I fucking hate you ( i am Crazy for you)
Ecos de Silêncio e Rédeas Invisíveis
O sol da manhã de terça-feira entrava pelas janelas da Escola Preparatória Anakt com uma claridade irritante, iluminando as partículas de poeira que dançavam no ar denso. Para Mizi, o mundo parecia ter ganhado uma saturação nova, quase dolorosa. Cada vez que ela fechava os olhos, sentia a textura dos lábios de Sua contra os seus na arquibancada do ginásio. Era uma memória que queimava, uma prova de que a barreira de ódio que ela construiu com tanto esmero tinha, enfim, desmoronado.
— Você está com aquela cara de quem viu um unicórnio cagar arco-íris — comentou Ivan, encostado nos armários com sua habitual bala de caramelo na boca. Ele observava Mizi com um olhar analítico, escondendo o fato de que ele e Till tinham visto muito mais do que deveriam no dia anterior.
— Fecha a matraca, Ivan — Mizi resmungou, batendo a porta do armário com força excessiva. — Eu só não dormi direito. Minha cabeça está um caos.
— Imagino — Ivan deu um sorriso de lado, aquele sorriso que Mizi geralmente queria apagar com um soco, mas que hoje parecia carregado de um entendimento silencioso. — A "santinha" também parece meio... aérea hoje.
Mizi olhou de soslaio para o fim do corredor. Sua estava lá, cercada por Hyuna e Luka. Ela parecia a mesma de sempre: a franja preta impecável, a postura ereta, o livro de literatura russa pressionado contra o peito. Mas Mizi notou o jeito que os dedos de Sua apertavam a capa do livro, os nós dos dedos brancos. Elas tinham um pacto silencioso de normalidade. O que aconteceu no ginásio ficava no ginásio. Pelo menos, era o que Mizi dizia a si mesma para não entrar em colapso.
Do outro lado, Till observava a cena com os braços cruzados, o cabelo cinza mais bagunçado que o normal. Ele trocou um olhar rápido com Ivan — um olhar de "nós sabemos o segredo delas, mas se abrirmos a boca, nosso próprio segredo vai pro ralo". Era uma trégua tensa entre os quatro, mesmo que as meninas não soubessem da parte dos meninos.
— A atmosfera psicossocial deste corredor está operando em uma frequência de tensão anormal hoje — observou Luka, ajustando os óculos com sua precisão cirúrgica. — Hyuna, você notou alguma variável atípica no comportamento da Sua?
Hyuna riu, passando o braço pelo pescoço do namorado nerd.
— Relaxa, Luka. É só a TPM coletiva desse colégio. Ou talvez seja só o cheiro de hormônio acumulado.
O sinal tocou, anunciando a troca de professores. O corredor virou um formigueiro humano. Mizi estava parada perto do seu armário quando um garoto chamado Kael, um tipo atlético e barulhento que adorava testar os limites de todo mundo, resolveu que era o momento perfeito para ser um idiota.
— E aí, Mizi! — Kael gritou, parando na frente dela e impedindo sua passagem. — Ouvi dizer que você deu um showzinho ontem. Bateu no Min-ho? Caramba, você é mesmo uma cadela raivosa, hein? O que foi? Ele não quis te dar a atenção que você queria?
Mizi sentiu o sangue ferver. O sarcasmo subiu à garganta como bile.
— Sai da frente, Kael. Eu não discuto com quem tem o QI menor que o número do sapato. Vai procurar um poste pra latir, vai.
— Ih, a bonitona está estressada! — Kael riu, aproximando-se mais, tentando intimidá-la. — O que foi? Vai me bater também? Eu adoraria ver você tentando, sua vadia de cabelo rosa.
A tensão no corredor subiu instantaneamente. As pessoas pararam para ver. Mizi cerrou os punhos, os olhos dourados faiscando. Ela ia avançar. Ela ia acabar com a raça daquele idiota ali mesmo, na frente de todo mundo. Ela não levava desaforo para casa, nunca levou.
— Mizi.
A voz veio de trás dela. Era fria, cortante e carregada de uma autoridade que fez o barulho do corredor diminuir. Sua estava parada a poucos metros, os olhos roxos fixos em Mizi, ignorando completamente a existência de Kael.
— Mizi, para com isso agora — disse Sua, a voz firme. — Você está discutindo por besteira com um completo idiota. É patético ver você perdendo tempo com alguém que não vale o ar que respira. Para de ser infantil, vira as costas e vai para a sala. Agora.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Todos esperavam a explosão. Hyuna arregalou os olhos; Till parou de respirar por um segundo; Ivan arqueou uma sobrancelha, curioso para ver até onde aquilo ia. Mizi nunca, em hipótese alguma, aceitava ordens. Especialmente não de Sua. O normal seria Mizi gritar, dizer que Sua não mandava nela e talvez começar uma briga ainda maior com a garota de cabelos pretos.
