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Inesperado

Entre o Consultório e o Gramado

A rotina de Gabi no Rio de Janeiro estava ganhando cores que ela não previu em seus relatórios de especialização. O consultório de psicologia infantil, localizado em um prédio comercial charmoso no Jardim Botânico, era o seu porto seguro, um lugar de silêncio, giz de cera e brinquedos terapêuticos. Mas, desde a noite no Maracanã e o café da manhã com morangos na tigela de "Pitbull", o silêncio de sua sala de atendimento era frequentemente interrompido pelo brilho das notificações em seu celular.

Erick era constante. Não de uma forma invasiva, mas de um jeito protetor e presente. Ele enviava fotos dos treinos, perguntava como tinha sido a sessão com aquele "paciente difícil" que ela mencionara e, às vezes, apenas enviava um emoji de coração quando sabia que ela estava em um dia corrido.

— Você está com aquela cara, Gabi — disse Paloma, entrando na sala da amiga sem bater, segurando dois copos de café gelado.

— Que cara, Paloma? — Gabi tentou disfarçar, fechando rapidamente a aba do navegador onde lia uma notícia sobre a provável escalação do Flamengo para o próximo jogo.

— Cara de quem está sendo "marcada individualmente" por um certo chileno — Paloma riu, entregando o café. — As meninas não param de falar no grupo. A Bárbara está se sentindo a própria cupida do Olimpo. Ela diz que o Arrascaeta nunca viu o Erick tão... leve.

Gabi suspirou, aceitando a bebida e encostando-se em sua poltrona.

— É estranho, sabe? Eu passei anos lidando com realidades tão cruas, em lugares onde o futebol era apenas uma bola de pano chutada por pés descalços. De repente, estou envolvida com um homem que é um ídolo nacional. Mas quando estamos sozinhos, nada disso importa. Ele é só o Erick.

— Isso é porque você não o trata como o "Pulgar" — analisou Paloma, sentando-se à frente dela. — Você deu uma coleira para ele, Gabi. Você quebrou o pedestal dele no primeiro minuto. Isso vicia qualquer um que vive sendo bajulado.

O assunto foi interrompido pelo toque do celular de Gabi. Não era uma mensagem, era uma ligação de vídeo. O nome "Erick" brilhou na tela.

— Atende! — sussurrou Paloma, gesticulando freneticamente. — Eu já estou saindo.

Gabi riu e deslizou o dedo pela tela. A imagem de Erick apareceu. Ele estava no Ninho do Urubu, ainda com o uniforme de treino, o rosto suado e o cabelo bagunçado. Ao fundo, era possível ouvir risadas e o som de chuteiras batendo no piso.

— Olá, doutora — disse ele, abrindo um sorriso que fez o estômago de Gabi dar voltas. — Atrapalho a análise?

— Nunca atrapalha, Erick. Acabei de liberar um paciente — ela respondeu, sentindo-se subitamente mais leve. — Você parece cansado. O treino foi pesado?

— O "Sampa" não dá trégua — ele bufou, referindo-se ao treinador com um sotaque carregado. — Mas liguei porque tenho um convite. Amanhã teremos um jantar de confraternização da equipe com as famílias. Nada de imprensa, nada de barulho. Só nós. A Bárbara vai, o Giorgian também. Você viria comigo?

Gabi hesitou por um segundo. Jantar de equipe. Famílias. Isso significava entrar oficialmente no círculo dele.

— Erick... eu não entendo nada de futebol. Vou passar a noite perguntando por que eles não usam as mãos — brincou ela.

— É exatamente por isso que eu quero que você vá — ele disse, o olhar ficando sério e doce através da câmera. — Eu quero ter alguém do meu lado que me pergunte sobre a vida, não sobre o esquema tático. E, se alguém te irritar, você pode dizer que tem uma coleira guardada para eles.

Gabi soltou uma gargalhada.

— Tudo bem, eu aceito. Mas você me deve um sorvete depois.

— Combinado. Passo para te pegar às oito.

