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Homem aranha e Deadpool

O Efeito Doppler de uma Crise de Identidade

A biblioteca da Empire State University costumava ser o único lugar no mundo onde Peter Parker sentia que as leis da física eram mais importantes do que as leis da sobrevivência urbana. Mas, enquanto ele encarava Mozart Stark sentado à sua frente, Peter percebeu que até a gravidade parecia estar falhando. Mozart não estava estudando. Ele estava girando uma caneta-tinteiro de ouro entre os dedos com uma destreza que Peter só tinha visto em mercenários ou em seu próprio reflexo quando manuseava lançadores de teia.

— Você está me encarando de novo, Pete — Mozart disse, sem levantar os olhos do caderno de rascunhos, onde, em vez de equações, ele desenhava o que parecia ser o design de uma granada de fragmentação em formato de coração. — Se eu não soubesse que você é um nerd incorrigível, acharia que está tentando ler minha mente. Ou conferindo se o meu decote está baixo demais hoje.

Peter sentiu o sangue subir para as bochechas. Ele ajustou os óculos, embora não precisasse deles, e tentou se concentrar no tratado de biofísica à sua frente.

— Eu só estava... pensando no projeto de laboratório — mentiu Peter, a voz falhando ligeiramente. — E o seu decote está normal, Mozart.

— "Normal" é uma palavra tão ofensiva — Mozart finalmente levantou os olhos, aqueles olhos azuis que pareciam saber exatamente quantas vezes Peter tinha saído pela janela do quarto na noite anterior. — Eu sou um Stark. Nada em mim é normal. Especialmente o que eu sinto quando você me olha com essa cara de "eu tenho um segredo que me consome".

Peter congelou. Mozart se inclinou sobre a mesa de carvalho, diminuindo a distância entre eles. O cheiro de café caro e pólvora — um cheiro que Peter vinha notando com frequência alarmante em Mozart — preencheu seus sentidos.

— O que você quer dizer com isso? — perguntou Peter, tentando manter a voz estável.

— Quero dizer que você é péssimo em esconder as coisas, Peter Parker. Você tem esse hábito de desaparecer nos momentos mais convenientes e voltar com o cabelo bagunçado e cheirando a ozônio. Exatamente como um certo aracnídeo que eu conheço.

O coração de Peter martelou contra as costelas. Ele estava prestes a negar, a rir, a fazer qualquer coisa para desviar o assunto, quando o celular de Mozart vibrou sobre a mesa. A tela brilhou com um ícone de uma máscara vermelha e preta simplificada.

— Droga — Mozart resmungou, a expressão mudando instantaneamente de flerte para irritação profissional. — O dever chama. Ou melhor, o caos chama. Preciso ir, Pete. Tenho uma "reunião de negócios" no Hell's Kitchen.

— No Hell's Kitchen? — Peter franziu a testa. — Mozart, é perigoso lá agora. Ouvi dizer que o Rei do Crime está movendo remessas de tecnologia Stark roubada.

Mozart parou enquanto guardava as coisas na mochila. Ele olhou para Peter com um sorriso que não chegava aos olhos, um sorriso que pertencia a outra pessoa.

— Eu sei, Pete. É exatamente por isso que eu vou. Algumas coisas só podem ser resolvidas com uma abordagem... pouco acadêmica.

Mozart saiu da biblioteca com passos rápidos, deixando Peter sozinho com suas suspeitas. Peter não esperou. Ele sabia que, se Mozart Stark estava indo para o Hell's Kitchen em busca de tecnologia roubada, o Homem-Aranha precisava estar lá para garantir que o filho de Tony Stark não voltasse para casa dentro de um saco de lixo.

***

O Hell's Kitchen à noite era um labirinto de sombras e vapor. O Homem-Aranha estava agachado no topo de um reservatório de água, observando um galpão abandonado perto das docas. Suas lentes se ajustaram, focando em um grupo de homens armados descarregando caixas com o logotipo da Stark Industries riscado.

Mas ele não era o único observador.

Do outro lado do telhado, uma figura em vermelho e preto estava sentada de pernas cruzadas, limpando uma das katanas com um pano que parecia ser um pedaço de uma cortina de veludo roubada.

