I am here
Sombras, Confissões e o Peso de um Soco
A casa de Ivan, antes palco de um confronto que drenou as energias de todos, agora exalava o silêncio exausto da madrugada. O ar estava impregnado com o cheiro residual de doces e a vibração elétrica que fica após uma tempestade emocional. Depois de muita discussão sobre logística e o fato de que ninguém queria deixar Sua sozinha naquela noite, a divisão dos lugares foi decidida com a eficiência prática de Luka.
Till já estava apagado no sofá da sala, um braço pendurado para fora e um ronco rítmico que provava que nem mesmo o drama alheio era páreo para o seu cansaço crônico. Luka e Hyuna haviam subido para o quarto de hóspedes; ele, o cavalheiro pragmático, acomodado em um colchão no chão, enquanto ela ocupava a cama, ainda processando os eventos em silêncio. Ivan, o anfitrião viciado em açúcar, retirou-se para seu próprio quarto, deixando para trás uma trilha de embalagens de bala e a promessa de que "quem acordar primeiro faz o café".
Na sala, o brilho azulado da lua filtrava-se pelas cortinas, iluminando o colchão de casal que haviam arrastado para o chão. Mizi e Sua estavam deitadas lado a lado, o teto da sala de Ivan parecendo estranhamente vasto na escuridão.
— Você está acordada? — A voz de Sua era apenas um fio, um sussurro que quase se perdia no som do ventilador de teto.
— Sim — respondeu Mizi, virando o rosto para o lado. Seus olhos dourados brilhavam suavemente no escuro. — Pensando em como o Till consegue roncar no ritmo de uma música do Nirvana.
Sua soltou uma risadinha fraca, a primeira que parecia vir do fundo do peito, sem o peso da angústia.
— Ele é consistente, pelo menos.
Houve uma pausa longa. O silêncio entre elas não era desconfortável, mas estava carregado de coisas não ditas. Sua sentia o coração bater contra o peito, uma mistura de alívio por estar livre e um medo residual que parecia estar impregnado em seus ossos.
— Mizi... — Sua hesitou, puxando o cobertor até o queixo. — Obrigada. Por hoje. Por tudo. Eu não acho que teria conseguido dizer aquelas coisas se você não estivesse lá.
Mizi não respondeu de imediato. Em vez disso, ela se moveu. Com uma naturalidade que desarmou qualquer defesa de Sua, Mizi virou-se de lado e passou o braço pela cintura da garota menor, puxando-a para perto. Ela se encaixou atrás de Sua, o calor de seu corpo agindo como um cobertor térmico contra os calafrios da outra.
— Eu disse que não ia deixar ele te tocar de novo — murmurou Mizi, sua voz vibrando contra as costas de Sua. — E eu também não vou deixar você se sentir sozinha. Agora dorme, Sua. O mundo vai estar diferente amanhã, eu prometo.
Sua sentiu os músculos relaxarem um por um. O cheiro de Mizi — uma mistura inusitada de cereja artificial e um perfume suave de flores — era a coisa mais reconfortante que ela já experimentara. Pela primeira vez em meses, a sensação de ser segurada não parecia uma prisão. Parecia um porto seguro. Ela fechou os olhos e, embalada pelo abraço firme e pelo ronco distante de Till, finalmente mergulhou em um sono sem pesadelos.
A manhã chegou com a luz impiedosa do sol batendo no rosto de Till, que acordou resmungando palavrões. Ivan apareceu na sala com o cabelo desgrenhado, segurando uma caneca de café, e parou diante do colchão no chão. Ele deu um sorriso de canto ao ver a cena: Mizi ainda abraçava Sua possessivamente por trás, as duas parecendo perfeitamente em paz.
— Alguém tira uma foto, o Luka não vai acreditar que a Mizi tem um lado fofo — brincou Ivan, embora falasse baixo para não acordá-las.
Mas Mizi já estava despertando. Ela abriu um olho, viu o grupo começando a se movimentar e, com um bocejo preguiçoso, soltou Sua. Ela precisava ir para casa se arrumar; o uniforme amassado e o hálito de sono não combinavam com a imagem de "novata inabalável" que ela mantinha.
— Vejo vocês na escola — disse Mizi, dando um tapinha leve no ombro de Sua, que acordava piscando confusa. — Não se atrase, Sua. Quero ver você usando aquele pirulito que eu te dei.
***
O ambiente escolar, no entanto, raramente respeita epifanias noturnas. Quando o grupo se reuniu no pátio durante o intervalo, a tensão era palpável. Acorn estava lá, encostado em uma pilastra, cercado por alguns de seus seguidores habituais. Ele parecia péssimo — olheiras profundas e uma expressão de raiva contida que fazia os outros alunos manterem distância.
Sua caminhava entre Hyuna e Luka, tentando manter a cabeça erguida, mas seus dedos brincavam nervosamente com a alça da mochila. Quando seus olhos encontraram os de Acorn, ela sentiu um baque no estômago. Ele começou a caminhar na direção deles, a postura predatória voltando com força total.
— Sua, a gente precisa conversar — disse Acorn, a voz forçada para parecer calma, mas com um tremor de fúria subjacente. — Agora.
O grupo travou. Till deu um passo à frente, fechando os punhos, e Ivan jogou o pirulito fora, pronto para intervir. Luka já estava abrindo a boca para citar alguma regra de conduta escolar, mas antes que qualquer um deles pudesse agir, uma presença nova cortou o caminho.