Mizi sentiu a pulsação no pescoço. Ela olhou para Sua. Não era um pedido. Era uma ordem clara. Era a coleira que ela tanto temia sendo puxada com força. A rebeldia gritava dentro dela, mas havia algo mais forte. Um desejo estranho de agradar, uma submissão que nasceu no momento em que os lábios de Sua tocaram os seus.
Mizi respirou fundo, os ombros relaxando de forma quase milagrosa. Ela não disse nada. Simplesmente soltou o ar, virou as costas para o Kael boquiaberto e começou a mexer no seu armário, ignorando o mundo ao redor.
— O quê? — Kael gaguejou, em choque. — Você vai mesmo obedecer a essa tampinha, Mizi? Ficou com medo? Ei, eu estou falando com você!
Mizi continuou de costas, organizando seus livros como se Kael fosse invisível. Ela estava sentindo o olhar de Sua queimando suas costas, e aquilo era a única coisa que importava.
Sua, por sua vez, estava paralisada. Ela esperava uma briga. Esperava ser insultada. Mas ver Mizi, a indomável e sarcástica Mizi, simplesmente... obedecer... foi um choque térmico. O coração de Sua disparou. Ela viu Mizi fechar o armário e caminhar em direção à sala de aula sem olhar para ninguém, com a cabeça baixa.
— Caralho — sussurrou Till, quebrando o silêncio. — O que acabou de acontecer?
— A ordem natural das coisas foi subvertida — murmurou Luka, genuinamente confuso.
Ivan apenas sorriu, um sorriso largo e vitorioso. Ele sabia exatamente o que tinha acontecido.
***
Duas aulas depois, o intervalo chegou. Mizi evitou todo mundo, inclusive Ivan. Ela se escondeu na sala de artes, um lugar que costumava ficar vazio porque o professor estava de licença. Ela precisava processar a humilhação — ou o que deveria ser uma humilhação, mas que no fundo parecia ter sido a coisa mais natural do mundo.
A porta da sala rangeu. Mizi não precisou olhar para saber quem era. O cheiro de lavanda e papel antigo a precedia.
— O que você quer, Sua? — Mizi perguntou, sentada em um banco, desenhando círculos sem sentido num papel. — Veio me dar mais ordens?
Sua fechou a porta atrás de si, o som do trinco ecoando na sala silenciosa. Ela caminhou até Mizi, parando a uma distância segura, mas ainda perto o suficiente para que a eletricidade entre elas voltasse a vibrar.
— Por que você fez aquilo? — Sua perguntou, a voz menos firme do que no corredor.
— O quê? Ignorei o Kael? Ele é um idiota, você mesma disse.
— Não brinca comigo, Mizi. Você não ignora as pessoas. Você ataca. Você cria o caos. Mas hoje... você me obedeceu. Na frente de todo mundo.
Mizi largou o lápis e finalmente olhou para ela. Os olhos dourados estavam nublados, uma mistura de desafio e entrega.
— Você queria que eu fizesse o quê? Que eu gritasse com você? Que eu provasse que sou a rebelde sem causa que todo mundo acha que eu sou?
— Eu esperava que você fosse você mesma! — Sua exclamou, dando um passo à frente. — Ver você daquele jeito... calada... aceitando o que eu falei... foi estranho. Foi assustador.
Mizi soltou uma risada curta e sem humor, levantando-se do banco. Ela caminhou até Sua, diminuindo a distância até que seus peitos quase se tocassem.
— Assustador por quê, Sua? Porque você percebeu que tem poder sobre mim? Porque você percebeu que, se você puxar a corda, eu venho?
Sua sentiu o rosto esquentar. Aquele rubor que ela tanto odiava começou a subir pelas bochechas.
— Eu não quero ter poder sobre você, Mizi. Eu só... eu não queria ver você se metendo em encrenca por causa de um cara como o Kael.
— Mentirosa — Mizi sussurrou, a voz sedutora voltando com força total. Ela levou a mão ao rosto de Sua, acariciando a pele pálida com o polegar. — Você adorou. Você adorou ver a "grande Mizi" baixando a cabeça pra você. Admite.
Sua tentou desviar o olhar, mas Mizi a segurou pelo queixo, forçando-a a encarar a verdade.
— Eu... — Sua hesitou, a respiração ficando curta. — Talvez eu tenha sentido que, pela primeira vez, você estava realmente me ouvindo. Que você não estava apenas tentando me irritar.
