I fucking hate you ( i am Crazy for you)
Vértigo, Vícios e Verdades Amargas
A segunda-feira na Escola Preparatória Anakt não amanheceu com o cheiro costumeiro de café barato e desinfetante de limão. Para Mizi, o ar parecia saturado de algo muito mais denso: fofoca. O boato que havia começado na tarde de sexta-feira, após o episódio em que ela — a indomável, sarcástica e preguiçosa Mizi — havia baixado a cabeça para as ordens de Sua, tinha se espalhado como um vazamento de gás. Silencioso, invisível e pronto para explodir na cara de qualquer um que acendesse um fósforo.
— Eu juro por Deus, Ivan, se mais uma pessoa me olhar como se eu tivesse acabado de colocar uma coleira de strass, eu vou cometer um crime de ódio — rosnou Mizi, chutando o armário com força. O cabelo rosa com pontas azuis estava preso em um coque frouxo, e seus olhos dourados brilhavam com uma irritação que beirava o maníaco.
Ivan, encostado no armário ao lado, mastigava um pirulito de morango com uma calma exasperante.
— Relaxa, "Mizizinha". O povo só está surpreso. Ver você obedecer a Sua foi como ver um gato pedindo desculpas para um rato. É contra as leis da natureza.
— Eu não obedeci! Eu só... não estava com paciência para o Kael — ela mentiu descaradamente, sentindo o rosto queimar.
— Sei. E eu sou o novo monitor de ética da escola — Ivan riu, mas parou abruptamente quando viu o movimento no final do corredor. — Falando no diabo... ou no anjo, dependendo de quem está segurando a guia.
Sua vinha caminhando com seu grupo. Luka falava sobre a probabilidade estatística de eventos sociais imprevisíveis, enquanto Hyuna ria de algo que Till resmungava. Sua, porém, estava em silêncio. Seus olhos roxos encontraram os de Mizi por um breve segundo, e a eletricidade foi tão forte que Mizi quase tropeçou nos próprios pés.
Mas o destino tinha um senso de humor sádico. Antes que os grupos se cruzassem, Kael, o mesmo idiota atlético da sexta-feira, surgiu do nada, bloqueando o caminho de Mizi com um sorriso de escárnio que faria qualquer um querer socá-lo.
— E aí, cadelinha? — Kael provocou, a voz alta o suficiente para que metade do corredor parasse. — Trouxe a guia hoje? Ou a Sua deixou você dar uma voltinha solta pelo pátio antes de te trancar no canil?
O sangue de Mizi subiu à cabeça com uma velocidade vertiginosa. A mão dela se fechou em um punho, as unhas cravando na palma. O sarcasmo que costumava ser sua armadura estava falhando, dando lugar a uma fúria crua. Ela ia avançar. Ela ia destruir aquele sorriso, não importava se fosse suspensa ou expulsa.
— Mizi.
A voz de Sua cortou o ar, fria e precisa como um bisturi. O grupo de Sua parou. Todos pararam.
Sua deu um passo à frente, posicionando-se entre Mizi e Kael, mas seus olhos estavam fixos apenas na garota de cabelo rosa. Havia um brilho de medo escondido na profundidade daquela íris roxa — um medo que Mizi reconheceu instantaneamente. Sua não tinha medo de Kael; ela tinha medo da escolha de Mizi.
— Seria em vão qualquer coisa que você estivesse pensando em fazer agora — disse Sua, a voz soando clara para quem quisesse ouvir. — O que nós temos, Mizi... o que quer que isso seja, depende exclusivamente de como você vai tratar essa situação aqui e agora.
Mizi sentiu como se tivesse levado um tiro. A pressão no seu peito era insuportável. Sua estava colocando tudo em jogo. Ela estava dizendo, na frente de Ivan, de Luka, de Hyuna e de cada aluno fofoqueiro daquele corredor, que havia um "nós". E ela estava deixando claro: se Mizi se revoltasse, se negasse, se voltasse ao seu papel de rebelde solitária para manter sua reputação de "durona", Sua não ficaria. Sua não se permitiria ser o segredo sujo de alguém que tinha vergonha de admitir que estava, enfim, rendida.
