Happy?
Labirintos de Vidro e Beijos de Neon
A semana que se seguiu ao incidente na casa de Hyuna foi, para dizer o mínimo, um exercício de tortura psicológica para todos os envolvidos. O ar no terceiro ano B estava tão denso que poderia ser cortado com uma régua. Mizi e Sua, que antes eram o ponto de equilíbrio entre a agressividade de Till e o deboche de Ivan, agora eram dois polos magnéticos que se repeliam violentamente.
Mizi mergulhou em sua persona de "garota de ouro". Ela ria mais alto, falava mais com as pessoas do corredor e parecia sempre ocupada demais com o celular para perceber a presença de Sua. Mas quem a conhecia de verdade — como Ivan — notava que ela estava dormindo ainda mais do que o normal nas aulas, um sinal claro de que suas noites não estavam sendo tranquilas.
Já Sua parecia estar desaparecendo. A melancolia que sempre fora parte de seu charme agora era uma sombra pesada. Ela mal tocava na comida, seus olhos roxos viviam fixos em algum ponto inexistente no chão, e a palidez de sua pele chegava a ser preocupante. Hyuna tentava, de todas as formas, animá-la, mas Sua apenas sorria fraco e pedia para ser deixada sozinha com seus livros.
Na sexta-feira, o grupo estava reunido no refeitório para o intervalo. A mesa era a mesma de sempre, mas o silêncio era desconfortável. Till estava de cara fechada, cutucando um purê de batatas com ódio; Luka tentava explicar alguma teoria de física para Hyuna, que fingia ouvir enquanto olhava preocupada para Sua; e Ivan, como sempre, estava no centro, mastigando um chiclete de uva com um sorriso cínico.
— Cara, o clima aqui está mais morto que o jardim da mansão da Mizi — disparou Ivan, quebrando o silêncio da pior forma possível.
Mizi, que estava distraída girando uma mecha azul do cabelo, nem sequer levantou os olhos.
— Não começa, Ivan — murmurou Hyuna, sentindo o perigo.
— Não começa o quê? — Ivan deu de ombros, inclinando-se para frente com malícia. — Só estou dizendo que desde aquele beijo no Verdade ou Desafio, vocês duas agem como se fossem desconhecidas. Foi só um desafio, gente! Mizi beijou a Sua, a Sua quase teve um colapso, e agora estamos aqui nesse velório. Qual é, foi só uma brincadeira, não foi, Mizi?
O barulho da bandeja de Sua batendo na mesa ecoou pelo refeitório.
Sua levantou-se abruptamente. Suas mãos tremiam e seu rosto estava mais branco que o uniforme social. Ela não disse uma palavra. Apenas virou as costas e saiu correndo em direção à saída do refeitório, os passos rápidos denunciando o desespero.
— Seu idiota! — Till explodiu, levantando-se e agarrando Ivan pela gola da camisa social preta. — Você não sabe a hora de calar a boca?
— O quê? Eu só falei a verdade! — Ivan riu, embora houvesse uma centelha de surpresa em seus olhos pretos. — Elas precisam superar.
— Você é um lixo, Ivan — cuspiu Till, empurrando-o de volta no banco.
Hyuna já estava se levantando, olhando na direção onde Sua sumira.
— Eu vou atrás dela — disse Hyuna para Luka, mas antes que pudesse dar o primeiro passo, uma mão segurou seu pulso.
Era Mizi. Ela estava de pé, o rosto sério, sem qualquer traço da alegria forçada dos últimos dias.
— Deixa que eu vou — disse Mizi. Sua voz estava baixa, mas firme.
— Mizi, acho melhor não — retrucou Hyuna, com o cenho franzido. — Você está brincando de desinteresse com ela há uma semana. Só vai piorar as coisas.
— Hyuna — Mizi a encarou nos olhos, o brilho dourado agora intenso e determinado —, eu vou resolver isso. Sério agora. Por favor.
Hyuna hesitou por alguns segundos, lendo a sinceridade no rosto da melhor amiga. Ela suspirou e soltou o braço.
