I fucking hate you ( i am Crazy for you)
Eclipses de Sangue e Neon
A poeira da briga com Min-ho ainda nem tinha baixado quando o pavio curto de Sua finalmente atingiu a carga explosiva. O corredor estava silencioso, mas a pressão atmosférica entre as duas era insuportável. Mizi ainda tinha os nós dos dedos avermelhados, a respiração pesada, e aquele olhar dourado que parecia querer devorar e repelir Sua ao mesmo tempo.
— Por que você fez aquilo? — A voz de Sua não era de gratidão. Era um chicote.
— Por que eu bati naquele merda? — Mizi deu de ombros, tentando recuperar o tom de deboche. — Já disse, ele era um lixo. Estava poluindo o meu campo de visão.
— Não mente para mim, Mizi! — Sua deu um passo à frente, a franja preta tremendo de raiva. — Você não faz nada sem segundas intenções. Você adora o drama, adora ser a salvadora sarcástica para depois jogar na minha cara o quanto eu sou "fraca" ou "santinha". Eu não pedi o seu soco! Eu não pedi a sua proteção!
Mizi sentiu o impacto das palavras como se o soco tivesse voltado para o seu próprio rosto.
— Ah, entendi. Você prefere que o seu "amiguinho" te chame de vadia e mande você se matar? — Mizi sibilou, a voz subindo de tom. — Que porra há de errado com você, Sua? Eu te ajudo e você vem me dar sermão?
— O que há de errado comigo? — Sua soltou uma risada histérica, as mãos pequenas fechadas em punhos ao lado do corpo pálido. — O que há de errado é que eu não aguento mais essa sua oscilação bipolar! Uma hora você me humilha na frente da escola, na outra você age como se se importasse. Você é instável, Mizi. Você é tóxica. Você destrói tudo o que toca só para ver o que tem dentro, e eu não sou um dos seus brinquedos!
Mizi abriu a boca para responder, para soltar um "vai se foder" bem alto, mas as palavras travaram. Ela viu a mágoa real nos olhos roxos de Sua. Viu que a garota estava tremendo, não de medo de Min-ho, mas de puro esgotamento por causa da dinâmica doentia que elas mantinham.
— Você é egoísta — continuou Sua, a voz agora num sussurro cortante. — Você não me odeia, Mizi. Você só odeia o fato de que eu não caio no seu papo furado. Você é patética.
Mizi ficou estática. O silêncio que se seguiu foi o mais longo de sua vida. Ela, que sempre tinha uma resposta ácida, uma piada suja ou um insulto criativo, sentiu a garganta secar. Ela não conseguiu emitir nem um monossílabo. Apenas olhou para Sua, deu meia volta e saiu andando, os passos rápidos ecoando no linóleo. Ela precisava sumir.
***
A madrugada seguinte foi um borrão de luzes estroboscópicas e batidas de techno que faziam o peito vibrar. Ivan tinha arrastado Mizi para uma festa clandestina num galpão abandonado na periferia. Ele estava sóbrio, apenas exausto, observando o caos com seu sorriso irritante de sempre, enquanto mastigava um chiclete de menta para disfarçar o cansaço.
Já Mizi... Mizi tinha decidido afogar a imagem dos olhos roxos de Sua em copos sucessivos de uma mistura duvidosa de vodca e energético.
— Mizi, chega. Você vai vomitar no meu carro — Ivan avisou, segurando o braço dela enquanto ela tentava dançar em cima de um engradado.
— Eu tô ótima, Ivan! — Ela gritou por cima da música, o cabelo rosa grudado na testa pelo suor. — Eu nunca estive tão... tão lúcida!
Eles voltaram para a escola direto da festa, sem passar em casa. O sol da manhã era um inimigo cruel para os olhos de Mizi. Ela entrou pelos portões da Anakt ainda cambaleando levemente, o hálito denunciando a noite de excessos, mas com aquela coragem líquida que só o álcool proporciona.
O pátio estava cheio. O grupo de Luka, Hyuna e Till estava reunido perto da fonte, e Sua estava lá, sentada com um livro no colo, parecendo um anjo melancólico sob a luz matinal.
Mizi avistou a cabeleira preta e, sem pensar, marchou em direção a ela. Ivan tentou segurá-la, mas Mizi esquivou-se com uma agilidade de bêbada.
