I love you more than i love me
O Feitiço dos Cachos e o Silêncio das Armas
A manhã de terça-feira nasceu com uma luz cruel, daquelas que não permitem que ninguém se esconda sob a palidez da própria tristeza. Sua entrou na sala de aula sentindo-se como um fantasma. Seus olhos roxos estavam pesados, a pele mais alva do que o papel das poesias melancólicas que ela rabiscava compulsivamente para não gritar. Ela se sentou em seu lugar habitual no meio da sala, mas o vazio ao seu redor era ensurdecedor. Till e Ivan tinham faltado — provavelmente um reflexo da explosão da tarde anterior, ou talvez apenas a necessidade mútua de se manterem longe do epicentro do caos.
Luka e Hyuna já estavam sentados juntos, murmurando sobre algum trabalho de biologia, alheios à tempestade que havia devastado o grupo. Eles eram o porto seguro um do outro, uma bolha de normalidade que Sua invejava profundamente naquele momento.
Então, a porta da sala se abriu.
O burburinho das conversas paralelas morreu instantaneamente. Não foi apenas a entrada de Mizi; foi um evento atmosférico. Mizi não estava apenas bonita; ela parecia ter sido esculpida por uma divindade com senso de humor sarcástico. O cabelo longo, rosado com as pontas azuis, não estava liso como de costume. Ela havia feito um babyliss meticuloso, e os fios caíam em cachos definidos e volumosos que emolduravam seu rosto de uma forma hipnótica. Cada movimento de sua cabeça fazia as cores dançarem. Ela exalava uma aura de "deusa intocável", com aquele olhar sedutor que parecia dizer que o mundo era pequeno demais para ela.
Sua sentiu o estômago despencar. Como alguém podia ser tão cruel e tão bonita ao mesmo tempo? Ela tentou focar no livro à sua frente, mas sua mente era um cinema de cenários hipotéticos. Ela imaginava Mizi pedindo desculpas de joelhos; imaginava Mizi ignorando-a para sempre; imaginava-se levantando e gritando que a odiava, apenas para terminar a frase com um beijo.
O professor entrou, batendo palmas para dispersar o transe da turma.
— Bom dia, turma. Como hoje temos muitos faltantes, incluindo o senhor Ivan e o senhor Till, vamos fazer o trabalho de literatura em duplas. Organizem-se com quem está por perto.
Sua olhou para o lado. Hyuna e Luka já tinham as cabeças juntas sobre o livro. Ela estava sozinha. No fundo da sala, Mizi também estava sozinha, jogada na cadeira com uma perna cruzada sobre a outra, observando a unha pintada com um desdém fingido.
O silêncio entre as duas era uma corda esticada ao máximo. Mizi não queria ceder. O orgulho dela era tão grande quanto a beleza de seus novos cachos. Mas, ao olhar para a nuca de Sua, viu a fragilidade da garota, a forma como os ombros dela estavam encolhidos, e sentiu uma pontada de algo que ela se recusava a chamar de culpa, mas que ardia da mesma forma.
Com um suspiro pesado, Mizi se levantou. O som de suas botas ecoou no piso de madeira. Ela caminhou até a fileira de Sua com uma preguiça calculada.
— Ei — disse Mizi, a voz sedutora e rouca, mas sem o brilho sarcástico de sempre. — O idiota do Ivan não veio e o seu guarda-costas revoltado também não. Quer fazer essa porra comigo ou vai preferir ficar aí fingindo que é uma estátua de gelo?
Sua levantou o olhar devagar. Seus olhos roxos encontraram os dourados de Mizi. Por um segundo, Sua quis disparar um tiro verbal, dizer que preferia reprovar a passar um minuto ao lado daquela garota instável. Mas a visão de Mizi tão perto, com o perfume de morango e o cabelo cacheado roçando os ombros, desarmou qualquer defesa.
Sua não disse uma palavra. Ela apenas se levantou, os movimentos lentos e deliberados. Ela segurou as bordas de sua mesa e a arrastou pelo chão, produzindo um rangido estridente que fez a sala toda olhar. Ela parou a mesa exatamente ao lado da de Mizi, no fundo da sala, e sentou-se.
— Abre o livro na página quarenta e dois — disse Sua, a voz fria e cortante, sem olhar para o rosto da outra.
Mizi arqueou uma sobrancelha, sentando-se ao lado dela. O ar entre as duas estava carregado de eletricidade estática.
— Nossa, que recepção calorosa — murmurou Mizi, abrindo o livro com desleixo. — O cabelo ficou bom, não ficou? Eu sei que você reparou.
— O trabalho é sobre romantismo, Mizi. Foca no texto — Sua respondeu, embora seu coração estivesse batendo tão forte que ela temia que Mizi pudesse ouvi-lo.
— O romantismo é uma merda — Mizi bufou, inclinando-se para perto, fazendo um cacho rosado cair sobre a mesa de Sua. — "Sofrer por amor", "idealizar o outro"... parece a sua biografia, não acha?
