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I love you more than i love me

O Doce Amargor da Realidade

A manhã de quarta-feira trazia consigo aquele cheiro característico de escola: uma mistura de desinfetante barato, papel velho e a ansiedade coletiva de centenas de adolescentes. Sua entrou na sala de aula com os ombros encolhidos, o livro de poesias apertado contra o peito como se fosse um escudo medieval. Seus olhos roxos, ainda levemente inchados, buscaram o fundo da sala por puro instinto.

Mizi já estava lá. O cabelo rosado com pontas azuis havia voltado ao liso habitual, caindo como uma cascata sedosa sobre os ombros. Ela conversava com Ivan, que devorava um pacote de gomas ácidas enquanto balançava as pernas longas com um tédio elegante. Till, sentado do outro lado, mantinha a cabeça baixa, rabiscando o caderno com tanta força que a ponta do grafite certamente estava prestes a quebrar.

Sua suspirou, sentando-se em seu lugar no meio da sala. Ela já conhecia o roteiro. Mizi pediria desculpas, teria um momento de vulnerabilidade à noite e, assim que o sol nascesse, voltaria a ser a força da natureza que orbitava em torno de todos, menos dela. A melancolia de Sua era como uma manta pesada; era confortável em sua tristeza, pois a tristeza nunca a surpreendia.

De repente, a porta da sala se abriu com um estrondo suave. Uma garota do segundo ano, conhecida por ser uma das líderes de torcida mais populares, entrou com um sorriso radiante. Ela ignorou o professor e caminhou direto até a mesa de Mizi.

— Mizi! — chamou a garota, segurando o braço da rosada com uma intimidade que fez o estômago de Sua dar um nó. — Eu comprei ingressos para aquele festival de música no fim de semana. Você vai lanchar comigo no intervalo para a gente combinar os detalhes, não vai?

Ivan parou de mastigar, arqueando uma sobrancelha para a amiga. Ele já estava pronto para soltar um comentário sarcástico sobre como Mizi adorava colecionar convites. Till, do outro lado, levantou a cabeça, os olhos verdes faiscando de raiva, pronto para soltar o primeiro palavrão do dia e esculhachar a "falsidade" da garota de cabelo rosa.

Sua apenas baixou o olhar para o seu livro, sentindo aquela pontada familiar de invisibilidade. "Lá vamos nós de novo", pensou.

— Valeu pelo convite, de verdade — a voz de Mizi soou pela sala, profunda e terrivelmente calma. — Mas eu já tenho planos para o intervalo. E para o fim de semana também.

O silêncio que se seguiu foi tão denso que se podia ouvir o tique-taque do relógio na parede. A garota do segundo ano piscou, confusa.

— Planos? Com quem?

— Com alguém que não é da sua conta — Mizi respondeu com um sorriso de canto, mas não era o seu sorriso sedutor de "caça"; era algo mais afiado, mais definitivo.

Mizi se levantou, pegando sua mochila. Ela caminhou pelo corredor central da sala sob o olhar estupefato de todos. Ao passar pela mesa de Sua, ela não parou, mas sua mão deslizou algo sobre a madeira clara.

Sua olhou para baixo. Sobre seu caderno de anotações, repousava uma barra de chocolate Milka de caramelo salgado — o seu favorito — com um pequeno bilhete colado no verso.

*“Para de ler essas tragédias por cinco minutos e come algo doce. Me espera no portão depois da aula. Não aceito não como resposta. — M.”*

Sua sentiu o rosto queimar instantaneamente. Ela olhou para trás e viu Mizi sentando-se novamente ao lado de um Ivan boquiaberto.

— Que porra foi essa, Mizi? — Ivan sussurrou, rindo de nervoso. — Você acabou de dar um fora na capitã das líderes de torcida por causa da poetisa gótica?

— Cala a boca, Ivan — Mizi resmungou, embora houvesse um brilho divertido em seus olhos dourados. — Eu só cansei de barulho. Gosto mais de silêncio agora.

Till, que observava a cena com os punhos cerrados, relaxou os ombros lentamente. Ele olhou para Sua, que escondia o rosto atrás do chocolate, e depois para Mizi. Pela primeira vez em três anos, o rebelde revoltado não encontrou um palavrão para descrever o que sentia.

O resto do dia passou como um sonho febril. Quando o último sinal tocou, Sua guardou suas coisas com as mãos trêmulas. Ela caminhou até o portão, esperando encontrar Mizi cercada por uma multidão, mas a garota estava sozinha, encostada em um poste, chutando uma pedrinha.

— Demorou, hein? — Mizi disse, aproximando-se. Ela não usou o olhar sedutor de sempre; havia algo mais suave em sua expressão.

— Eu... eu não achei que você estivesse falando sério — admitiu Sua, apertando a alça da mochila.

— Eu sempre falo sério quando envolve chocolate caro — Mizi riu, pegando a mão de Sua. — Minha mãe viajou a trabalho. A casa está vazia. Vamos?

