I fucking hate you ( i am Crazy for you)
Eclipses de Sangue e Neon
O sol da manhã seguinte entrou pelas janelas da sala de aula com uma agressividade que Mizi sentia pessoalmente. Sua cabeça ainda dava pontadas, um lembrete persistente da ressaca física, mas a ressaca moral era infinitamente pior. Ela estava sentada em sua mesa, os pés jogados em cima da cadeira vazia à frente, tentando manter sua fachada de "rainha do foda-se", mas seus olhos dourados não paravam de desviar, quase que por instinto, para a nuca de Sua.
Sua, por outro lado, parecia ter se transformado em uma estátua de gelo. Ela não se virou uma única vez. Seus ombros estavam rígidos, a postura era tão reta que parecia dolorosa, e ela folheava as páginas de seu livro de literatura com uma velocidade que indicava que ela não estava lendo absolutamente nada. Ela queria morrer. Queria que o chão se abrisse e a engolisse, levando junto a memória da mão de Mizi contra sua boca e aquele calor estúpido que tinha subido pelo seu corpo.
— Você está encarando de novo — sussurrou Ivan, sentando-se ao lado de Mizi e jogando um pacote de balas de goma sobre a mesa. — Se olhar mais um pouco, vai fazer um buraco na blusa dela.
— Vai se foder, Ivan — Mizi respondeu de imediato, a voz rouca. — Eu estou apenas... analisando o quão ridículo é o corte de cabelo dela hoje.
— Sei. O corte de cabelo que é o mesmo há três anos — Ivan deu aquele sorriso irritante, abrindo o pacote com os dentes. — Você está pilhada porque ela ficou vermelha ontem, não está? A grande Mizi finalmente encontrou um ponto fraco na armadura da santinha.
Mizi sentiu o rosto esquentar, mas disfarçou com um bocejo exagerado.
— Eu não dou a mínima. Ela provavelmente teve uma reação alérgica à minha mão. Ou talvez seja só a pressão alta de ser uma chata de galocha 24 horas por dia.
Do outro lado da sala, o grupo "perfeito" estava em sua bolha habitual. Luka explicava algo complexo sobre termodinâmica para uma Hyuna que fingia prestar atenção enquanto trançava uma mecha do próprio cabelo marrom. Till, por sua vez, estava com os olhos fixos em Ivan, um olhar que, para qualquer estranho, parecia puro ódio, mas que Ivan retribuía com uma piscadela quase imperceptível.
O sinal tocou, anunciando o início da aula de História, mas o professor estava atrasado. O caos adolescente começou a preencher o vácuo do silêncio. Foi quando Sua, num movimento brusco, fechou o livro e se levantou para pegar um dicionário na estante dos fundos. Ela teve que passar pela mesa de Mizi.
Mizi não conseguiu se segurar. A necessidade de provocar, de retomar o controle da narrativa que ela sentia ter perdido no momento em que viu Sua corar, falou mais alto.
— Cuidado para não tropeçar no próprio ego, Sua — Mizi disse, a voz sedutora e carregada de veneno enquanto esticava a perna para bloquear o caminho.
Sua parou abruptamente. Ela olhou para a perna de Mizi e depois para os olhos dourados da garota, que brilhavam com um desafio sarcástico.
— Sai da frente, Mizi. Eu não tenho tempo para as suas infantilidades hoje.
— Ah, não tem? — Mizi se inclinou para trás, entrelaçando as mãos atrás da cabeça. — Engraçado. Ontem você parecia ter todo o tempo do mundo quando eu te prendi contra aquele armário.
A sala, que estava barulhenta, começou a baixar o volume. O "confronto das divas" era sempre o melhor entretenimento da Anakt.
— Você estava bêbada e agiu como uma criminosa — Sua sibilou, os olhos roxos faiscando de uma melancolia raivosa. — O que você fez foi assédio, foi ridículo e, acima de tudo, foi patético.
Mizi soltou uma risada seca, levantando-se da cadeira para ficar na altura de Sua. A diferença de altura sempre dava a Mizi uma vantagem psicológica que ela adorava usar.
— Patético? — Mizi deu um passo à frente, forçando Sua a recuar contra a mesa de Ivan. — Se foi tão ruim assim, por que você não me empurrou? Por que ficou lá, parada, derretendo como um sorvete no sol?
— Eu não estava derretendo! — Sua gritou, a voz falhando levemente, o que só serviu para irritá-la mais. — Eu estava em choque com a sua audácia!
