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I am here

O Gosto Amargo da Verdade e o Doce do Amparo

O silêncio na sala de Ivan era tão denso que poderia ser cortado com uma faca. A tensão não era mais apenas um subtexto; ela havia se tornado o oxigênio que todos respiravam. Acorn permanecia em pé, com os punhos cerrados, enquanto Ivan o encarava com uma indiferença gélida, e Mizi mantinha sua mão firme sobre a de Sua, um âncora em meio à tempestade.

— O jogo ainda não acabou — repetiu Ivan, sua voz saindo como um trovão baixo. — Senta, Acorn. A menos que você esteja com medo de que a verdade não seja tão bonita quanto a mentira que você conta para si mesmo.

Acorn bufou, uma risada nervosa escapando de seus lábios. Ele olhou ao redor, buscando apoio nos rostos de Hyuna, Luka e Till, mas encontrou apenas expressões de dúvida e desconforto. Ele se sentou, mas seu corpo estava tenso, pronto para saltar a qualquer momento.

— Tudo bem — rosnou Acorn. — Vamos continuar essa palhaçada. Gira a garrafa.

Ivan não hesitou. Ele deu um impulso vigoroso no vidro. A garrafa girou freneticamente, o gargalo refletindo as luzes neon da sala, até que, com um ruído seco, parou.

A ponta apontava diretamente para Sua.

O ar pareceu abandonar os pulmões da garota. Ela empalideceu ainda mais, se é que isso era possível. Acorn imediatamente se inclinou para frente, tentando retomar o controle da narrativa.

— Ela escolhe consequência — disse ele, a voz autoritária. — Ela está cansada demais para pensar em respostas.

— Eu não perguntei para você, Acorn — cortou Mizi, sua voz carregada de um sarcasmo cortante. Ela virou-se para Sua, suavizando levemente a expressão. — O que vai ser, Sua? Verdade ou consequência?

Sua olhou para o colo, onde os dedos de Mizi ainda tocavam os seus. Aquele contato era quente, real e, pela primeira vez em meses, parecia seguro. Ela sentiu o olhar de Acorn queimando sua pele, uma promessa silenciosa de que haveria um preço a pagar mais tarde. Mas então, ela olhou para Mizi. Os olhos dourados da novata não pediam que ela fosse forte; eles apenas diziam que ela não estaria sozinha se decidisse ser.

— Verdade — sussurrou Sua.

Um murmúrio surpreso percorreu o grupo. Acorn soltou um suspiro pesado, claramente irritado.

— Ótimo — disse Ivan, inclinando-se para frente. Ele trocou um olhar rápido com Mizi, um entendimento silencioso passando entre eles. — Minha pergunta é simples, Sua. Sem rodeios.

Ele fez uma pausa deliberada, garantindo que cada palavra tivesse o peso necessário.

— É verdade que você quer terminar com o Acorn agora mesmo, e que só não fez isso ainda por medo do que ele poderia fazer?

O impacto da pergunta foi imediato. Hyuna levou a mão à boca, soltando um arquejo abafado. Luka ajustou os óculos, a expressão subitamente grave. Até Till, que parecia alheio a tudo, inclinou-se para frente, a música em seus fones esquecida.

— Que porra de pergunta é essa?! — Acorn explodiu, levantando-se de um salto e chutando a mesa de centro. — Você perdeu o juízo, Ivan? Ela me ama! A gente está junto há quase um ano! Sua, diz para esse idiota que ele está louco!

Sua permaneceu em silêncio. Seus ombros tremiam. Ela não olhava para Acorn, nem para Ivan. Ela olhava para o pirulito de morango que Mizi lhe dera mais cedo, que agora repousava sobre a mesa, a embalagem vermelha brilhando sob a luz.

— Sua! — gritou Acorn, avançando um passo na direção dela. — Responde!

Mizi se levantou rapidamente, colocando-se entre os dois. Ela era menor que Acorn, mas sua presença parecia preencher a sala, uma barreira intransponível de cabelo rosa e atitude ácida.

— Deixa ela falar, Acorn — disse Mizi, a voz baixa e perigosa. — A pergunta foi para ela. O microfone é dela.

