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Indesejada e amada

O Despertar dos Pequenos Tiranos e o Caos da Possessividade

Um ano havia se passado desde que o palácio de Tempest quase ruiu sob a pressão do nascimento dos herdeiros primordiais. O que antes era um cenário de silêncio e apreensão, agora era um campo de batalha diário onde a paciência de Rimuru era testada por dois seres minúsculos, porém imensamente poderosos. Rimuru estava completamente recuperado, sua pele brilhava com a vitalidade de um Dragão Verdadeiro e sua forma feminina havia se estabilizado em uma maturidade graciosa, embora as curvas que a maternidade lhe trouxera tivessem se tornado uma fonte constante de distração para Guy Crimson.

Naquela manhã, o salão principal de Tempest ecoava com risadas agudas e o som de passos rápidos e desajeitados. Yumeno, com seus cabelos vermelhos espetados e olhos heterocromáticos brilhando com uma inteligência travessa, corria pelo corredor. Ele não estava sozinho; atrás dele, flutuando com uma elegância sinistra, estava Diablo.

— Jovem mestre Yumeno, o alvo à direita parece estar tentando manter o contato visual por tempo demais — murmurou Diablo, com um sorriso que faria um exército tremer.

O pequeno Yumeno parou, cruzou os braços gordinhos e lançou um olhar tão gélido para um pobre guarda de passagem que o homem quase deixou cair sua lança. O bebê soltou um resmungo autoritário, apontando para o chão.

— Abaixo! — balbuciou Yumeno, sua voz infantil carregada de uma aura de comando que ele claramente herdara de Guy.

— Como desejar — disse Diablo, aumentando sua própria aura apenas o suficiente para fazer o guarda se ajoelhar em reverência imediata. — Excelente julgamento, jovem mestre.

Enquanto isso, em um canto mais calmo do jardim interno, a pequena Shizu estava sentada sobre uma pilha de almofadas. Ela era a imagem da serenidade, com seus cabelos azul-prateados presos em pequenas chiquinhas. Ao seu lado, Veldora estava deitado de bruços, segurando um livro de imagens de "Aventuras Sagradas" (um mangá que ele mesmo tentara ilustrar).

— Veja só, Shizu! — Veldora exclamava, apontando para um desenho de um dragão soltando fogo. — É assim que o seu tio faz! Kuahahaha!

Shizu batia palminhas, os olhos dourados fixos nos desenhos. No entanto, quando um grupo de servas passou por perto e começou a cochichar sobre como a princesa era "fofinha", a expressão de Shizu mudou instantaneamente. Ela não gritou, nem correu. Ela apenas virou o rosto lentamente e encarou as mulheres com um ódio tão puro e concentrado que o ar ao redor delas começou a congelar.

— Tio... — Shizu apontou para as servas, sua voz doce contrastando com a promessa de aniquilação em seus olhos.

— Oh? Elas estão incomodando sua leitura? — Veldora riu, levantando-se. — Sumam daqui, meras mortais! A princesa exige silêncio para seus estudos!

Rimuru observava tudo da varanda, soltando um suspiro longo e dramático.

— Guy, nós criamos monstros — disse Rimuru, virando-se para o namorado que estava encostado na mureta, observando a cena com um orgulho mal disfarçado. — O Yumeno está aprendendo táticas de intimidação com o Diablo e a Shizu está usando o Veldora como seu executor pessoal.

Guy soltou uma risada grave, aproximando-se de Rimuru e envolvendo sua cintura com os braços, puxando-o para perto.

— Eu não vejo problema nenhum nisso — murmurou Guy, enterrando o rosto no pescoço de Rimuru. — Eles são da realeza, Rimuru. Precisam saber quem manda. E, admita, o Yumeno tem um porte natural para o trono.

— Ele tem um ano de idade, Guy! — Rimuru protestou, embora estivesse sorrindo enquanto se inclinava contra o peito largo do demônio. — E você os mima demais. Ontem eu vi você dando um colar de diamantes de grau lendário para a Shizu porque ela "olhou bonito" para um corvo.

— Era um corvo irritante — justificou Guy, beijando a orelha de Rimuru. — E pedras preciosas combinam com os olhos dela. Além disso, eu posso pagar.

Rimuru virou-se nos braços de Guy, passando as mãos pelos ombros dele.

— Você é um pai terrível para a disciplina, mas um namorado excelente para o meu ego.

— Eu tento equilibrar as coisas — Guy sorriu, seus olhos brilhando com aquele desejo possessivo que nunca diminuía. — Agora que as crianças estão ocupadas com seus... tutores... o que acha de irmos para o quarto? Sinto falta de ter você só para mim por mais de cinco minutos.

Rimuru deu uma risadinha travessa, passando os dedos pelo decote da própria túnica, que hoje era propositalmente mais baixo.

— Ah, é? E o que você faria se eu dissesse que estou muito cansada para...

— Papai! — O grito veio de baixo, interrompendo o momento.

Yumeno havia surgido do nada, escalando as vinhas da varanda com uma agilidade assustadora para sua idade. Ele saltou para o parapeito e, antes que Guy pudesse reagir, o bebê se jogou entre os dois, empurrando a mão de Guy para longe do quadril de Rimuru.

— Meu! — Yumeno declarou, agarrando-se à perna de Rimuru e olhando para Guy com um desafio feroz nos olhos heterocromáticos.

— De novo não — Guy rosnou, cruzando os braços. — Yumeno, eu já te disse. Ele é meu parceiro. Eu cheguei primeiro, há séculos.

Yumeno apenas mostrou a língua para Guy e subiu no colo de Rimuru, aninhando-se contra seu peito e lançando um olhar de triunfo para o pai.