— Eu não estava te ouvindo, Sua. Eu estava te obedecendo — Mizi corrigiu, a voz carregada de uma intensidade crua. — Tem uma diferença enorme. Ontem, no ginásio, você disse que me odiava. Mas hoje, no corredor, você agiu como se eu fosse sua. E o pior de tudo? Eu deixei. Eu quis deixar.
Sua fechou os olhos, sentindo o toque de Mizi como uma marca de fogo.
— Por que você é assim? — Sua sussurrou. — Por que você torna tudo tão complicado e intenso?
— Porque eu sou preguiçosa pra estudar, mas sou dedicada pra caralho quando o assunto é você — Mizi confessou, aproximando o rosto do de Sua. — Eu passei anos fingindo que te odiava porque era mais fácil do que admitir que eu passaria o resto da vida na sua coleira se você me pedisse com esse tom de voz.
Sua abriu os olhos, a melancolia dando lugar a uma urgência nova. Ela agarrou a gola da blusa de Mizi, puxando-a para baixo.
— Então não me faça pedir de novo — Sua disse, antes de colar seus lábios nos de Mizi.
O beijo foi diferente do anterior. Não havia o desespero da primeira vez, mas sim uma confirmação silenciosa. Mizi envolveu a cintura de Sua, puxando-a para cima, sentindo a leveza da garota em seus braços. Ela a sentou em cima de uma das mesas de artes, encaixando-se entre suas pernas, exatamente como nos cenários que criava em sua mente durante as aulas de física.
Mizi interrompeu o beijo por um segundo, descendo para o pescoço de Sua, deixando beijos úmidos e marcas leves na pele pálida.
— Você percebe que agora todo mundo vai achar que você me domou, né? — Mizi murmurou contra a pele dela. — Minha reputação de "emo revoltada" foi pro lixo.
Sua soltou um suspiro trêmulo, passando os dedos pelos cabelos rosa e azul de Mizi.
— Deixa eles acharem o que quiserem. Desde que, quando a porta estiver fechada, você continue sendo minha.
Mizi parou e olhou para ela, um sorriso genuíno e um pouco bobo surgindo em seu rosto.
— Sua... você é muito mais manipuladora do que eu imaginava. Eu amo isso.
— E eu odeio o fato de que eu amo o quanto você é idiota — Sua retrucou, mas sorriu de volta, um sorriso raro e luminoso que fez o coração de Mizi errar a batida.
Elas ficaram ali por um tempo, no silêncio da sala de artes, trocando carícias que não cabiam no corredor da escola. Mizi sentia que, embora tivesse aceitado as rédeas, ela nunca tinha se sentido tão livre.
Enquanto isso, no refeitório, Ivan e Till dividiam um fone de ouvido, sentados em um canto afastado.
— Elas sumiram de novo — comentou Till, olhando para a porta. — Você acha que a Mizi vai sobreviver a essa "domesticação"?
Ivan riu, mastigando sua bala.
— A Mizi não está sendo domesticada, Till. Ela está finalmente encontrando o lugar dela. E a Sua... bem, a Sua está descobrindo que o caos pode ser muito mais divertido do que a literatura russa.
Till olhou para Ivan, um brilho de diversão em seus olhos verdes.
— E a gente? Quando é que a gente vai parar de se esconder no almoxarifado?
Ivan se aproximou, sussurrando no ouvido de Till.
— Quando você parar de ser um emo revoltado e admitir que gosta do meu sorriso irritante.
Till bufou, mas não se afastou.
— Eu te odeio, Ivan.
— Eu sei. É por isso que a gente funciona.
A Escola Preparatória Anakt continuava seu curso normal, mas nos bastidores, as peças estavam se movendo. Mizi e Sua, as inimigas juradas, agora compartilhavam um segredo que pesava mais do que qualquer livro didático. E Mizi, a garota que odiava estudar, tinha acabado de aprender a lição mais importante de sua vida: às vezes, perder o controle é a única forma de ganhar o que realmente importa.
Quando o sinal tocou novamente, elas saíram da sala de artes separadas por alguns minutos. Mizi voltou para o corredor com seu ar sarcástico de sempre, mas havia uma leveza em seus passos. Sua voltou para o seu grupo com o rosto sereno, mas com um brilho novo nos olhos roxos.
Elas se cruzaram perto da escada. Mizi não disse nada, apenas deu uma piscadela discreta. Sua respondeu com um leve aceno de cabeça e um rubor quase imperceptível.
A coleira estava lá, invisível para todos, mas sentida por ambas. E, pela primeira vez, Mizi não queria retirá-la. Ela queria ver até onde Sua a levaria.