Harry potter
O Preço da Verdade e o Riso das Serpentes
A atmosfera no Salão Comunal da Grifinória estava tão carregada que o crepitar das brasas na lareira soava como tiros de canhão. Hermione estava sentada na ponta de uma poltrona, as mãos entrelaçadas com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. À sua frente, Ron Weasley a observava com uma expressão que oscilava entre a confusão e uma preocupação crescente. Harry, encostado na parede ao fundo, mantinha os braços cruzados, o rosto obscurecido pelas sombras; ele já sabia o que viria, e o peso desse conhecimento parecia envelhecê-lo dez anos.
— Hermione, você está me assustando — disse Ron, inclinando-se para a frente. — O que aconteceu? É sobre o projeto com o Silva? Ele fez algo com você? Se aquele idiota te tocou, eu juro que...
— Ron, pare! — A voz de Hermione saiu como um estalo, interrompendo-o. Ela respirou fundo, sentindo as lágrimas arderem nos olhos. — Eu preciso te contar uma coisa. E você precisa me ouvir até o fim, sem explodir.
Ron ficou imóvel, o cenho franzido. O silêncio que se seguiu foi torturante.
— Eu... eu cometi um erro horrível — começou ela, a voz falhando. — Naquela noite em que brigamos, eu saí furiosa. Encontrei o Diego no corredor. Ele foi... ele pareceu diferente. E eu estava com raiva, estava confusa. Uma coisa levou a outra e... Ron, eu dormi com ele.
O tempo pareceu parar. Ron não se moveu. Ele não piscou. Por um momento, Hermione pensou que ele não tivesse entendido as palavras. Então, lentamente, a cor começou a sumir do rosto do ruivo, deixando-o de uma palidez cadavérica antes que uma mancha de vermelho escuro subisse pelo seu pescoço.
— Você o quê? — A voz de Ron era um sussurro rouco, perigoso.
— Foi uma vez, Ron! Quer dizer... — Ela soluçou, a culpa transbordando. — Aconteceu de novo depois. Ele me chantageou, disse que contaria para todo mundo, e eu entrei em pânico. Eu queria proteger a gente, queria que você não sofresse...
— Proteger a gente? — Ron levantou-se de um salto, derrubando a mesa de centro. — Você dormiu com um sonserino, com o melhor amigo do Malfoy, para "nos proteger"? Hermione, você tem noção do que está dizendo?
— Ron, por favor...
— Não! — gritou ele, a fúria finalmente explodindo. — Onde ele está? Onde está aquele desgraçado?
Sem esperar por uma resposta, Ron saiu em disparada pelo buraco do retrato. Harry tentou segurá-lo, mas Ron o empurrou com uma força cega. Hermione correu atrás deles, o coração disparado, sentindo que o mundo estava desmoronando sob seus pés.
Eles atravessaram os corredores de Hogwarts como um furacão. Ron não precisou procurar muito. Diego e Draco Malfoy estavam no pátio interno, encostados em uma pilastra de pedra, rindo de algo enquanto observavam o movimento dos alunos que seguiam para as últimas aulas do dia. A presença deles, tão relaxada e vitoriosa, foi o estopim final para Ron.
— SILVA! — berrou Ron, a voz ecoando pelas arcadas de pedra.
Diego virou-se lentamente, um sorriso predatório surgindo em seus lábios assim que viu o estado de Ron. Draco, ao lado dele, ajeitou as vestes com um ar de tédio fingido, embora seus olhos cinzentos brilhassem com uma antecipação cruel.
— Ora, se não é o nosso Weasley favorito — disse Diego, mantendo as mãos nos bolsos. — Você parece um pouco tenso, ruivo. Problemas em casa?
Ron não disse nada. Ele avançou e desferiu um soco com toda a sua força. Diego, porém, foi rápido; ele se esquivou para o lado, fazendo com que Ron cambaleasse para a frente.
— Que falta de modos — comentou Diego, rindo. — É assim que você trata quem cuidou tão bem da sua namorada?
