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I love you more than i love me

O Doce Veneno da Rotina e o Vazio do Quarto

— Pelo amor de Deus, Mizi, arruma um quarto ou um motel, porque esse melaço já está me dando diabetes precoce — Ivan revirou os olhos, jogando uma bolinha de papel na direção de Mizi, que estava praticamente deitada no ombro de Sua no meio da aula de Geografia.

Mizi nem se deu ao trabalho de se afastar. Ela apenas apertou mais a mão de Sua sob a mesa e lançou aquele olhar sedutor e perigoso para o amigo, com um sorriso de canto que prometia caos.

— Inveja é foda, né, Ivan? — Mizi retrucou, a voz carregada de deboche. — Se você passasse menos tempo enchendo o meu saco e mais tempo tomando coragem para admitir que quer que o Till te jogue contra o armário, talvez não estivesse tão amargo.

A sala inteira pareceu prender a respiração. Till, que estava sentado algumas fileiras à frente, travou os ombros instantaneamente, o pescoço ficando vermelho sob o cabelo cinza bagunçado. Ivan, por sua vez, nem piscou, embora tenha mastigado seu pirulito de cereja com uma força desnecessária.

— Você fala demais, sua piranha rosa — Ivan disse, voltando a rabiscar o caderno. — Eu só prezo pelo decoro acadêmico.

— Decoro acadêmico o caralho — Mizi riu, voltando sua atenção para Sua, que estava com o rosto escondido entre os cabelos pretos, tentando processar a audácia da namorada. — Relaxa, gatinha. Eles só estão com inveja porque eu tenho a garota mais linda da escola e eles só têm problemas de raiva reprimida.

Sua deu um sorriso tímido, sentindo o calor da mão de Mizi. O dia na escola seguiu assim: um festival de trocas de olhares, bilhetinhos passados por baixo da mesa e a sensação inebriante de que o segredo agora era uma bandeira hasteada. Luka e Hyuna apenas observavam de longe, com Luka ajustando os óculos e comentando algo formal sobre "hormônios sazonais", enquanto Hyuna dava risadinhas e incentivava o caos.

Quando o sinal da saída finalmente tocou, o grupo se reuniu no portão principal. O sol da tarde estava forte, refletindo no asfalto quente.

— Tô com uma fome que parece que um buraco negro abriu no meu estômago — anunciou Ivan, limpando o suor da testa. — Mizi, vamos ali no trailer do seu Jorge comer aquele podrão completo? Aquele que vem com tudo que a vigilância sanitária proibiria.

Mizi animou-se na hora. Ela adorava comida de rua, o oposto de sua aura de garota perfeita.

— Demorou! Vamos, Sua? — Mizi olhou para a namorada, balançando as mãos unidas.

Sua fez uma careta involuntária. A ideia de comer um sanduíche gorduroso em um trailer de calçada, com maionese caseira de procedência duvidosa, não combinava nem um pouco com seu estômago sensível ou sua vibe melancólica.

— Ah, Mizi... eu não gosto muito de comida assim. Acho que vou para casa.

Mizi parou, fazendo um biquinho dramático que derreteria até uma estátua de gelo.

— Ah, não, gatinha! Não me deixa sozinha com o Ivan, ele vai ficar falando de teorias da conspiração ou de como o Till é um "rebelde incompreendido". Eu faço um trato: a gente para naquele quiosque de sushi no caminho, eu compro um combo de salmão pra você e a gente senta na praça. Eu e o Ivan comemos o veneno e você come sua comida chique. Eu pago.

Sua hesitou, mas o olhar de Mizi era magnético. Era impossível dizer não para aqueles olhos dourados.

— Tudo bem — cedeu Sua, ganhando um beijo estalado na bochecha como recompensa.

O almoço foi caótico. Ivan e Mizi competiam para ver quem conseguia dar a maior mordida no sanduíche sem derrubar milho na roupa, enquanto Sua comia seus sashimis delicadamente, observando os dois com uma mistura de horror e fascínio. Eles falavam palavrão, riam de piadas internas e agiam como os melhores amigos que eram. Ivan, apesar de irritante, era genuinamente "gente boa", e Sua começou a entender por que Mizi confiava tanto nele.

