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I love you more than i love me

O Som do Vidro Quebrando

A segunda-feira chegou com um céu cinzento que parecia refletir perfeitamente o humor de Sua. O final de semana fora uma montanha-russa emocional. Mizi tinha aparecido em sua janela, pedira desculpas, e elas tinham passado horas conversando em voz baixa sob o luar. Sua sentia que, finalmente, a barreira de vidro entre elas havia se quebrado.

Mas Mizi era como o mercúrio: brilhante, fascinante e impossível de segurar.

Ao entrar no colégio, Sua sentiu o peso da atmosfera. Mizi estava no centro do pátio, cercada por um grupo de atletas e pelas mesmas garotas que a perseguiam na sexta-feira. Ela ria alto, o cabelo rosa e azul vibrando sob as luzes fluorescentes, e parecia ter voltado ao seu modo "estrela da escola". Quando viu Sua passar, Mizi apenas deu um aceno casual com a mão enfaixada e voltou a flertar abertamente com um garoto do time de basquete, soltando um comentário sarcástico que fez todos ao redor gargalharem.

Sua sentiu uma pontada no peito. Onde estava a Mizi que escalara sua janela? Onde estava a garota que dissera que o silêncio de Sua era seu refúgio?

— Ela é inacreditável — murmurou Till, parando ao lado de Sua. Ele estava com o cabelo cinza mais bagunçado que o normal e uma expressão de puro asco. — Ela te usa como porto seguro quando está na merda e depois volta a ser essa escrota popular.

— Não fala assim dela, Till — Sua tentou defender, mas sua voz soou fraca, sem convicção.

— Acorda, Sua! — Till exclamou, chutando uma lixeira de metal. — Ela não vai mudar. Ela se alimenta disso.

As aulas passaram como um borrão de tortura. Mizi não mandou bilhetes. Mizi não olhou para trás. Mizi agiu como se o final de semana tivesse sido um delírio coletivo. No intervalo, Sua viu Mizi rindo enquanto a garota do clube de artes tocava seu braço com intimidade. A paciência de Sua, alimentada por anos de melancolia silenciosa, finalmente atingiu o ponto de ebulição.

Quando o sinal para a última aula tocou e a sala ficou vazia por alguns instantes, exceto pelas duas, Sua não aguentou.

— Mizi, a gente pode conversar? — perguntou Sua, a voz trêmula.

Mizi, que estava guardando um pirulito que ganhara de alguém, olhou para ela com um tédio mal disfarçado.

— Agora não, Sua. Eu combinei de ir ver o treino do pessoal. Por que você está com essa cara? De novo esse drama?

O "drama" foi o gatilho.

— Drama? — Sua deu um passo à frente, os olhos roxos brilhando com uma fúria que ninguém sabia que ela possuía. — Você escala a minha janela, diz que eu sou a única pessoa real que você conhece, me beija e depois passa o dia seguinte me tratando como se eu fosse um móvel da escola?

Mizi suspirou, jogando a mochila no ombro.

— Porra, Sua, eu já pedi desculpas por sexta! Eu não posso ficar grudada em você o tempo todo. A escola inteira está de olho em mim agora que eu saí do armário. Eu tenho que aproveitar, caralho!

— Aproveitar? — Sua gritou, e as lágrimas começaram a cair, mas não eram as lágrimas bonitas de sempre. Eram lágrimas de ódio. — Você não está aproveitando, você está sendo uma egocêntrica de merda! Você gosta da atenção, Mizi. Você não gosta de mim, você gosta de como eu olho para você, porque eu te trato como se você fosse uma deusa, enquanto você me trata como um passatempo!

— Cala a boca! — Mizi rebateu, a voz subindo de tom, o sarcasmo dando lugar a uma agressividade defensiva. — Você é tão melancólica que suga a energia de qualquer lugar! Eu tentei, tá legal? Eu tentei ser a pessoa que você quer, mas você é sufocante com esse seu jeitinho de "ai, eu sofro tanto". É um porre!

— Se é um porre, por que não me deixa em paz de vez? — Sua soluçou, aproximando-se e empurrando o ombro de Mizi. — Você é covarde. Tem medo de que alguém veja que você é tão vazia quanto o resto dessa escola, então se esconde atrás desse olhar sedutor de merda!

— Pelo menos eu não sou uma morta-viva que se esconde atrás de livros de poesia porque tem medo de viver! — Mizi gritou, o rosto vermelho de raiva. — Você é patética, Sua!

Enquanto a gritaria ecoava na sala, no corredor logo atrás da porta, outra tensão explodia. Ivan e Till estavam sozinhos perto dos armários. Ivan, com sua postura social impecável, estava encostado na parede, observando Till com um sorriso irritante enquanto mordia um chocolate.

— Você devia parar de tentar ser o herói da Sua, Till — provocou Ivan. — Fica parecendo um cachorrinho raivoso. É fofo, de um jeito patético.

— Vai se foder, Ivan — Till rosnou, fechando o armário com força. — Você é igualzinho à Mizi. Dois parasitas que acham que o mundo gira em torno do próprio umbigo.

Ivan riu, dando um passo para o espaço pessoal de Till. O tom de voz dele mudou, ficando mais baixo, mais perigoso.

— Você fala muito de mim, Till. Já parou para pensar que talvez sua obsessão em me odiar seja só falta de coragem para admitir que você gosta de mim? Porque, honestamente, eu gosto de você. Gosto de como você fica irritado quando eu chego perto.