— Você vai mesmo deixar ela falar por você, Mizi? — Kael riu, sem perceber a gravidade do momento. — Cadê aquela marra toda? Vai negar que virou o brinquedinho da nerd melancólica ou vai assumir que perdeu a moral de vez?
O silêncio no corredor era tão denso que se podia ouvir o zumbido das lâmpadas fluorescentes. Ivan parou de mastigar, a expressão séria pela primeira vez na vida. Till apertou a alça da mochila, tenso. Sua sustentava o olhar, mas seus lábios tremiam levemente. Ela estava dando a Mizi a chance de ser livre, mas a liberdade significava perder a única pessoa que realmente a via.
Mizi sentiu a arma invisível contra sua têmpora. Se ela negasse, ela mantinha sua imagem de "fodona", mas perdia o calor de Sua. Se ela assumisse, ela colocava a coleira por vontade própria diante de todos.
Por um segundo, Mizi quase abriu a boca para mandar Sua calar a boca e dizer que não tinha nada com ninguém. O hábito de se proteger era forte. Mas então, ela lembrou do beijo no ginásio. Lembrou da pele pálida de Sua sob seus dedos e da forma como a garota melancólica parecia ser a única âncora em seu mundo caótico.
Mizi soltou um suspiro longo, relaxando os ombros. Ela deu um passo à frente, ignorando Kael completamente, e parou a centímetros de Sua.
— Você fala demais, sabia? — Mizi murmurou, mas seu olhar era de uma entrega absoluta. Ela então se virou para Kael, a expressão voltando a ser gélida e perigosa. — Escuta aqui, seu bosta. Se eu estou em uma coleira ou não, se eu obedeço ou deixo de obedecer, isso é um problema inteiramente meu e dela. O que eu tenho com a Sua não é da sua conta, nem da conta de ninguém desse corredor de merda.
Kael piscou, a boca aberta, sem reação.
— Agora — continuou Mizi, dando um passo intimidante na direção dele —, sai da minha frente antes que eu decida que a Sua não está com vontade de me impedir de quebrar a sua cara.
Kael vacilou, olhou ao redor, viu que ninguém estava do seu lado e, resmungando algo inaudível, saiu apressado.
Mizi não esperou os aplausos ou os cochichos. Ela agarrou o pulso de Sua e a puxou pelo corredor, passando por um Ivan que sorria como se tivesse ganhado na loteria e por um Till que parecia aliviado.
— Mizi, espera... — Sua tentou dizer, mas Mizi só parou quando chegaram à antiga sala de rádio, um cubículo abafado e esquecido no fim do bloco C, que vivia trancado mas que Mizi sabia abrir com um grampo de cabelo.
Ela empurrou Sua para dentro e trancou a porta. A escuridão era quebrada apenas por frestas de luz que vinham das persianas velhas.
— Você é louca? — Sua exclamou, recuperando o fôlego, o rosto já começando a ganhar aquele tom carmesim que Mizi adorava. — Você falou aquilo... na frente de todo mundo. Você basicamente confirmou os boatos!
— Você me deu um ultimato, Sua! — Mizi rebateu, aproximando-se, a respiração pesada. — Você me colocou contra a parede. O que você queria que eu fizesse? Que eu te deixasse ir embora?
— Eu achei que você ia negar — confessou Sua, a voz falhando. — Achei que sua imagem de rebelde era mais importante do que... do que eu.
— Nada é mais importante que você, sua idiota melancólica — Mizi rosnou, e antes que Sua pudesse responder, ela a prensou contra a mesa de som empoeirada.
O beijo não foi calmo. Foi uma explosão de alívio e posse. Mizi atacou os lábios de Sua com uma urgência que dizia tudo o que ela não conseguia colocar em palavras. Sua soltou um gemido abafado, as mãos subindo para os ombros de Mizi, puxando-a para mais perto, querendo fundir seus corpos.
