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I love you more than i love me

O Aroma de Morango e a Promessa do Portão

A manhã de quinta-feira surgiu com uma luz dourada que atravessava as frestas da persiana de Sua, desenhando linhas de poeira dançante no ar. Ela não precisou do despertador. A antecipação era um motor silencioso que a mantinha alerta desde as primeiras horas da madrugada. Após uma noite de saudades agudas e silêncios pesados, a promessa de Mizi era a única coisa que importava.

Sua vestiu o uniforme com um cuidado quase ritualístico. Alisou a saia plissada, ajeitou a gola da camisa e passou um pouco de hidratante labial, olhando-se no espelho com aquela melancolia habitual que, hoje, estava tingida de um brilho de expectativa. Ela ainda se sentia pequena, ainda sentia que a qualquer momento o sonho poderia evaporar, mas o peso do chocolate Milka que Mizi lhe dera no dia anterior, ainda guardado na mochila, servia como prova física da realidade.

Quando o relógio marcou o horário combinado, Sua desceu as escadas. Seu coração batia contra as costelas como um pássaro engaiolado. Ao abrir o portão de ferro da frente de sua casa, ela parou.

Mizi estava lá.

Ela não estava com Ivan, nem com o grupo habitual. Estava sozinha, encostada no muro, vestindo a jaqueta da escola aberta sobre uma camiseta branca que parecia destacar ainda mais o rosa vibrante de seu cabelo. Ela mascava um chiclete com aquele ar de desdém sedutor que fazia metade da escola suspirar, mas, assim que viu Sua, o chiclete parou. Seus olhos dourados brilharam com uma intensidade que fez as pernas de Sua fraquejarem.

— Você demorou exatamente três minutos a mais do que o combinado, gatinha — disse Mizi, a voz rouca e carregada daquele sarcasmo que, agora, Sua sabia ser puro afeto.

Sua não teve tempo de responder. Mizi não deu espaço para saudações formais ou conversas sobre o clima. Com um movimento rápido e fluido, a garota de cabelos rosa avançou, segurando Sua pelos ombros e empurrando-a com firmeza contra o portão de ferro. O som do metal batendo ecoou na rua deserta.

— Mizi... — Sua começou, mas o nome foi abafado pelos lábios de Mizi que colidiram com os seus.

Foi um beijo faminto, urgente, como se Mizi também tivesse passado a noite lutando contra o mesmo vazio. Mizi não beijava com delicadeza; ela beijava como se quisesse tomar posse de cada pensamento de Sua. Suas mãos subiram para o rosto da garota mais baixa, os dedos se embrenhando nos cabelos pretos, enquanto o beijo se aprofundava, quente e exigente.

Mizi desceu o beijo para o maxilar de Sua, mordiscando a pele ali antes de mergulhar no pescoço. Sua soltou um suspiro trêmulo, jogando a cabeça para trás, as mãos agarrando desesperadamente o tecido da jaqueta de Mizi.

— Eu disse que ia te buscar — sussurrou Mizi contra a pele dela, a voz vibrando diretamente em seus nervos.

Mizi continuou a trilha de fogo, dando vários beijos curtos e pressionados na clavícula de Sua, marcando território de uma forma que fazia a garota melancólica sentir-se, pela primeira vez, o centro absoluto de um universo caótico.

— Mizi, a gente... a gente vai se atrasar — Sua conseguiu dizer, embora não fizesse o menor esforço para se afastar.

Mizi parou, o rosto a milímetros do dela, um sorriso vitorioso nos lábios. Ela ajeitou a gola do uniforme de Sua, deu um último selinho rápido e começou a caminhar em direção à escola, balançando a mochila no ombro com aquela indiferença fingida.

Mas Sua não se moveu. A onda de saudade da noite anterior ainda estava ali, e os beijos de Mizi só haviam servido para abrir a comporta. Antes que Mizi pudesse dar o terceiro passo, Sua a segurou pelo braço, puxando-a de volta.