— Se você fizer ela chorar mais, Mizi, eu juro que te arranco esse cabelo rosa.
Mizi não respondeu. Ela saiu do refeitório em passos largos, ignorando os olhares curiosos dos outros alunos. Ela conhecia bem os esconderijos de Sua. Sabia que, quando o mundo ficava pesado demais, Sua buscava o banheiro feminino do bloco C, que costumava ser o mais vazio durante o intervalo.
Ao entrar no banheiro, o som a atingiu imediatamente. Era um choro contido, abafado, vindo da última cabine. Mizi sentiu um aperto no peito que quase a impediu de respirar. Ela caminhou lentamente até a porta da cabine.
— Sua? — chamou baixinho.
O choro parou por um segundo, seguido por um soluço soluçado.
— Vai embora, Hyuna — a voz de Sua saiu rouca e quebrada.
— Não é a Hyuna. Sou eu.
Houve um silêncio mortal do outro lado.
— Abre a porta, Sua. Por favor.
— Por que você está aqui, Mizi? — perguntou Sua, o tom carregado de uma mágoa profunda. — Para me dizer que foi um desafio de novo? Para fingir que eu não existo por mais sete dias?
— Abre a porta — insistiu Mizi, batendo levemente na madeira. — Eu não vou sair daqui até você abrir.
Depois de alguns segundos, ouviu-se o som do trinco girando. A porta se abriu apenas uma fresta. Mizi a empurrou e entrou, fechando-a e trancando-a logo em seguida. O espaço era minúsculo, o que as forçava a ficar a centímetros uma da outra.
Sua estava sentada no chão da cabine, as pernas encolhidas, os olhos roxos inchados e o rosto manchado de lágrimas. Ela parecia tão pequena, tão frágil, que Mizi sentiu vontade de se bater por ter causado aquilo.
— Sai daqui — murmurou Sua, escondendo o rosto entre os joelhos.
Mizi não saiu. Ela se abaixou, segurando Sua pelos ombros e levantando-a do chão com uma força gentil. Mizi sentou-se na tampa fechada do vaso sanitário e, sem pedir permissão, puxou Sua para o seu colo, fazendo-a sentar de lado, com as pernas pendendo sobre as suas.
— Mizi, o que você está fazendo? — Sua tentou se afastar, confusa com a proximidade repentina, mas Mizi a envolveu em um abraço firme.
— Shh... só fica quieta um pouco — sussurrou Mizi.
Mizi pegou a ponta da manga de seu próprio blazer (que ela raramente usava, mas que hoje estava ali) e começou a limpar as lágrimas do rosto de Sua com uma delicadeza extrema. Ela agia com uma maturidade que raramente mostrava, focada inteiramente em acalmar a garota em seus braços.
— Me desculpa — começou Mizi, a voz suave. — Eu fui uma covarde. Uma idiota completa. O Ivan é um imbecil, mas ele tem razão em uma coisa: eu estava fugindo.
Sua olhou para ela, os olhos ainda úmidos.
— Por que, Mizi? Por que você me beijou daquele jeito no quarto e depois fugiu?
Mizi soltou um suspiro longo, encostando sua testa na de Sua.
— Porque eu tive medo, Sua. Eu sempre tive tudo fácil na vida, sabe? O dinheiro dos meus pais, a popularidade... tudo é passageiro. Mas você... você não é passageira. Você é a única coisa constante na minha vida desde o primeiro ano. E quando eu percebi que eu gostava de você de um jeito que eu nunca gostei de ninguém, eu entrei em pânico.
Sua paralisou.
— Você... gosta de mim?
— Eu te amo, sua boba — disse Mizi, e um sorriso triste surgiu em seus lábios. — Eu te amo tanto que a ideia de estragar nossa amizade ou de não ser boa o suficiente para alguém tão incrível quanto você me aterrorizou. Você é inteligente, você é profunda, você é a pessoa mais bonita que eu já vi, Sua. E não é só a beleza exterior... é o jeito que você vê o mundo. Eu achei que, se eu entrasse nisso, eu acabaria te perdendo de alguma forma. E eu não posso viver sem você.
