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Happy?

Sombras e Segredos de um Domingo de Neon

O domingo amanheceu com a promessa de ser apenas mais um dia de ressacas e arrependimentos, mas na casa de Hyuna, o tempo parecia ter dobrado sobre si mesmo. O grupo decidiu ficar mais uma noite; ninguém estava realmente com pressa de voltar para a realidade das aulas de segunda-feira ou para as dinâmicas familiares sufocantes de Ivan e Sua.

No entanto, o clima mudou drasticamente quando a noite caiu novamente. O que era para ser uma reunião tranquila transformou-se em uma repetição intensificada da noite anterior, mas com uma diferença crucial: os papéis da sobriedade haviam sido trocados.

Desta vez, Hyuna, Till e Sua haviam mergulhado fundo nas garrafas de soju e vodca que sobraram. Hyuna dançava em cima da mesa de centro, uma versão distorcida e elétrica de si mesma, rindo de piadas que só faziam sentido em sua cabeça. Till, por sua vez, havia perdido completamente a pose de "emo revoltado". O álcool parecia ter derretido sua hostilidade, transformando-a em uma carência agressiva.

— Você... você é tão alto, Ivan. Por que você tem que ser tão alto? — Till resmungou, tropeçando nos próprios pés e caindo literalmente em cima de Ivan, que estava sentado no sofá.

Ivan, que desta vez decidira não beber para poder observar o caos de camarote, segurou Till pelos ombros. Havia um brilho divertido e quase terno em seus olhos pretos, embora seu sorriso continuasse cínico.

— É para eu poder ver a sua calvície chegando mais cedo, Till — ironizou Ivan, embora não o afastasse. Pelo contrário, ele deixou que Till se acomodasse em seu colo, uma cena que faria qualquer um ali duvidar da própria sanidade se estivesse sóbrio.

Luka, o único que se recusava terminantemente a tocar em álcool, estava sentado em uma poltrona, limpando os óculos obsessivamente. Ele olhava para Hyuna com uma mistura de adoração e terror puro, temendo que ela caísse da mesa a qualquer momento.

Mizi estava no canto oposto da sala. Ela segurava um único copo de whisky, do qual apenas bebericava ocasionalmente. Seus olhos dourados estavam focados na tela do celular, mas sua mente estava em outro lugar. Ela sentia o peso do olhar de Sua sobre si.

Sua estava em um estado perigoso. O álcool havia removido todas as suas camadas de melancolia e reserva, deixando apenas um desejo pulsante e uma audácia que beirava a imprudência. Ela se aproximou de Mizi, caminhando com uma precisão surpreendente para alguém que já tinha virado três copos de vodca pura.

Sua parou na frente de Mizi, bloqueando a visão do celular. O silêncio começou a se espalhar pela sala. Até Hyuna parou de dançar, sentindo a mudança na eletricidade do ar. Till e Ivan pararam de trocar insultos sussurrados. Luka prendeu a respiração.

— Mizi — disse Sua. Sua voz não era mais um sussurro tímido. Era um comando, carregado de uma rouquidão que fez os pelos do braço de Mizi se arrepiarem.

— Oi, Sua. Você não acha que já bebeu demais? — Mizi tentou manter o tom leve, mas seu coração já estava martelando contra as costelas.

— Eu não bebi o suficiente para esquecer o que eu quero fazer com você — continuou Sua, inclinando-se para frente. — Você se lembra do que eu disse ontem? Sobre você me possuir? Sobre eu ser sua?

Luka engasgou com o próprio ar. Ivan soltou um assobio baixo, enquanto Till apenas observava com os olhos arregalados.

— Eu estava bêbada ontem, Mizi. Mas hoje... hoje eu estou consciente o suficiente para saber que cada palavra era verdade. Eu quero sentir suas mãos em lugares que você ainda não teve coragem de tocar. Quero que você esqueça essa pose de menina boazinha e me mostre o quão possessiva você pode ser. Me domina, Mizi. Me deixa sem voz de tanto gritar o seu nome.

O choque na sala foi palpável. Não era apenas a ousadia das palavras, era a intensidade com que Sua as dizia. Ela não parecia mais a garota pálida e cansada que lia poesias tristes no fundo da classe. Ela era uma força da natureza, uma chama roxa consumindo tudo ao redor.

