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Happy?

Delírios de uma Noite de Neon

Duas semanas haviam se passado desde que os corredores do colégio se tornaram testemunhas da mudança drástica no grupo do terceiro ano. O que antes era um campo de batalha de tensões não resolvidas agora parecia uma mistura caótica de casais em formação e dinâmicas estranhas. Mizi e Sua haviam estabelecido uma espécie de bolha particular: beijos roubados entre as aulas, mãos dadas por baixo da mesa da biblioteca e uma melosidade que fazia Till revirar os olhos até quase enxergar o próprio cérebro.

Luka e Hyuna não ficavam atrás. Embora Luka ainda agisse como se estivesse processando um cálculo complexo toda vez que Hyuna o abraçava, a proximidade entre os dois era óbvia. Já Ivan e Till continuavam em sua guerra particular, embora as brigas agora tivessem um tom menos de "eu quero te matar" e mais de "eu quero te irritar até você não conseguir pensar em mais nada além de mim".

Naquela noite de sexta-feira, a casa de Hyuna era novamente o cenário. Os pais dela, em outra viagem de negócios, haviam deixado o campo livre. A regra da noite era simples: esquecer o vestibular e beber até que o mundo fizesse sentido — ou parasse de fazer.

— Eu não bebo — declarou Luka, ajeitando os óculos enquanto segurava uma lata de refrigerante diet como se fosse um escudo sagrado. — Alguém precisa garantir que ninguém aqui morra de intoxicação ou tente pular da varanda.

— Você é tão careta, Luka — Hyuna riu, já levemente alterada, balançando-se ao som de uma música de rock que Till havia colocado. Ela usava uma blusa de alças finas e sua energia parecia irradiar pelas luzes coloridas da sala.

No canto do sofá, a situação estava se degradando rapidamente. Ivan e Till dividiam uma garrafa de algo forte e transparente.

— Você... você é um poste idiota — balbuciou Till, apontando o dedo para o rosto de Ivan. O cabelo cinza estava mais bagunçado que o normal e suas bochechas estavam tingidas de um rosa forte. — Mas até que você fica menos feio quando para de sorrir como um psicopata.

— Ah, é? — Ivan inclinou-se para frente, o hálito quente de álcool atingindo o rosto de Till. Ele estava naquele estágio da embriaguez em que o deboche se transformava em um flerte agressivo. — E você fica quase suportável quando está bêbado demais para me xingar. Sabia que seus olhos verdes ficam brilhando? É irritante. Você é irritante.

— Eu te odeio — murmurou Till, mas não se afastou quando Ivan invadiu seu espaço pessoal, os dois perdidos em um loop de insultos e olhares prolongados.

Enquanto isso, Mizi havia atingido o estágio de "morte cerebral alcoólica". Ela estava deitada de bruços no tapete, com a cabeça apoiada em uma almofada de veludo azul. Seus cabelos rosa e azul estavam espalhados como uma explosão de algodão-doce.

— Você é tão macia... — Mizi sussurrou, acariciando a almofada com uma seriedade absoluta. — Por que você nunca me conta seus segredos, Dona Almofada? Você é uma espiã do governo?

Sua, sentada ao lado dela, observava a cena com olhos pesados. Diferente de Mizi, o álcool não a deixava boba; ele removia cada uma de suas barreiras melancólicas e trazia à tona uma versão de Sua que ninguém conhecia. Uma versão sem filtros, sem timidez e perigosamente direta.

Sua engoliu o resto do líquido em seu copo e engatinhou até Mizi. Ela se inclinou sobre a namorada, o cabelo preto caindo como uma moldura sombria sobre o rosto de Mizi.

— Mizi... — a voz de Sua saiu baixa, grave, vibrando com uma intenção que fez Luka, do outro lado da sala, congelar.

— Oi, Sua! — Mizi sorriu, os olhos dourados completamente desfocados. — A Dona Almofada disse que você é muito bonita. Ela é legal.

Sua ignorou a almofada. Ela aproximou os lábios do ouvido de Mizi, mas não se preocupou em baixar o tom de voz. O silêncio que se seguiu na sala foi instantâneo. Até Ivan e Till pararam de brigar para ouvir.

— Eu quero você, Mizi — murmurou Sua, as palavras saindo arrastadas e carregadas. — Quero que você me leve para o seu quarto e me mostre exatamente o que aquela sua herança de menina rica pode comprar. Quero sentir o peso do seu corpo no meu até eu não conseguir mais respirar.

Hyuna parou de dançar. Luka quase derrubou o refrigerante.