Sua levantou a cabeça. Lágrimas começaram a rolar por seu rosto, traçando caminhos brilhantes em sua pele pálida. Ela olhou para Acorn, e pela primeira vez, o medo em seus olhos foi substituído por uma exaustão absoluta. A exaustão de quem não aguentava mais carregar o peso de uma corrente disfarçada de abraço.

— Sim — disse Sua, a voz frágil, mas audível.

O mundo pareceu parar.

— O quê? — balbuciou Acorn, o rosto ficando vermelho, depois roxo de fúria. — O que você disse?

— Sim — repetiu Sua, ganhando um pouco mais de volume. — É verdade. Eu quero terminar. Eu quero que você me solte. Eu quero... eu quero respirar de novo.

O silêncio que se seguiu foi quebrado pelo som de Acorn perdendo completamente o controle. Ele soltou um grito gutural de raiva e avançou para agarrar o braço de Sua, mas Till e Ivan foram mais rápidos. Os dois se levantaram como se tivessem sido acionados por um gatilho comum. Till segurou o braço de Acorn, enquanto Ivan o empurrou para longe do círculo.

— Sai da minha frente! — berrou Acorn, tentando se soltar. — Você não sabe o que está fazendo, Sua! Você não é nada sem mim! Ninguém vai te querer! Você é estranha, você é deprimida, eu sou o único que te atura!

— Já chega! — Luka interveio, sua voz formal agora tingida de uma autoridade fria que ninguém costumava ver. — Acorn, você está passando de todos os limites. Esta casa é do Ivan, e você não é mais bem-vindo aqui.

— Vocês vão se arrepender disso! — Acorn gritava enquanto Ivan e Till o conduziam à força em direção à porta da frente. — Todos vocês! E você, Sua... você vai voltar rastejando! Você vai ver o que acontece quando eu não estiver por perto para te proteger!

O som da porta da frente sendo batida com violência ecoou pela casa, seguido pelo silêncio súbito da rua. Ivan e Till voltaram para a sala momentos depois, ambos parecendo agitados. Ivan passou a mão pelo cabelo social, agora bagunçado, enquanto Till apenas bufou, voltando a se sentar com uma expressão de puro asco.

No centro da sala, a realidade da situação desabou sobre Sua.

Ela desabou no sofá, cobrindo o rosto com as mãos, e começou a chorar. Não era um choro contido ou silencioso; eram soluços profundos, convulsivos, o som de meses de repressão, medo e tristeza saindo de uma só vez.

Hyuna deu um passo à frente, o rosto cheio de culpa.

— Meu Deus... Sua... a gente não fazia ideia — murmurou Hyuna, as lágrimas também surgindo em seus olhos azuis. — Como a gente não viu? Ele estava na nossa frente o tempo todo e a gente...

— Ele era bom nisso — disse Luka, sentando-se ao lado de Hyuna, o olhar perdido. — Ele nos manipulou tanto quanto a manipulava. Ele nos fez acreditar que o comportamento dele era apenas "cuidado excessivo".

Antes que qualquer um deles pudesse decidir como abordar Sua, Mizi já estava lá.

Sem dizer uma palavra, Mizi sentou-se ao lado de Sua e a puxou para um abraço. Não foi um abraço hesitante ou formal. Mizi envolveu a garota menor com todo o seu corpo, permitindo que Sua escondesse o rosto em seu pescoço. Uma das mãos de Mizi acariciava os cabelos pretos e curtos de Sua, enquanto a outra desenhava círculos lentos em suas costas.

— Está tudo bem — sussurrou Mizi, a voz agora desprovida de qualquer sarcasmo, soando doce e protetora. — Ele foi embora. Ele não vai mais te tocar. Eu não vou deixar.

O grupo observava a cena em um silêncio reverente. Ver Mizi, a novata sarcástica, descolada e aparentemente indiferente, demonstrar tamanha vulnerabilidade e carinho foi um choque para todos. Mas o choque maior foi ver a reação de Sua. A garota, que sempre parecia tensa e arredia ao toque, agarrou-se à camisa social de Mizi como se sua vida dependesse disso, enterrando-se no calor da outra.

