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I am here

Cereja, Papel de Bala e o Banheiro Feminino

A semana na escola tinha passado num borrão de fofocas, olhares tortos e uma sensação estranha de "paz armada". Acorn tinha sumido do mapa. Quer dizer, ele ainda estava lá, batendo ponto nas aulas, mas parecia uma sombra do que era antes. O soco do Dewey — que rendeu ao grandão três dias de suspensão e uma fama de lendário — tinha servido como um repelente de otário. Toda vez que o Acorn tentava sequer olhar na direção da Sua, o Ivan aparecia do nada mastigando algum doce e encarando ele com aquele olhar de "tenta a sorte, palhaço", ou o Till simplesmente aumentava o volume do fone até o talo e ficava na frente dele como uma parede cinza.

Mizi, por outro lado, continuava sendo a Mizi. Ela trocava mensagens com o Dewey o tempo todo, rindo de memes internos e ignorando solenemente os professores. Mas o foco dela, mesmo que ela tentasse disfarçar com aquele jeito sarcástico, era a Sua. Elas andavam grudadas. No intervalo, na saída, trocando pirulitos e fones de ouvido. O grupo todo já tinha dado o veredito: era óbvio que ia rolar. Só que, por algum motivo, a Mizi parecia estar pisando em ovos.

Naquela tarde de quinta-feira, o cenário era a biblioteca. O ar condicionado estava no máximo, o cheiro de livro velho era forte e o grupo estava espalhado numa mesa redonda tentando — ênfase no *tentando* — terminar um trabalho de sociologia que o Luka insistia em levar a sério.

— Gente, se a gente não entregar isso amanhã, a média do grupo cai pra sete. Sete! — Luka sussurrou, ajeitando os óculos com uma urgência quase cômica.

— Relaxa, engomadinho. Sete ainda é nota azul. O azul é a cor do céu, da esperança e das pontas do meu cabelo — Mizi respondeu, girando uma caneta entre os dedos e olhando para a Sua, que estava concentrada sublinhando um texto.

— Sete é nota de quem não quer nada com a vida — resmungou Till, que estava com a cabeça deitada sobre um livro de filosofia, claramente usando o material como travesseiro. — E na moral, dá pra vocês duas pararem com esse clima? Tá dando diabetes em quem olha.

Mizi arqueou uma sobrancelha, soltando um sorriso debochado.

— Do que você tá falando, ovelha cinza?

— Ah, qual é, Mizi! — Hyuna se inclinou na mesa, os olhos brilhando de fofoca. — Vocês duas estão num "não me toque, mas me olhe" há dias. A Sua tá quase derretendo toda vez que você oferece um pirulito pra ela e você fica aí, fazendo a sonsa. Por que vocês não se pegam logo e acabam com o sofrimento da galera?

Sua sentiu o rosto esquentar instantaneamente. Ela baixou a cabeça, tentando se esconder atrás do livro de sociologia, mas dava pra ver as pontas das orelhas dela ficando vermelhas.

— Não é assim, Hyuna... — Sua murmurou, a voz quase inaudível.

Mizi, que geralmente tinha uma resposta na ponta da língua para tudo, ficou em silêncio por um segundo. Ela olhou para a Sua, depois para o grupo, e soltou um suspiro pesado, jogando a caneta na mesa.

— Não é que eu esteja fazendo a sonsa — disse Mizi, e o tom dela mudou. Não era mais a garota sarcástica, era algo mais real, mais cru. — É que... eu não quero estragar as coisas, sabe? A Sua passou por muita merda com aquele imbecil do Acorn. Eu não sou a pessoa mais delicada do mundo. Eu falo merda, eu me meto em briga, eu sou meio sem noção às vezes.

— E o que isso tem a ver? — Ivan perguntou, abrindo um pacote de balas de goma debaixo da mesa, fazendo o mínimo de barulho possível.

— Tem a ver que eu não quero machucar ela — Mizi continuou, olhando fixamente para uma mancha na mesa de madeira. — Não que eu vá fazer de propósito, óbvio que não. Mas vai que eu faço sem querer? Vai que eu sou "demais" pra ela agora? Eu prefiro ficar na minha do que ser mais um problema na vida da Sua.

