Voltar ao resumo

Indesejada e amada

O Sacrifício do Éter e o Despertar dos Herdeiros Carmesim

O quarto de Rimuru não era mais um aposento real; era o epicentro de uma tempestade mágica que ameaçava rasgar o tecido da realidade. O cheiro de ozônio e sangue era tão espesso que Shuna precisava usar uma máscara de purificação para conseguir respirar. Rimuru, no centro de tudo, era uma visão de agonia pura. Suas mãos agarravam os lençóis com tanta força que o tecido de seda se desintegrava sob suas unhas.

— Continue respirando, Rimuru-sama! Por favor, não perca o foco! — Shuna gritava, sua voz competindo com o som das explosões de mana que emanavam do corpo do Slime.

O esforço era sobre-humano. A cada vez que Rimuru empurrava, o sangue jorrava de seu nariz com uma pressão alarmante, manchando seu rosto pálido e o peito de Guy, que o segurava por trás, servindo de apoio físico e espiritual. Guy estava em transe, seus olhos vermelho-sangue fixos no nada, enquanto ele forçava sua própria alma a se fundir com a de Rimuru para evitar que o núcleo do amado colapsasse.

— Eu não consigo... Shuna, dói... dói demais! — Rimuru gritou, um som gutural que não parecia vir dele.

— Você consegue! Eu já vejo a cabeça! — Shuna anunciou, suas mãos brilhando com uma luz verde intensa de cura.

Com um grito final que estremeceu as fundações do palácio, a primeira criança nasceu. No momento em que Shuna a segurou, o quarto foi inundado por uma aura de fogo carmesim. Era uma menina, pequena, mas com uma presença que faria Lordes Demônios menores se ajoelharem. Seus cabelos eram de um vermelho profundo, idênticos aos de Guy, mas o formato do rosto e a aura suave sob o fogo eram puramente Rimuru.

— É uma menina... Shizu — sussurrou Shuna, limpando a pequena com pressa e entregando-a a Shion, que chorava copiosamente.

No entanto, o alívio durou apenas um segundo. Rimuru não relaxou. Pelo contrário, seu corpo se arqueou novamente em uma convulsão violenta. Um grito ainda mais agudo escapou de seus lábios, e o sangramento nasal, que parecia ter diminuído, voltou com força total.

— O que está acontecendo?! — Guy rugiu, sentindo a energia de Rimuru despencar para níveis críticos. — Shizu já nasceu! Por que ele ainda está sofrendo?

Shuna empalideceu ao tocar o ventre de Rimuru novamente. Seus olhos se arregalaram em puro terror.

— Há outro... — ela sussurrou, a voz trêmula. — Há outra criança! E ela está presa! Ela está consumindo a força vital restante do mestre para tentar sair!

— Não... — Guy sentiu o mundo desabar. — Rimuru não aguenta mais nada. Shuna, pare isso! Salve o Rimuru! Deixe essa criança ir, eu não me importo, apenas não deixe ele morrer!

Rimuru, que parecia estar à beira da morte, abriu os olhos. O dourado estava nublado pelo sangue e pela exaustão, mas a fúria ainda estava lá. Com um movimento que ninguém esperava, ele levantou a mão trêmula e desferiu um tapa fraco, mas carregado de intenção, no rosto de Guy.

— Cale a boca... Guy... — Rimuru arquejou, o sangue escorrendo por seu queixo. — Não se atreva... a dizer isso...

— Rimuru, você está morrendo! — Guy implorou, as lágrimas escorrendo livremente. — Eu não posso viver sem você! Deixe esse segundo bebê...

— Nunca! — Rimuru reuniu cada resquício de mana, cada fibra de sua alma de Dragão Verdadeiro.

O segundo nascimento foi silencioso e aterrador. Não houve gritos, apenas um brilho ofuscante que forçou todos a fecharem os olhos. Yumeno nasceu drenando o último suspiro de energia consciente de Rimuru. O pequeno menino era a imagem cuspida de Guy, exceto por um detalhe místico: seus olhos possuíam duas cores, um vermelho primordial e um dourado líquido, representando a união perfeita de seus pais.

No momento em que Yumeno soltou seu primeiro choro, Rimuru desmoronou nos braços de Guy. Seu coração parou por três batidas agonizantes antes que a magia de Shuna e a essência de Guy o trouxessem de volta do abismo.

As semanas que se seguiram foram um borrão de incerteza. Rimuru permanecia em um estado de letargia profunda. Ele passava a maior parte do dia dormindo, acordando apenas por breves períodos de uma ou duas horas, onde mal conseguia manter os olhos abertos.

Guy, por sua vez, era uma sombra do orgulhoso Primordial de outrora. Ele não saía do lado da cama de Rimuru. No entanto, sua relação com os filhos era complicada. Ele os olhava com uma mistura de fascínio e ressentimento. Para Guy, aquelas duas pequenas criaturas eram os monstros que quase roubaram a luz de sua vida.

Certa tarde, Rimuru acordou com o som de um choro baixo. Ele abriu os olhos devagar, sentindo o corpo pesado como se fosse feito de chumbo. Guy estava sentado na poltrona ao lado, olhando para Yumeno, que estava em um berço flutuante, com uma expressão de puro tédio.

— Guy... — a voz de Rimuru era apenas um sopro.

Guy estava ao seu lado em um instante, pegando sua mão.

— Eu estou aqui, meu amor. Como você se sente?

— Cansado... — Rimuru tentou sorrir. — Traga-os aqui. Eu quero vê-los.