O trajeto até a casa de Mizi foi feito em um silêncio confortável, quebrado apenas pelos comentários sarcásticos de Mizi sobre os professores. Quando entraram no apartamento, Sua sentiu o perfume de Mizi em cada canto — um cheiro de morango, incenso e algo que lembrava liberdade.

— Fica à vontade — disse Mizi, jogando a mochila no sofá. — Quer água? Alguma coisa para comer? Eu sou péssima na cozinha, mas o Ivan me ensinou a fazer um sanduíche que não mata ninguém.

— Estou bem, obrigada — Sua sentou-se na beirada do sofá, sentindo-se pequena naquele ambiente tão vibrante.

Mizi caminhou até ela e sentou-se no chão, bem entre as pernas de Sua, apoiando as costas no sofá. Ela olhou para cima, os olhos dourados encontrando os roxos.

— Você ainda está brava comigo? — perguntou Mizi, a voz rouca e baixa.

— Não estou brava — Sua suspirou, criando coragem para tocar os cabelos rosados de Mizi. — Só estou... cansada, Mizi. Cansada de não saber quem você vai ser amanhã.

Mizi fechou os olhos ao sentir o toque dos dedos de Sua.

— Amanhã eu vou ser a mesma idiota de sempre — sussurrou Mizi. — Mas eu quero ser a sua idiota. Eu sei que eu sou um caos, Sua. Eu falo palavrão, eu gosto de atenção, eu sou sarcástica... mas quando eu fecho os olhos à noite, é o seu rosto que eu vejo. Não é o daquelas garotas do corredor.

Sua sentiu o coração acelerar. Ela se inclinou para frente, diminuindo a distância entre elas.

— Por que eu? — perguntou Sua em um sussurro. — Eu sou melancólica, eu sou quieta, eu não sou popular...

— Porque você é real — Mizi respondeu, levantando-se para ficar de joelhos no sofá, ficando cara a cara com Sua. — Todo mundo naquela escola é feito de plástico. Você é feita de poesia e de verdade. E eu... eu estou perdidamente apaixonada por essa verdade.

Mizi aproximou o rosto, o nariz roçando o de Sua. O hálito quente de Mizi tinha um leve toque cítrico.

— Posso? — perguntou Mizi, a voz carregada de uma sensualidade que agora não era para a plateia, mas apenas para Sua.

Sua não respondeu com palavras. Ela envolveu o pescoço de Mizi com os braços e a puxou para um beijo. Não foi como o beijo do sonho, suave e etéreo. Este era real. Tinha gosto de urgência, de chocolate Milka e de anos de desejo reprimido. Mizi soltou um gemido baixo contra os lábios de Sua, segurando sua cintura com firmeza, puxando-a para mais perto, como se quisesse fundir suas almas.

Elas se separaram ofegantes, as testas coladas.

— Porra... — Mizi murmurou, rindo contra os lábios de Sua. — Você beija muito melhor do que eu imaginei.

— E você fala muito palavrão — rebateu Sua, com um pequeno sorriso, o primeiro sorriso de felicidade genuína que Mizi via nela.

— É o meu charme, gatinha — Mizi piscou, o olhar sedutor voltando, mas agora cheio de carinho.

Elas passaram o resto da tarde ali, no sofá, dividindo o que restava do chocolate e conversando sobre coisas que nunca tinham dito a ninguém. Mizi confessou que Ivan era seu único confidente sobre sua sexualidade porque tinha medo de perder o "trono" da escola, e Sua confessou que escrevia poemas sobre os olhos de Mizi desde o primeiro ano.

— Você é muito brega, Sua — Mizi riu, deitando a cabeça no colo da garota.

— E você ama isso — Sua respondeu, acariciando o rosto pálido de Mizi.

— Amo — admitiu Mizi, fechando os olhos. — Amo pra caralho.

Lá fora, o mundo continuava barulhento, cheio de fofocas e expectativas escolares. Mas ali, naquele apartamento silencioso, o caos de Mizi tinha finalmente encontrado a paz na melancolia de Sua. E, pela primeira vez, nenhuma das duas queria que o dia acabasse.

— Ei, Sua? — chamou Mizi, quase pegando no sono.

— Sim?

— Amanhã, na escola... eu vou sentar com você no meio da sala.

Sua sorriu, sentindo uma lágrima de alívio escapar.

— O Ivan vai ficar com ciúmes.

— Que ele se foda — Mizi murmurou, abraçando a cintura de Sua. — Ele que vá se entender com o Till. Eu só quero ficar aqui.

E no silêncio daquela tarde, entre o cheiro de morango e o sabor de caramelo salgado, Sua percebeu que a realidade, apesar de suas arestas e dores, podia ser infinitamente mais bonita do que qualquer sonho. Ela não era mais a menina que chorava poesia; ela era a menina que vivia o amor da deusa rosada. E isso era mais do que suficiente.

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