Mizi desceu os beijos para o pescoço de Sua, mordiscando a pele macia, sentindo os arrepios da garota sob suas mãos.
— Você me deixou exposta — sussurrou Sua, a voz trêmula, a cabeça jogada para trás enquanto Mizi explorava a curva de seu ombro. — Todo mundo vai olhar... todo mundo vai saber...
— Deixa saberem — Mizi respondeu, a voz rouca, subindo as mãos pelas coxas de Sua, levantando a saia do uniforme. — Deixa eles olharem. Eles só vão ver o que eu quero que vejam. Mas aqui dentro... aqui ninguém vê o quanto você gosta disso.
Mizi apertou as coxas pálidas de Sua, sentindo a maciez da pele contra suas palmas quentes. Sua soltou um suspiro alto, as pernas envolvendo a cintura de Mizi por instinto, puxando-a para o centro de seu calor. Ela estava estressada, sentindo-se vulnerável e exposta, mas o prazer que Mizi proporcionava era um entorpecente que ela não conseguia recusar.
— Mizi... para... alguém pode ouvir — Sua tentou protestar, mas suas mãos estavam ocupadas demais puxando o cabelo rosa de Mizi, trazendo-a de volta para um beijo profundo e molhado.
— Ninguém vem aqui — Mizi murmurou entre os beijos, uma das mãos descendo para a bunda de Sua, apertando com força, arrancando um arquejo da garota. — Você é minha, Sua. No corredor, na sala, aqui... você é a única que tem a minha rédea. Então não reclama quando eu resolver te mostrar o quanto eu gosto de estar nela.
Mizi a puxou para mais perto, as mãos agora possessivas, explorando cada curva, cada centímetro daquela garota que ela passou anos fingindo odiar. Sua estava entregue, os olhos roxos nublados de desejo, o rosto vermelho de uma mistura de vergonha e luxúria. Ela odiava o controle que Mizi tinha sobre seus sentidos, mas amava a forma como Mizi a olhava — como se ela fosse a única coisa real em um mundo de cascas vazias.
As mãos de Mizi eram ágeis, subindo pela blusa de Sua, encontrando a pele quente das costas, enquanto seus lábios nunca deixavam os dela por muito tempo. Era uma dança de ódio transformado em algo muito mais perigoso.
— Eu ainda te odeio — Sua sussurrou, a voz embargada, enquanto Mizi distribuía beijos pelo seu colo.
— Eu sei — Mizi sorriu contra a pele dela, os olhos dourados brilhando na penumbra. — É por isso que o seu gosto é o melhor de todos.
Lá fora, o sinal tocou para a próxima aula, mas nenhuma das duas se moveu. No corredor, os boatos continuariam, as fofocas ganhariam novas versões e Kael provavelmente passaria o resto do ano evitando o olhar de Mizi. Ivan e Till continuariam seus encontros secretos no telhado, e Luka continuaria tentando explicar o inexplicável.
Mas naquela sala de rádio empoeirada, o tempo tinha parado. Mizi não era mais a rebelde sem causa, e Sua não era apenas a nerd melancólica. Elas eram apenas duas garotas que tinham descoberto que a pior forma de prisão era o silêncio, e que a melhor forma de liberdade era pertencer a alguém que tivesse a coragem de segurar a corda.
Mizi puxou o cabelo de Sua gentilmente, forçando-a a olhar nos seus olhos.
— Você está pronta para o que vem depois? — perguntou Mizi. — Porque agora que eu assumi, eu não vou soltar.
Sua respirou fundo, limpando uma lágrima de prazer que escorria pelo rosto vermelho.
— Eu nunca pedi para você soltar, Mizi. Só... tenta não me fazer passar tanta vergonha amanhã.
Mizi riu, um som vibrante e cheio de vida, antes de beijá-la novamente, selando um destino que, por mais caótico que fosse, era exatamente onde as duas queriam estar. A coleira podia ser de Sua, mas o coração que batia contra ela era, irrevogavelmente, de Mizi.