— Seu filho da puta! — gritou Ron, tentando avançar novamente, mas sendo contido por Harry, que finalmente o alcançara. — Ela me contou tudo! Eu sei o que você fez, eu sei como você a forçou!
Nesse momento, Draco Malfoy soltou uma gargalhada genuína e estridente, atraindo a atenção de vários alunos que passavam por perto.
— Forçou? — Draco limpou uma lágrima imaginária do canto do olho. — Weasley, você é mais patético do que eu imaginava. O Diego não precisou forçar nada. Na verdade, ele a "comeu" duas vezes, e pelo que ele me contou, ela não parecia estar lutando contra na segunda vez. Muito pelo contrário.
— Shh, Draco — interrompeu Diego, embora o sorriso em seu rosto fosse de orelha a orelha. — Não seja desumilde, meu amigo. Temos que manter um pouco de classe, mesmo diante da tragédia alheia.
Diego soltou uma risada abafada, olhando diretamente para Hermione, que acabara de chegar, pálida e trêmula, parando logo atrás de Harry.
— Você mentiu para ele, não foi, Hermione? — perguntou Diego, sua voz agora suave e carregada de veneno. — Contou a ele a versão em que você é a vítima indefesa? Conte a ele sobre a Sala Precisa ontem à noite. Conte como você me beijou primeiro.
Ron olhou de Diego para Hermione, o desespero começando a substituir a raiva em seus olhos.
— Mione... isso é verdade? — perguntou ele, a voz falhando. — Você... você foi atrás dele ontem?
Hermione não conseguiu responder. Ela apenas cobriu o rosto com as mãos, soluçando. O silêncio dela foi a resposta que Ron não queria ouvir.
— Viu só, Weasley? — Draco deu um passo à frente, cruzando os braços. — Ela sabe onde o fogo queima de verdade. Você é apenas o porto seguro, o garoto legal que ela usa para manter as aparências. Mas quando ela quer se sentir viva, ela desce para as masmorras.
— Cale a boca, Malfoy! — Harry interveio, a varinha já na mão. — Vocês planejaram isso desde o início. É tudo um jogo para vocês.
— Um jogo que ganhamos, Potter — retrucou Diego, dando de ombros. — E olha só o prêmio: a integridade da Grifinória em pedaços.
Ron, respirando pesadamente, olhou para Hermione e depois para Diego. Ele parecia estar tentando juntar os cacos de sua dignidade.
— Vocês não vão me separar da Hermione — disse Ron, a voz trêmula, mas determinada. — Eu sei o que vocês estão tentando fazer. Ela cometeu um erro, mas foi por causa de vocês! Eu vou perdoá-la, e nós vamos passar por isso. Vocês não venceram.
Diego e Draco trocaram um olhar de incredulidade antes de caírem na gargalhada novamente. Diego deu um passo à frente, parando a poucos centímetros de Ron, ignorando a varinha de Harry que apontava para o seu peito.
— Você vai perdoá-la? — Diego soltou um suspiro de deboche, balançando a cabeça. — Puxa vida, Weasley... eu já vi gente desesperada, mas você supera todas as expectativas. Você é o quê? Um corno manso?
— Como é que é? — Ron avançou, mas Diego não recuou.
— É isso mesmo — repetiu Diego, a voz agora fria e cortante. — Um corno manso. Eu dormi com a sua namorada, eu a tive do jeito que eu quis, e você está aqui, implorando para que ela fique com você? Você não tem um pingo de amor-próprio? Ela sentiu o meu cheiro, ela gemeu o meu nome e agora você quer levá-la pela mão para o jantar?
— Você não sabe do que está falando! — gritou Ron, embora suas palavras soassem vazias até para ele mesmo.
— Eu sei exatamente do que estou falando — disse Diego, voltando-se para Malfoy. — Vamos embora, Draco. O cheiro de derrota aqui está ficando insuportável. Alguns homens nasceram para liderar, outros nasceram para segurar a vela enquanto outros fazem o serviço.
