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I am here

Efeito Rebote e o Silêncio da Casa Vazia

O segundo horário já estava na metade quando a porta da sala de aula rangeu, interrompendo a explicação monótona do professor de biologia sobre cadeias alimentares. Mizi entrou tropeçando nos próprios pés, com a gravata não apenas frouxa, mas pendurada quase como um cachecol mal feito. O habitual pirulito estava no canto da boca, mas ela não o mordia; apenas o mantinha ali, com um olhar que parecia atravessar as paredes, o quadro negro e a própria existência.

Ela não disse "com licença". Ela não fez uma piada ácida. Mizi apenas caminhou até sua carteira com a graciosidade de um recém-nascido tentando aprender a andar no gelo. Ao se sentar, ela soltou um suspiro profundo e apoiou a testa na mesa de madeira, permanecendo imóvel.

— Mizi? — sussurrou Sua, inclinando-se para o lado, a preocupação vincando sua testa pálida. — Você está bem?

Mizi levantou a cabeça lentamente. Seus olhos dourados estavam dilatados, brilhando com uma névoa de confusão. Ela deu um sorriso largo, mas totalmente desconexo com a realidade.

— Sua... — murmurou Mizi, a voz arrastada como se as palavras estivessem mergulhadas em mel. — Você sabia que o teto está respirando? Ele faz "shhh, shhh". É muito educado da parte dele.

Sua arregalou os olhos e olhou para o grupo no fundo. Ivan parou de mastigar seu chocolate, observando a cena com uma sobrancelha arqueada. Till apenas franziu o cenho, e Hyuna sussurrou um "eita" audível.

— Ela está brisada — diagnosticou Ivan, num sussurro para os outros. — Muito brisada. O que será que ela tomou?

— Talvez tenha confundido os remédios de alergia com outra coisa — sugeriu Luka, ajustando os óculos com desaprovação. — Ou o efeito rebote de tanto açúcar finalmente fritou os neurônios dela.

O dia seguiu em um ritmo surreal. Mizi passou as aulas rindo de formigas imaginárias, tentando "pegar" os raios de sol que entravam pela janela e, em certo momento, tentou seriamente ter uma conversa filosófica com o estojo de lápis da Sua. Ela não era agressiva, apenas... estava em outro planeta.

Quando o sinal da última aula tocou, Sua não teve dúvidas. Ela não podia deixar Mizi naquele estado. Acorn ainda era uma ameaça latente, e Mizi mal conseguia distinguir um degrau de uma linha pintada no chão.

— Eu vou com ela — anunciou Sua, pegando a mochila de Mizi.

— Tem certeza? — perguntou Hyuna, preocupada. — A gente pode ajudar.

— Não, eu cuido disso — disse Sua, firme. — Ela precisa de silêncio e de alguém que não fique cutucando a brisa dela.

O caminho até a casa de Mizi foi uma odisseia. Mizi parou três vezes para cumprimentar árvores e uma vez para tentar explicar a um gato de rua que o cabelo dela era, na verdade, feito de algodão-doce mágico. Sua a guiava pelo braço, sentindo o coração apertado, mas também uma estranha ternura. Mesmo perdida em seus pensamentos desconexos, Mizi não soltava a mão de Sua, apertando-a de vez em quando como se buscasse um ponto de ancoragem.

— Chegamos? — perguntou Mizi, parando diante de um prédio de apartamentos de classe média, com uma fachada simples mas bem cuidada.

— Acho que sim, você que está com a chave — respondeu Sua.

Mizi tateou os bolsos por cinco minutos até encontrar a chave, rindo de como o metal parecia "gelado e engraçado". Quando entraram, Sua parou na soleira da porta, surpresa.

O apartamento era espaçoso, mas estranhamente silencioso. Não havia cheiro de comida caseira, não havia sapatos de adultos no corredor, nem o barulho de uma televisão ligada em outro cômodo. Era um lugar limpo, moderno, mas que exalava uma solidão profunda.

— Mizi... cadê seus pais? — perguntou Sua, fechando a porta atrás de si.