Mizi olhou para os amigos. Luka parecia prestes a desmaiar. Hyuna tinha um sorriso de "eu sabia". Ivan e Till estavam hipnotizados. Mas Mizi não sentiu vergonha. Pela primeira vez, ela não sentiu medo. A confissão de Sua agiu como uma chave, destrancando algo que Mizi vinha guardando dentro de si desde que herdara aquela mansão vazia e a solidão que vinha com ela.

Mizi deixou o copo de whisky na mesa lateral com um estalo seco. Ela se levantou, sua altura média parecendo subitamente imponente. Ela não desviou o olhar de Sua.

— Luka, Ivan — disse Mizi, sua voz saindo firme e fria, com uma autoridade que ninguém ali conhecia. — Aumentem o som. Divirtam-se. Não nos chamem por nada.

Sem esperar resposta, Mizi segurou o pulso de Sua. O toque foi firme, quase brusco. Ela puxou Sua em direção ao corredor dos quartos de hóspedes. Sua a seguia, os olhos fixos nas costas de Mizi, um sorriso vitorioso e faminto brincando em seus lábios.

Ao chegarem ao quarto, Mizi empurrou Sua para dentro e fechou a porta. O som do trinco girando ecoou no pequeno espaço como um veredito final.

O quarto estava mergulhado em uma penumbra, iluminado apenas pela luz da lua que filtrava pelas cortinas semiabertas. O som do rock pesado vindo da sala agora era apenas um abafado rítmico, criando uma barreira entre elas e o resto do mundo.

Mizi pressionou Sua contra a porta fechada. Suas mãos subiram para o pescoço de Sua, não para apertar, mas para enquadrar seu rosto com uma possessividade que fez Sua suspirar.

— Você fala demais quando bebe, Sua — murmurou Mizi, o rosto a milímetros do dela. — Você tem certeza de que aguenta o que está pedindo? Porque se eu começar, eu não vou parar.

— É exatamente isso que eu quero — desafiou Sua, as mãos subindo para a cintura de Mizi, puxando-a para mais perto. — Pare de falar e me mostre quem manda aqui.

Mizi não precisou de outro convite. Ela atacou os lábios de Sua com uma ferocidade que não tinha nada a ver com os beijos carinhosos de antes. Era um beijo de posse, de fome, de uma necessidade acumulada por anos de amizade reprimida. Suas línguas se encontraram em uma batalha frenética, e o gosto de álcool e desejo era inebriante.

Mizi desceu as mãos para a cintura de Sua, apertando o tecido da saia do uniforme. Ela sentia a pele quente de Sua através da blusa fina. Cada toque era uma afirmação.

— Você é minha, Sua — rosnou Mizi entre os beijos, a voz vibrando de uma forma que Sua nunca ouvira. — Você me pertence. Entendeu?

— Sim... — gemeu Sua, a cabeça caindo para trás quando Mizi começou a beijar seu pescoço, deixando marcas que não sumiriam tão cedo. — Eu sou sua. Faça o que quiser.

Mizi a pegou no colo, uma demonstração de força que surpreendeu Sua, e a levou até a cama. Ela a deitou com cuidado, mas logo se posicionou por cima dela, prendendo os pulsos de Sua acima da cabeça com apenas uma das mãos.

Os olhos dourados de Mizi brilhavam na escuridão, cheios de uma luxúria que Sua finalmente havia conseguido despertar.

— Você queria a Mizi que não tem limites? — perguntou Mizi, sua mão livre descendo pela curva do corpo de Sua. — Pois aqui está ela.

Naquela noite, sob o céu de domingo e o som distante de uma música que ninguém mais ouvia, as paredes daquela casa de hóspedes testemunharam a transformação final de duas amigas em algo muito mais complexo, sombrio e belo. Mizi descobriu que o poder de sua herança não estava nos bancos, mas na forma como ela podia fazer Sua se perder e se encontrar em seus braços. E Sua, finalmente, encontrou a paz que tanto buscava no caos do toque de Mizi.

O labirinto de vidro havia se quebrado para sempre, e o que restava eram apenas as sombras de duas garotas que, finalmente, não tinham mais nada a esconder.