— Eu quero que você perca esse controle todo — continuou Sua, os olhos roxos brilhando com uma luxúria crua que ninguém imaginava que ela possuía. — Quero ser sua, Mizi. Quero que você seja a ativa, que me domine, que me faça esquecer meu próprio nome. Imagina... nós duas, sem essas roupas de uniforme, sem ninguém olhando... só você me possuindo.

O silêncio na sala era tão denso que se podia ouvir o gelo derretendo nos copos. Ivan estava com a boca aberta, uma expressão de choque puro substituindo seu sorriso cínico. Till parecia ter ficado sóbrio instantaneamente pelo susto. Luka estava vermelho até a raiz dos cabelos, desviando o olhar para o teto.

Mizi, no entanto, apenas piscou lentamente. Ela olhou para Sua, processando as palavras através de uma névoa de embriaguez que não permitia que a perversidade daquelas frases chegasse ao seu entendimento.

— Ah, Sua... — Mizi sorriu de forma angelical e deu um beijinho na ponta do nariz de Sua. — Você é tão fofinha quando está falando coisas difíceis. Você é a minha bonequinha preferida.

Mizi soltou um bocejo longo e dramático.

— Agora eu vou dormir. A Dona Almofada está me chamando para uma reunião importante no mundo dos sonhos.

Sem mais nem menos, Mizi virou-se de lado no sofá, abraçou a almofada e apagou em menos de dez segundos, roncando levemente.

Sua ficou ali, parada, com a respiração ofegante, ainda processando o próprio surto de audácia. Ela olhou para o lado e viu quatro pares de olhos fixos nela, todos em estado de choque absoluto.

— Gente... — Luka começou, a voz falhando — acho que... acho que é hora de todo mundo dormir.

Ninguém contestou. O clima estava estranho demais para qualquer outra coisa. Ivan e Till se arrastaram para o quarto de hóspedes, sem trocar uma palavra, ainda processando as descrições gráficas de Sua. Hyuna ajudou Luka a ajeitar as cobertas na sala, enquanto Sua, sentindo o mundo girar, se recolheu para o quarto de hóspedes de sempre, caindo na cama e apagando antes mesmo de tirar os sapatos.

***

O sol da manhã seguinte não teve misericórdia. Ele atravessava as janelas da cozinha de Hyuna, onde o grupo se reunia em volta da mesa, todos com expressões de quem havia sido atropelado por um caminhão de lixo. O cheiro de café forte era a única coisa que mantinha o ambiente coeso.

Mizi estava sentada ao lado de Sua, devorando uma torrada com geleia. Ela parecia ótima, como se o álcool da noite anterior tivesse sido apenas um suco de frutas. Sua, por outro lado, estava encolhida, segurando uma caneca de café com as duas mãos, tentando ignorar a dor de cabeça e a sensação de que algo muito errado havia acontecido.

— Então... — Ivan começou, quebrando o silêncio enquanto mexia em seu cereal. Ele olhou para Sua com um sorriso que era metade choque, metade provocação. — Alguém aqui teve sonhos interessantes? Ou melhor... alguém aqui tem planos de "dominação" para o futuro próximo?

Sua sentiu o estômago dar um nó. As memórias começaram a voltar em flashes violentos. As palavras que ela dissera... as descrições... a confissão de querer ser passiva e possuída por Mizi... tudo voltou como um soco.

— Meu Deus — sussurrou Sua, escondendo o rosto atrás da caneca.

— O que foi? — perguntou Mizi, inocentemente, limpando um pouco de geleia do canto da boca. — O Ivan está sendo idiota de novo?

— Mizi — Hyuna interveio, com um tom de voz que misturava diversão e incredulidade —, você realmente não lembra de nada do que a Sua te disse ontem à noite? Antes de você apagar?

Mizi parou de mastigar. Ela franziu a testa, os olhos dourados percorrendo o teto enquanto buscava na memória. Lentamente, uma sombra de reconhecimento cruzou seu rosto. Ela lembrou de Sua se inclinando, do hálito quente, das palavras sobre "perder o controle" e "ser possuída".

Mizi não disse nada. Ela apenas continuou olhando para a torrada, o rosto permanecendo neutro, mas suas orelhas começaram a ficar levemente rosadas.

— Eu... eu lembro de algumas coisas — murmurou Mizi, a voz subitamente mais baixa.

— Algumas coisas? — Till soltou uma risada nervosa. — Sua, eu não sabia que você era... bem, tão direta. Eu quase precisei de terapia só de ouvir.

— Eu não sabia onde enfiar a minha cara — confessou Luka, ajeitando os óculos. — Foi... anatomicamente detalhado.

Sua sentiu o pânico subir por sua garganta. O silêncio de Mizi era o que mais a assustava. Ela tinha certeza de que Mizi agora a via como uma pervertida, uma doente que só pensava naquilo, alguém que havia quebrado a pureza do relacionamento que elas estavam construindo.