Os dois sonserinos se afastaram, suas risadas ecoando pelo pátio, deixando para trás um rastro de humilhação que parecia impregnar o ar. Ron ficou parado, os ombros caídos, olhando para o chão como se estivesse esperando que ele se abrisse e o engolisse.
Hermione deu um passo em direção a ele, a mão estendida.
— Ron... me desculpe... eu...
Ron se esquivou do toque dela como se fosse fogo. Ele olhou para ela, e Hermione viu algo que nunca tinha visto antes nos olhos dele: um vazio profundo. Não era mais raiva, não era mais ciúme. Era o reconhecimento de que algo havia se quebrado de forma irreparável.
— Ele tem razão, não tem? — perguntou Ron, a voz sem vida. — Eu estou aqui tentando te defender, tentando manter a gente junto... e você foi atrás dele ontem à noite. Por vontade própria.
— Eu estava confusa, Ron! Eu me senti presa!
— Não, Hermione — disse ele, balançando a cabeça. — Você fez uma escolha. E agora eu entendi o que o Malfoy quis dizer naquele dia no Salão Principal. Eu era o único que não sabia da piada. E a piada era eu.
Ron virou-se e começou a caminhar na direção oposta, em direção à cabana de Hagrid, querendo apenas ficar longe de tudo e de todos. Harry olhou para Hermione, que estava desabada no chão, chorando convulsivamente. Ele sentiu uma pontada de pena, mas a decepção era maior.
— Você destruiu ele, Hermione — disse Harry, suavemente. — E o pior é que você deu ao Malfoy e ao Diego exatamente o que eles queriam.
Harry seguiu Ron, deixando Hermione sozinha no pátio. O sol começava a se pôr, tingindo as paredes de Hogwarts de um vermelho sangrento.
Longe dali, no Salão Comunal da Sonserina, a comemoração era silenciosa, mas intensa. Diego e Draco estavam sentados em suas poltronas habituais, com taças de hidromel nas mãos.
— "Corno manso" — repetiu Draco, rindo baixinho. — Essa foi a melhor parte, Diego. A cara dele foi impagável.
— Foi o golpe final — disse Diego, saboreando a bebida. — Ele pode até tentar perdoá-la, mas toda vez que ele olhar para ela, ele vai se lembrar do meu riso. Toda vez que ele a beijar, ele vai se perguntar se ela está pensando em mim. O relacionamento deles é um cadáver agora, Draco. Só falta enterrar.
— E o Potter? — perguntou Draco.
— O Potter perdeu a base — respondeu Diego. — Ele vai tentar consertar as coisas, mas não há como consertar algo que apodreceu por dentro. A Grifinória está ferida, e nós somos os que seguram o sal para jogar na ferida.
Diego olhou para as chamas esverdeadas da lareira, sentindo uma satisfação que ia além do plano político de Malfoy. Ele realmente gostara de Hermione, à sua maneira distorcida, mas o prazer de destruir a felicidade dos "heróis" era uma droga muito mais potente.
Hogwarts mergulhou na noite, mas para o trio que um dia foi inseparável, a escuridão parecia definitiva. O jogo das serpentes tinha sido cruel, preciso e devastador. Hermione Granger, a garota que sempre tinha todas as respostas, agora se via diante de um silêncio que livro nenhum poderia preencher. Ela era o centro de uma tragédia que ela mesma ajudara a escrever, e o eco do riso de Diego Silva seria a trilha sonora de seus pesadelos por muito tempo.
A vitória da Sonserina não fora conquistada com varinhas, mas com a fragilidade do coração humano. E naquele castelo antigo, as sombras pareciam celebrar o triunfo da traição sobre a lealdade. O plano de Malfoy e Diego fora um sucesso absoluto: eles não apenas separaram Ron e Hermione, eles arrancaram a inocência de um grupo que acreditava que o amor era invencível. E, como Diego bem disse, em Hogwarts, o riso das serpentes é sempre o último a ser ouvido.