Mizi apareceu vindo do corredor lateral. Mas ela não estava sozinha.
Ao lado dela caminhava um garoto alto, de ombros largos, vestindo a jaqueta do time de basquete. Era Dewey, um dos pivôs do time. Ao contrário de Minhyuk, Dewey era conhecido por ser extremamente reservado, com uma expressão fechada que muitos confundiam com arrogância, mas que os amigos sabiam ser apenas timidez e uma boa dose de "gente boa". Ele era, sem dúvida, muito mais intimidador que Acorn, mas havia uma doçura em seus olhos que ele raramente mostrava.
Mizi vinha conversando animadamente com ele, rindo de algo, com um pirulito novo na boca. Ao ver Acorn bloqueando o caminho de Sua, ela não diminuiu o passo. Pelo contrário, ela caminhou em linha reta, como se ele fosse invisível.
— Com licença, coisa chata — disse Mizi, esbarrando o ombro com força total contra o de Acorn ao passar por ele.
O impacto foi proposital e forte o suficiente para fazer Acorn cambalear para o lado.
— Qual é o seu problema, garota?! — gritou Acorn, perdendo a pouca paciência que lhe restava. Ele estendeu a mão para agarrar o braço de Mizi, o rosto distorcido. — Você acha que pode chegar aqui e...
Ele não terminou a frase.
Antes que a mão de Acorn pudesse sequer roçar o uniforme de Mizi, a mão de Dewey desceu como uma garra de ferro sobre o pulso dele. O garoto do basquete não disse uma palavra, mas a pressão que ele aplicou fez Acorn soltar um gemido de dor.
— Ela disse com licença — disse Dewey, a voz baixa, grave e absolutamente desprovida de paciência.
— Me solta! Você não tem nada a ver com isso! — gritou Acorn, tentando desferir um soco desajeitado com a outra mão.
Foi o erro fatal. Dewey, acostumado a contatos físicos intensos na quadra, desviou com facilidade e, em um movimento rápido e fluido, desferiu um soco direto no estômago de Acorn, seguido por um empurrão que o mandou direto para o chão, onde ele bateu as costas contra um banco de madeira.
A escola inteira pareceu parar. O círculo de alunos que assistia a tudo soltou um "oh" coletivo. Acorn estava no chão, arquejando, a máscara de perfeição finalmente estilhaçada diante de todos.
Dewey deu um passo à frente, pronto para continuar, sua expressão de "cara fechada" agora transformada em algo verdadeiramente assustador.
— Chega, Dewey — disse Mizi, colocando a mão no peito do garoto maior. O toque dela o fez parar instantaneamente. — Ele não vale o esforço do seu punho.
Mizi olhou para Acorn no chão. Não havia raiva em seus olhos dourados, apenas uma piedade fria que era muito mais humilhante. Ela tirou o pirulito da própria boca — um de uva, roxo vibrante — e se agachou ao lado dele.
— Você está muito amargo, Acorn — disse ela, enfiando o pirulito na boca dele de forma bruta enquanto ele ainda tentava recuperar o ar. — Toma. Um pouco de açúcar para ver se você aprende a fechar essa boca.
Ela se levantou, limpando as mãos na saia preta. O grupo de amigos estava estático, olhando da cena no chão para Mizi com uma mistura de choque e admiração. Sua tinha as mãos sobre a boca, os olhos arregalados, mas não havia tristeza neles. Havia um brilho de liberdade.
— Vem, grandão — disse Mizi, pegando Dewey pelo braço. O garoto, que segundos antes parecia um monstro pronto para a guerra, agora apenas a seguia com um aceno de cabeça dócil, embora ainda lançasse um olhar de aviso para os amigos de Acorn que tentavam se aproximar. — Vamos levar esse seu punho para a enfermaria antes que o Luka comece a dar um sermão sobre violência escolar.
Mizi passou por Sua e deu uma piscadinha.
— A gente se vê no almoço, Sua. Tenta não deixar o pirulito cair.
Enquanto Mizi puxava Dewey em direção ao bloco da enfermaria, o pátio explodiu em conversas. Acorn foi deixado para trás, tossindo e tentando tirar o pirulito da boca, enquanto o mito de sua invencibilidade social se dissolvia no ar.
— Cara... — murmurou Ivan, quebrando o silêncio do grupo. — Eu oficialmente tenho medo da Mizi. E eu acho que estou apaixonado pela amizade dela.
— Ela é... incrível — sussurrou Sua, olhando para a figura de Mizi desaparecendo no corredor.
Till soltou uma risada rara, uma gargalhada curta que ecoou pelo pátio.
— O soco foi bom — admitiu ele, colocando os fones de volta. — Mas o pirulito foi lendário.
Luka suspirou, ajeitando os óculos, embora houvesse um sorriso de satisfação escondido no canto da boca.
— Tecnicamente, isso vai gerar uma suspensão para o Dewey e possivelmente para a Mizi — pontuou ele. — Mas, por uma vez, eu acho que a burocracia pode esperar. Vamos, Sua. O pátio ficou muito mais limpo agora.
Sua caminhou com os amigos, sentindo o peso que carregara por um ano finalmente se dissipar. Ela olhou para o corredor por onde Mizi tinha ido e sentiu uma onda de calor no peito. A novata de cabelos rosa não tinha apenas chegado para causar caos; ela tinha chegado para reescrever a história de Sua. E, pela primeira vez, Sua estava ansiosa pelo próximo capítulo.