Mizi se aproximou mais, o cheiro de chiclete de cereja invadindo o espaço de Sua. Ela baixou a voz para um sussurro que apenas as duas, e talvez um Ivan muito atento, pudessem ouvir.
— Será que estava em choque mesmo? Ou será que você queria que eu fizesse de novo? — Mizi arqueou uma sobrancelha, o sorriso predatório voltando ao rosto. — Me diz, Sua... se eu tapasse a sua boca agora, no meio da sala, você ia ficar vermelhinha daquele jeito de novo? Ia ficar em silêncio gostando da sensação?
O mundo ao redor de Sua pareceu desaparecer. As palavras de Mizi atingiram um nervo que ela nem sabia que existia. A memória do dia anterior voltou com força total: o frio do metal nas suas costas, o calor da palma da mão de Mizi, a pressão firme e possessiva. Ela lembrou do que sentiu. Não foi apenas raiva. Foi um choque elétrico, um calor eminente que começou no baixo ventre e subiu até o rosto. Foi tesão. Um tesão proibido, errado e absolutamente confuso por uma garota que ela deveria odiar.
Sua abriu a boca para retrucar, para dizer que a odiava, que Mizi era um monstro, que ela nunca mais deveria tocá-la. Mas nenhuma palavra saiu. O nó na garganta era físico.
Em vez de gritar, Sua sentiu o rosto entrar em combustão. O rubor foi instantâneo e violento, tingindo suas bochechas pálidas de um carmesim profundo. Ela desviou o olhar, incapaz de sustentar o escrutínio dourado de Mizi, e simplesmente virou as costas, voltando para sua mesa em silêncio absoluto.
Mizi ficou parada, o sorriso morrendo aos poucos. Ela esperava uma bofetada, um xingamento, qualquer coisa. O silêncio de Sua e aquele novo rubor eram uma resposta que ela não sabia como processar.
— Uau — murmurou Ivan, quebrando o transe. — Acho que você quebrou ela, Mizi.
— Cala a boca, Ivan — Mizi sentou-se novamente, o coração batendo contra as costelas como um pássaro enjaulado.
Pelo resto da aula, Mizi não conseguiu desenhar uma única linha em seu caderno. Sua mente a traía, arrastando-a para longe da sala de aula, para um lugar onde as paredes eram feitas de sonhos e o ódio não passava de um disfarce mal ajustado.
No seu devaneio, a sala de aula estava vazia e mergulhada em uma penumbra azulada. Mizi estava sentada na mesa do professor e Sua estava entre suas pernas, mas não havia discussão. Mizi passava os dedos pela franja fina de Sua, inclinando a cabeça da garota para trás.
— Você fica tão linda quando desiste de lutar — a Mizi do sonho sussurrava.
Sua não respondia com palavras. Ela apenas puxava Mizi pela gola do uniforme, colando seus corpos. Mizi sentia a maciez das coxas de Sua contra as suas, as mãos da garota de cabelos pretos apertando sua cintura com uma urgência que a fazia perder o fôlego. No sonho, Mizi enterrava o rosto no pescoço de Sua, inalando o cheiro de lavanda e pele limpa, sentindo o pulso acelerado da outra contra seus lábios.
— Eu odeio o quanto eu te quero — Sua dizia na imaginação de Mizi, a voz melancólica agora tingida de desejo.
Mizi beijava a curva do ombro de Sua, descendo para as coxas pálidas, deixando marcas que diziam "você é minha", enquanto Sua soltava um suspiro que soava como uma prece atendida.
— Mizi! — A voz de Hyuna a trouxe de volta à realidade.
Mizi piscou, limpando a mente com rapidez. Hyuna estava parada ao lado de sua mesa, com uma expressão de quem achava tudo aquilo muito divertido.
— O sinal já tocou, bela adormecida. O Ivan e o Till já sumiram por aí, provavelmente para "brigar" em algum canto escuro — Hyuna deu uma piscadela cúmplice. — E a Sua saiu correndo como se a escola estivesse pegando fogo. O que você disse para ela?
— Nada que ela já não soubesse — Mizi pegou sua mochila, tentando manter a voz firme. — Ela é sensível demais.
— Sei — Hyuna riu, ajeitando o cabelo longo marrom. — Cuidado, Mizi. Quem brinca com fogo às vezes não quer apagar o incêndio, quer apenas queimar junto. O Luka está me esperando na biblioteca para um "estudo intensivo", então boa sorte com a sua crise existencial.