No dia seguinte, o nervosismo de Gabi era evidente. Ela escolheu um vestido de seda verde-esmeralda, simples, mas que realçava seus olhos. Quando Erick chegou, ele ficou mudo por alguns segundos antes de dizer:

— Se o jogo fosse hoje, eu seria expulso. Não conseguiria tirar os olhos de você para olhar a bola.

O jantar acontecia em uma churrascaria reservada na Barra da Tijuca. Assim que entraram, Gabi sentiu o peso dos olhares. Os jogadores do Flamengo eram figuras imponentes, e suas esposas e namoradas pareciam saídas de capas de revista.

— Relaxa — sussurrou Erick, sua mão firme na base das costas dela.

Bárbara correu ao encontro deles assim que os viu.

— Gabi! Que bom que você veio! — Ela abraçou a amiga e depois olhou para Erick. — Cuidado, Pulgar. Se você não cuidar bem dela, eu te denuncio para a diretoria.

Erick riu e cumprimentou Arrascaeta com um aperto de mão e um abraço. A mesa era longa e a conversa era animada. Gabi se viu sentada entre Erick e a esposa de um dos zagueiros do time. Para sua surpresa, a conversa não era apenas sobre futebol. Elas falaram sobre filhos, sobre os desafios de mudar de cidade constantemente e sobre a vida no Rio.

No entanto, o momento "Gabi" da noite não tardou a chegar.

Em certo ponto, um dos jogadores mais jovens, querendo enturmar a nova acompanhante de Pulgar, perguntou:

— E aí, Gabi? O que achou do gol do Erick contra o Vasco? Aquele chute de fora da área foi brincadeira, né?

A mesa ficou em silêncio por um segundo. Erick olhou para Gabi com um sorriso de canto, já prevendo o que viria.

— Para ser bem sincera... — Gabi começou, limpando o canto da boca com o guardanapo — ...eu estava olhando para as arquibancadas naquele momento. Tinha uma criança com um cartaz escrito "Pulgar, me dá sua camisa", e eu fiquei tentando entender a caligrafia do menino. Quando olhei para o campo, todo mundo estava gritando. Eu só bati palma porque o Erick estava correndo e parecia feliz.

A mesa explodiu em gargalhadas. Erick cobriu o rosto com a mão, rindo tanto que os ombros tremiam.

— Viu? — disse ele para o colega. — É por isso que ela é a minha favorita. Ela me mantém humilde.

— Gabi, você é um ícone! — exclamou um dos atacantes. — O cara faz um golaço de trivela e você está preocupada com a caligrafia do cartaz!

A partir dali, o clima ficou ainda mais descontraído. Gabi percebeu que, por trás dos salários astronômicos e da fama, aqueles homens eram apenas jovens vivendo sob uma pressão absurda. E Erick, no meio de todos eles, era o pilar. Ele não falava muito, mas quando falava, todos ouviam.

No final da noite, enquanto caminhavam para o carro, o ar fresco da noite trazia o cheiro do mar.

— Eu sobrevivi? — perguntou Gabi, entrelaçando seus dedos nos dele.

— Você não só sobreviveu como conquistou o vestiário — disse Erick, parando-a antes que ela entrasse no carro. — Eles não param de comentar como você é... diferente.

— Diferente é o código para "a maluca que não sabe o que é um impedimento"?

— Diferente é o código para "a mulher que faz o Erick sorrir como um idiota" — ele corrigiu, aproximando seu rosto do dela.

Ele a beijou sob a luz suave do poste de luz. Era um beijo que carregava uma promessa de algo duradouro. Gabi sentia que o Rio de Janeiro, depois de tantos anos fora, finalmente parecia o lugar onde ela deveria estar.

— Erick — ela chamou, quando eles já estavam no carro. — Eu andei pensando. Meu consultório atende muitas crianças em situação de vulnerabilidade. Eu queria organizar um dia de atividades esportivas e lúdicas para elas.

Erick nem a deixou terminar.