Mizi virou-se, surpresa, mas antes que pudesse dizer algo, Sua envolveu o rosto da rosada com as duas mãos. Com uma coragem que raramente demonstrava, Sua começou a cobrir o rosto de Mizi com beijos — na testa, nas bochechas, na ponta do nariz. Eram beijos suaves, mas carregados de uma adoração silenciosa.

Por fim, Sua enterrou o rosto no ombro de Mizi, abraçando-a com força, aproveitando o fato de ser mais baixa para se esconder na curva do pescoço da outra.

— Eu senti tanto a sua falta — sussurrou Sua, a voz abafada pelo tecido da jaqueta. — O quarto estava tão vazio... eu odeio ficar sem você agora.

Mizi paralisou por um segundo. O sarcasmo sumiu. A fachada de garota popular e intocável derreteu diante da vulnerabilidade crua de Sua. Ela envolveu a cintura da namorada, apertando-a contra si, e fechou os olhos, aspirando o cheiro de sabonete e poesia que Sua exalava.

— Eu também senti, Sua — confessou Mizi, a voz agora suave, sem nenhuma provocação. — O Ivan é um idiota e o videogame é chato quando eu não tenho você pra me ver ganhando.

Elas ficaram ali por um tempo, um abraço que parecia querer parar o relógio. Quando finalmente se separaram, Mizi entrelaçou seus dedos aos de Sua, e elas começaram a caminhada para a escola.

Ao cruzarem os portões do colégio, a dinâmica mudou, mas não da forma que Sua temia. Mizi não soltou sua mão. Pelo contrário, ela caminhou pelo pátio central com a cabeça erguida, desfilando com Sua ao seu lado como se estivesse exibindo o troféu mais valioso do mundo.

— Olha lá — sussurrou um garoto do segundo ano, cutucando o amigo. — A Mizi e a garota dos livros... elas estão mesmo juntas?

Mizi ouviu e apenas lançou um olhar sedutor e mortal na direção dos dois, fazendo-os desviar o olhar instantaneamente.

— Deixa eles olharem, gatinha — disse Mizi para Sua. — Eles só queriam ter a sorte que eu tenho.

Na sala de aula, a cena se repetiu. Mizi arrastou sua cadeira para o lado da de Sua no meio da sala, ignorando seu lugar habitual no fundo com Ivan. Ivan, que já estava sentado lá, apenas deu de ombros e abriu um pirulito, lançando um olhar cúmplice para Mizi e um aceno de cabeça para Sua.

— Bom dia, pombinhas — provocou Ivan, a voz alta o suficiente para metade da sala ouvir. — O melaço continua hoje ou eu posso ter a minha amiga de volta por cinco minutos?

— Esquece, Ivan — Mizi respondeu, sentando-se e jogando o braço por cima do ombro de Sua. — Ela é minha agora. Procura o Till e vai encher o saco de outra pessoa.

Till, que estava entrando na sala naquele momento, parou bruscamente ao ver as duas tão próximas. Seus olhos verdes faiscaram de uma mistura de proteção e irritação, mas ao ver o pequeno sorriso no rosto de Sua — um sorriso que ele raramente via —, ele apenas bufou e sentou-se em seu lugar, chutando a perna da mesa.

— Vê se não faz ela chorar, Mizi — resmungou Till, abrindo o caderno com violência.

— Eu não vou fazer ela chorar, emo revoltado — Mizi rebateu, piscando para ele. — Eu só vou fazer ela feliz. É diferente.

Durante a aula de Literatura, a professora falava sobre o Romantismo, mas Sua mal conseguia prestar atenção. Mizi passara a aula inteira fazendo carinho em sua nuca ou desenhando corações distraídos no verso da mão de Sua com uma caneta azul. Era um exibicionismo doce, uma forma de Mizi dizer ao mundo que aquela garota melancólica pertencia a ela.

No intervalo, o grupo se reuniu no pátio. Hyuna e Luka estavam sentados em um banco, com Hyuna tentando fazer Luka rir de alguma fofoca da internet. Quando Mizi e Sua se aproximaram, ainda de mãos dadas, Hyuna deu um grito de empolgação.

— Ah, meu Deus! Olha só vocês! — Hyuna levantou-se, batendo palmas. — Eu sabia que a Mizi ia acabar caindo nos encantos da nossa poetisa.