O silêncio que se seguiu foi constrangedor. O Till levantou a cabeça do livro, olhando para a Mizi como se ela tivesse acabado de falar em grego. O Luka parou de escrever. A Sua, no entanto, fechou o livro com um estalo seco. Ela não parecia mais envergonhada. Ela parecia... irritada.

— Mizi, olha pra mim — disse Sua, a voz firme, pegando todo mundo de surpresa.

Mizi levantou o olhar, encontrando os olhos escuros da Sua, que agora brilhavam com uma determinação nova.

— Você acha que eu sou de vidro? — Sua perguntou, sem desviar o olhar. — Você acha que depois de tudo o que eu passei, eu não sei o que eu quero? Eu não sou uma coitadinha que precisa de proteção constante. E eu não quero que você "fique na sua".

Mizi abriu a boca para responder, mas a Sua se levantou da cadeira, pegou o pulso da garota de cabelo rosa e a puxou com uma força que ninguém sabia que ela tinha.

— O trabalho pode esperar, Luka — disse Sua, arrastando uma Mizi completamente atônita para fora da biblioteca.

— Eita porra... — Ivan murmurou, com uma bala de goma parada na boca. — A baixinha acordou pro crime.

— Dez reais que elas não voltam pros próximos vinte minutos — Till comentou, voltando a fechar os olhos.

Sua arrastou Mizi pelo corredor vazio do bloco C. Ela não parou até chegar à porta do banheiro feminino. Entrou, verificou se as cabines estavam vazias e puxou Mizi para dentro da última delas, trancando a porta com um clique sonoro. O espaço era apertado, o cheiro de desinfetante de limão era forte, e a respiração das duas estava acelerada.

Mizi estava encostada contra a porta da cabine, olhando para a Sua com uma mistura de choque e admiração.

— Caralho, Sua... de onde veio isso? — Mizi perguntou, soltando uma risadinha nervosa.

— Veio de eu estar cansada de ouvir você falar como se eu fosse quebrar — respondeu Sua, dando um passo à frente, diminuindo o pouco espaço que restava entre elas. — Você não é um problema, Mizi. Você foi a única coisa boa que aconteceu comigo em muito tempo. Então para de ser idiota e assume que você quer isso tanto quanto eu.

Mizi sentiu o coração martelar contra as costelas. Ela olhou para os lábios da Sua, depois para os olhos dela. O sarcasmo tinha sumido totalmente. Ela levou as mãos ao rosto da garota pálida, os polegares acariciando as bochechas dela com uma delicadeza que ela jurava que não possuía.

— Eu quero — confessou Mizi, a voz rouca. — Eu quero pra caralho.

Mizi se inclinou e finalmente acabou com a distância. O beijo não foi nada parecido com o que a Sua tinha vivido antes. Não era algo forçado, nem algo que ela sentia que precisava "suportar". Era quente, era suave e tinha gosto de cereja — o gosto clássico da Mizi. A mão da Sua subiu para o pescoço da Mizi, puxando-a para mais perto, enquanto a Mizi a segurava pela cintura, tratando-a como se ela fosse o tesouro mais precioso daquela escola inteira.

— Você é muito lerda, sabia? — Sua murmurou entre o beijo, com um sorriso pequeno surgindo nos lábios.

— Cala a boca — Mizi riu, dando um selinho rápido nela. — Eu tava tentando ser respeitosa, tá? É difícil pra mim.

— Tenta ser menos respeitosa e mais presente então — rebateu Sua, abraçando o pescoço da Mizi e escondendo o rosto ali, sentindo o perfume dela.

Mizi a apertou no abraço, beijando o topo da cabeça da garota.

— Tá bom, tá bom. Você manda, chefinha.

Elas ficaram ali por alguns minutos, apenas aproveitando o silêncio e o fato de que, pela primeira vez, tudo parecia estar no lugar certo. Quando finalmente decidiram sair, Mizi ajeitou a gravata frouxa e a Sua passou a mão no cabelo, tentando disfarçar a cara de quem tinha acabado de passar por um furacão de sentimentos.