Depois de deixarem Sua em casa, com a promessa de Mizi de que ligaria mais tarde, os dois amigos seguiram para a casa de Ivan. Mizi ia dormir lá, uma tradição de anos que nem o namoro novo ia quebrar.

A casa de Ivan era o reflexo do dono: um caos organizado, com embalagens de doces espalhadas por todo lado e posters de bandas de rock antigo. Assim que entraram no quarto, Mizi se jogou na cama dele, tirando os sapatos.

— Porra, Ivan, eu tô morta — Mizi suspirou, olhando para o teto.

— Imagino. Carregar o peso de ser o ícone gay da escola deve cansar as costas — Ivan retrucou, sentando-se no computador e abrindo um jogo qualquer. — Mas falando sério... você tá feliz, né? Com a gótica.

Mizi sorriu, um sorriso real, sem a máscara de sedutora.

— Tô, Ivan. Pra caralho. Ela é... diferente de tudo.

— É, eu percebi. Você ficou até mais suportável — ele brincou, mas havia carinho na voz.

Enquanto isso, do outro lado da cidade, o silêncio na casa de Sua era absoluto. Seus pais estavam trabalhando até tarde, e o vazio do quarto parecia maior do que o normal. A adrenalina do dia estava baixando, dando lugar àquela melancolia que era sua velha companheira.

Sua entrou no banho, deixando a água quente relaxar seus músculos. O vapor preenchia o box, e sua mente, inevitavelmente, voltou para Mizi. Ela lembrou do toque de Mizi na noite anterior, daquela intensidade no banheiro, da forma como Mizi a fizera sentir coisas que ela nem sabia que existiam.

Fechou os olhos, encostando a testa nos azulejos frios. Sua mão desceu, movida por uma memória muscular e um desejo latente. Ela tentou recriar o que sentira, tentou imaginar os dedos de Mizi, o cheiro de morango, a voz rouca comandando seus gemidos.

Mas era diferente.

Por mais que tentasse, o toque de suas próprias mãos parecia mecânico, vazio. Faltava o fogo, faltava a provocação, faltava a conexão elétrica que só Mizi conseguia estabelecer. O prazer que antes fora uma explosão agora era apenas uma fricção frustrante.

— Não é a mesma coisa... — sussurrou para si mesma, a voz ecoando no banheiro.

Frustrada e sentindo-se estranhamente patética, ela parou. Desligou o chuveiro, sentindo um frio súbito. Secou-se rápido e vestiu um pijama largo, sentindo que sua pele ainda queimava, mas não de prazer, e sim de uma carência que ela não sabia como saciar sozinha.

Ao sair do banheiro, o quarto parecia ainda mais escuro. Sua deitou-se na cama, mas o lado vazio do colchão parecia gritar. Ela puxou a coberta pesada até o queixo, sentindo o cheiro do próprio sabonete, que não era o cheiro de Mizi.

A solidão, que antes era seu refúgio para ler e pensar, agora parecia uma prisão. Ela lembrou de Mizi rindo com Ivan, de Mizi sendo o centro das atenções, e uma insegurança boba, mas dolorosa, apertou seu peito. "Ela deve estar se divertindo tanto com o Ivan agora", pensou. "Ela nem deve estar sentindo esse vazio."

Sua agarrou a coberta com força, afundando o rosto no travesseiro. As lágrimas, sempre prontas para emergir em seus olhos roxos, começaram a cair silenciosamente. Não era um choro de tristeza profunda, era um choro de saudade aguda, de uma dependência emocional que se formara rápido demais, como uma droga que ela provara uma única vez e agora não conseguia mais viver sem.

— Eu sinto tanta falta dela — soluçou contra o tecido. — Por que dói tanto ficar longe por algumas horas?