Logo atrás, Shizu apareceu, trazida pelas asas de Veldora. Ela desceu e caminhou até Rimuru, puxando a barra de seu vestido.

— Mama... — Shizu pediu, os braços estendidos.

Rimuru, rindo da cara de frustração de Guy, pegou a menina também. Agora, ele estava com os dois bebês no colo, e Guy estava parado a um metro de distância, parecendo o ser mais injustiçado do universo.

— Viu só? — provocou Rimuru. — Eles sentem o seu ciúme de longe.

— Isso é um complô — Guy declarou. — Eles se organizam. Eu tenho certeza de que eles têm um plano de turnos para garantir que eu nunca fique sozinho com você.

— Não seja bobo — disse Rimuru, sentando-se em um divã próximo. — É hora da amamentação de qualquer maneira. Eles estão com fome.

Guy suspirou e sentou-se ao lado deles. Ele sabia o que viria a seguir. Durante a amamentação, a possessividade das crianças atingia níveis lendários.

Rimuru ajeitou Shizu e Yumeno. No momento em que ele começou a desabotoar a parte superior do vestido para amamentar, Guy tentou se inclinar para ajudar ou apenas para ficar perto. Instantaneamente, Yumeno esticou a mão livre e agarrou o cabelo de Guy com força, enquanto Shizu, com a outra mão, segurava firmemente o dedo indicador do pai, puxando-o para longe do corpo de Rimuru.

— Ai! Yumeno, solte! — Guy reclamou, mas não se moveu bruscamente para não assustá-los.

As duas crianças começaram a mamar, mas mantinham Guy "preso" em suas posições. Shizu prendia o dedo de Guy contra o divã, e Yumeno continuava usando o cabelo do pai como uma rédea. Eles olhavam para Guy com uma seriedade cômica, como se estivessem estabelecendo uma fronteira.

— Eles permitem que você fique — observou Rimuru, observando a cena com ternura e diversão —, mas apenas como um acessório de segurança. Você não pode tocar, Guy. Só pode ser segurado.

— Eu sou o demônio mais poderoso do mundo e estou sendo usado como um brinquedo de morder e uma corda de puxar — Guy resmungou, embora sua expressão fosse suave enquanto ele olhava para os filhos.

— Admita, você adora isso — Rimuru disse, inclinando-se para beijar a bochecha de Guy, o que resultou em um resmungo imediato de Yumeno, que apertou o cabelo de Guy ainda mais forte.

— Eles são possessivos demais com você — disse Guy, conseguindo finalmente soltar um pouco do cabelo das mãos do filho. — Veja só como eles tentam tapar você.

Era verdade. Sempre que o decote de Rimuru ficava um pouco mais exposto durante o processo, as mãozinhas de Shizu e Yumeno tentavam puxar o tecido de volta ou simplesmente cobriam a pele de Rimuru com suas mãos gordinhas. Eles soltavam pequenos sons de desaprovação se alguém — inclusive Guy — olhasse por tempo demais.

— Já é chato dividir com o papai — Rimuru traduziu o resmungo de Yumeno, rindo. — Eles acham que eu pertenço só a eles.

— Eles estão errados — Guy disse, sua voz tornando-se subitamente baixa e carregada. Ele inclinou-se, ignorando os protestos silenciosos dos bebês, e sussurrou no ouvido de Rimuru: — Quando eles dormirem, eu vou lembrar a você, e a eles, quem realmente possui o seu coração.

Rimuru sentiu um arrepio percorrer sua espinha e sorriu, provocando o namorado.

— Boa sorte com isso, Lorde Guy. Da última vez que você tentou me levar para o quarto, a Shizu congelou a maçaneta da porta e o Yumeno convocou o Diablo para fazer um relatório de três horas sobre a produção de farinha em Tempest bem na nossa porta.

Guy bufou, mas acabou sorrindo. Ele estendeu a mão e, com uma delicadeza extrema, acariciou as cabeças dos dois filhos enquanto eles terminavam de mamar. A possessividade deles era um reflexo da sua própria, e no fundo, ele não poderia estar mais orgulhoso.

— Eles são a sua cara, Rimuru — Guy admitiu. — Têm essa capacidade de dobrar o mundo inteiro às suas vontades sem precisar levantar uma espada.

— E têm o seu fogo — Rimuru completou, vendo Yumeno finalmente soltar o cabelo de Guy para bocejar, revelando pequenas presas que já começavam a nascer. — Eles vão ser o terror deste mundo, Guy.

— O mundo que se prepare — Guy disse, pegando Yumeno no colo enquanto Rimuru ficava com Shizu. — Porque enquanto eles tiverem a nós, ninguém vai ousar dizer "não" a eles.

Rimuru levantou-se, ajeitando seu vestido, mas antes que pudesse cobrir o decote completamente, as quatro mãozinhas dos bebês saltaram simultaneamente para fechar o tecido, resmungando em uníssono.

— Viu? — Rimuru riu, olhando para Guy. — Nem um centímetro de pele para você hoje, papai.

Guy revirou os olhos, mas puxou Rimuru para um abraço coletivo, beijando a testa de cada um de seus três tesouros. O caos em Tempest estava apenas começando, e ele não trocaria aquela possessividade barulhenta por toda a paz da eternidade.

— Veremos sobre isso à noite, Rimuru — Guy prometeu com um sorriso predatório. — Veremos sobre isso.

Rimuru apenas piscou para ele, caminhando em direção ao jardim com as crianças, sabendo que, embora fosse o Rei de uma nação, naquele palácio, ele era o centro de um universo governado por três demônios muito, muito ciumentos. E ele não queria que fosse de outra forma.