— Quem caiu em que encanto? — Mizi perguntou, sentando-se no banco e puxando Sua para o seu colo, sem a menor cerimônia.

Sua ficou vermelha, mas não protestou. Sentar no colo de Mizi no meio do pátio era como declarar guerra à normalidade da escola, e ela estava começando a gostar daquela rebeldia.

— Você é muito exibida, Mizi — disse Luka, ajustando os óculos com sua calma formal. — Mas admito que a estabilidade emocional da Sua parece ter melhorado significativamente nas últimas vinte e quatro horas.

— Estabilidade emocional é o cacete — Ivan interveio, chegando com um pacote de salgadinho. — O nome disso é fogo, Luka. Fogo e falta de vergonha na cara.

— Cala a boca, Ivan! — Mizi e Sua disseram em uníssono, o que fez o grupo inteiro cair na risada, até mesmo Till, que soltou um riso curto e disfarçado.

O intervalo passou em uma bolha de felicidade que Sua nunca achou possível. Mizi agia como o namorado protetor e a namorada sedutora ao mesmo tempo. Ela roubava pedaços do lanche de Sua, fazia comentários picantes no ouvido dela que a faziam estremecer e, toda vez que alguém passava e olhava demais, Mizi apertava a cintura de Sua com mais força.

— Você está bem? — Mizi perguntou baixinho, enquanto os outros discutiam sobre qual seria o tema da festa de formatura.

Sua olhou para Mizi. O sol refletia nos olhos dourados da garota, tornando-os quase transparentes. A melancolia de Sua ainda estava lá, em algum lugar profundo, mas agora parecia apenas uma nota de rodapé em uma história muito mais vibrante.

— Estou — respondeu Sua, encostando a cabeça no ombro de Mizi. — Eu só... eu nunca achei que seria assim.

— Assim como?

— Real. Eu passei tanto tempo sonhando com você que eu tinha medo de acordar e descobrir que você era só uma ideia.

Mizi pegou o queixo de Sua, levantando-o para que seus olhares se cruzassem.

— Eu não sou uma ideia, Sua. Eu sou de carne, osso e um monte de defeitos que o Ivan faz questão de listar todo dia. Mas eu sou sua. E eu não vou a lugar nenhum.

Mizi a beijou ali mesmo, na frente de todos, um beijo calmo e profundo que selou a promessa. Till desviou o olhar, resmungando um palavrão qualquer; Ivan fingiu que ia vomitar; Hyuna suspirou, achando tudo "muito estético"; e Luka continuou lendo seu livro, embora com um leve sorriso no rosto.

Naquela tarde, ao voltarem para a sala para as últimas aulas, Sua percebeu que a escola não parecia mais um lugar cinzento de onde ela queria escapar. Com a mão de Mizi entrelaçada na sua, o corredor parecia uma passarela, e os olhares dos outros não eram mais julgamentos, mas apenas ruído de fundo.

Mizi era o caos, a beleza e a coragem que Sua não tinha. E Sua era o silêncio, a profundidade e a verdade que Mizi tanto buscava. Elas eram o equilíbrio improvável do terceiro ano, uma dupla que ninguém esperava, mas que ninguém conseguia parar de olhar.

Ao final do dia, enquanto caminhavam juntas para fora do colégio, Mizi parou na mesma árvore onde tudo começara.

— Ei, poetisa — chamou Mizi.

— Sim?

— O que você vai escrever hoje no seu caderno?

Sua sorriu, apertando a mochila.

— Acho que não vou escrever nada hoje.

— Por que não?

— Porque a vida está interessante demais para eu perder tempo descrevendo ela. Eu prefiro viver.

Mizi riu, uma risada clara e tesuda, e puxou Sua para mais um beijo sob a sombra das árvores, enquanto o sol se punha, tingindo o céu de rosa e azul, as mesmas cores que agora definiam o mundo de Sua. A melancolia não havia sumido, mas agora ela tinha uma dona. E essa dona tinha o aroma de morango e o beijo mais doce do mundo.

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