— Mizi, eu... eu estava bêbada — Sua começou a falar rápido, a voz trêmula. — Eu não sei por que eu disse aquelas coisas. Eu não queria ser... nojenta. Por favor, não pense que eu sou uma pessoa depravada. Eu só... o álcool me faz dizer loucuras.

Mizi continuou em silêncio, o que só aumentava o desespero de Sua.

— Se você quiser terminar ou se você estiver com nojo de mim, eu entendo — Sua continuou, as lágrimas começando a embaçar sua visão. — Eu sei que foi demais. Eu fui uma idiota.

Mizi finalmente levantou os olhos. Ela olhou para o grupo na mesa — Ivan com seu sorriso de deboche, Till desconfortável, Hyuna curiosa e Luka envergonhado. Depois, olhou para Sua.

— Gente, podem nos dar um minuto? — pediu Mizi. Sua voz não era de raiva, mas tinha uma autoridade que ninguém ousou questionar.

Um a um, eles se levantaram e saíram para a sala, deixando as duas sozinhas na cozinha iluminada pelo sol.

Sua não conseguia olhar para Mizi. Ela encarava o café preto, esperando o fim. Esperando que Mizi dissesse que ela era estranha e que aquela dinâmica "ativa e passiva" era algo que ela nunca aceitaria.

— Sua — chamou Mizi.

Sua não respondeu.

— Sua, olha para mim.

Lentamente, a garota de cabelos pretos levantou o rosto. Mizi não parecia brava. Na verdade, ela parecia... pensativa.

— Você realmente pensa naquelas coisas? — perguntou Mizi, inclinando a cabeça. — Sobre eu te dominar? Sobre... aquilo tudo?

Sua sentiu o rosto queimar.

— Eu... eu não sei. Talvez? Eu gosto de você, Mizi. E eu me sinto segura com você. Acho que meu subconsciente só...

— Sabe o que é engraçado? — Mizi interrompeu, um sorriso pequeno e travesso começando a surgir em seus lábios. — Eu estava agindo como se não lembrasse porque eu fiquei com vergonha de admitir uma coisa.

Sua franziu a testa, confusa.

— O quê?

— Que eu não achei nojento — Mizi esticou a mão sobre a mesa e segurou a de Sua. — Eu achei... intenso. E, para ser sincera, eu passei a manhã toda pensando se eu realmente seria capaz de fazer metade das coisas que você descreveu.

Sua arregalou os olhos roxos.

— Você não está com raiva?

— Por que eu estaria? — Mizi riu, recuperando sua confiança habitual. — Você me quer. Isso é ótimo! Eu também te quero. Só que eu sou um pouco mais lenta para processar essas coisas do que você, aparentemente. Você é uma pervertida silenciosa, Sua. Quem diria? A garota melancólica dos livros tem uma imaginação de filme proibido.

Sua soltou um suspiro de alívio tão grande que seus ombros caíram.

— Eu achei que você ia me odiar.

— Eu nunca poderia te odiar por me desejar — disse Mizi, levantando-se e contornando a mesa. Ela parou atrás de Sua e inclinou-se, abraçando-a por trás e sussurrando em seu ouvido, imitando o tom que Sua usara na noite anterior. — Mas, da próxima vez que quiser me contar seus desejos, faça isso quando eu não estiver abraçada com uma almofada, ok? Eu prefiro prestar atenção em cada detalhe.

Sua sentiu um arrepio percorrer seu corpo, mas desta vez era um arrepio bom.

Na sala, o resto do grupo tentava ouvir a conversa.

— Elas estão se matando ou se pegando? — perguntou Ivan, encostado na parede.

— Acho que elas estão bem — respondeu Hyuna, sorrindo ao ouvir a risada de Mizi vindo da cozinha.

— Graças a Deus — suspirou Luka. — Eu não aguentaria outro drama semanal por causa de hormônios.

— Fala o cara que quase infarta quando a Hyuna toca no braço dele — zombou Till.

— Cala a boca, Till!

A manhã seguiu, e embora o constrangimento ainda pairasse no ar toda vez que alguém mencionava a palavra "almofada" ou "ativa", o grupo parecia ter encontrado um novo equilíbrio. Sua ainda estava morrendo de vergonha, mas ao sentir o aperto da mão de Mizi sob a mesa, ela soube que seus desejos — por mais intensos que fossem — haviam encontrado um lar. E Mizi, por sua vez, descobriu que ser a "ativa" da relação era um desafio que ela estava mais do que disposta a aceitar, assim que terminasse sua torrada.