Sua sentiu o coração disparar. As palavras de Mizi eram como um bálsamo sobre suas feridas.
— Você realmente acha isso? — perguntou Sua, a voz trêmula.
— Eu tenho certeza — Mizi ajeitou uma mecha do cabelo preto de Sua atrás da orelha. — Você é incrível, Sua. E eu fui uma estúpida por te fazer sofrer.
Mizi aproximou o rosto lentamente. Desta vez, não havia pressa, não havia desafio, não havia pânico. O primeiro beijo foi um toque carinhoso, um pedido de desculpas silencioso. Foi doce e calmo, permitindo que Sua sentisse toda a sinceridade de suas palavras.
Mas, à medida que o beijo avançava, a saudade da semana de silêncio tomou conta. Mizi separou-se por apenas um milímetro antes de voltar a atacar os lábios de Sua com uma fome renovada. Sua correspondeu com a mesma intensidade, as mãos agarrando a blusa social de Mizi, puxando-a para mais perto naquele espaço confinado.
Com Sua ainda sentada de lado em seu colo, Mizi deslizou uma das mãos para baixo, por baixo da saia preta do uniforme de Sua. Ela apertou a coxa de Sua com firmeza, sentindo a pele macia sob seus dedos. Sua soltou um suspiro contra a boca de Mizi, o corpo reagindo instantaneamente ao toque possessivo.
Mizi desceu os beijos para o pescoço de Sua, deixando selinhos demorados ali, enquanto sua mão continuava a apertar a coxa da outra, marcando seu território.
— Nunca mais — sussurrou Mizi contra a pele de Sua — vou deixar você pensar que não te quero.
Sua fechou os olhos, entregando-se à sensação. Pela primeira vez em muito tempo, a melancolia parecia ter sido expulsa pela luz que Mizi emanava.
Depois de alguns minutos, elas se separaram para recuperar o fôlego. Mizi ajudou Sua a se levantar, arrumando a saia e o cabelo dela. Ela deu um último selinho carinhoso em Sua antes de abrir a porta da cabine.
— Vamos? Os outros devem estar achando que a gente se matou — disse Mizi, piscando um olho dourado.
Sua deu um pequeno sorriso — um sorriso real, que iluminou seu rosto pálido.
— Vamos.
Elas voltaram para o refeitório caminhando lado a lado. Quando entraram, o grupo na mesa ficou em silêncio absoluto. Ivan parou de mastigar, Till semicerrou os olhos e Hyuna arqueou uma sobrancelha, observando as duas.
Mizi sentou-se em seu lugar habitual e, para a surpresa de todos, puxou a cadeira de Sua para bem perto da sua.
— O que foi? O show acabou? — perguntou Mizi, voltando ao seu tom brincalhão, mas com um brilho de felicidade que não estava lá antes.
Sua sentou-se ao lado dela, ainda um pouco tímida, mas visivelmente mais leve.
Mizi olhou para a bandeja de Sua, que ainda tinha um pouco de comida intacta. Sem dizer nada, ela pegou o hashi de Sua, pegou um pedaço de rolinho primavera e o levou até a boca de Sua.
— Abre — comandou Mizi, com um sorriso radiante.
Sua corou violentamente, sentindo o olhar de todo o refeitório sobre elas, mas obedeceu, aceitando a comida.
— Uau — murmurou Ivan, encostando-se na cadeira. — Acho que eu perdi o capítulo onde o drama virou romance meloso.
— Cala a boca, Ivan — disseram Mizi e Sua, em uníssono.
Till deu um sorrisinho de lado, voltando a comer sua refeição, enquanto Hyuna trocou um olhar cúmplice com Luka. O terceiro ano ainda seria um desafio, e as incertezas do futuro ainda estavam lá, mas naquele momento, entre o barulho do refeitório e o gosto de comida compartilhada, Sua sabia que não estava mais sozinha no seu labirinto de vidro. Mizi havia entrado nele e, com um beijo, quebrado todas as paredes.