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Indesejada e amada

O Toque da Herança e o Ciúme dos Primordiais

A luz suave do entardecer filtrava-se pelas janelas do palácio em Tempest, banhando o quarto real em tons de âmbar e ouro. O silêncio, que antes era carregado de tensão e medo, agora possuía uma cadência rítmica e pacífica. Rimuru estava sentado em uma poltrona larga, cercado por almofadas de seda. Embora seu rosto ainda conservasse uma palidez delicada e seus movimentos fossem lentos, o brilho dourado em seus olhos havia retornado, vibrante e cheio de vida.

Em seu colo, Shizu e Yumeno descansavam após uma tarde agitada de brincadeiras supervisionadas por um Veldora excessivamente entusiasmado. Rimuru passava os dedos pelos cabelos finos de Shizu, que herdara a sedosidade azul-prateada de sua forma original, enquanto Yumeno, com seus fios vermelhos espetados, resmungava em sonhos.

A porta se abriu sem ruído, e Guy Crimson entrou. Ele não usava sua capa pesada ou suas joias intimidadoras; estava apenas com uma túnica de seda preta entreaberta, revelando o físico que parecia esculpido pelos próprios deuses. Seus olhos vermelho-sangue fixaram-se imediatamente em Rimuru, suavizando-se de uma forma que ele só permitia que o Slime visse.

— Você deveria estar descansando na cama, Rimuru — disse Guy, aproximando-se com passos predatórios, mas silenciosos. — Shuna vai me decapitar se descobrir que deixei você sentado por tanto tempo.

Rimuru soltou uma risada baixa, sentindo o calor da presença de Guy preencher o ambiente.

— Shuna se preocupa demais, e você também. Eu me sinto bem hoje, Guy. Consigo sentir minha mana circulando novamente, mesmo que devagar.

Guy parou atrás da poltrona, inclinando-se para depositar um beijo possessivo no pescoço de Rimuru, inspirando o aroma de mel e magia que emanava de sua pele.

— Sinto falta de quando esse cheiro era apenas meu — murmurou Guy, lançando um olhar de soslaio para os bebês. — Agora ele está misturado com cheiro de leite e pó de talco mágico.

— Deixe de ser ranzinza — Rimuru brincou, inclinando a cabeça para trás para olhar para o namorado. — Você se apegou a eles tanto quanto eu. Não tente esconder isso de mim, Ciel me contou que você passou a madrugada vigiando o berço.

Guy estancou por um segundo, uma leve coloração carmesim subindo por suas maçãs do rosto, algo quase imperceptível para qualquer um que não fosse Rimuru.

— Eu estava apenas garantindo que o sistema de segurança dimensional não falhasse — mentiu ele descaradamente, contornando a poltrona para se sentar no tapete aos pés de Rimuru.

Nesse momento, Yumeno despertou. O pequeno abriu seus olhos heterocromáticos — um vermelho profundo como o de Guy e um dourado líquido como o de Rimuru — e fixou-os no pai. Com um movimento descoordenado e rápido, o bebê esticou a mãozinha e agarrou o dedo indicador de Guy, que estava apoiado no braço da poltrona.

Guy olhou para a mão pequena prendendo a sua com uma força surpreendente para um recém-nascido. Ele tentou puxar o dedo, mas Yumeno apertou com mais força, soltando um pequeno som de satisfação.

— Veja só — disse Rimuru, sorrindo. — Ele adora você.

— Ele adora me irritar, isso sim — retrucou Guy, embora não fizesse nenhum esforço real para se soltar. — Ele tem esse olhar... ele sabe exatamente o que está fazendo.

Era hora da amamentação. Rimuru, com a ajuda de Guy, ajeitou Shizu em um dos braços. Com um movimento natural, ele abriu a parte superior de seu vestido leve para que a pequena pudesse se alimentar. Guy observou a cena com uma intensidade que beirava a fome. Para o demônio primordial, ver Rimuru naquele estado de nutrição e entrega era uma tortura refinada de desejo e ciúme.

— Shizu é tão calma — comentou Rimuru, enquanto a bebê mamava tranquilamente. — Ela tem a sua força, mas a personalidade parece ser mais... equilibrada.

— Ela é uma lorde demônio em treinamento — Guy disse, estendendo a mão livre para acariciar a bochecha de Shizu. — Já sinto a manipulação de partículas nela.

No entanto, o equilíbrio durou pouco. Yumeno, percebendo que a atenção de Rimuru estava voltada para a irmã, começou a se agitar. Ele não chorava como um bebê comum; ele emitia pequenos rosnados de insatisfação que faziam as janelas do quarto vibrarem levemente.

— Calma, pequeno — disse Rimuru, tentando equilibrar os dois. — Já chega a sua vez.

Yumeno, porém, não queria apenas comida. Ele olhou para Guy, que estava inclinado sobre Rimuru, tentando roubar um beijo dos lábios do Slime enquanto este estava distraído. Antes que Guy pudesse alcançar seu objetivo, a mãozinha de Yumeno disparou novamente, agarrando não o dedo, mas o cabelo comprido de Guy e puxando-o com uma determinação feroz.

— Ai! — Guy exclamou, sendo puxado para baixo de forma indigna. — Seu pequeno monstro! Solte meu cabelo agora!

Rimuru começou a rir, uma risada clara que ecoou pelo quarto.