— Você sabe, Aranha — a voz de Deadpool ecoou pelo telhado, fazendo Peter pular quase dois metros de altura —, você realmente deveria usar um sino. Ou pelo menos um perfume mais forte. Esse cheiro de "justiça e sabão em pó" é muito fácil de rastrear.

Peter se recompôs, pousando com um suspiro pesado.

— Deadpool. O que você está fazendo aqui? Achei que você estivesse ocupado sendo irritante em outro distrito.

— Ah, o amor está no ar! — Deadpool se levantou, guardando a espada com um floreio dramático. — Eu estou aqui pelo mesmo motivo que você, <i>Babyboy</i>. Tecnologia Stark. O papai Tony fica muito triste quando seus brinquedos caem em mãos erradas. E quando o Tony fica triste, o mundo fica chato.

— Você trabalha para o Stark agora? — Peter perguntou, desconfiado.

— Digamos que eu tenho um interesse pessoal na linhagem Stark — Deadpool deu um passo à frente, inclinando a cabeça de um jeito que lembrou a Peter, por um segundo aterrorizante, o jeito que Mozart inclinava a cabeça na faculdade. — E você? Veio salvar o dia ou apenas conferir se o meu traje novo realça o meu bumbum?

— Eu vim impedir que essa tecnologia chegue às ruas — Peter disse, tentando ignorar a provocação. — E você vai ficar fora do meu caminho.

— Ah, Aranha... você é tão fofo quando tenta ser autoritário. Dá vontade de te colocar em um pote e te alimentar com moscas.

Antes que Peter pudesse responder, o som de uma explosão veio do galpão abaixo. Homens começaram a gritar. Deadpool não esperou por um plano. Ele simplesmente saltou do telhado, gritando algo sobre "o café da manhã ser a refeição mais importante do dia", enquanto sacava duas pistolas e começava a disparar contra os sistemas de segurança.

— Droga, Deadpool! — Peter gritou, saltando logo atrás.

A batalha lá dentro foi um caos coreografado. O Homem-Aranha era um borrão azul e vermelho, desarmando capangas com teias e chutes precisos, enquanto Deadpool era um redemoinho de violência e comentários absurdos.

— Ei, Aranha! — gritou Deadpool, enquanto chutava o rosto de um mercenário. — Você sabia que o Mozart Stark acha que você é um herói medíocre? Ele me disse que prefere o Thor porque o martelo dele é maior!

Peter quase errou um soco.

— O quê? O Mozart nunca diria isso! Ele... ele é um fã do Homem-Aranha!

— Ah, é? — Deadpool riu, cortando os cabos de uma das caixas Stark. — Talvez ele só diga isso para te agradar na faculdade, Parker.

Peter parou no meio do ar, pendurado por um fio de teia.

— Como você me chamou?

Deadpool congelou. As lentes brancas de sua máscara se arregalaram.

— Eu disse... <i>Barker</i>! Bob Barker! O apresentador! "O preço é justo", Aranha! Foco na missão!

Mas a semente da dúvida estava plantada. Peter lutou o resto da batalha em silêncio, sua mente trabalhando a mil por hora. As coincidências eram muitas. O cheiro de pólvora. O sarcasmo. O conhecimento íntimo da vida de Mozart.

Quando o último mercenário foi nocauteado e a tecnologia Stark foi contida, Deadpool se preparou para sair.

— Foi um prazer, <i>Spidey</i>. A gente se vê por aí. Talvez em um terraço romântico ou em um laboratório de biofísica, quem sabe?

— Espera! — Peter disparou uma teia, prendendo o pé de Deadpool no chão. — Quem é você, de verdade?

Deadpool olhou para a teia e depois para o Homem-Aranha. Ele soltou um suspiro longo, um som que não tinha nada de caótico.

— Você realmente quer saber, Peter? — A voz de Deadpool mudou. Não era mais a voz estridente e maníaca. Era a voz de Mozart Stark. — Porque, uma vez que a máscara cai, não dá para colocar de volta. E eu gosto muito do jeito que você me olha na faculdade quando acha que eu sou apenas o filho rico e problemático do Homem de Ferro.

Peter sentiu o chão sumir. Ele soltou a teia.

— Mozart?