— Eu vou. E posso levar alguns materiais. Chuteiras, bolas, o que você precisar.

— Eu ia pedir só um autógrafo seu, mas se você quiser ir... as crianças iam surtar.

— Eu quero ver você trabalhando, Gabi. Quero ver a psicóloga em ação — ele disse, com uma admiração genuína. — Você cuida da mente delas, e eu ensino a chutar a bola. O que acha?

— Acho que é o melhor esquema tático que eu já ouvi — ela sorriu.

Algumas semanas depois, o evento aconteceu em uma quadra comunitária próxima ao consultório. Gabi estava em seu elemento, usando tênis, jeans e uma camiseta da clínica, organizando as crianças em círculos. Erick chegou de forma discreta, mas foi impossível passar despercebido. Ele não estava lá como a estrela do Flamengo; estava lá como o voluntário de Gabi.

Ele passou a tarde inteira no chão com as crianças, ensinando passes básicos, rindo quando levava um drible dos pequenos e distribuindo abraços. Gabi o observava de longe enquanto conversava com uma mãe sobre o progresso de um tratamento.

— Ele é seu namorado, doutora? — perguntou o pequeno Lucas, um menino de sete anos que sofria de ansiedade severa.

Gabi olhou para Erick, que estava naquele momento tentando equilibrar uma bola no nariz para fazer as crianças rirem.

— Ele é um grande amigo, Lucas. Por quê?

— Porque ele olha para você do mesmo jeito que meu pai olha para minha mãe quando ela faz bolo de chocolate — disse o menino com a sabedoria que só as crianças têm. — Ele olha com fome de carinho.

Gabi sentiu o coração apertar. Ela nunca tinha ouvido uma definição tão perfeita.

Ao final do dia, exaustos e sujos de poeira da quadra, eles se sentaram na arquibancada de cimento enquanto as famílias iam embora.

— Você foi incrível hoje, Erick — disse ela, entregando uma garrafa de água para ele. — Obrigado por fazer isso.

— Eu que agradeço — ele respondeu, limpando o suor da testa. — Ver o rosto daquelas crianças... faz os problemas do clube parecerem minúsculos. Você faz um trabalho sagrado, Gabi.

— É apenas amor, Erick.

Ele se virou para ela, o olhar profundo e concentrado.

— Então temos algo em comum. Porque o que eu sinto quando estou com você... também é amor.

O silêncio caiu sobre a quadra vazia. Gabi sentiu o tempo parar. Não era o "Pitbull" falando. Não era o jogador famoso. Era o homem que ela tinha conhecido através de um presente de pet shop.

— Eu também sinto, Erick — ela sussurrou. — Mesmo que eu ainda não saiba a diferença entre um escanteio e um tiro de meta.

Erick riu e a puxou para um abraço, o cheiro de sol e esforço físico sendo a melhor fragrância do mundo para ela naquele momento.

— Não se preocupe — ele disse, beijando sua têmpora. — Eu te ensino as regras do jogo. E você continua me ensinando as regras do coração.

A história que começou com uma tigela personalizada e uma confusão engraçada estava se transformando em algo sólido e real. No grande campo da vida, Gabi e Erick tinham acabado de marcar o gol mais importante de suas vidas. E, para aquele gol, não houve necessidade de VAR, juiz ou torcida. Apenas o silêncio cúmplice de dois mundos que, contra todas as expectativas, decidiram jogar no mesmo time.

Enquanto caminhavam para fora da quadra, de mãos dadas, Erick parou por um segundo e olhou para ela com um brilho travesso.

— Só uma coisa, Gabi.

— O quê?

— Na próxima vez que você comprar petiscos... compra de chocolate para mim, tá? Eu prometo que sento e dou a pata se você pedir.

Gabi soltou uma gargalhada que ecoou pela rua vazia.

— Pode deixar, Pitbull. Pode deixar.

E assim, entre risos e promessas, eles seguiram em frente, prontos para qualquer prorrogação que a vida decidisse lhes dar.