Ela se sentia pequena, vulnerável, exatamente como a garota melancólica que Mizi dizia amar, mas que ela mesma detestava ser naqueles momentos de fraqueza.

Enquanto isso, na casa de Ivan, Mizi estava no meio de uma partida intensa de videogame, gritando palavrões e rindo enquanto Ivan tentava derrubá-la da cadeira.

— Toma essa, seu otário! — Mizi gritou, comemorando uma vitória virtual.

Ivan riu, jogando o controle de lado.

— Você é muito apelona, Mizi. Credo.

Mizi sentou-se no chão, pegando o celular. Não havia mensagens novas de Sua. Ela sentiu uma pontada de preocupação, mas logo a afastou. "Ela deve estar lendo ou dormindo", pensou. Mizi amava Sua, mas sua forma de lidar com a vida era o barulho, o movimento. Ela não entendia que, no silêncio do quarto ao lado, sua namorada estava desmoronando de saudade.

— Vou ligar pra ela rapidinho — disse Mizi, levantando-se.

— Vai lá, vai lá. Não esquece de dizer que eu mandei ela parar de ser gótica e virar gente — Ivan brincou, já abrindo um pacote de salgadinho.

Mizi foi para a varanda do apartamento de Ivan. O vento da noite balançou seu cabelo rosa. Ela discou o número de Sua.

No quarto escuro, o celular de Sua vibrou sobre a mesa de cabeceira, iluminando o teto com uma luz branca e fria. Sua esticou a mão trêmula e atendeu, tentando controlar a respiração para não parecer que estava chorando.

— Oi... — a voz de Sua saiu baixa, quase um sussurro.

— Ei, gatinha — a voz de Mizi veio do outro lado, quente e cheia de vida. — Só liguei pra dizer que o Ivan é um perdedor e que eu ganhei dele três vezes seguidas. E também... pra dizer que eu queria que você estivesse aqui. O sanduíche dele tava horrível, o sushi com você teria sido melhor.

Sua fechou os olhos, deixando uma lágrima cair. O som da voz de Mizi era como um bálsamo.

— Eu também queria estar aí, Mizi — Sua disse, e por mais que tentasse esconder, o tom melancólico estava lá.

— Você tá bem? Tá com aquela voz de quem tá pensando demais em poesia triste.

— Estou bem. Só... com saudade.

Mizi silenciou por um momento. Ela conhecia aquele tom.

— Escuta, Sua. Amanhã eu passo aí cedo pra gente ir juntas pra escola, tá? E eu prometo que vou te dar tantos beijos que o Till vai querer bater na gente de novo.

Sua soltou uma risadinha fraca.

— Tudo bem. Eu vou te esperar.

— Dorme bem, gatinha. Amo você.

— Também te amo, Mizi.

Ao desligar o celular, Sua sentiu o peito um pouco menos apertado, mas a saudade ainda estava lá, uma presença física. Ela se encolheu na coberta, sentindo o eco da voz de Mizi em sua mente. A noite seria longa, e o vazio do quarto ainda a assombrava, mas a promessa do amanhã era a única coisa que a mantinha inteira.

Na casa de Ivan, Mizi voltou para dentro, sentindo um peso estranho.

— Ela tá bem? — perguntou Ivan, percebendo a mudança no semblante da amiga.

— Tá. Mas ela é tão... sensível, Ivan. Às vezes eu sinto que se eu soprar muito forte, ela quebra.

— Ela não quebra, Mizi — Ivan disse, sério por um momento. — Ela só sente as coisas de um jeito que a gente não entende. Agora cala a boca e vamos jogar outra, eu vou te destruir dessa vez.

Mizi sorriu, tentando afastar a preocupação. O caos da amizade com Ivan era seu equilíbrio, mas o silêncio de Sua era seu destino. E enquanto o terceiro ano do ensino médio seguia seu curso implacável, os seis amigos continuavam suas danças particulares de amor, ódio e tudo o que havia no meio, sem saber que o amanhã sempre trazia novas feridas e novas formas de curá-las.

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