Mizi jogou a mochila no chão e se jogou no sofá, olhando para o teto com um sorriso vago.

— Meus pais? — Ela riu, uma risada que soou um pouco mais lúcida e muito mais triste. — Eles moram em outra cidade. Trabalho, sabe? Dinheiro, reuniões, coisas de gente grande. Eles me mandam o aluguel e uma mesada gorda. Eu moro sozinha desde o ano passado. É ótimo, Sua. Eu posso comer pirulito no café da manhã e ninguém reclama.

Sua sentiu um aperto no peito. A imagem da Mizi vibrante, barulhenta e cheia de atitude, voltando todos os dias para aquele silêncio absoluto, era devastadora.

— Você mora sozinha... — sussurrou Sua, aproximando-se do sofá.

— É — Mizi esticou a mão, tocando o rosto de Sua. — Mas hoje eu não estou sozinha. Você está aqui. Você é tão real, Sua. Suas bochechas são frias. Gosto disso.

— Mizi, você precisa de um banho — disse Sua, tentando retomar o controle da situação. — E de dormir. Você está falando coisas sem sentido.

— Banho? — Mizi fez um bico. — A água é molhada demais, Sua.

— Vamos, eu te ajudo.

Sua levou Mizi até o banheiro. A novata estava tão aérea que Sua teve que separar as roupas para ela. Mizi entregou a Sua um conjunto de pijama — uma camiseta larga e um short de algodão — e apontou para o armário.

— Toma banho também — disse Mizi, tropeçando nas palavras. — Você cheira a escola. Escola é chato. Cheira a sabonete de morango. Tem ali no armário.

Sua hesitou, mas percebeu que não iria a lugar nenhum naquela noite. Ela tomou um banho rápido enquanto Mizi esperava sentada no chão do corredor, cantando uma música que não existia. Depois, foi a vez de Mizi. Sua ficou do lado de fora da porta, perguntando de minuto em minuto se ela estava bem, temendo que a garota dormisse debaixo do chuveiro.

Quando Mizi finalmente saiu, ela parecia um pouco mais centrada, mas o cansaço do "baque" da brisa estava começando a cobrar o preço. Ela estava com o cabelo rosa e azul todo bagunçado e úmido, vestindo um pijama de gatinhos.

— Cama — ordenou Sua.

Mizi não protestou. Ela caminhou até o quarto, que era decorado com pôsteres de bandas de rock e luzes de LED, e se jogou nos lençóis. Em questão de segundos, ela apagou.

Sua ficou sentada na beira da cama por um longo tempo, observando o ritmo calmo da respiração de Mizi. Ela pegou o celular para avisar Hyuna que estava tudo bem, e acabou se perdendo nas redes sociais, respondendo mensagens e lendo algumas notícias. O silêncio do apartamento agora não parecia tão opressor; era apenas um pano de fundo para a presença de Mizi.

Cerca de duas horas depois, Mizi se mexeu. Ela soltou um gemido baixo e abriu os olhos. O olhar de "vidro" tinha sumido, substituído por uma confusão sóbria. Ela piscou várias vezes, tentando focar na figura sentada ao seu lado.

— Sua? — A voz dela estava normal agora, embora um pouco rouca.

— Oi — respondeu Sua, guardando o celular e aproximando-se. — Você acordou.

Mizi sentou-se na cama, levando a mão à testa. Ela olhou ao redor do próprio quarto, depois para as roupas que Sua estava usando — que eram dela — e, finalmente, para o rosto preocupado da garota de cabelos pretos.

— O que aconteceu? — perguntou Mizi, a voz carregada de incerteza. — Eu lembro de ter chegado na escola e... o sol estava muito brilhante. E depois... a gente caminhou?

— Você estava completamente brisada, Mizi — explicou Sua, com um meio sorriso aliviado. — Falou com árvores, disse que o teto respirava e quase tentou comer um giz de cera na aula de artes. Eu te trouxe para casa.

Mizi arregalou os olhos, o rosto ganhando um tom de rosa que rivalizava com o cabelo.