— Acho que ele não quer que você chegue perto de mim agora, Guy.

— Isso é ridículo! — Guy rosnou, tentando soltar os dedos minúsculos de Yumeno sem machucá-lo. — Eu sou o lorde desta casa, o governante do Reino do Gelo, o Demônio Vermelho! Eu não vou ser intimidado por alguém que usa fraldas!

Yumeno soltou o cabelo de Guy, mas apenas para agarrar seu dedo novamente e puxá-lo em direção à sua boca, mordiscando-o com as gengivas fortes. O bebê olhava fixamente para Guy, os olhos brilhando com uma inteligência precoce e uma pitada de travessura.

— Ele está fazendo isso de propósito — Guy afirmou, os olhos estreitados. — Ele vê como eu olho para você, Rimuru. Ele sente o meu desejo e decide que é o momento perfeito para intervir. É puro ciúme.

— Ele é seu filho, Guy — Rimuru lembrou-o, trocando Shizu de posição para que Yumeno pudesse finalmente mamar. — O que você esperava? Você é o ser mais possessivo que eu conheço. Ele herdou isso de você, junto com os cabelos vermelhos.

Guy observou Yumeno se acomodar no peito de Rimuru. O bebê mantinha uma mão firmemente agarrada ao dedo de Guy, como se estivesse marcando território, enquanto a outra mão repousava possessivamente sobre o peito de Rimuru. Yumeno lançou um olhar triunfante para Guy, quase como se estivesse desafiando o pai a tentar qualquer coisa.

— Ele está me desafiando — Guy murmurou, incrédulo. — Um recém-nascido está me desafiando pelo seu afeto.

— E ele está vencendo — Rimuru provocou, inclinando-se para frente para que Guy pudesse, finalmente, beijar sua testa. — Mas não se preocupe, há Rimuru suficiente para todos.

— Eu discordo — disse Guy, sua voz tornando-se subitamente séria e profunda. Ele envolveu a mão de Rimuru e a de Yumeno com a sua, criando uma união de três gerações de poder. — Eu nunca vou me acostumar a compartilhar você. Mas... se for com eles, acho que posso tolerar. Por enquanto.

Rimuru suspirou, fechando os olhos e encostando a cabeça no ombro de Guy. A fraqueza física ainda estava lá, uma lembrança constante do preço que pagara por aquelas vidas, mas o calor de Guy e a vitalidade dos bebês eram o melhor remédio.

— Sabe, Guy... — Rimuru começou, a voz ficando sonolenta. — Eu tive tanto medo de que você os odiasse. No começo, quando você queria interromper a gravidez... eu achei que nunca seríamos uma família de verdade.

Guy ficou em silêncio por um longo tempo, observando o peito de Rimuru subir e descer. A culpa era um sentimento estranho para um Primordial, mas ele a sentia toda vez que olhava para as marcas de exaustão no rosto de seu amado.

— Eu não os odiava por quem eles eram — disse Guy, sua voz rouca de emoção contida. — Eu os odiava pelo que estavam fazendo com você. Eu passaria a eternidade sozinho se isso significasse que você estaria seguro. Mas vê-los agora... ver como eles têm a sua determinação e o meu fogo... eu percebo que eles são a única coisa no mundo que vale o seu sacrifício.

Rimuru sorriu, sentindo as lágrimas arderem em seus olhos.

— Eles são perfeitos, não são?

— São pequenos tiranos — Guy corrigiu, embora houvesse um brilho de orgulho inegável em seus olhos enquanto Yumeno apertava seu dedo com força durante o sono. — Mas são os nossos pequenos tiranos.

A noite caiu sobre Tempest. Shuna entrou silenciosamente algum tempo depois para levar os bebês para o berço, mas parou à porta ao ver a cena. Rimuru havia adormecido na poltrona, e Guy estava sentado no chão, com a cabeça encostada no colo de Rimuru, protegendo a todos com sua aura. Shizu e Yumeno dormiam profundamente, finalmente em paz.

Shuna sorriu e fechou a porta devagar. O Rei de Tempest estava se recuperando, e o soberano do Reino de Gelo finalmente havia encontrado algo mais poderoso do que seu próprio ego: a doçura caótica da paternidade.

No entanto, no meio da noite, um pequeno resmungo foi ouvido. Yumeno abrira um dos olhos, olhando para o pai adormecido ao lado da poltrona. O bebê esticou a mãozinha, tocou o rosto de Guy e, com um pequeno sorriso travesso, puxou o nariz do demônio primordial.

Guy acordou de sobressalto, pronto para incinerar qualquer intruso, apenas para encontrar os olhos brilhantes de seu filho.

— Você realmente não desiste, não é? — sussurrou Guy, pegando o bebê no colo para não acordar Rimuru.

Yumeno apenas bocejou e se aninhou no peito largo de Guy, reconhecendo o calor e a força que o protegeriam para sempre. Guy suspirou, caminhando até a sacada com o filho nos braços, olhando para as estrelas sobre Tempest.

— Tudo bem, pequeno — murmurou Guy. — Eu admito. Você venceu esta rodada. Mas amanhã, Rimuru é meu por pelo menos uma hora.

O bebê não respondeu, já mergulhado em um sono profundo e seguro, enquanto o demônio mais poderoso do mundo aprendia que, às vezes, a maior força não reside na destruição, mas na pequena mão que segura seu dedo com confiança absoluta.