Ivan trocou um olhar com Hyuna. A garota morena tinha um pequeno sorriso triste nos lábios, enquanto limpava uma lágrima.

— Cara — sussurrou Ivan, pegando uma bala de goma quase mecanicamente, mas sem comê-la. — Elas... elas combinam, não combinam?

— Perfeitamente — respondeu Hyuna no mesmo tom. — Parece que a Mizi era a peça que faltava para a Sua conseguir se encontrar.

Till, encostado na parede, observava as duas com um olhar suavizado. Ele raramente demonstrava aprovação, mas o modo como Mizi protegia Sua fez com que ele sentisse que a novata tinha ganhado seu lugar definitivo no grupo.

Mizi continuou o carinho, ignorando o resto do mundo. Ela afastou uma mecha de cabelo do rosto de Sua e inclinou-se, encostando sua testa na dela.

— Você foi muito corajosa hoje, Sua — disse Mizi, olhando fundo nos olhos escuros e marejados da garota. — De verdade.

Sua fungou, tentando recuperar o fôlego. Ela olhou para Mizi, e pela primeira vez, o brilho de admiração que sentira no pátio da escola se transformou em algo muito mais profundo. Era uma conexão que transcendia as palavras.

— Por que você me ajudou? — perguntou Sua, a voz rouca pelo choro. — Você nem me conhece direito.

Mizi deu um sorriso de canto, aquele sorriso travesso que Sua tanto admirava, mas agora com uma pitada de ternura que era exclusiva para ela.

— Digamos que eu tenho um faro apurado para coisas bonitas que estão sendo maltratadas — respondeu Mizi, limpando uma lágrima da bochecha de Sua com o polegar. — E você é a coisa mais bonita que eu vi desde que cheguei nessa cidade cinzenta.

Sua sentiu o rosto esquentar, um rubor suave subindo por suas bochechas pálidas. Ela soltou uma risadinha fraca, a primeira em muito tempo.

— Você é muito convencida, Mizi.

— Sou — admitiu a garota de cabelo rosa, piscando para ela. — Mas eu cumpro o que prometo. E eu prometo que, a partir de amanhã, aquela escola vai ser bem diferente para você.

Hyuna, incapaz de se conter por mais tempo, pulou no sofá ao lado delas, abraçando as duas ao mesmo tempo.

— Grupo unido! — exclamou Hyuna. — Ninguém toca na nossa Sua. E Mizi, você oficialmente é a nossa heroína. Mas sério, se você fizer ela chorar de novo, eu mesma te expulso da escola.

— Não se preocupe, Hyuna — disse Mizi, apertando o abraço em Sua, que agora sorria timidamente para os amigos. — Eu pretendo ser o motivo dos sorrisos dela, não das lágrimas.

Luka e Ivan se aproximaram, e até Till se juntou ao círculo informal que se formou ao redor das duas. A atmosfera na casa de Ivan tinha mudado completamente. O peso opressor de Acorn tinha sido dissipado, substituído por um sentimento de renovação e, acima de tudo, de esperança.

Enquanto o grupo voltava a conversar, agora de forma mais leve, Mizi e Sua permaneceram próximas. Mizi tirou um pirulito do bolso — desta vez de cereja, o favorito dela — e ofereceu para Sua.

— Divide comigo? — perguntou Mizi.

Sua aceitou, sentindo o gosto doce e vibrante do açúcar. Ela olhou para os amigos, para a sala bagunçada e, finalmente, para a garota de cabelos rosa e pontas azuis ao seu lado. Pela primeira vez em anos, Sua não sentia que o futuro era um túnel escuro. Com Mizi, o futuro parecia uma explosão de cores, música alta e a liberdade de ser exatamente quem ela queria ser.

A noite terminou com risadas, promessas de proteção e a certeza de que, embora a batalha contra o trauma de Acorn estivesse apenas começando, Sua não teria que lutar sozinha. Ela tinha Mizi. E Mizi tinha a determinação de transformar o mundo de Sua em algo tão vibrante quanto seu próprio cabelo.

Naquela noite, a novata não era apenas a garota do pirulito. Ela era o começo de algo novo. E para Sua, era o sabor mais doce que ela já havia provado.