Quando voltaram para a biblioteca, o grupo ainda estava lá. O Ivan estava terminando o pacote de balas, o Till continuava dormindo e o Luka estava revisando o parágrafo final do trabalho.

— Voltaram — anunciou Luka, sem levantar os olhos do papel. — Faltam dez minutos para o sinal. Espero que a "discussão" tenha sido produtiva.

Mizi se jogou na cadeira ao lado da Sua com um sorriso radiante, aquele sorriso de quem tinha ganhado na loteria.

— Foi maravilhosa, Luka. Nota dez. Recomendo — disse Mizi, jogando um braço por cima do ombro da Sua.

Para a surpresa de todos, inclusive da Mizi, a Sua não tentou se afastar. Pelo contrário. Ela se inclinou para o lado, encostando a cabeça no ombro da Mizi e pegando a mão dela por cima da mesa, entrelaçando os dedos na frente de todo mundo.

— Eita... — Hyuna soltou um assobio baixo. — Parece que o jogo virou, não é mesmo?

— Finalmente — resmungou Till, abrindo um olho. — Agora dá pra gente terminar essa merda desse trabalho sem esse clima de velório romântico?

Sua soltou uma risadinha e, ignorando o comentário do Till, puxou a mão da Mizi para perto do rosto, dando um beijo leve nos nós dos dedos dela.

— Mizi? — chamou Sua.

— Oi?

— Você tem mais um pirulito?

Mizi deu uma risada alta, tirando um de morango do bolso e entregando para ela.

— Pra você, eu tenho o estoque inteiro, Sua.

O resto da tarde passou de um jeito diferente. A Sua, que antes era retraída e melancólica, parecia ter florescido. Ela não soltava a mão da Mizi por nada, e toda vez que a Mizi fazia alguma piada idiota, a Sua ria de um jeito que fazia o Ivan e a Hyuna trocarem olhares de "eu não disse?".

Até o Luka, que era o mais sério, parecia satisfeito. A dinâmica do grupo tinha mudado. Eles não eram mais apenas amigos tentando proteger a "garota quebrada". Eles eram um grupo completo, e a Sua agora era a âncora que mantinha a Mizi nos eixos, enquanto a Mizi era a cor que a Sua precisava para enxergar o mundo de novo.

Quando o sinal tocou, indicando o fim das aulas, eles se levantaram para sair. No corredor, o grupo caminhava rindo, fazendo planos para o final de semana. Eles passaram pelo Acorn, que estava perto dos armários. Ele olhou para o grupo, viu a Sua de mãos dadas com a Mizi, rindo de algo que o Ivan tinha dito, e rapidamente desviou o olhar, apressando o passo para a direção oposta.

Sua nem sequer percebeu a presença dele. Ela estava ocupada demais olhando para a garota de cabelo rosa ao seu lado.

— Ei, Mizi — disse Sua, enquanto saíam pelo portão da escola.

— Fala, linda.

— Amanhã eu quero o de uva.

Mizi riu, puxando-a para um beijo rápido na frente de todo mundo, ignorando os assobios da Hyuna e as reclamações do Till sobre "excesso de melaço".

— Pode deixar. Amanhã, uva. E talvez um beijo a mais, se você se comportar.

— Eu nunca me comporto — respondeu Sua, com um brilho travesso nos olhos que a Mizi nunca tinha visto antes.

— É — Mizi sorriu, sentindo o peito explodir de felicidade. — Eu sei. E é exatamente por isso que eu te amo, sua doidinha.

O sol da tarde iluminava o caminho deles. A escola podia ser um inferno às vezes, os trabalhos podiam ser chatos e o passado podia ter cicatrizes, mas ali, com o gosto de morango e cereja na boca e as mãos entrelaçadas, o futuro parecia a coisa mais doce do mundo. E Mizi sabia que, não importava o que viesse, ela teria pirulitos suficientes para todos os dias da Sua.