— Olha só... — Mizi tropeçou nos próprios pés, parando bem na frente de Sua. — Se não é a minha... a minha bibliotecária favorita.
Sua levantou os olhos, a expressão de desgosto imediata.
— Mizi, você está cheirando a destilaria. Sai de perto de mim.
O pátio inteiro começou a prestar atenção. Luka parou de falar sobre astrofísica e Hyuna cruzou os braços, curiosa.
Mizi não saiu. Em vez disso, ela se inclinou, apoiando as mãos nos joelhos de Sua, invadindo o espaço pessoal de uma forma que nunca faria sóbria.
— Você é tão bonita quando tá brava, sabia? — Mizi sussurrou, a voz saindo arrastada, mas estranhamente doce. Ela esticou a mão e tocou a ponta do nariz de Sua. — Por que você tem que ser tão difícil, bonequinha? A gente podia estar se divertindo, mas você prefere esses livros chatos...
Sua ficou estática, o rosto pálido começando a ganhar uma cor rosada de puro choque.
— Mizi, o que você está fazendo? — Till perguntou, dando um passo à frente, mas Ivan o segurou pelo ombro, dando um olhar que dizia "deixa o circo pegar fogo".
Mizi ignorou Till. Ela aproximou o rosto do de Sua, a centímetros de distância, e soltou uma risada baixa, quase um ronronar.
— Você tem um cheiro tão bom... parece lavanda e... e inteligência. Eu odeio inteligência. Mas eu gosto de você.
Ela deu um beijo rápido e úmido na bochecha de Sua, perto da orelha, e depois se levantou bruscamente, dando uma piscadela desajeitada para a plateia estupefata.
— Vejo vocês na aula, perdedores! — Mizi gritou, saindo andando em zigue-zague, deixando um rastro de confusão e uma Sua completamente paralisada e vermelha como um tomate.
***
O despertador da realidade tocou quatro horas depois, na aula de literatura. Mizi acordou com a cabeça parecendo que ia explodir. A boca estava seca, o estômago revirado e as memórias da manhã eram fragmentos de vidro quebrado.
Ela sentou-se na última fileira, tentando focar no quadro. Ivan estava ao seu lado, com aquele sorriso de quem viu o fim do mundo e achou engraçado.
— E aí, estrela do rock? Como está a ressaca? — Ivan perguntou, oferecendo uma bala.
— Eu quero morrer, Ivan. O que aconteceu hoje cedo? Eu lembro de chegar aqui, mas depois... é tudo um borrão.
Ivan soltou uma risada abafada.
— Ah, você só deu o maior show da história dessa escola. Você deu em cima da Sua na frente de todo mundo. Beijou ela, chamou ela de bonequinha e disse que gostava dela.
Mizi sentiu o sangue fugir do rosto.
— O quê? — Ela engasgou. — Não. Não, eu nunca faria isso. Você tá mentindo. Você tá querendo me irritar, seu desgraçado.
— Mizi, até o Luka ficou sem palavras. E o Luka sempre tem uma palavra de dez sílabas pra tudo — Ivan retrucou. — Você foi bem específica sobre o cheiro dela.
— Mentira! — Mizi exclamou, um pouco alto demais. — Eu odeio aquela garota! Eu nunca... eu nunca diria que gosto dela. Eu tenho padrões, Ivan!
— Seus padrões tavam flutuando em vodca, Mizi. Aceita que dói menos.
Mizi enterrou o rosto nas mãos. A vergonha era física. Ela conseguia sentir os olhares dos outros alunos queimando suas costas. Ela precisava falar com Sua. Ela precisava consertar aquilo, ou melhor, negar aquilo até a morte.
No intervalo, ela encontrou Sua no corredor dos armários. A garota de cabelos pretos parecia estar tentando se fundir com a parede, evitando qualquer contato visual.
— Ei! — Mizi chamou, tentando recuperar sua postura de "não ligo pra nada". — O Ivan me contou umas merdas que eu supostamente fiz hoje cedo. Eu só queria dizer que ele é um mentiroso compulsivo e que nada daquilo aconteceu, beleza?
Sua virou-se lentamente. Ela não parecia brava. Ela parecia... confusa. E irritada.
— Ah, então você não lembra? — Sua perguntou, a voz cortante. — Que conveniente.