Till congelou. O rosto do rapaz de cabelos cinzas passou do branco para o vermelho em um segundo.

— O quê? Você tá delirando, seu merda! Eu te odeio! Eu te odeio com cada fibra do meu...

A frase de Till foi cortada pelo som de algo quebrando dentro da sala de aula — um vaso de flores ou talvez apenas a dignidade das duas garotas. O grito de Sua — "Eu te odeio, Mizi!" — ecoou pelo corredor.

Ivan e Till trocaram um olhar rápido e correram para dentro da sala.

Mizi estava parada perto da mesa do professor, com a respiração arfante, enquanto Sua estava encolhida perto da janela, chorando copiosamente.

— O que está acontecendo aqui? — Till perguntou, correndo para o lado de Sua e colocando o braço ao redor dela de forma protetora. — O que você fez com ela, sua vadia rosa?

— Não chama ela assim! — Ivan interveio imediatamente, postando-se à frente de Mizi. — A Sua é que começou a surtar do nada! A Mizi não fez nada de errado, ela só está vivendo a vida dela!

— Vivendo a vida dela? — Till rosnou, dando um passo em direção a Ivan. — Ela está destruindo a Sua! Ela é uma manipuladora, e você é o cachorrinho que limpa a sujeira dela!

— Olha como você fala comigo, Till — Ivan avisou, a voz fria, os olhos pretos brilhando. — Eu defendi você agora há pouco, mas não abusa. Você é um emo revoltado que não consegue lidar com o fato de que a sua melhor amiga prefere a Mizi a você.

— Ela não prefere a Mizi! Ninguém em sã consciência preferiria esse lixo humano! — Till gritou.

— Repete isso — Mizi disse, a voz rouca de raiva, tentando passar por Ivan. — Repete isso, seu rebelde de shopping!

— Chega! — Sua gritou, a voz falhando. — Saiam daqui! Todos vocês!

— Sua, eu estou te ajudando! — Till protestou.

— Eu não quero ajuda, Till! — Sua soluçou, olhando para Mizi com um olhar que misturava amor e repulsa. — Eu só quero que essa dor pare.

— Então para de ser tão fraca! — Mizi disparou, as palavras saindo antes que ela pudesse filtrá-las. — Para de chorar por tudo e cresce!

O silêncio que se seguiu foi cortante. Ivan, percebendo que Mizi tinha ido longe demais, tentou tocar no ombro dela, mas ela o sacudiu. Till estava com os punhos cerrados, pronto para avançar em Ivan, e Sua parecia ter sido atingida por um tiro físico.

— Saiam — repetiu Sua, com uma calma gélida que assustou até Mizi. — Agora.

Till olhou para Ivan com um ódio renovado, uma mistura de confusão pelo que Ivan dissera no corredor e a fúria pelo que estava vendo ali.

— Isso não acabou, Ivan — Till disse, a voz baixa. — E você, Mizi... nunca mais chegue perto dela.

— Eu vou para onde eu quiser — Mizi rebateu, recuperando sua máscara de sarcasmo, embora seus olhos dourados estivessem marejados. — Vamos, Ivan. Esse lugar está ficando deprimente demais, até para os meus padrões.

Ivan olhou para Till uma última vez — um olhar longo, carregado de algo que Till não queria decifrar — e seguiu Mizi para fora da sala.

Quando a porta se fechou, Till tentou tocar no ombro de Sua, mas ela se afastou, sentando-se no chão e abraçando os próprios joelhos.

— Sua... eu sinto muito — Till murmurou, sentindo-se impotente.

— Ela me chamou de patética, Till — Sua sussurrou para o vazio. — E o pior é que eu acho que ela tem razão. Eu sou patética por amar alguém que me trata como se eu fosse nada.

No corredor, Mizi caminhava a passos largos, ignorando as lágrimas que agora escorriam livremente. Ivan a seguia em silêncio por alguns metros, até que a segurou pelo braço.

— Mizi, para. Você pegou pesado.

— Eu sei, porra! — Mizi gritou, virando-se para ele. — Eu sei! Mas ela me olha como se eu fosse a salvação dela, Ivan! Eu não sou a salvação de ninguém! Eu mal consigo me salvar!

Ivan suspirou e a puxou para um abraço desajeitado.

— Você é uma idiota, sabia? — ele disse, com a voz suave. — E o Till é outro idiota. E eu... eu sou o maior idiota de todos por ter dito o que disse para aquele moleque de cabelo cinza.

Mizi se afastou, limpando o rosto com a manga da jaqueta.

— O que você disse para ele?

— Nada que importe agora — Ivan deu de ombros, voltando à sua expressão blasé, embora o coração ainda batesse rápido. — Vamos sair daqui. Preciso de açúcar. Muito açúcar.

Naquela segunda-feira, o terceiro ano do ensino médio parecia ter envelhecido dez anos em uma tarde. Os grupos estavam fragmentados, as palavras ditas não podiam ser retiradas, e o vidro, uma vez quebrado, deixava cacos que cortariam por muito tempo.

Sua ficou na sala escura, Till ficou no corredor vigiando a porta, e Mizi foi para casa com Ivan, sentindo que, pela primeira vez, o brilho das luzes da escola não era o suficiente para esconder o vazio que ela mesma tinha criado. A guerra estava declarada, e no campo de batalha dos sentimentos adolescentes, não haveria vencedores, apenas corações em ruínas.

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