipoca e o resquício do perfume de todos eles, uma mistura que geralmente trazia conforto a Mizi, mas que naquela madrugada parecia sufocante.

Mizi estava deitada em um dos colchões infláveis na sala de estar, encarando as luzes de LED azul que Hyuna deixara acesas. Seus olhos dourados estavam bem abertos, refletindo o brilho artificial. Ela tentava fechar as pálpebras, buscar o sono que sempre fora seu refúgio favorito, mas sua mente era um carrossel desgovernado. O toque dos lábios de Sua ainda queimava nos seus. Não era apenas a memória física; era a sensação de ter cruzado uma linha da qual não havia retorno.

Ela se virou para o lado, vendo a silhueta de Luka dormindo em uma poltrona e Ivan jogado de qualquer jeito. Till tinha se recolhido para um dos quartos de hóspedes mais cedo, provavelmente para evitar qualquer interação extra com o irmão de Sua. Mas Sua... Sua estava no quarto pequeno ao final do corredor, o quarto que Hyuna chamava de "seu escritório" e que servia de refúgio para quem queria fugir do barulho.

Mizi sentiu uma urgência que não conseguia explicar. Seus pés tocaram o chão frio e ela se levantou sem fazer barulho, movendo-se como uma sombra rosa através da penumbra. Cada passo no corredor parecia ecoar como um tiro em seus ouvidos, embora ela estivesse sendo o mais silenciosa possível.

Ao chegar à porta do quarto, ela hesitou. A mão pairou sobre a maçaneta de metal. "O que eu estou fazendo?", pensou. "Eu deveria estar dormindo. Eu deveria esquecer aquele beijo." Mas a curiosidade e algo muito mais profundo, algo que ela se recusava a nomear, a empurraram para frente.

Ela girou a maçaneta devagar. A porta rangeu minimamente.

O quarto estava mergulhado em uma penumbra azulada, mas a luz intensa de uma tela de celular iluminava o rosto pálido de Sua. Ela estava deitada de lado, os olhos roxos fixos no aparelho, as olheiras parecendo ainda mais profundas sob a luz fria. Quando a porta se abriu, Sua congelou. Ela abaixou o celular lentamente, encontrando o olhar de Mizi.

— Mizi? — Sua sussurrou, a voz carregada de surpresa e um rastro de ansiedade.

Mizi não respondeu de imediato. Ela entrou no quarto e fechou a porta atrás de si, encostando-se na madeira. O silêncio ali era diferente do silêncio da sala; era íntimo, quase perigoso.

— Eu não conseguia dormir — disse Mizi, caminhando até a beirada da cama onde Sua estava.

Sua sentou-se, puxando o cobertor contra o peito como uma armadura.

— Ninguém conseguiria dormir depois daquilo, Mizi. Por que você veio aqui? Se for para dizer de novo que foi um erro ou que foi nojento, por favor... saia. Eu não aguento mais uma vez.

Mizi sentou-se no colchão, fazendo as molas rangerem. Ela olhou para as próprias mãos, as unhas pintadas de azul bebê contrastando com a pele natural.

— Eu vim porque... — Ela hesitou, olhando para Sua. — Eu queria saber se você estava acordada. Eu queria conversar.

— Conversar? — Sua soltou uma risada curta e amarga. — Você me beijou daquele jeito na frente de todo mundo e agora quer "conversar"? Mizi, você tem noção do que fez com a minha cabeça?

Mizi inclinou-se para frente. A luz do celular de Sua, ainda acesa sobre o lençol, iluminava o degradê dos cabelos de Mizi, fazendo o azul das pontas brilhar.

— Eu sei o que eu fiz — murmurou Mizi. — Mas a questão é que eu não consigo parar de pensar no que eu senti quando fiz.

Sua abriu a boca para perguntar o que ela queria dizer com aquilo, mas não teve tempo. A vontade que Mizi sentira na sala, aquela fome súbita e inexplicável, voltou com o dobro da intensidade. Não era mais sobre um desafio. Era sobre a necessidade de silenciar a confusão em sua mente com a única coisa que parecia fazer sentido agora.