— Eu não lembro porque não aconteceu! — Mizi deu um passo à frente, a defensividade subindo. — Eu jamais daria em cima de você, Sua. Você é a última pessoa na terra que eu...
— Cala a boca, Mizi! — Sua explodiu, fechando o armário com força. — Você é tão covarde que nem bêbada consegue sustentar o que faz. Você me humilhou de um jeito novo hoje! Todo mundo está comentando, perguntando se a gente está... se a gente tem algo!
— Mas a gente não tem! — Mizi gritou de volta. — Eu te odeio, lembra?
— Então por que você me beijou? Por que disse aquelas coisas? — Sua estava agora a poucos centímetros de Mizi, a respiração curta.
Mizi sentiu o pânico subir. A proximidade de Sua, o cheiro de lavanda (que agora ela sabia que era real), os olhos roxos brilhando de raiva... era demais. Ela precisava que Sua parasse de falar. Precisava que o mundo parasse de girar.
Num movimento impulsivo, Mizi estendeu a mão e pressionou a palma contra a boca de Sua, prendendo-a contra o metal frio do armário.
— Cala a boca! — Mizi sibilou, os olhos dourados fixos nos de Sua. — Só... para de falar. Para de complicar tudo. Foi o álcool, tá legal? Não significou nada. Eu não sinto nada por você além de desprezo. Entendeu?
Sua ficou imóvel. Seus olhos roxos se arregalaram. Mizi esperava que ela a mordesse, que a empurrasse ou que começasse a chorar.
Mas o que aconteceu foi pior.
Sua começou a ficar vermelha. Não era a vermelhidão da raiva. Era um rubor profundo, que subia do pescoço, passava pelas bochechas pálidas e chegava até as orelhas. Ela desviou o olhar, as pestanas tremendo, e soltou um som abafado contra a mão de Mizi.
Mizi sentiu o calor da pele de Sua contra a palma da sua mão. O coração dela falhou uma batida. Por que ela estava ficando vermelha? Por que ela não estava lutando?
— Sua? — Mizi sussurrou, a voz perdendo toda a agressividade.
Ela soltou a mão lentamente. Sua continuava encostada no armário, olhando para o chão, o rosto ainda em brasa. Ela parecia vulnerável de um jeito que Mizi nunca tinha visto.
— Você é uma idiota — Sua sussurrou, a voz tão baixa que quase se perdia no barulho do corredor.
Ela deu um passo para o lado e saiu andando apressada, quase correndo, sem olhar para trás.
Mizi ficou parada no meio do corredor, a mão que tinha tocado a boca de Sua ainda suspensa no ar. O silêncio ao seu redor parecia ter uma textura diferente agora.
Ivan apareceu do nada, encostando-se no armário ao lado dela.
— E aí? Conseguiu "desmentir" a situação? — Ele perguntou, observando a fuga de Sua.
Mizi não respondeu. Ela olhou para a própria palma da mão.
— Ivan... acho que eu fiz merda.
— Mais do que já tinha feito? — Ivan riu, mas parou quando viu a expressão de Mizi. — O que foi?
— Ela ficou vermelha, Ivan. Por que porra ela ficou vermelha?
Ivan deu um sorriso de lado, um sorriso que não era irritante, mas quase compreensivo.
— Talvez porque, no fundo, vocês duas sejam tão burras quanto o Till quando tenta entender física quântica.
Mizi não ouviu o resto. Sua mente já estava longe, criando um novo cenário.
Desta vez, elas estavam no telhado, sob a luz da lua. Mizi não estava bêbada. Ela segurava o rosto de Sua com as duas mãos e, em vez de tapar sua boca, ela a beijava de verdade. E Sua não fugia. Sua a abraçava pelo pescoço e dizia que o ódio era apenas o nome que elas davam para o medo de se amarem.
Mizi balançou a cabeça, tentando espantar o pensamento.
— Eu odeio ela — Mizi disse, mais para si mesma do que para Ivan.
— Sei — Ivan respondeu, voltando a caminhar. — E eu odeio o Till. A gente é ótimo em mentir, não é?
Mizi seguiu o amigo, sentindo que a coleira imaginária que ela tanto temia já estava apertada em seu pescoço há muito tempo, e que a dona da guia tinha acabado de ficar vermelha por causa dela. E, pela primeira vez, a ideia de ser levada por Sua não parecia um castigo, mas o único destino possível.