— Eu fiz o quê? — Ela cobriu o rosto com as mãos. — Ai, meu Deus. Eu disse alguma coisa... comprometedora?

Sua sentiu o rosto esquentar, lembrando-se das confissões desconexas sobre o quanto Mizi gostava do cheiro dela.

— Nada que eu já não suspeitasse — brincou Sua, tentando aliviar o clima. — Mas você me assustou. Fiquei com medo de você ter uma overdose de açúcar ou sei lá o quê.

Mizi baixou as mãos, olhando para Sua com uma intensidade nova. O ambiente do quarto, com as luzes de LED suaves, criava uma atmosfera íntima.

— Você ficou aqui o tempo todo? — perguntou Mizi, a voz baixinha.

— Fiquei. Você mora sozinha, Mizi... eu não podia te deixar aqui naquele estado.

Mizi desviou o olhar por um momento, a vulnerabilidade transparecendo em seus ombros caídos.

— É — disse ela. — Sozinha.

Sua se aproximou mais, sentando-se no colchão ao lado dela. Ela pegou a mão de Mizi, entrelaçando seus dedos.

— Por que você nunca contou para a gente? Para o grupo?

Mizi deu de ombros, um gesto defensivo que Sua já conhecia bem.

— Sei lá. Todo mundo tem seus problemas. O Till é revoltado com o mundo, o Ivan é viciado em esconder o que sente atrás de piadas, você tinha o traste do Acorn... Eu não queria ser a "pobre menina rica" que mora sozinha num apartamento legal mas se sente um lixo quando as luzes apagam. É mais fácil ser a novata sarcástica que não liga para nada.

— Para a gente, você não precisa ser a novata sarcástica o tempo todo — disse Sua, apertando a mão dela. — Especialmente para mim.

Mizi olhou para as mãos entrelaçadas e depois para Sua. A lucidez trazia consigo uma clareza emocional que a brisa tinha mascarado. Ela se inclinou para frente, apoiando a cabeça no ombro de Sua, soltando um suspiro longo.

— Obrigada, Sua. De verdade. Acho que eu teria morrido de vergonha se tivesse acordado sozinha depois de passar o dia falando com plantas.

— As plantas gostaram de você — riu Sua, fazendo um carinho leve no cabelo úmido de Mizi. — Mas prefiro você assim. Normal. Ou o mais perto de normal que você consegue ser.

Mizi levantou a cabeça, ficando a centímetros do rosto de Sua. O cheiro de sabonete de morango agora vinha de ambas, criando uma harmonia doce no ar.

— Eu ainda estou um pouco perdida — confessou Mizi, os olhos dourados fixos nos lábios de Sua. — Acho que meu cérebro ainda está tentando entender como eu vim parar aqui com você usando meu pijama.

— Você me deu ele — lembrou Sua, com um brilho divertido nos olhos. — Disse que eu cheirava a escola e que escola era chato.

Mizi riu, uma risada limpa e genuína.

— É, isso soa como algo que eu diria mesmo estando em Nárnia.

O silêncio voltou, mas agora era preenchido por uma expectativa suave. Mizi reduziu a distância restante, selando seus lábios nos de Sua em um beijo calmo, sóbrio e cheio de um significado que as palavras não conseguiam alcançar. Não era o beijo apressado do banheiro da escola; era um beijo de reconhecimento.

Quando se separaram, Mizi encostou sua testa na de Sua, fechando os olhos.

— Fica aqui hoje? — pediu Mizi. — Não porque eu estou brisada. Mas porque... eu não quero que o apartamento fique silencioso de novo.

Sua sorriu, sentindo que aquele era o lugar onde ela deveria estar.

— Eu não ia a lugar nenhum, Mizi.

Naquela noite, o apartamento vazio de Mizi finalmente se tornou um lar. Entre confissões sussurradas no escuro e a promessa de que, no dia seguinte, Ivan nunca deixaria Mizi esquecer a história das árvores, as duas adormeceram abraçadas. A brisa tinha passado, mas o que restou em seu lugar era muito mais potente: a certeza de que nenhuma das duas precisaria enfrentar o silêncio sozinha outra vez.