Mizi avançou. Ela segurou o rosto de Sua com as duas mãos, os polegares acariciando as maçãs do rosto pálidas, e a beijou.

Desta vez, não houve hesitação. Não houve plateia. O beijo começou urgente, quase agressivo, as línguas se encontrando em uma dança desesperada. Sua soltou o celular, que escorregou para o chão, e envolveu o pescoço de Mizi com os braços, puxando-a para mais perto, como se temesse que ela desaparecesse a qualquer momento.

— Mizi... — Sua gemeu entre os lábios dela, um som de puro desejo e confusão.

Mizi não parou. Ela a beijou uma, duas, três vezes. A cada beijo, ela parecia querer extrair algo de Sua, ou talvez preencher o vazio que sentia em sua própria casa luxuosa e solitária. O cheiro de Sua, uma mistura de livros velhos e sabonete neutro, a embriagava.

No quarto beijo, as mãos de Mizi desceram para os ombros de Sua, apertando-os com força. No quinto, elas estavam deitadas no colchão estreito, os corpos pressionados um contra o outro. Mizi sentia o calor de Sua, o modo como ela tremia sob seu toque, a entrega total da garota que a amava há anos.

No sexto beijo, o ar começou a faltar seriamente. Sua estava ofegante, o rosto corado, os olhos roxos brilhando com uma mistura de adoração e choque. Ela deixaria Mizi fazer qualquer coisa. Ela era dela, sempre fora.

No sétimo beijo, algo mudou.

No meio do contato, Mizi sentiu um estalo em sua mente. O pânico, aquele mesmo veneno que a fizera reagir com homofobia dias atrás, subiu por sua garganta. A percepção do quanto ela estava gostando daquilo, do quanto ela queria que aquilo nunca parasse, a assustou mais do que qualquer filme de terror.

Mizi se afastou abruptamente. Ela se levantou da cama como se tivesse sido queimada por brasa viva.

Sua ficou ali, deitada, o cabelo preto bagunçado sobre o travesseiro, os lábios inchados e vermelhos, tentando recuperar o fôlego. Ela olhou para Mizi, esperando uma palavra, um carinho, um sinal de que aquilo significava algo.

— Mizi? — chamou ela, a voz falha.

Mizi não disse nada. Seu peito subia e descia rapidamente. Ela olhou para Sua com uma expressão de puro terror, como se tivesse acabado de cometer um crime. Sem uma única palavra, Mizi girou nos calcanhares, abriu a porta do quarto e saiu correndo pelo corredor, voltando para o seu colchão na sala e se enterrando nos cobertores.

Sua permaneceu imóvel. O silêncio do quarto agora era pesado, carregado de uma rejeição silenciosa que doía mais do que as palavras cruas de dias atrás. Ela se encolheu na cama, o corpo ainda vibrando pelo toque de Mizi, mas a mente mergulhada em um abismo.

— O que foi isso? — sussurrou para a escuridão.

Ela sentia uma sensação estranha e pulsante no meio das pernas, um calor que nunca havia experimentado antes, fruto da excitação e da adrenalina. Mas, acima de tudo, sentia-se usada. Sentia-se como um experimento de laboratório que Mizi decidira testar e depois descartar por medo do resultado.

Ela demorou horas para conseguir fechar os olhos, perdida em pensamentos de que talvez Mizi a odiasse ainda mais agora por tê-la feito sentir algo que ela não queria sentir.

***

A manhã seguinte chegou com uma claridade impiedosa. O sol atravessava as cortinas da sala de Hyuna, revelando a bagunça de embalagens de salgadinhos e garrafas vazias.

Ivan foi o primeiro a acordar, resmungando sobre uma dor nas costas e a falta de açúcar no sangue. Ele chutou levemente o pé de Luka, que despertou assustado, ajeitando os óculos que haviam ficado tortos em seu rosto.

— Que horas são? — perguntou Luka, a voz rouca de sono.