Guy hesitou. Sua possessividade ainda gritava que Rimuru precisava descansar e que os bebês eram uma distração perigosa.

— Rimuru, você ainda está muito fraca. Shuna disse que...

— Guy Crimson — Rimuru usou o pouco de autoridade que tinha —, traga meus filhos. Agora.

Suspirando, Guy fez um gesto. Diablo, que estava parado nas sombras como sempre, aproximou-se com Shizu nos braços, enquanto o próprio Guy pegou Yumeno com uma cautela que beirava o medo.

Diablo colocou a pequena Shizu cuidadosamente ao lado de Rimuru. O demônio de preto sorria de uma forma que raramente mostrava a outros; para ele, aquelas crianças eram extensões sagradas de seu mestre.

— Eles são lindos, Rimuru-sama — murmurou Diablo, inclinando a cabeça. — Shizu-sama já demonstra uma afinidade com a magia de fogo que é simplesmente divina.

Rimuru acariciou o rosto da filha com um dedo trêmulo. Shizu parou de chorar instantaneamente, agarrando o dedo do pai com uma força surpreendente.

— E este aqui — Guy disse, colocando Yumeno no outro lado de Rimuru —, é um pequeno terrorista. Ele tentou morder meu dedo hoje cedo. Ele mal tem dentes!

Rimuru riu baixinho, um som que aqueceu o coração de gelo de Guy.

— Ele tem o seu temperamento, Guy. E os seus olhos.

Yumeno olhou para Guy e depois para Rimuru. O bebê esticou os braços pequenos, mas não para o pai, e sim na direção de Diablo, que estava por perto.

— Parece que ele prefere o Diablo a você, Guy — provocou Rimuru, fechando os olhos por um momento para combater a tontura.

— É claro que prefere — resmungou Guy, cruzando os braços. — Diablo passa o dia todo mimando esses dois. E o Veldora... nem me fale. Ele tentou ensinar "golpes secretos de dragão" para a Shizu ontem. Eu quase o joguei para fora da janela dimensional.

— Eu gosto que eles se deem bem com todos — disse Rimuru. — Mas eu sei que você ainda está com ciúmes.

Guy bufou, sentando-se na beirada da cama e puxando a coberta sobre as pernas de Rimuru, garantindo que ele estivesse aquecido.

— Eu não estou com ciúmes de bebês, Rimuru. Isso seria ridículo. Eu sou o Lorde Demônio mais antigo e poderoso...

— Você está morrendo de ciúmes porque eu não posso te dar atenção exclusiva agora — Rimuru o interrompeu, abrindo um olho dourado e brilhando com uma diversão fraca.

Guy não respondeu de imediato. Ele olhou para Rimuru, depois para os dois bebês que agora dormiam tranquilamente nos braços do pai. A imagem era de uma perfeição que ele nunca imaginou ser possível para um ser como ele.

— Eu odeio que eles tenham te machucado — Guy confessou em voz baixa, sua mão descansando sobre a de Rimuru. — Toda vez que vejo você fraco assim, eu quero culpar o mundo inteiro. Inclusive eles.

— Eles são parte de nós, Guy. Eles são a prova de que até seres como nós podem criar algo puro. Tente amá-los... por mim?

Guy suspirou, inclinando-se para beijar a bochecha de Rimuru.

— Eu estou tentando. Mas se o Yumeno continuar me olhando como se quisesse roubar meu lugar à mesa, teremos problemas.

— Ele tem apenas semanas de vida, Guy! — Rimuru riu, mas logo sentiu a exaustão voltar. — Eu vou... dormir um pouco mais.

— Durma — disse Guy, sua aura protetora se expandindo para envolver Rimuru e as crianças em um casulo de segurança absoluta. — Eu estarei aqui quando você acordar.

Nos dias seguintes, a rotina em Tempest foi se estabilizando. Rimuru começou a conseguir ficar sentado por mais tempo, embora ainda precisasse de ajuda para quase tudo. A visão dele sentado na cama, segurando Shizu e Yumeno enquanto Diablo lia relatórios e Veldora contava histórias exageradas, tornou-se comum.

Guy, embora ainda fizesse comentários sarcásticos e fingisse indiferença, começou a ser pego em momentos de fraqueza. Shuna o viu uma noite ninando Shizu silenciosamente no corredor, e Souei relatou que Guy havia passado horas criando um brinquedo indestrutível feito de aço demoníaco para Yumeno.

A aceitação vinha aos poucos, temperada pela possessividade típica de Guy. Ele adorava implicar com as crianças quando Rimuru estava acordado, tentando roubar a atenção do parceiro.

— Rimuru, olhe para mim, não para o bebê — Guy dizia, bloqueando a visão de Rimuru com seu físico imponente. — Eu sou muito mais interessante do que uma criança que ainda não sabe falar.

— Guy, deixe de ser infantil — Rimuru respondia, embora sempre acabasse sorrindo e dando a Guy o beijo que ele tanto buscava.

A recuperação era lenta, e as cicatrizes físicas e mágicas daquela gravidez de alto risco permaneceriam por muito tempo. Mas, enquanto Rimuru olhava para sua família — o demônio possessivo que o amava obsessivamente e as duas pequenas vidas que quase lhe custaram tudo —, ele sabia que cada gota de sangue e cada momento de dor haviam valido a pena. Tempest tinha novos herdeiros, e Guy Crimson, contra todas as probabilidades, tinha finalmente encontrado algo mais importante do que seu próprio orgulho: o amor incondicional por sua pequena e caótica família.