Deadpool levou as mãos à máscara e a puxou para cima. O rosto de Mozart Stark, suado e com um corte na bochecha, apareceu sob a luz fraca das docas. Ele deu aquele sorriso torto, o mesmo que tinha dado na biblioteca.

— Surpresa, <i>Mozie</i> na área — disse Mozart. — E antes que você pergunte, sim, eu sei que você é o Peter. Seu cheiro de sabão em pó te entregou no primeiro dia, <i>Babyboy</i>.

Peter arrancou sua própria máscara, a respiração saindo em jatos curtos.

— Você sabia? O tempo todo? No terraço... o beijo...

— Especialmente o beijo — Mozart deu um passo à frente, agora sem a persona de Deadpool, apenas Mozart, o garoto que Peter estava começando a amar. — Eu queria ver quanto tempo você levaria para ligar os pontos. Você é brilhante, Peter, mas é emocionalmente cego quando se trata de pessoas que querem te beijar.

Peter estava atordoado. A rivalidade com Deadpool, a amizade com Mozart, o flerte com o Homem-Aranha... tudo colidiu em um único ponto.

— Por que não me contou? — perguntou Peter.

— Porque eu queria que você gostasse do Mozart primeiro — Mozart admitiu, a voz suave. — O Deadpool é... muito para qualquer um lidar. Eu queria saber se o Peter Parker conseguiria amar o Mozart Stark antes de ter que lidar com o mercenário tagarela.

Peter olhou para o traje vermelho e preto, depois para o rosto de Mozart. Ele pensou em todas as vezes que Deadpool o irritou e em todas as vezes que Mozart o fez sorrir. Era a mesma pessoa. O mesmo caos. A mesma inteligência.

— Eu te odeio — disse Peter, embora estivesse diminuindo a distância entre eles.

— Eu sei — Mozart sorriu, puxando Peter pela nuca. — Mas você também me ama. E o Homem-Aranha está louco para beijar o Deadpool agora mesmo.

— O Homem-Aranha acha o Deadpool insuportável — Peter murmurou, a poucos centímetros dos lábios de Mozart.

— Mas o Peter Parker adora o Mozart Stark. E, no final das contas, somos só nós dois aqui.

O beijo que se seguiu não foi como o do terraço. Não havia o mistério da máscara ou a hesitação da identidade secreta. Foi real, intenso e carregado com a verdade de quem eles eram. No meio de um galpão sujo no Hell's Kitchen, cercados por tecnologia roubada e restos de uma batalha, o Homem-Aranha e o Deadpool finalmente encontraram um terreno comum.

Quando se afastaram, Mozart limpou um pouco de sangue do lábio de Peter.

— Então... isso significa que vamos ter que contar para o meu pai? — perguntou Mozart, com uma careta.

Peter empalideceu instantaneamente.

— O Sr. Stark? Ele vai me matar. Ou me banir para a Lua.

— Provavelmente os dois — Mozart riu, passando o braço pelos ombros de Peter. — Mas não se preocupe. Eu conheço o sistema de segurança da Torre melhor do que ele. Podemos manter isso em segredo por mais um tempo. Apenas nós dois. E o Ned, porque ele provavelmente já descobriu tudo sozinho.

— O Ned sabe? — Peter exclamou.

— O Ned sempre sabe, Peter. Ele é o "cara na cadeira", lembra?

Eles caminharam em direção à saída, dois heróis, dois estudantes e um segredo compartilhado que mudaria tudo. A teia estava completa, e embora o futuro prometesse ser caótico, Peter Parker finalmente sentiu que, pela primeira vez, não precisava carregar o mundo sozinho. Ele tinha um Stark ao seu lado. E, por mais irritante que isso fosse, era exatamente o que ele precisava.

— Ei, Pete? — Mozart chamou, enquanto eles se preparavam para subir nos telhados.

— Sim?

— Você ainda vai me ajudar com aquele trabalho de termodinâmica amanhã?

Peter colocou a máscara, as lentes brancas brilhando na escuridão.

— Só se você prometer não usar explosivos na sala de aula.

— Sem promessas, <i>Babyboy</i>. Sem promessas.

E, com um salto e um disparo de teia, eles desapareceram na noite de Nova York, deixando para trás as máscaras e encontrando, finalmente, um ao outro.

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