— Hora de você parar de babar na poltrona da Hyuna — respondeu Ivan, bocejando.

Hyuna apareceu na sala logo depois, já vestida com uma camiseta larga e shorts, o cabelo marrom preso em um coque desleixado. Ela parecia radiante, como se tivesse tido a melhor noite de sono da vida.

— Bom dia, flores do dia! — exclamou ela, indo direto para a cozinha para preparar café. — Quem sobreviveu à noite de terror?

Till saiu do quarto de hóspedes logo em seguida, com o cabelo cinza mais bagunçado que o normal e uma expressão de poucos amigos. Ele ignorou Ivan completamente e se sentou à mesa da cozinha, apoiando a cabeça nas mãos.

— Cadê a Mizi e a Sua? — perguntou Hyuna, voltando para a sala com uma caneca fumegante.

Mizi, que estava fingindo dormir até aquele momento, sentou-se lentamente no colchão inflável. Seu cabelo rosa e azul estava um caos, e seus olhos dourados evitavam encontrar os de qualquer pessoa.

— Estou aqui — murmurou ela.

Poucos minutos depois, Sua apareceu na porta do corredor. O silêncio caiu sobre a sala. Todos se lembravam do beijo do desafio, e a tensão entre as duas era palpável, como uma corda prestes a arrombar. Sua estava pálida, com olheiras ainda mais escuras, e não olhou para Mizi nem por um segundo. Ela caminhou direto para a mesa da cozinha e sentou-se ao lado de Till.

— Você está com uma cara péssima, maninha — comentou Ivan, servindo-se de um cereal açucarado. — Parece que viu um fantasma. Ou dois.

— Cala a boca, Ivan — disse Sua, sem emoção.

Mizi levantou-se e começou a recolher suas coisas com uma pressa desnecessária.

— Eu preciso ir — disse Mizi, a voz soando artificialmente alegre. — Lembrei que tenho um compromisso com o pessoal que cuida da herança dos meus pais. Coisas de banco, vocês sabem como é.

— Agora? No sábado de manhã? — Hyuna arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços. — Mizi, o café nem ficou pronto.

— É, é urgente — Mizi já estava com a mochila nas costas. — Tchau, gente! Foi legal a noite!

Ela praticamente fugiu pela porta da frente, sem olhar para trás.

O grupo ficou em silêncio por alguns segundos, até que Ivan deu de ombros.

— Ela é doida. Sempre foi.

Sua continuou encarando sua caneca vazia. Ela sentia o peso do olhar de Hyuna sobre si, mas não tinha forças para explicar o que havia acontecido na madrugada. O beijo de Mizi ainda estava marcado em sua alma, mas a fuga dela doía muito mais.

— Luka, me ajuda aqui com as torradas? — pediu Hyuna, percebendo que o clima precisava de uma distração.

Luka levantou-se prontamente, feliz em ser útil. Enquanto isso, Till olhava de Sua para a porta por onde Mizi saíra, franzindo a testa. Ele podia ser um "emo revoltado", como Ivan dizia, mas não era cego.

— Ela fez alguma coisa com você? — Till perguntou baixo para Sua, enquanto os outros se distraíam na cozinha.

Sua olhou para o amigo. Till era o único que às vezes parecia entender sua melancolia.

— Ela me beijou, Till. De novo. No quarto, de madrugada.

Till arregalou os olhos verdes, mas manteve a voz baixa.

— E por que ela saiu correndo como se tivesse visto o diabo?

— Porque ela é a Mizi — respondeu Sua, levantando-se da mesa. — E eu sou apenas a Sua. Ela gosta de brincar com fogo, mas tem medo de se queimar.

Ela caminhou até a janela, observando a rua. Mizi já não estava mais à vista. O terceiro ano do ensino médio deveria ser sobre o futuro, sobre escolhas e sobre crescer. Mas, para Sua, parecia apenas um labirinto de vidro onde ela via a felicidade através da transparência, mas sempre batia o rosto quando tentava alcançá-la. E Mizi era o reflexo mais brilhante e perigoso de todos.