Mizi saiu da sala, vagando pelos corredores até encontrar o refúgio do ginásio, que costumava estar vazio àquela hora. Ela precisava de ar. Mas, ao entrar, viu que não estava sozinha.
Lá estava Sua, sentada na arquibancada mais alta, com os joelhos abraçados contra o peito. Ela parecia tão pequena, tão frágil naquela vastidão de madeira e cimento.
Mizi subiu os degraus em silêncio. Ela sabia que deveria ir embora, que deveria deixar Sua em paz, mas a força de atração era maior que seu bom senso. Ela sentou-se a alguns metros de distância.
— Você me segue como se fosse uma maldição — Sua disse, sem olhar para ela.
— Talvez eu seja — Mizi respondeu, a voz desprovida de sarcasmo pela primeira vez. — Por que você não me bateu, Sua? Lá na sala. Por que ficou quieta?
Sua finalmente virou o rosto. Seus olhos roxos estavam úmidos, mas não havia lágrimas.
— Porque eu não sabia o que dizer — Sua confessou, a voz falhando. — Porque toda vez que você chega perto, tudo o que eu construí na minha cabeça sobre quem você é e quem eu sou... simplesmente desmorona. Eu te odeio, Mizi. Eu odeio o jeito que você vive, odeio a sua preguiça, odeio a sua voz.
— E? — Mizi se aproximou, diminuindo a distância entre elas.
— E eu odeio o fato de que, quando você me tocou ontem... eu não queria que você parasse — Sua soltou as palavras como se fossem veneno. — Eu odeio sentir isso por alguém como você.
Mizi sentiu um impacto no peito que nenhum soco de Min-ho poderia replicar. Ela estendeu a mão, hesitante, e tocou o rosto pálido de Sua. Desta vez, Sua não recuou. Ela fechou os olhos, inclinando-se levemente para o toque.
— Eu também não sou muito fã do que eu sinto, bonequinha — Mizi sussurrou, os dedos acariciando a bochecha quente de Sua. — Eu passo metade do dia criando cenários na minha cabeça onde você me ama, e a outra metade tentando te convencer de que eu te desprezo.
Sua abriu os olhos, a melancolia dando lugar a uma descoberta silenciosa.
— Então somos duas idiotas — disse Sua.
— As maiores da Anakt — Mizi sorriu, um sorriso pequeno e genuíno.
Mizi se inclinou, mas não para tapar a boca de Sua. Ela parou a milímetros dos lábios da outra, esperando um sinal. Sua, num movimento de coragem que desafiava toda a sua natureza melancólica, encurtou a distância, selando seus lábios nos de Mizi.
O beijo não foi como nos sonhos de Mizi. Não houve luzes de neon ou música de fundo. Foi desesperado, meio desajeitado e carregado com anos de frustração e ódio reprimido. Tinha gosto de chiclete de cereja e das lágrimas silenciosas que Sua finalmente deixou cair.
Enquanto isso, atrás das cortinas do palco do ginásio, dois vultos observavam a cena em choque.
— Puta que pariu — sussurrou Till, com os olhos verdes arregalados. — O mundo vai acabar. O apocalipse começou.
Ivan, ao lado dele, deu um sorriso de satisfação, passando o braço pela cintura do emo rebelde.
— Eu te disse, Till. Ódio e amor são apenas dois lados da mesma moeda viciada. Agora, será que a gente pode focar no nosso próprio "apocalipse" ou você vai ficar assistindo o filme das duas o dia todo?
Till olhou para Ivan, a carranca habitual voltando, mas com menos convicção.
— Você é um idiota, Ivan.
— E você está me beijando — Ivan rebateu, antes de puxar Till para um beijo que calou qualquer protesto.
No alto da arquibancada, Mizi e Sua se separaram, as testas encostadas uma na outra, a respiração misturada.
— Eu ainda te odeio — Sua sussurrou, embora estivesse segurando a mão de Mizi com força.
— Eu sei — Mizi respondeu, beijando as juntas dos dedos de Sua. — Mas agora, pelo menos, a gente pode se odiar de um jeito muito mais interessante.
A Escola Preparatória Anakt continuava a mesma, com seus nerds, seus rebeldes e suas tensões, mas para aquelas duas, o eclipse de sangue e neon tinha finalmente dado lugar a algo novo. Uma coleira que ambas aceitavam usar, desde que a guia estivesse nas mãos da outra.