Sua parou de escrever. Ela virou o rosto para Mizi, a poucos centímetros de distância.
— E a sua biografia seria o quê? — perguntou Sua, o tom de voz subindo. — "Como pisar nas pessoas e continuar sendo popular"? "Como ser uma covarde que se esconde atrás de babyliss"?
Mizi fechou o livro com força, o estalo ecoando na sala.
— Eu não sou covarde, Sua! Eu só não sou uma masoquista emocional como você. Eu gosto de viver, caralho! Eu gosto de ser vista!
— Você gosta de ser adorada! — Sua rebateu, a voz embargada. — Existe uma diferença. Você me usou para se sentir profunda na sexta-feira e me descartou na segunda porque a plateia estava maior do outro lado. Você é vazia, Mizi.
Mizi sentiu o sangue subir ao rosto. Ela queria gritar, queria sair daquela sala, mas o olhar de Sua — aquela mistura de dor e uma paixão que se recusava a morrer — a prendia no lugar.
— Eu não te usei — sussurrou Mizi, a voz perdendo a agressividade e ganhando uma vulnerabilidade perigosa. — Eu só... eu não sei como lidar com o jeito que você me olha. Você me olha como se eu fosse a única coisa que importa no universo, e isso me dá um medo do caralho, Sua. Porque se eu falhar com você, eu não vou ter ninguém para culpar a não ser eu mesma.
Sua sentiu o peito apertar. O ódio que ela tentava cultivar estava derretendo sob o calor da confissão de Mizi.
— Você já falhou — disse Sua, a voz agora mais suave, mas ainda triste. — Você me deixou esperando. Você me chamou de patética.
Mizi estendeu a mão, hesitante, e tocou a ponta dos dedos de Sua sobre a mesa. A pele de Sua estava gelada, como sempre.
— Eu sei. Eu sou uma babaca quando estou com medo. E eu estava com muito medo ontem — Mizi suspirou, enrolando um de seus novos cachos no dedo indicador. — Eu fiz esse cabelo hoje porque queria que você me olhasse e não conseguisse parar. Eu queria que você esquecesse as merdas que eu disse.
— Você acha que cachos resolvem tudo? — Sua perguntou, um meio sorriso triste surgindo nos lábios.
— Não resolvem tudo — Mizi deu um sorriso de canto, aquele olhar sedutor voltando a brilhar com uma pitada de esperança —, mas admita, eu estou uma deusa. É difícil ficar brava com alguém tão bonita.
Sua revirou os olhos, mas não afastou a mão.
— Você é impossível, Mizi.
— E você é teimosa — Mizi se aproximou mais, o cheiro de morango agora invadindo completamente o espaço de Sua. — Vamos fazer esse trabalho idiota. E depois... depois a gente conversa de verdade. Sem plateia. Sem Ivan, sem Till, sem ninguém. Só a gente.
— Você promete? — Sua perguntou, os olhos roxos buscando sinceridade nos dourados.
Mizi entrelaçou seus dedos nos de Sua, um gesto escondido sob o tampo da mesa.
— Prometo. E se eu quebrar a promessa, você tem permissão para cortar um desses meus cachos maravilhosos enquanto eu durmo.
Sua soltou uma risadinha curta, a primeira em dias.
— Eu faria isso com prazer.
— Eu sei que faria, sua gótica vingativa — Mizi riu, abrindo o livro novamente. — Agora, me explica o que esse tal de Álvares de Azevedo queria dizer com "morrer de amor", porque para mim isso parece só falta de um bom psicólogo.
Enquanto as duas mergulhavam no trabalho, o clima na sala parecia ter mudado. Hyuna olhou para trás e deu um joinha discreto para Sua, que apenas balançou a cabeça. Luka continuou escrevendo, mas com um leve sorriso de satisfação ao ver a harmonia voltando, mesmo que fosse uma harmonia frágil e carregada de faíscas.
A aula seguiu, e embora o mundo lá fora ainda fosse complicado, e a briga com Till e Ivan ainda pairasse como uma sombra, ali no fundo da sala, entre sussurros sobre poetas mortos e toques de dedos escondidos, Mizi e Sua estavam construindo algo novo. Não era mais o sonho de algodão-doce de Sua, nem a festa superficial de Mizi. Era algo real, imperfeito e terrivelmente magnético.
— Mizi? — chamou Sua, enquanto anotava uma citação.
— Fala, poetisa.
— O cabelo... realmente ficou muito bom.
Mizi abriu um sorriso radiante, aquele que fazia o coração de Sua errar a batida.
— Eu sei, Sua. Eu sempre sei.
E pela primeira vez naquela semana, a melancolia de Sua não parecia um peso, mas apenas uma cor a mais na paleta vibrante e caótica que era estar perto de Mizi. A deusa dos cachos rosados tinha voltado, mas dessa vez, ela parecia disposta a compartilhar seu trono com a menina dos olhos roxos.